.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Ano V - fevereiro de 2005 - nº 54 

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Porque é preciso viver ou Feliz Ano Novo
Por Sandra Kezen

Um começo de ano é sempre um bom momento para refletir – sobre o que fizemos, sobre o que não fizemos, sobre o que aconteceu em nossas vidas etc. O que passou, passou, mas o futuro pode ser modificado. É com essa mentalidade que devemos começar o ano: querendo mudar, querendo melhorar. Não me refiro àquelas listas - as famosas “Resoluções de Ano Novo”, que ingleses e americanos fazem no primeiro dia do ano e depois guardam na gaveta, esquecendo-se de cumprir o que prometeram a si mesmos.

Falo de uma outra mudança: a mudança interior, essa, mais difícil e mais complicada que as “resoluções”, porque não se resume apenas a promessas de fazer dietas ou exercícios físicos, parar de fumar, estudar mais, trabalhar menos, dar mais atenção aos idosos etc, etc, etc. Não: refiro-me a mudanças que acontecem dentro de nós e que só nós podemos determinar quando devemos e podemos fazê-las. Só nós sabemos a hora certa para essa faxina interior.

Mas quem sabe um empurrãozinho ajuda? Vamos aproveitar que essa é a hora. A gente sempre faz mesmo uma faxina nas nossas coisas todo final ou todo início de ano. Limpamos as estantes para fazer espaço para os novos livros e cadernos, damos o que não precisamos mais a quem necessita e não pode comprar, verificamos que roupas não nos servem mais e as passamos adiante etc.

Mas esse ano eu proponho que limpemos nossas almas e nossos corações: de ressentimentos há tanto guardados em algum cantinho escondido que só nós sabemos onde é – e principalmente por que ele ainda existe; de ódios armazenados e tão empoeirados que turvam nossa visão para a vida e dos quais muitas vezes nem mais sabemos a razão; de rancores pelo que alguém poderia ter feito por nós; de favores não atendidos; de inveja pelo que poderíamos ter e não temos; de raiva pelo que poderíamos ter feito; de amores não correspondidos; de sorrisos não retornados; de rejeições tantas pela vida afora... 

Quem vive sabe do que estou falando: vivemos a vida inteira nos cobrando e somos realmente nossos piores juízes: incomplacentes; rigorosíssimos, muitas vezes cruéis. Por que razão?

Sim, dirão alguns, porque a vida é cruel. Mas exatamente por isso – porque a vida é assim – é que não devemos imitá-la. Mas se não a imitarmos, como poderemos estar preparados para os problemas – dirão eles?

Acredito que algumas pessoas acham que devemos ficar treinando para enfrentar os obstáculos a fim de sabermos resolvê-los na hora em que aparecerem? Penso diferente: acho que devemos treinar para sermos felizes. Problemas, ah, eles virão, com certeza. E saberemos solucioná-los, ou tentaremos, da melhor maneira possível. De preferência com a ajuda de família e amigos. Viver já é tão complicado e tão difícil que não há necessidade de complicarmos mais. Não precisamos ficar nos armando, pelo contrário: precisamos nos desarmar para viver a vida. Porque precisamos viver. Hoje, agora, já. 

Por isso, que tal a gente pôr no papel esses sentimentos ruins e fazer uma fogueira – simbólica ou real - com eles, para que não nos incomodem mais, para que não nos impeçam de viver plenamente?

Ninguém gosta de pessoas que vivem remoendo o passado, lamentando-se por tudo o que passaram - ou não. É hora de varrer o passado para fora de nossas vidas, assim com varremos o lixo para fora de nossas casas. Passado só deve ser revivido quando é bom. Se não esqueça, caso contrário não se vive o presente. Porque a vida é agora e precisa ser vivida. Sempre há que se ter esperança de dias melhores. Acho que a gente tem que assumir este presente e agarrar a vida com toda a força, mesmo sem saber para onde ela nos leva. Olhando de frente a gente vê melhor. Certo?

Ano Novo é momento de decisão: ou a gente vive o agora ou a gente vive o agora. A decisão é essa, não há outra. O momento é esse, a vontade é essa.

Porque é preciso viver.

Feliz Ano Novo a todos.

 

 

 

Sandra Kezen é professora e coordenadora do Laboratório de Línguas da Faculdade de Direito de Campos e da Faculdade de Odontologia de Campos.
sandrakezen@fdc.br



 

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