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Nas discussões atuais
sobre leitura, inteligência e dificuldades de
aprendizagem, os estudiosos levantam a tese das
múltiplas inteligências que envolvem o processo
ensino-aprendizagem. O entendimento é o de que não se
deve mais falar de QI (Quociente de Inteligência) e sim
de diferentes inteligências, interesses e aptidões dos
alunos.
Sem levar a questão para
os extremos, diríamos que o Quociente de Inteligência é
um parâmetro importante para avaliação diagnóstica dos
alunos para que o professor, em outro momento, explore
suas "múltiplas inteligências".
No passado, é verdade, o
QI estava associado a rótulos (aluno inteligente,
retardado etc); hoje, os conceitos concebidos a partir
de uma psicologia clínica foram, do ponto legal (Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional), alterados para
uma visão psicopedagógica: se estamos diante de crianças
com dificuldades de aprendizagem, por questões orgânicas
ou não, diríamos que estamos também diante de educandos
com necessidades educacionais especiais.
Defendemos o QI para a
definição segura de um diagnóstico pedagógico em que
nós, educadores, excluímos outros fatores etiológicos
(privação cultural, déficit visual ou auditivo etc) que
podem estar afetando a matemática, leitura, escrita ou
ortografia. O currículo por competências e habilidades
não descarta a avaliação (ou, pelo menos, não deveria)
do quociente de inteligência, que, como sabemos, é um
consciente de cognição, do que o aluno é capaz, do que
ele tem a oferecer, do que ele é capaz de aprender
enquanto sujeito do processo ensino-aprendizagem.
Outro ponto a ser
considerado no conjunto de dificuldades de aprendizagem,
particularmente no campo da lectoescrita, diz respeito a
fatores como afetivo, timidez e bloqueios emocionais
dos alunos. Estes, no mundo escolar, na maioria das
vezes, não são causas do fracasso escolar, mas efeitos
de um modelo pedagógico deficitário e fracassado.
Nos modelos atuais de
pedagogia escolar, quem não tem desempenho satisfatório
em sala de aula tende a se retrair, a se acanhar, a se
bloquear emocionalmente. Ninguém nasce tímido,
bloqueado, em se tratando de educação; a escola -
podemos ter essa certeza - é muito responsável pela
interdição do corpo e das emoção das crianças. No
entanto, não é uma regra. Existem situações, como a que
descrevemos, abaixo, cuja timidez é um fator inibidor,
realmente, do processo ensino-aprendizagem.
Para ilustrar o que nós colamos acima sobre as
dificuldades de aprendizagem no período escolar,
conteremos dois fatos vivenciados nos processos de
aquisição da leitura. Eis o primeiro caso a relatar.
Em uma escola privada,
havia uma aluna na alfabetização que chegou ao mês de
novembro do corrente ano letivo sem conseguir ler nada.
A mãe e a própria professores se deram por desiludidas e
quando a diretora da escola as chamou para uma reunião,
a mãe, em especial, atendeu a convocação na certeza de
que filha seria reprovada.
Para sua surpresa, a
diretora pediu a mãe da aluna um tempo extra ao período
escolar e fez a avaliação dela como um criança
plenamente alfabetizada, afirmando gostar - frisou a
bem diretora - de trabalhar com ela, sozinha, sem a
presença de outra pessoa, dos colegas e da professora.
A técnica utilizada pela
diretora alfabetizadora-interventora foi a seguinte: deu
de presente à aluna um baú de madeira e disse-lhe que
ali estavam os segredos que a mesma vinha guardando só
pra si e, como ela – a diretora - estava lhe dando de
presente o baú, gostaria que aluna dividisse todos eles
com a diretora. Surpresa! Quando a aluna abriu o baú de
lá saíram todas as palavras, sentenças e frases
trabalhadas na "Cartilha da ANA e do Zé (de autoria de
duas cearenses, as professoras Rosa Catarina e da Luísa
Teodoro) e o que ela jamais havia lido pra ninguém,
agora dominava todas. O problema da aluna era na verdade
uma profunda timidez.
Segundo relato da mãe,
hoje, a aluna é muito boa em tudo que se relaciona com
leitura e escrita; devora livros e revistas, escreve
com perfeição. Mas a Matemática é o seu grande calo,
eternamente "se arrastando".
O outro caso: uma aluna
não aprendera a ler no período normal, na alfabetização,
e não conseguira, doutra sorte, escrever coisa nenhuma
num espaço menor que 20 cm. No processo de escrita, não
eram letras que fazia, e sim, algo entre símbolos
pré-históricos e essas pichações do séc. XXI.
Relata-nos que odiava tanto a classe de alfabetização
que não conseguia lembrar de nada relacionado com ela
(Cartilha do Fernando, Benedito e Silvinha), embora
tenha muitas e variadas lembranças do Jardim I.
Aprendeu a ler em casa com um tio que morava com seus
pais, que só tinha cursado até a quarta série, usando um
livro chamado "O Jacarezinho Egoísta".
Fazendo o recorte para os
nossos dias, é um absurdo que na alfabetização (vale
salientar que, hoje, a própria LDB não reconhece mais as
chamadas classes de alfabetização) a escola pense em
avaliação para promoção, isto é, de alguém, não
ingressar no ensino fundamental (1ª série) se for
"reprovada" na alfabetização. No primeiro ciclo do
Ensino Fundamental (1ª a 4ª série) é lugar para
aquisição e desenvolvimento da lectoescrita.
A idéia do baú, de
decantar a alfabetização como lúdico, desvelar o
mistério das letras, é realmente interessante para as
crianças (e adultos). Em qualquer época, abrirmos o
nosso “baú”, para fazermos descobertas do surpreendente
e daquilo que adormece em nossa alma e que, somente,
por essa via do imaginário, nos leva a aprender bem,
uma vez que nós fazemos uma espécie de reflexão de si
mesmos: quem aprender a descobrir os “mistérios da
vida”, aprenderá também a desvelar o reino da
linguagem. Não é um mistério saboroso dá som às letras
na escrita alfabética?
Nos anos de experiência em sala de aula,
leva-nos a acreditar mais que a leitura é algo inerente
à capacidade humana, como é o fazer de ninhos para os
pássaros e a construção de teias pelas aranhas. Se isso
pode transparecer uma inclinação ao inatismo, não nos
parece de todo descartável. Quem duvidará do fracasso de
aprendizagem das habilidades cognitivas se pegarmos uma
criança recém-nascida e a colocarmos fora da
civilização, veremos que a única leitura que realmente
fará é a do mundo, à guisa da tese paulofreiriana. A
leitura só pede ser efetivamente aprendida no lar ou na
escola.
A leitura é uma
habilidade adquirida na interação com o outro, com o
meio. Daí, falarmos em aprendizado da leitura. O mesmo
não diríamos da escrita, posto que nós nascemos com a
disposição de escrever, de rabiscar e isso podemos ver
em criança na mais tenra idade. Quem primeiro veio ao
mundo da civilização? A leitura ou a escrita? Com
certeza, a escrita: a escrita cuneiforme surgiu, com os
sumérios, há 5.300 anos a.C. Do pictograma à
alfabetização, foi um longo percurso. Não mais de 100
anos atrás não se falava tanto de leitura como o
fazemos hoje: muitos povos eram analfabetos. Depois, a
leitura - seu aprendizado - passou a ser um direito de
cidadania, de alfabetização.
Concordamos, por isso, com a hipótese de
muitos educadores sobre o acesso ao código escrito: ler
é só uma questão de estalo. Pra uns vem logo, pra outros
pode demorar um pouco mais. Realmente, ler tem a ver com
essa idéia de estalo (o insigt, como diriam os
psicólogos). Cremos que o maior responsável pelo estalo
é o alfabetizador: se bem formado, é capaz de prever o
momento de estalo do aluno, do seu soletrar, do seu
converter letras em fonemas (sons da fala). Muitas
professoras, na escola, dizem, em agosto, assim, para
os pais: mamãezinha, lá pra novembro, fique tranqüila,
seu filho começa a ler. Automatizada a conversão
letra-fonema, a criança lê (decodifica).
O
segundo estalo, mais importante, compreender o que lê,
muitas vezes não é assegurado na educação básica. A
escola tem se mostrado incompetente na tarefa de ensinar
a estalar pela segunda vez para levar à criança à
contemplação do reino da leitura.
Vicente Martins é professor da Universidade Estadual
Vale do Acaraú (UVA), de Sobral, Ceará.
Fátima Rodrigues, cearense, graduada e pós-graduada em
Letras pela UFC. Atua no magistério da rede estadual e
municipal de ensino em Fortaleza. |
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