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Um
começo de ano é sempre um bom momento para refletir –
sobre o que fizemos, sobre o que não fizemos, sobre o
que aconteceu em nossas vidas etc. O que passou, passou,
mas o futuro pode ser modificado. É com essa mentalidade
que devemos começar o ano: querendo mudar, querendo
melhorar. Não me refiro àquelas listas - as famosas
“Resoluções de Ano Novo”, que ingleses e americanos
fazem no primeiro dia do ano e depois guardam na gaveta,
esquecendo-se de cumprir o que prometeram a si mesmos.
Falo de
uma outra mudança: a mudança interior, essa, mais
difícil e mais complicada que as “resoluções”, porque
não se resume apenas a promessas de fazer dietas ou
exercícios físicos, parar de fumar, estudar mais,
trabalhar menos, dar mais atenção aos idosos etc, etc,
etc. Não: refiro-me a mudanças que acontecem dentro de
nós e que só nós podemos determinar quando devemos e
podemos fazê-las. Só nós sabemos a hora certa para essa
faxina interior.
Mas
quem sabe um empurrãozinho ajuda? Vamos aproveitar que
essa é a hora. A gente sempre faz mesmo uma faxina nas
nossas coisas todo final ou todo início de ano. Limpamos
as estantes para fazer espaço para os novos livros e
cadernos, damos o que não precisamos mais a quem
necessita e não pode comprar, verificamos que roupas não
nos servem mais e as passamos adiante etc.
Mas
esse ano eu proponho que limpemos nossas almas e nossos
corações: de ressentimentos há tanto guardados em algum
cantinho escondido que só nós sabemos onde é – e
principalmente por que ele ainda existe; de ódios
armazenados e tão empoeirados que turvam nossa visão
para a vida e dos quais muitas vezes nem mais sabemos a
razão; de rancores pelo que alguém poderia ter feito por
nós; de favores não atendidos; de inveja pelo que
poderíamos ter e não temos; de raiva pelo que poderíamos
ter feito; de amores não correspondidos; de sorrisos não
retornados; de rejeições tantas pela vida afora...
Quem
vive sabe do que estou falando: vivemos a vida inteira
nos cobrando e somos realmente nossos piores juízes:
incomplacentes; rigorosíssimos, muitas vezes cruéis. Por
que razão?
Sim,
dirão alguns, porque a vida é cruel. Mas exatamente por
isso – porque a vida é assim – é que não devemos
imitá-la. Mas se não a imitarmos, como poderemos estar
preparados para os problemas – dirão eles?
Acredito que algumas pessoas acham que devemos ficar
treinando para enfrentar os obstáculos a fim de sabermos
resolvê-los na hora em que aparecerem? Penso diferente:
acho que devemos treinar para sermos felizes. Problemas,
ah, eles virão, com certeza. E saberemos solucioná-los,
ou tentaremos, da melhor maneira possível. De
preferência com a ajuda de família e amigos. Viver já é
tão complicado e tão difícil que não há necessidade de
complicarmos mais. Não precisamos ficar nos armando,
pelo contrário: precisamos nos desarmar para viver a
vida. Porque precisamos viver. Hoje, agora, já.
Por
isso, que tal a gente pôr no papel esses sentimentos
ruins e fazer uma fogueira – simbólica ou real - com
eles, para que não nos incomodem mais, para que não nos
impeçam de viver plenamente?
Ninguém
gosta de pessoas que vivem remoendo o passado,
lamentando-se por tudo o que passaram - ou não. É hora
de varrer o passado para fora de nossas vidas, assim com
varremos o lixo para fora de nossas casas. Passado só
deve ser revivido quando é bom. Se não esqueça, caso
contrário não se vive o presente. Porque a vida é agora
e precisa ser vivida. Sempre há que se ter esperança de
dias melhores. Acho que a gente tem que assumir este
presente e agarrar a vida com toda a força, mesmo sem
saber para onde ela nos leva. Olhando de frente a gente
vê melhor. Certo?
Ano
Novo é momento de decisão: ou a gente vive o agora ou a
gente vive o agora. A decisão é essa, não há outra. O
momento é esse, a vontade é essa.
Porque
é preciso viver.
Feliz
Ano Novo a todos. |