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RESUMO
Este artigo toma como referência a ação dialógica do
professor contemporâneo de escolas públicas na construção da
identidade dos sujeitos. A inquietação básica é a
articulação do aluno-professor como proposta de construção
do conhecimento que prioriza o diálogo como elemento
primordial ao desenvolvimento das práticas pedagógicas e
construção de identidade que se efetivam em sala de aula,
possibilitando por meio da ação dialógica a formação de
sujeitos reflexivos e atuantes no mundo globalizado.
A segunda parte do artigo buscou narrar de que forma os
professores de escolas públicas realizam suas práticas
levando-se em consideração a ação dialógica do aluno e
professor. Para tanto foi realizada pesquisa empírica
exploratória em duas unidades de ensino com os sujeitos da
ação (educador- educando). Os depoimentos colhidos nesses
estabelecimentos, analisados a luz das teorias, indica que a
produção do conhecimento em sua plenitude só se dará se cada
vez mais professores e alunos se conscientizem que essa
produção só se efetiva em sua plenitude na relação
dialógica.
Palavras- chave : Educação – Ação Dialógica –
Construção de Identidade.
1. A Ação dialógica nos batuques do Pelourinho
Em
1985 o Pelourinho era
palco
de tráfico de
drogas
e prostituição.
Sua
geografia correspondia a becos
e vielas onde
os moradores se amontoavam nos
pequenos
e grandes
cortiços que
lá existiam. Na mesma
área era exercido
um
poder paralelo. As
pessoas
sobreviviam a fome e ao
desprezo social,
cultural econômico e
ideológico. Os profissionais
da época sentiam-se resistentes e ficavam
receosos
de atuar em
uma “área
de risco”. Será
que
as minorias
excludentes
do país oferecem
risco? Durante
quatro
anos esse foi o
palco
no qual este
pesquisador
viveu e conviveu. Nesse palco
foi percebido que a
formação
docente do pesquisador
se deslocaria do pensamento à
ação,
pois a reflexão do pensar,
aliada ao fazer, o possibilitaria
incorporar as análises dos
saberes
fundamentais. Não há
como
negar que nesse
momento
a (in) certeza das
possibilidades e dos limites
iam se concretizando. Mas,
logo
na segunda semana
de exercício, num
dia de Bênção, as terças
feiras,
que os parênteses e o
prefixo do vocábulo ficaram
menos
evidente. As atividades
docentes eram realizadas todas as terças,
quartas
e quintas feira
e para
felicidade deste pesquisador
às terças-feiras a duração da
aula
se dava de 18h30 às 19h10, pois acontecia e
até
hoje sobrevive a maior
manifestação cultural e religiosa
do estado “A
Festa da
Bênção”. Essa festa é
um
acontecimento plural,
motivador, concebido a partir das
semelhanças
e diferenças. É
múltiplo
e por ser
múltiplo
escapa ante a
qualquer
tentativa de ser reduzido. Vale
ressaltar a partir dessas
considerações
o olhar de Williams(1998: 37)
sobre
cultura:
A organização social da cultura, como um sistema de
significações realizados, está embutido em uma série
completa de articulações, relações e instituições, das quais
apenas são manifestadamente culturais. Pelo menos nas
sociedades modernas, esta é uma utilização teórica mais
eficiente do que o sentido de cultura como o de uma vida
global. Esse sentido, oriundo originalmente da antropologia,
tem o grande mérito de salientar um sistema geral -
sistema específico e organizado de suas práticas,
significados e valores desempenhados e estimulados. Ele é
um princípio potente contra os hábitos de estudos isolados,
historicamente desenvolvidos dentro da ordem social
capitalista.
A primeira vista, pode-se afirmar que não há como desprezar
uma manifestação que ocorre todas as terças feiras em um
espaço único onde há colégios, teatros, Casa de Jorge Amado
e espaços para lazer.
Neste momento de batuques, os próprios ressoavam com grande
nitidez e apontavam para grandes momentos de êxtase. Seus
batuques eram traduzidos no pensamento deste pesquisador,
como a ação dialógica que se completava e que se
harmonizava entre os participantes deste evento semanal.
Alunos e professores compartilhavam e bebiam na mesma taça
desse vinho, falavam a mesma linguagem e todos, davam formas
diversas aos sons que eclodiam do Grupo Olodum.
Sendo assim, não há como desprezar a sabedoria de Freire
(2000) de “quem forma se forma e reforma ao formar e quem
é formado forma-se e forma ao ser formado”.
Nesta manifestação os sentidos iam se estabelecendo de um
para outro e de outro para outro. As trocas, sobretudo, as
que vinham dos batuques eram decodificadas ao olhar e
traduzidas pelas danças. É o olhar recortando o todo, dando
luz, dando sentido ao que se tinha lido e estudado. Era
teoria em ação, em comunhão.
Assim cumpre definir que este artigo “a ação dialógica do
docente” tem por base a construção de identidade do
educando, pois resulta dos diversos saberes, das diversas
práticas do professor e do aluno.
2. A ação dialógica como produtora de significados
Para explicitar este artigo, a reflexão foi organizada sobre
dois eixos norteadores; a ação dialógica do docente e a
construção de identidade.
Para tanto, foi necessário redefinir o que é ação dialógica
e identidade.
·
Ação dialógica: a ação dialógica é um elemento
constitutivo da linguagem e da consciência ideológica. Sua
ênfase está na importância da linguagem como fenômeno
sócioideológico e apreendida dialogicamente no curso da
história.
Nesse sentido compreender a ação dialógica como uma
instância produtora de linguagem e, portanto, formadora de
subjetividade, requer considerar o ser humano como um todo
inacabado que se constitui de suas relações sociais.
Decorre, então, a importância do “outro” na formação
subjetiva do ser humano. Um exemplo fiel desta pesquisa são
os batuques do Pelourinho na ação dialógica. São nesses sons
que se busca a totalidade perdida que a linguagem emerge e
através dos contrasons, ou ainda contraritmos, é que novos
códigos surgirão à partir de um novo meio interativo.
Com isso, pretende-se demonstrar a relevância das interações
ocorridas na escola e no cotidiano, estes adolescentes estão
internalizando palavras de outros, tornando-os também parte
integrante do eu, enfim, se constituindo enquanto sujeitos e
da melhor forma possível. Bakhtin (1997:130), por exemplo,
em seu esforço para definir os aspectos da linguagem na sua
subjetividade afirma:
Vivencio a vida interior do outro enquanto alma, ao passo
que em mim mesmo vivo no espírito. A alma é a imagem vivida
que globaliza tudo o que foi efetivamente vivido, tudo o que
faz a atualidade da alma no tempo, ao passo que o espírito
globaliza todos os significados de sentidos, todos os
enfoques existenciais, os atos que fazem sair de si mesmo.
De fato, essa questão permite uma série de reflexões sobre a
ação dialógica e a constituição do outro. É a experiência de
construção de si mesmo com o outro, o que implica no
estabelecimento de um diálogo que em última instância faz
com que o eu se veja na imagem que constrói do outro.
Diante dos argumentos apresentados anteriormente a ação
dialógica tem a ver com a sintonia, com os sons e com as
palavras. A sala de aula é lugar de voz.
·
Identidade: Numa abordagem antropológica, a
identidade é uma construção que se faz com atributos
culturais, isto é, ela se caracteriza pelo conjunto de
elementos culturais adquiridos pelo indivíduo através da
herança cultural. A identidade confere diferenças aos grupos
humanos. Ela se evidencia em termos da consciência da
diferença e do contraste com o outro.
Em uma sala de aula ou outro espaço fora desse contexto
escolar atores são chamados a falar, a se colocar, a romper
o silenciamento que trazem consigo. Falam e discutem sobre
os problemas que vivem e enfrentam no cotidiano, junto com
seus vizinhos e moradores. Falam e conversam. Trocam
experiências, idéias, alegrias, derrotas, vitórias, contam
estórias, mobilizam-se e organizam-se para tarefas comuns.
Esse falar, leva ao domínio da fala, a descoberta do poder
falar e esse poder falar parece significar poder. Poder de
expor-se, confrontar-se e confrontar, transformar e ser
transformado. Influenciar e ser influenciado. Tomar decisões
e exercer decisões. De silenciado e em silenciamento, parece
viver um processo de provável dessilenciamento em que a
verbalização e os gestos que a acompanham indicariam uma
ruptura de uma silenciosa opressão. Seria a constituição de
um ser de poder, por que se descobre com o poder de falar,
dizer, se expressar. A palavra, o falar, o dizer não só
estariam indicando a constituição de um sujeito
dessilenciante, mas também estaria indicando a descoberta do
falar igual aos tambores do Pelourinho, descoberta do falar
enquanto poder: poder é o mesmo que o grito dos afoxés; do
poder enquanto falar, falar é resignificar os sons dos
afoxés, e com isso sujeitos políticos. Sujeitos em seus
reencontros, políticos enquanto cidadãos.
Sendo assim, é apropriado resgatar um exemplo que é dado por
Rodrigues (2001:20):
É este reencontro que recoloca os indivíduos no seu grupo,
na sua classe, nas suas relações sociais e os capacita à
reconstrução da experiência e do mundo, não mais segundo os
ditames de verdades exteriores a ele, mas a partir das
verdades que ele é capaz de descobrir segundo sua nova visão
e segundo um novo sentido de mundo.
Em Arroyo (1999: 19) se busca apoio, quando trata do sujeito
enquanto agente transformador da sociedade, ao enunciar:
(...) a concepção do povo e de sua ação como sujeito
político exige uma revisão profunda na relação tradicional
entre educação, cidadania e participação política. Para
equacionar devidamente o peso da educação na cidadania
teremos que prestar atenção aos processos reais de
constituição e de formação do povo como sujeito político,
que processos são estes e como se dão.
Calazans (2001: 36) também reflete sobre a questão dos
sujeitos e seus diversos espaços como formação de
identidade. Ela diz assim:
Habituados a viver nos deparando com um sistema educacional
organizado, no qual somos integrados desde cedo, tendemos a
pensar a aprendizagem apenas como conseqüência da educação.
Entretanto desde sempre, olhando os céus, seguindo o curso
dos rios, compartilhando o calor das fogueiras, o homem
aprendeu com as coisas. Antes de haver ‘transmissão de
conhecimentos’- e portanto aprendizagem do conhecimento
pronto- o homem depende de um outro aprender , decorrente de
um intercâmbio com o mundo e com as pessoas em ambiente
social, através do qual ‘descobre’ coisas, por meios
práticos, por reflexão, por experimentação- e até por acaso.
Ao discutir o conceito de identidade, Hall (2001:59) explica
que:
(...) não importa quão diferentes seus membros possam ser em
termos de classe, gênero ou raça, uma cultura nacional
busca unificá-los numa identidade cultural, para
representá-los todos como pertencendo à mesma e grande
família nacional.
Diante dos argumentos apresentados pode-se afirmar que
quando se trata de sujeitos e construção de identidade,
numa perspectiva de ação dialógica é necessário provocar um
retroceder no tempo histórico. Para que nesse retroceder o
leitor possa se perceber, segundo as condições históricas de
cada época, as pessoas se formam respondendo as questões de
seu tempo de um determinado modo e de acordo com as
vivências de seu grupo cultural. Assim, é necessário
comparar as respostas dadas por outros povos, em outros
tempos, com as respostas que são dadas em nosso tempo,
encontrando o sentido e a história de nossas próprias
respostas.
Não há como produzir conhecimento sem contextualização
histórica, social, política e cultural. O repertório de cada
indivíduo e sociedade está preso ao contexto vivido. O
sujeito não se forma e reforma alienado de seu ambiente
social, da mesma forma que ele é influenciado por seu tempo
histórico, social e cultural, ele (indivíduo) marca a
sociedade em que vive. Nesse processo a linguagem é elemento
diferenciador e diferenciado de cada tempo histórico
construído a partir da trajetória das diferentes sociedades
sempre marcada pelas práticas e ações do indivíduo e da
coletividade.
Nesta direção é importante destacar: (MARX 1975: 66) :
A história não faz nada, nada possui grandes riquezas, não
liberta nem ao menos uma só de suas lutas; quem faz tudo
isso, quem possui e luta é o próprio homem, o homem real, o
homem vivente. Não é a história quem usa o homem como
ferramenta para atingir uma meta, como a história fosse um
ser à parte, a história é senão a ação do homem na
perseguição de seus objetivos.
Mais do que em qualquer tempo, há a consciência que o ser é
histórico, por isso, imersos nas experiências anteriores,
nos conhecimentos, vivências, culturas, acertos, erros,
encontros e desencontros acumulados ao longo do cotidiano e
de várias gerações.
Por exemplo, a resposta ao que é belo/beleza é dada de
diferentes maneiras. Depende da posição ideológica que o
indivíduo ou grupo tem no momento. Em algumas culturas e
épocas a beleza é concebida utilizando-se de critérios e
padrões diferenciados e de cultura para cultura alguns
desses critérios chegam até mesmo apresentar padrões
antagônicos para expressar o belo. Isto também acontece com
os olhares relativos a constituição do sujeito e suas
ideologias. Não basta que seja visto somente pelo olhar
individual e pessoal, nem somente pelos olhos dos outros.
Para de fato ser enxergado e compreendido é fundamental
aprender a desenvolver uma visão ampla e completa que
comporte os pontos de vista individual e coletivo.
Nesse sentido resgate-se também as palavras de MARQUES
(2003: 25)
(...) a ideologia do cotidiano está, pois, implicada na
relação que o indivíduo mantém com seus grupos, pela
orientação social que recebe e que exerce sobre eles.
Portanto, ela aborda o indivíduo de fora para dentro. É a
partir da vivência social e dos discursos que recebe, que o
indivíduo busca seu próprio discurso como referencial.
De fato esta questão permite uma série de reflexões sobre as
relações não autoritárias, o estabelecimento do diálogo
entre os interlocutores. Alguns autores fizeram reflexões e
caracterizações importantes sobre a ação dialógica, abaixo
são destacadas, além da contribuição de Marques, mais duas
contribuições.
A primeira é expressa por Gutierrez quando diz que existem
algumas possibilidades quando o pensamento se apóia numa
relação dialógica: os interlocutores falam e escutam, levam
em consideração todas as informações, conhecimentos e
experiências do grupo em que esta interlocução está
ocorrendo e este diálogo faz com que ocorra um maior
envolvimento entre todas as pessoas e o assunto em pauta.
A segunda é aquela que é apontada por Freire (2000: 92)
quando registra que:
o diálogo é o encontro entre os homens, mediatizados pelo
mundo, para designá-lo. Se ao dizer suas palavras, ao chamar
ao mundo, os homens os transformam, o diálogo impõem-se
como o caminho pela qual os homens encontram seu significado
enquanto homens; o diálogo é, pois, uma necessidade
existencial. E já que o diálogo é o encontro no qual a
reflexão e a ação, inseparáveis daqueles que dialogam,
orientam-se para o mundo que é preciso transformar e
humanizar, este diálogo não pode reduzir-se a depositar
idéias em outros. Não pode também converter-se num simples
intercâmbio de idéias... Não é também uma discussão hostil,
polêmica entre os homens que não estão comprometidos nem ao
chamar ao mundo pelo seu nome , nem na procura da verdade,
mas na imposição de sua própria verdade.
Portanto, para se estabelecer diálogo entre os
interlocutores é necessário perceber que não existem
verdades absolutas, é preciso uma atitude voltada para a
busca do novo, para a escuta, para o transladar-se, para o
ponto de vista do outro, transitando pela opinião e
redimensionando posições.
3. AS DIVERSAS POSSIBILIDADES DA CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE
O exercício de pensar filosoficamente e historicamente o
cotidiano dá-se a partir das problematizações temáticas: o
educador torna-se alguém que exercita a arte de perguntar,
de instigar o educando a pensar nas respostas e de
colocar-se diante de novos problemas.
Abaixo, transcreve-se um exemplo de Lipman (1977: 48)
mostrando como ele trabalhou em sala de aula, a partir da
historicidade e da filosofia, o diálogo e sua construção com
um grupo de alunos:
Perguntei as crianças se suas carteiras têm história, se sua
escola tem história, se seu país tem uma história e se o
mundo tem uma história. Responderam que sim a cada pergunta,
com certa minúcia.(Depois arrependi-me de não lhes haver
perguntado se a história do mundo era a história deles ou a
história de sua história). Concluí o exercício
perguntando-lhes se, eles também, tinham histórias. Com
isso, concordaram entusiasmados. No final da sessão, para
minha surpresa e satisfação, diversos deles se dirigiram a
mim para perguntar se eu queria que escrevessem suas
próprias histórias, de modo que pudessem dá-las para mim.
A perspectiva assumida nesta investigação é que, através do
diálogo, se avalia as diversas possibilidades de explicação
dos fenômenos com os quais ao longo da trajetória de
existência depara-se o ser social. Contudo, estas
possibilidades têm dialeticamente duas características: a de
movimento e a de permanência. O que se quer dizer é que por
meio do movimento o aluno tem a possibilidade de descobrir e
de resignificar novas descobertas que fazem as antigas serem
superadas. Por exemplo, o que num determinado momento é
considerado como correto em outro pode não o ser. Por outro
lado é sua característica de permanência que possibilita a
passagem, o acúmulo e a manutenção dos conhecimentos de uma
época para outra, se isso não ocorresse certamente não se
teria a história dos seres humanos, não se teria a história
da escola mecanicista, da nova escola, não se conheceria as
abordagens tradicionais, cognitivas, sócio-culturais etc.
Diante dos argumentos apresentados o exercício de pensar e
dialogar o cotidiano dá-se a partir de problematizações; o
educador torna-se alguém que exercita a arte de perguntar,
de instigar o educando a pensar e de colocar-se diante de
novos problemas. O cotidiano é profundamente desafiador e,
esse desafio coloca-se não como um obstáculo, mas sim como
uma exigência de respostas. Os tambores ressoam e suas
batidas são resignificadas pelo eu e pelo nós. Isso exercita
a tomada de decisões diante de outras posições; nesse
sentido o educando, a partir dessa ação dialógica, constrói
novos sentidos aos ecos das batidas dos tambores do
Pelourinho, assumi posições de vida, ressignifica
conceitos e isso afetará a qualidade do processo vivido por
cada um. Assim, na ação dialógica de educando-educador vira
uma importante estratégia pedagógica porque:
(...) só o diálogo de busca constante do saber, através das
inter e trans-reciprocidades de nossas perguntas e
respostas, gera um genuíno conhecimento. Um conhecimento que
aspira habitar em cada um de nós e entre todos nós. Só é um
educador aquele que se recusa a sair do diálogo. (DEMO,
2001, p.14)
Nesse sentido, a prática dialógica também fundamentada nas
concepções de Bakhtin (1992) indica a importância dos
aspectos éticos, políticos e epistemológicos na constituição
do atuante e capaz de partilhar, mediar o conhecimento e
desenvolver práticas culturais democráticas.
O processo dialógico desenvolvido na sala de aula promove a
interação dos múltiplos aspectos que envolvem a cognição,
colaborando para que o homem aprenda a ser homem e o
conhecimento científico possa florescer.
De fato,é a partir da ação dialógica que educando-educador
transcendem para uma concepção da construção da identidade.
Para muitos autores essa questão também deve ser analisada a
partir da premissa, que o homem constrói seu conhecimento
por meio de outros fatos que permeiam sua vida e que o
ensinar a aprender estes fatos é uma tarefa inter-relacional
que pertence não só ao educador, mas também ao educando com
suas experiências e problematizações, pois se entende que a
construção do conhecimento científico não é só, mas, também
um agente para tal construção.
Com efeito, Japiassu (1999: 66) trata com muita propriedade
esta questão do conhecimento científico:
Ensinar a aprender, a se construir ou a se reconstruir, eis
o papel do educador. Todo progresso na educação está na
construção do espírito, não em sua domesticação. Só o
educador que se considera um mestre, não possui o sentido do
fracasso ... Se queremos compreender o que realmente se
passa no real , precisamos exorcizar os erros que se
infiltram naturalmente em nossas primeiras construções do
mundo percebido. Precisamos deixar de considerar a incerteza
como um sinal de fracasso. E superar a rigidez das idéias
recebidas... Daí a importância de se refletir sobre a imagem
das ciências que os alunos já se fazem. Porque o
empreendimento de comunicação científica , pelo ensino, deve
ser concebido como confronto de dois cognitivos distintos,
não como o confronto entre um conjunto pleno de ciência e
um conjunto vazio de conhecimento.
E mais:
Para o homem, o mundo é sua provocação, um lugar onde
enfrenta desafios e testa experiências . Por isso seu
processo de aprendizagem, deve exigir que seja dada tanta
importância à compreensão quanto à produção do saber. Porque
é um ser essencialmente social. Por natureza,
político-cultural. Para ele, a sociedade não é uma seleção
de indivíduos perecíveis e substituíveis vivendo num
território, falando uma língua e praticando exteriormente
certos comportamentos. Enquanto indivíduo, o ser humano
pertence a sociedade, não somente porque participa de suas
significações imaginárias, de suas normas e valores, de seus
mitos e representações, de seus projetos e tradições, mas
porque partilha da vontade de ser dessa sociedade e de seu
contínuo fazer-se. (JAPIASSU, 1999: 92)
Morin (2002: 26) oferece apoio, ao utiliza o conceito de
cultura na construção do conceito científico dentro de uma
perspectiva plural da ação dialógica ao enunciar:
A cultura é constituída pelo conjunto de saberes, fazeres,
regras, normas , proibições estratégias, crenças, idéias,
valores, mitos, que se transmite de geração em geração, se
reproduz em cada indivíduo, controla a existência da
sociedade e mantém a complexidade psicológica e social. Não
há sociedade humana, arcaica ou moderna, desprovida de
cultura, mas cada cultura é singular. Assim, sempre existe a
cultura nas culturas, mas a cultura existe apenas por meio
das culturas.
Porque:
O ser humano é ao mesmo tempo singular e múltiplo. Dissemos
que todo ser humano, tal como ponto de um helograma, traz em
si o cosmo. Devemos ver também que todo ser, mesmo aquele
fechado na mais banal das vidas, constitui ele próprio um
cosmo. Traz em si multiplicidades interiores, personalidades
virtuais, uma infinidade de personalidades quiméricas...
Cada qual tem em si galáxias de sonhos e fantasmas (MORIN,
1993: 57)
Diante dos argumentos e citações apresentados acima é lícito
afirmar que a interação das múltiplas vozes que compõem o
processo cognitivo tem a possibilidade de construir através
da prática do ensinar, concretizada na perspectiva da
dialogia. À medida que se interage com o outro, conhecem-se
suas culturas, seus saberes, seu cotidiano, suas práticas e
constituí-se o modo próprio de ler a vida conhecer o mundo.
E tendo a ‘pluralidade dos sons’ envolvendo as múltiplas
vozes que acompanham o processo inter-relacional com as
coisas.
A relação dialógica envolve sempre, duas consciências e sua
ação é uma relação com o sentido, constituindo as práticas
discursivas efetivadas na sala de aula.
E a palavra na ação do diálogo, conforme ressalta BAKHTIN
(1997: 128) está em todas as relações entre indivíduos. E
para explicar a ubiqüidade social da palavra, o autor diz:
(...) As palavras são tecidas a partir de uma multidão de
fios ideológicos e servem de trama a todas as relações
sociais em todos os domínios. É portanto claro que a palavra
será o indicador mais sensível de todas as transformações
sociais, mesmo daquelas que apenas despontam, que ainda não
tomaram forma, que não abriram caminhos para sistemas
ideológicos estruturados e bem formados
Silenciar a palavra do outro é afastá-lo de suas próprias
idéias e pensamentos, podendo provocar-lhe uma concepção
equivocada a respeito de si mesmo, dada as condições de
assujeitamento a que foi exposto. A palavra, utilizável como
signo, é material semiótico da consciência, ou seja, do
discurso interior. Apontando para o desempenho da palavra no
desenvolvimento do pensamento, Vygotsky (1991: 132) afirma
que “uma palavra é um microcosmo da consciência humana”
Servindo de mediação entre o educando e educador, a palavra
tem seus significados e sentidos constituídos na relação
entre esses dois sujeitos. Portanto, é de se refletir como
está sendo trabalhada a linguagem que imerge dessa relação
interpessoal, quais os significados constituídos nessa
interação e como está definido o papel do educador e
educando nesta ação dialógica.
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