.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Ano V - março de 2005 - nº 55 

 
  Principal
 Agenda
 Colunistas
 Cultura
 Crônicas
 Econotas
 Editorial
 Educação
 Em Questão
 Em Rhede
 Entrevistas
 Humor
 Política e Cidadania
 Reportagens
 Notícias
 Outras edições
 Poesia e Contos
 Reflexão
 Expediente
 Sócio Ambiental
 Terceira Idade
 Turismo
   Participe
 Cartas
 Blog
 Fale Conosco
   Especiais
 Igrejas
 Meio Ambiente
 SP 450 anos
 Assédio Moral
.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 Colunistas

Reforma do Ensino Superior
Por Adilson Luiz Gonçalves

A proposta de reforma universitária, colocada em discussão pelo Governo Federal - antes mesmo da LDB assentar sua poeira - tem aspectos positivos e negativos. Um deles me parece especialmente negativo: o estabelecimento de uma cota de vagas nas universidades públicas, para alunos oriundos de escolas mantidas pelos governos.

Antes de prosseguir, esclareço que provenho de uma família operária, numerosa, trabalho desde os quinze anos, e estudei em escolas públicas até o, hoje, ensino médio. A diferença é que, na época, os alunos prestavam exame de admissão para ingressar nas com procura superior à oferta de vagas.

A brutal queda de qualidade do ensino público, a partir do início dos anos 1970, obrigou a classe média a buscar o ensino particular de qualidade ou apelar para os "cursinhos pré-vestibulares" como forma de acessar as universidades públicas, que mantiveram seus padrões de excelência.

A prolongada crise econômica culminou, nos anos 1990, com a reversão desse processo migratório, com a classe média matriculando seus filhos em escolas públicas, não pela melhoria da qualidade do ensino prestado pelo estado, mas por falta de condições financeiras para mantê-los nas escolas particulares.

À deterioração do sistema público de ensino veio se somar o clamor dos que se consideravam socialmente excluídos. A primeira resposta do governo foi o estabelecimento de bolsas de estudo reembolsáveis, que permitiam ao aluno financiar seus estudos em escolas particulares. Depois vieram as cotas para afrodescendentes, índios e deficientes físicos. Mais recentemente, veio a implementação do PROUNI. Agora, vem a proposta de reserva de 50% das vagas de universidades públicas para alunos egressos de escolas públicas...

É inegável que a proposta de cotas tem forte apelo popular, mas possibilita interpretações pejorativas, além de dar margem para manobras e subterfúgios!

Qualquer que seja o argumento apresentado para esse sistema, o sentimento é de que o problema continua a ser atacado de forma inadequada. A pergunta a ser feita é: Porquê um aluno de escola pública - de qualquer raça, condição social ou física - tem dificuldade para ser aprovado em vestibulares concorridos, como os das universidades públicas?

Supondo – e, apenas, supondo - que o ensino fundamental e médio ministrado pelo governo seja deficiente, mas, pelo regime de cotas, o aluno consiga uma vaga: Será que a universidade vai corrigir, num passe de mágica, essa defasagem? As discrepâncias serão contornadas mediante um sistema de progressão continuada, para não prejudicar o cumprimento dos planos de ensino? Ou eles serão simplesmente, reprovados, caso não consigam acompanhar a transição abrupta? Além disso, como fica o financiamento do material escolar, moradia, transporte, alimentação etc?

Se o governo quer, realmente, universalizar o acesso ao ensino superior estatal, porque não cria, em vez de cotas, cursos preparatórios públicos para vestibulares - utilizando a estrutura existente - destinados aos alunos com melhor desempenho acadêmico? Ou abre linhas de financiamento para que a preparação deles seja feita em "cursinhos" particulares? Afinal, a intenção é, apenas, assegurar vagas ou melhorar o desempenho acadêmico?

O fato é que o sistema de cotas, da maneira como vai, expõe um fracasso assumido do sistema de ensino básico público, pois em vez de garantir formação de qualidade, oferece compensações extra-acadêmicas para a falta dela! Parece que, mais uma vez – a exemplo dos governos anteriores -, estão tentando resolver um problema de base no final do processo!

O que deve ser feito é promover condições para que o aluno da rede pública esteja apto e motivado, por seus próprios méritos, para obter sua vaga! 

 

 

Adilson Luiz Gonçalves é engenheiro, professor universitário, articulista e poeta.
algbr@ig.com.br



 

© copyright Revista P@rtes 2000-2005
Editor: Gilberto da Silva (Mtb 16.278)
São Paulo - Brasil