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Um fim de tarde, não em Itapuã, mas na igualmente baiana
Costa do Sauípe.
Diante de mim, um mar que não tem tamanho sem arco-íris
no ar, pois era noite respingada de luar. Fechei os
olhos para enxergar melhor o vento farfalhando as folhas
dos coqueiros, salva de palmas que concorria com o
ribombar das ondas. No dia seguinte eu falaria de
estratégia em vendas a um grupo de empresários. Agora eu
não falava, só ouvia.
Logo o jantar seria servido no regaço dos coqueiros, à
luz de tochas despenteadas pela brisa. Que, promovida a
vento, começava a desnudar as pernas das mesas
elegantemente vestidas em toalhas de um branco selênico.
Garçonetes à baiana rodavam os últimos detalhes,
enquanto o branco de suas rendas fugia com a lua num
turbante de nuvens. Podia chover.
Trezentos comensais de prato na mão ouviram as primeiras
gotas, que não eram de saliva, tinindo a louça. A chuva
chegou com um furor maior que meu suco gástrico,
calibrado para afogar os peixes da travessa aonde
arremessara meu anzol mental. Trezentos atletas
improvisados dispararam em busca de novo prêmio: um
abrigo.
Assim são as circunstâncias nos negócios. Como a chuva,
não escolhem nem hora nem lugar. Circunstâncias são
coisas que não podemos mudar. Imersos nelas, navegamos
ao sabor de suas ondas, levados pelo capricho de seus
ventos. Marinheiros sabem que não há como evitá-las,
pertencem ao mar, são cúmplices por natureza. Mesmo
assim navegam, pois não podem parar.
Na manhã seguinte, participamos de uma dinâmica de
grupo, anotamos numa folha de papel os três principais
culpados por nossos fracassos e caminhamos pelo salão.
Cada um devia ler os culpados que o outro trazia no
peito, só para descobrir que eram iguais aos seus. Se
nem todos estavam num mesmo
barco, navegavam num mesmo mar. Sujeitos às mesmas
chuvas, impossíveis de deter ou mudar.
Política econômica, trabalhista, cambial e o escambal.
Os culpados de cada um eram as circunstâncias visíveis,
presumíveis, mas imprevisíveis. Para alguns era o
concorrente, que podia ser o peito bem à sua frente.
Outros culpavam Sadam, Bush e o aquecimento global por
seu fracasso local. O culpado de cada um estava no
peito, mas não era seu o defeito. Será que culpar as
circunstâncias é comum nos negócios? Meu trabalho de
consultor parece mostrar que sim.
Se ainda não percebeu, consultor é aquele que cobra para
aprender com o cliente. Depois, cobra para criticar e
insultar, apontando as falhas de seu negócio. É quando é
chamado de "insultor". Finalmente, cobra para dar
conselhos, contrariando o dito popular – "se conselho
fosse bom ninguém dava, vendia". Cobra, cobra, cobra,
três vezes! Diferente do médico, cujos símbolos,
Esculápio e Caduceu, trazem a cobra só uma ou duas
vezes, enroladas num bastão. Talvez por cobrar um ou
dois terços do que cobra um consultor.
Mas quando o consultor é bom, às vezes é preciso pagar
para ver a empresa lucrar. Geralmente descubro que o
problema está mais dentro do peito do que apenas colado
numa folha terceirizando a culpa. Experimente
entrevistar empresários, clientes e funcionários de uma
mesma empresa e descobrirá mundos distintos. Mundos que
mais parecem os mundos paralelos da ficção científica,
nunca se encontram, mas sempre interferem. É quando as
forças ocultas levam a culpa.
Empresa má de gestão é a que não toma um "mea culpa" de
meia em meia hora.
Abriga-se numa trincheira tão ampla quanto seu umbigo e
passa a culpar as circunstâncias. Foi isto que falei ao
abrir minha palestra. Diante de olhares atônitos, louvei
a chuva, que lavou o jantar da noite anterior, como um
dos pontos altos do evento. Ninguém parecia acreditar
que eu falava sério. Nem a diretora do evento.
Antes que viessem trovoadas, expliquei que a chuva
servira de trampolim para uma gestão que não leva em
conta as circunstâncias adversas. Mantém a peteca no ar.
Ninguém precisou se resignar a um lanche de bolachas ou
a uma sopa fria de salvados do naufrágio. Não. Antes que
a chuva parasse, um novo e abrigado jantar estava
servido. Um drible nas circunstâncias. Exemplo da boa
gestão, que ao invés de reclamar do inevitável, age, se
refaz, e encontra uma solução. Apesar das
circunstâncias. |
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