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Quando
Cunhataí
era
criança,
ouvia os
espíritos
da
mata,
ela
via
a
mãe
das
águas.
Os
sonhos
eram o
seu
direcionamento.
Sua
clarividência
era
ancestral.
Cunhataí
tinha
o
poder
da
cura.
Onde
colocava as
mãos,
o
bem
se fazia.
Sua
mãe,
insatisfeita
com
as
invasões
dos
estrangeiros,
tomou
erva
má,
para
que
a
semente
que
ouvia o
espírito
da
mata,
morresse. A
erva
fez
muito
mal
à
pequena
Cunhataí;
não
a matou, tirou
um
pedaço
dela... A
mãe
desesperançada
com
sua
aldeia,
não
queria
mais
as
coisas
do
espírito,
negava a
terra
e a
raiz.
Ela
queria o
suicídio.
Mas
a avó da
menina
era
mais
guerreira.
A
mãe
ficou
cega
e
muda.
Tempos
depois
a
mãe
renasceu da
mudez
e da
cegueira
por
uma
prova
divina
e se tornou
pajé,
sacerdotisa das
águas.
E a
triste
avó, cansada das
dores,
do
peso
do
tempo
e do
sacrifício,
morreu.
Mas
sua
essência
permaneceu. O
homem
branco,
naquela
época
ria
e incutia
maus
valores
em
alguns
membros
do
povo...
A
semente
ferida
e mutilada nasceu
triste
e
com
uma
estrela
no
olho
direito.
Era
Cunhataí. Foi o
lado
direito
que
quase
morreu.
Só
ficou
roxo
como
uma
marca,
um
sinal
e... Sobreviveu
para
ouvir
os
espíritos,
os
antepassados
e as velhas
mulheres
enrugadas
pelos
séculos.
Sobreviveu
para
compreender
o
significado
das
três
velhas, cujas
seis
mãos
se transformam
em
cobras.
O
velho
espírito
disse a Cunhataí: Vai ave-menina e
mulher!
Cria
asas
e enxergue,
um
dia,
quem
sabe, seremos
livres!
Ela
foi
pra
longe
sofrer.
Por
isso
quando
ela
retornou à
sua
aldeia
de
origem,
o
cacique,
a
pajé
e os
segmentos
do
povo
a reconheceram,
porque
ela
já
era
esperada
por
decisão
dos
ancestrais,
há
muitos
séculos.
O
seu
olho
direito
roxo_
o
espiritual_
foi identificado
pelos
líderes
conectados
com
a ancestralidade e
pelo
pitiguary, o
pássaro
que
ANUNCIA. Os
que
não
reconheceram estão
muito
além,
mas
muito
além
de
qualquer
tipo
de
compreensão
do
que
seja
essência,
transcendência
indígena.
Estavam
cegos,
por
isso
traíam
seus
próprios
conterrâneos
e incentivavam a
discórdia,
a
inveja,
a
mentira,
a
intriga,
a
luta
pelo
poder
e desconheciam o
verdadeiro
sentimento
de
paz,
solidariedade,
amor
ao
próximo,
companheirismo
e
cooperação,
por
isso
muitas meninas sofriam. Foram contaminados
pelo
poder
dos neocolonizadores.
Só
vislumbravam o
materialismo,
por
isso
não
podiam
perceber
os
sinais
dos
deuses,
dos
ancestrais,
do
Grande
Espírito_
a
Poderosa
Força
Cósmica_ existente
dentro
de todas as boas
almas.
Mas
Cunhataí,
em
toda
a
sua
vida
seguiu o
boto
e as
ordenações
de
seus
sagrados
ancestrais.
Muitas
mulheres
indígenas
que
ouviram a
história
de Cunhataí, desenvolveram
um
útero
sadio,
porque
entendiam
que
a cosmovisão
indígena
estava
sagradamente
vinculada a Mãe-Terra. E começaram a
trabalhar
e a
lutar
para
melhorar
as
condições
de
vida
do
povo.
Ninguém
mais
se suicidou,
porque
o
amor
e o
respeito
prevaleciam nas
famílias,
entre
o
homem
e a
mulher.
A
palavra
fome
nunca
mais
se ouviu naquele
povo,
quando
também
os
homens
perceberam o
mal
que
haviam adquirido.
Cunhataí deixou a
mensagem
para
que
todos
os
homens
e todas
mulheres
prestassem
bem
a
atenção
nos
seus
sonhos
e deles fizessem
seus
caminhos
a
partir
do
respeito
pelos
velhos
e velhas e
pelos
ancestrais
e pelas boas
relações
de
igualdade
e
respeito
entre
homens
e
mulheres!
Texto
de ELIANE
POTIGUARA
do
livro
"METADE
CARA,
METADE
MÁSCARA"
Global
Editora
http://www.elianepotiguara.org.br
http://www.fotolog.terra.com.br/elianepotiguara |
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