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4. TERRITÓRIOS EM AÇÃO
A escola é uma das expressões mais conhecidas da cultura,
mas parece ser a menos compreendida tanto pelos governantes
como por aqueles que a freqüentam.
No contexto do poder dir-se-á da escola como aquela que
reflete de alguma forma as possibilidades e limitações de
todo cidadão. Neste sentido, a escola deve ser um sistema
social que admite na sua composição interna a formação de
subsistemas de uma mesma índole.
Considerando-a como sistema não pode se negar a sua
complexidade e ao mesmo tempo reconhecer que uma de suas
características é de promover embates, discussões. Essas
discussões decorrem da interdependência de seus componentes.
Professores e alunos não são simples participantes; muito
pelo contrário, são seres sistêmicos e complexos dentro de
um sistema chamado escola e sala de aula.
E a sala de aula, posta como um espaço situa-se como uma
alternativa para estar. A sala de aula, nesse sentido,
partilha a categoria da espacialidade com outros espaços,
mas a forma de sua ocupação cria especificidade. Portanto,
não basta a existência possível de sala de aula para que se
torne sala de aula. Tal como um cenário, ela não se basta
para que um enredo todo se desenrole.
Da sala de aula resta analisar o que lhe é essencial, isto
é, o que sem o qual deixa de ser o que é. Ao mesmo tempo, a
sala de aula pode ser deslocada para lugares os mais
diversos possíveis, pois sua atividade essencial extrapola
limites físicos.
Historicamente a sala de aula foi e tem sido localizada no
perímetro da escola. Dificilmente se consegue pensar em sala
de aula separadamente da escola e vice-versa. A escola
constitui-se o espaço social que procura garantir
minimamente o tempo para a sua ocupação. Cabe lembrar que a
palavra escola deriva do grego e significa lugar de ócio.
Formalmente, a sala de aula é ocupada pelas figuras do
professor e do aluno. O encontro ou desencontro entre estas
figuras confirma a diferença como elo que os relaciona.
Relacionar-se pela diferença significa afirmar o outro, a
alteridade. Afirmar o outro é afirmar o próprio eu, pois o
reconhecimento do eu passa pelo reconhecimento do que é
distinto, diverso.
No entanto, deve-se perguntar, por que reconhecer o outro?
Tudo é sempre o mesmo! Foucault (1980) diz que os olhos que
são feitos para ver não vêem e somente vêem quando são
vistos. Lidar com o desconhecido é extremamente
desconfortável por isso o eu compreende esforços para
enxergar e compreender o outro. O próprio pensar, a mínima
consideração sobre a realidade, desdobra o eu num outro,
numa distinção e ao mesmo tempo, a identificação não é
absoluta, pois um desaparece no outro. Portanto, o eu já é
um outro e este já é um eu. Como também diz Hegel (1992)
“o ser em estado puro, indeterminado, equivale ao nada”.
O outro é a completude do eu. E se assim não for a relação
acaba por se desfazer. Por isso o outro permanece um
desconhecido, aquele que deve ser buscado sempre. O que se
faz amante do outro é perceber o outro em nós. Afinal,
amante é o que se tem para oferecer. É o que antigamente se
chamava de Particípio Presente na Língua Portuguesa. É o
continuar da ação, do fazer e fazendo-se, o outro se faz. E
o que se deseja é o que o inesperado promova a ação do
amante que se faz. Ele é a diferença do que se estabelece,
do oficial, enquanto amantes. Ele, o amante faz com que
descobertas sejam descortinadas, se apresentem como fato
novo, como o ser de experimentações novas. Assim é a relação
com o outro no sentido de redescobertas, de aluno, de
professor. Assim é o espaço da escola em todas as suas
dimensões.
Como afirmado até o momento o outro precisa ser levado em
consideração, mas isso não deve ser tomado como se o outro
fosse o eixo da relação. Cabe mencionar aqui que o outro não
é lugar de perfeição, mas como pensa Marques (2003: 58)
“(...) os indivíduos são capazes de se constituírem em
sujeitos, na medida que esses se percebem como parte de um
coletivo, porque o sentido se concretiza no outro”.
Nesse sentido a completude entre o eu e o outro não é de
mero acoplamento, posto que não se trata de seres divididos
que buscam no outro sua metade. E a sala de aula é a relação
entre o professor e o aluno. Um encontra no outro sua
identificação e, concomitantemente, sua negação, pois o
professor pressupõe o aluno e vice-versa. O professor nega o
aluno porque este necessita ir além do que é para tornar-se
realmente o que é. O aluno, por sua vez, nega ao professor o
perfil do que ensina para cobrar-lhe a aprendizagem, posto
que o desconcerto provocado exige um novo olhar sobre o
outro, o aluno.
Assim sendo, resta ao professor perceber a experiência do
aluno, provocando o reconhecimento dele pelo próprio aluno e
a realização mais consistente de sua elaboração.
O professor, obviamente, não é a única mediação possível, às
vezes, nem a melhor, mas é um momento da relação e muito
privilegiado porque está aí para o outro. Nietzsche sugere
que aquele que pretende estabelecer uma relação com alguém
tem que se perguntar se é capaz de conversar com esse alguém
por algum tempo. Conversar exige atenção à fala do outro. E
a sala de aula enquanto espaço de encontro é local de
desafios, posto que é isso que resulta do estar com o outro.
O ato de estar junto deve ser investigado segundo o que
possa ser mais do que é. Por isso, professor e aluno
necessitam estar constantemente aos ritmos dos atabaques
para não calcificar o próprio ser e inibir outras
possibilidades.
Trata-se de um encontro entre humanos e, talvez,
precisamente devido a isso, tenham-se desencontros. Ser
professor e ser aluno, estar na sala de aula e manter a ação
dialógica pede apreciação no que se pode neste espaço.
5. (DE) MARCANDO AS REFLEXÕES
O exercício de pensar e discutir o ensino e a ação dialógica
para desenvolver a prática pedagógica é desenvolver a
educação, dentro e fora da sala de aula, ao desafio do
diálogo e criar métodos e meios para que ela se realize como
uma relação, dentro de ritos proveitosos em que a troca seja
a norma. Podemos dizer, nesse sentido, que a realidade da
existência humana é a experiência da relação. Acredita-se
que essa relação pode ser descortinada em todos os momentos
do fazer pedagógico e do pensar a prática docente.
Em PALOMAR, encontram-se argumentos para essas constatações:
“Não podemos conhecer o nada exterior a nós se sairmos de
nós mesmos. (...) O Universo é o espelho que podemos
contemplar só se tivermos aprendido a conhecer em nós”
Em Giroux (1997:159) fundamentam-se as concepções de
docentes que se colocam como interlocutores. Concorda-se,
sobretudo, em aprender a levantar questões acerca dos
princípios que subjazem as teorias da educação em vez de
aprender o “como fazer” o que muitas vezes é requerido na
formação do docente. Há que se privilegiar a reflexão sobre
os problemas escolares, sem ditar normas, cartilhas ou
modelos. Há que se privilegiar, como argumenta Giroux (1997:
163) o desenvolvimento de uma linguagem crítica atenta aos
problemas relacionados a prática de sala de aula .
O olhar neste trabalho, numa intenção de pesquisa
qualitativa, foi de buscar os ecos dos sons e os ritmos do
discurso docente e discente analisado com uma perspectiva de
quem está dentro também do mesmo universo retratado. Aqui
voltam os sons e os ritmos: o pesquisador pesquisa sua
própria ação e as possíveis mudanças que elas provocam.
A opção foi por uma pesquisa qualitativa exploratória (Bell,
1997) mediante entrevistas em profundidade, com o auxílio de
um roteiro não estruturado, com abordagem direta e pessoal
que foi inserida na categoria “não convencional” exposta por
SOARES.
Durante o desenvolvimento da pesquisa, foram registrados as
memórias, ações, exercícios, expressões verbais e escritas
de trabalhos dos professores.
Da leitura das memórias do docente retirou-se categorias em
um outro processo simbólico: que são os signos verbais e
toda a sua representação semântica.
Em relação aos alunos, extraiu-se das memórias dos
depoimentos, dos trabalhos e das atividades diversas em
aula, dentre outras, as seguintes categorias que
enriqueceram esta pesquisa sobre a ação dialógica:
criatividade, convivência na diversidade, educação,
transformação, relações interpessoais, contextualização,
inteligência emocional e sala de aula como espaço de
convivência.
Para dialogar com os dados anteriores foi realizado um
mapeamento de duas escolas públicas. Uma, situada no Parque
São Vicente, Belford Roxo, Escola Estadual Alice Paccini
Gélio e a outra, Escola Municipal Golda Meir, no turno
noturno como colégio estadual, situada na Avenida
Sernambetiba 3300, dentro do Condomínio Barra Mares. Sua
clientela é separada por três vias: Linha Amarela e Linha
Vermelha e Durta. Separam-se também, nesse sentido, a
fartura, os privilégios, o mar, areia da praia, a brisa, o
vento, os carros importados, os condomínios de luxo, as
novas tecnologias, o desjejum, o almoço, o café da tarde e o
jantar. Também são separadas pelas ruas enlameadas, pelas
praças que não existem, pelas áreas de lazer que nunca
saíram do papel. As escolas se separam pelo descaso do poder
público, pelo menino que é órfão e por todos aqueles que não
têm voz. Uma de frente para o mar e a outra de frente para o
descaso das autoridades. Mas as duas escolas gritam pela
igualdade, seus sons ecoam nos lugares mais longínquos do
Universo. As duas sabem das travessuras dos Fundef’s e da
sodomia do Banco Mundial. As duas têm gente querendo chorar,
rir, comemorar, bater palmas, tocar tambores, afoxés,
agogôs. Os dois espaços são assim: sabem o que é
politicamente correto. As duas são co-irmãs dos afagos e
desabafos dos professores, por vezes indignados e cansados
destes aparthaids que ainda são comuns na sociedade
brasileira. Na Escola Estadual Alice Paccini Gélio, que fica
a sessenta e dois quilômetros de um condomínio de luxo na
Barra da Tijuca, bairro classe Média Alta da capital do Rio
de Janeiro, foi entrevistada a Professora Verônica de Araújo
Ozório e foi perguntando o que ela achava sobre o diálogo
travado entre o professor e o aluno em suas práticas
pedagógicas. Ela diz assim: “(...) o diálogo é
fundamental, pois através dele o professor conhece as
necessidades do aluno e assim ele pode realizar o processo
ensino aprendizagem de forma eficiente”
E diz mais: “(...) através das experiências vividas em
sala de aula constato que as práticas educativas terão um
efeito muito maior no processo se houver uma interação
entre professor e aluno”
Evidencia-se na fala da docente Verônica de Araújo Ozório
uma proposta dialógica que perpassa pela mediação e
interação com o outro. Neste processo percebe-se que a ação
dialógica, que também dá corpo ao conhecimento, é a relação
na qual os sujeitos se completam e se harmonizam, estando
a verdade precisamente, na interação entre eles.
Sobre a “vida” e sua condução foram entrevistados também
alguns alunos da Escola Golda Meir e mostrou-se pertinente o
que se lê abaixo. É um depoimento da aluna Rosineide
Alencar. O que você acha da escola e qual contribuição que a
escola tem para sua vida?
“Minha vida é meio que um conto. Mas não é de fadas, não. Um
dia tô feliz, outros dias estou triste e as vezes mais ou
menos. Acho que a escola não representa tanta coisa. Eu não
vejo ela modificar a minha vida. Quando estou triste tento
pensar o que fiz na escola para ver se eu me alegro mas a
primeira lembrança é a hora do recreio”
E as pinturas na classe. As aulas de desenho?
“Ah, essa até é boa. No desenho, às vezes eu conto algumas
coisas que eu não falo pela boca. Quando estou triste eu
coloco no desenho, quando minha mãe briga comigo eu também
coloco e quando minha professora também briga aí é que eu
fico mesmo triste”
Neste fragmento, fica evidenciado que o conceito de escola e
suas contribuições não ficam muito claros. A estudante fala
de sua vida, de suas tristezas, mas não comenta como a
escola poderia dialogar com suas angústias.
É necessário, educadores e sociedade, criar um espaço de
discussão que tente encontrar o significado de alguns
conceitos na busca de esclarecer o sentido de que se adquire
na escola e na família.
E professora Gislane de Fátima do Carmo da Escola Estadual
Alice Paccini Gélio também enriquece esta pesquisa quando
diz:
“ (...) uma educação de qualidade só se constrói no diálogo,
na busca de soluções em conjunto, através de discussões
coletivas que levem a um posicionamento crítico diante de um
tema. Dialogar com o aluno é não ter medo de atuar ‘no campo
das emoções’ pois esse entrosamento favorece à auto-estima
do aluno, constituindo um poderoso instrumento para a
aprendizagem e o sucesso escolar”.
Entende-se, a partir da fala da docente, que para o sujeito
se constituir é preciso que esteja num contexto de palavras.
Para que se construa a subjetividade, é imprescindível
entrar “no campo das emoções”, uma vez que o psiquismo
humano transcende o real. Até onde as palavras alcançam é o
campo do outro.
Se o jovem depende que nele alguém projete um ideal, face
uma idealização, na escola o aluno depende que o professor
nele projete um ideal, aposte algo sobre a sua aprendizagem.
É salutar quando professores acabam investindo na capacidade
de um estudante ir além do que eles próprios puderam ir.
Nesse sentido o professor consegue direcionar vários alunos
para o campo do conhecimento por causa da sua relação com
esse conhecimento. O aluno fica implicado do ponto de vista
do seu desejo, da sua história.
Do mesmo colégio vem uma contribuição valiosa da aluna
Antônia Amérita Araújo Oliveira. Ao responder o seguinte
questionamento:
_ Os professores da sua escola dialogam com você. Isto é
importante?
Ela responde:
“Nem todos. O diálogo seria importante, mas infelizmente
não acontece e isso prejudica um pouco o desempenho escolar
do aluno. Do meu ponto de vista, isso não me prejudica
muito, pois tenho um bom desenvolvimento com os professores
mas para outros alunos isso é muito prejudicial. Além do
ensino fundamental das matérias, os alunos precisam do
diálogo com os professores, pois isso é algo que trás
facilidade ao estudante no compreendimento do estudo, não só
com a matéria mas também na forma de se comunicarem com o
mundo”
E em outro questionamento.
_ Qual o sentido da escola para você ?
A estudante Antônia Amérita respondeu:
“Fundamental. É uma das primeiras portas a serem abertas na
minha vida, pois, é com o estudo que conseguimos conhecer e
aprender algo que a vida pede a nós. Não só nesse sentido,
mas também me ajuda a reconhecer e me ajuda a me dar melhor
com que eu vou precisar no futuro”
O “conhecer e aprender algo que a vida pede a nós” é uma
fala perfeita para ensinar e sinalizar que o mundo e a
escola são tarefas bem mais complexas do que há tempos ,
seja ainda pela manutenção do antigo paradigma, ou seja, em
particular, pelo papel atual da escola como espaço de
fomentações.
Neste cenário os educadores da rede precisam e têm de lidar,
concomitantemente com diferentes desafios.
A estudante Antônia Améria, o que é corroborado por esse
pesquisador, acredita que apesar de todas as dificuldades
que as escolas públicas passam, a busca de uma
ressignificação tem que vir como desafio para se pensado
coletivamente, ou seja, juntos e conectado a proposta da
estudante em projeto de vida, projeto pedagógico e projeto
de sociedade de modo que os estudantes possam reconhecer
este espaço como um local não somente de notas, conceitos e
conteúdos, entretanto, um local também no qual possa ser
discutida a liberdade de escolha, de ação, do gostar ou não
deste espaço chamado escola.
Prosseguindo com as entrevistas, recebeu-se a contribuição
da professora Auriane de Castro, também docente da mesma
escola da Baixada Fluminense exercendo suas atividades
pedagógicas na disciplina de Geografia. A pergunta foi a
mesma da primeira professora entrevistada. Ela diz assim
como resposta:
“Sinto necessidade de estabelecer com meu aluno uma relação
de gente para gente, com toda complexidade que esta relação
implica. Lidar com gente é difícil; às vezes, acontecem
alguns embates próprios da convivência com o outro, e , é
preciso alguns cuidados para que não haja ressentimentos e
desavenças. Acho indispensável estabelecer elos, laços;
penetrar e ser penetrada pelo que me caracteriza como gente
e pelo o que faz do meu aluno gente, é o que me realiza
como alguém que acredita na parceria, não se vê como modelo,
nem dona da verdade, muitas vezes até, precisando refletir
bastante sobre como encaminhar algumas questões que no
relacionamento aluno professor surgem, precisando de
resposta ou questões que sinalizam para áreas que fogem ao
meu controle”.
Neste depoimento Bakthin, Certeau, Malcher, Marques, Morin e
Vygostsky trazem várias contribuições. Entre outras, a de
que o sujeito se constitui na dialética das relações
sociais.
As relações humanas criam, transformam e administram sempre
espaços heterogêneos entre si. Um bate papo pode ser
considerado construção em si. Todos os dias estes espaços
são vividos, pois nascem das interações entre pessoas,
grupos, etc..., surgem subjetividades nascidas das relações
interpessoais, que crescem e transformam-se. Para tanto, não
se pode perder de vista a formação do educador. Educa-se
pelo que se é. Ninguém consegue educar quando existe uma
dicotomia entre discurso e prática. Padre Vieira já falava
que palavras sem exemplos são tiros sem balas.
Continuando a entrevista a professora Auriane de Castro
ainda tocou em pontos muito relevantes. A docente continua,
falando:
“O conteúdo tem personalidade, a personalidade de quem o
está passando, não é neutro. Conteúdo programático este, que
é inócuo se não estiver marcando a convivência que o
professor e o aluno estabelecem no processo ensino
aprendizagem, fazendo as pessoas envolvidas nesse processo
serem melhores como pessoas no seu dia-a -dia. Caso
contrário, para que serve! Quem e não o que é que importa na
apreensão do conteúdo escolar; para que e por que deve o
aluno aprender o que a escola ensina! Sendo conteúdo por
conteúdo, não vai fazer os agentes envolvidos crescerem como
pessoas, muito menos vai criar vínculo de amizade,
solidariedade... não fará do professor que é gente, e do
aluno que é gente seres complementares”.
Em face do exposto esta fala remete a questão de currículo.
Com vistas que a visão emergente de mundo e de pessoa possa
ser traduzida no desenvolvimento curricular da escola, é
necessário todo educador ter atenção ao que o currículo pode
proporcionar. A professora Auriane com sua fala remete a uma
postura pluralista, não dogmática que conduza os alunos e
professores a uma atitude aberta para com as diversas
abordagens do conhecimento, sem prepotência, de modo a
manter acesa a chama da curiosidade e interesse do aluno
pela escola, ao fazer cair viseiras e posições apriorísticas
ligadas ao paradigma dominante.
Há a necessidade das relações das partes que integralizam o
todo. Eis a questão do currículo. É a partir da
integralização que se dá a complexidade que se explica pelos
múltiplos aspectos influentes no processo do pensar.
Para dar continuidade a reflexão é preciso ressaltar as
palavras de Certeau (1993:19):
Ao mesmo tempo em que a escola perde suas forças próprias,
uma grande parte da opinião reclama dela a solução de dois
dos mais graves problemas da sociedade contemporânea: uma
redefinição da cultura, a integração da juventude.
Uma instituição ou educadores que preparam jovens e que os
impõe determinados sistemas como mais corretos em detrimento
de outros certamente estará reforçando a atitude dogmática
hoje vigente em alguns espaços e em conseqüência estará
preparando os jovens para repetir modelos fechando-se a tudo
o que se enquadrar às referências do espaço. Em decorrência,
estar-se-á cerceando a busca, a progressão, impedindo o
crescimento da ciência e o encontro de outras ou de novas
explicações para os problemas existentes.
Continuando a entrevista com a professora Auriane de Castro
, ela continua:
“Sinto necessidade de estabelecer uma correspondência
biunívoca, passando e recebendo a bola; como num jogo de
futebol que ninguém é dispensável, a vitória não é de um
jogador, é do time. Neste contexto, o professor é um no
processo ensino aprendizagem, sendo cada aluno tendo que ser
inserido, conduzido a perceber a sua importância no
processo. Quero ser importante não pelo conteúdo
programático que sei um pouco mais do que eles (e, que eles
podem vir a saber mais do que eu),mas pelo que construo na
relação que se estabelece no processo ensino aprendizagem. O
conteúdo que levo para os alunos só tem sentido se na
prática objetivam o sucesso num exame seletivo (claro!), mas
também se representar o aprimoramento humano. Para mim não
tem sentido passar tanto tempo com o aluno, compartilhando
só de um espaço geográfico-físico, nada acrescentando e, em
nada sendo acrescentada; não há emoção! Máquina que é assim,
justifica a que veio sendo eficiente na sua função e apenas
isso traça a sua importância. Sou gente, meu aluno é gente e
é com gente que nos fazemos gente! O professor “conteudista”
está pronto para ser substituído pelo robô, pelo computador,
já que só tem importância pelo conteúdo que carrega
armazenado em sua memória; nego-me a ser esse professor.
Aliás, por estar precisando mais do que a escola lhe
oferece, esse aluno está desestimulado, não há sentido em
aprender por aprender, sem nada que o envolva, o emocione. É
assim que penso minha relação diária com meu aluno,
acreditando que nenhuma máquina pode me substituir, porque o
conhecimento que trago armazenado na memória é só um item;
busco ser referência para além do conteudismo”
Entende-se, que é sob este prisma também se coloca o
trabalho de Morin. Quando se diz: existo, não se quer dizer
com isso que alguma coisa é dona ou possuidora do eu, mas
sim que o eu faz parte e está intimamente envolvido com uma
realidade maior do que o eu mesmo. Esta complexidade
permiti que o educador compreenda as teias das relações
existentes entre todas as coisas . Trata-se, porém, de uma
mudança de mentalidade , que o educador percebe que
transformando a sua prática renovar-se-á para um caminho
multidimensional para além do conteúdo e das aulas
tradicionais. A relação dialógica, neste sentido, a partir
da entrevista da docente, produz condições para que esta
prática renovadora e autônoma possa se solidarizar com
outras e outros companheiros de formação da educação.
A fala da docente, dialoga com a afirmação de Morin ( 1993:
77):
(...) a agonia planetária não é só a soma de conflitos
tradicionais de todos contra todos, mas as crises de
diversas espécies, mais o surgimento de problemas novos sem
solução, é um todo que se nutre desses ingredientes
conflituais, de crise e de problemas, englobando-os,
ultrapassando-os e, por sua vez, alimentando-os(...)
Na relação dialógica, o ser humano desenvolve-se e
organiza-se, transformando-se. Como sujeito participa de
seus grupos sociais, de sua cultura, têm sentimentos e sente
a necessidade de expressá-los, porque é gente, humano. Nesta
relação, a transdisciplinaridade surge como maneira de
romper com os limites entre as disciplinas, que fragmentam o
saber e a visão de educadores e alunos. A consciência
reflexiva de si e do mundo implica uma necessidade de
mudança diante da vida. Morin (1993:100), nesse sentido,
afirma:
O problema da complexidade joga-se em várias frentes, vários
terrenos. O pensamento complexo deve preencher várias
condições para ser complexo: deve ligar o objeto ao sujeito
e ao seu ambiente; deve considerar o objeto, não como
objeto, mas como sistema-organização levantando os problemas
complexos da organização. Deve respeitar a
multidimensionalidade dos seres e das coisas. Deve
trabalhar-dialogar com a incerteza, com o irracionalizável.
Não deve desintegrar o mundo dos fenômenos, mas tentar dar
conta dele mutilando-o o menos possível.
Abaixo, foram lançadas perguntas ao aluno Vínicius
Albuquerque França da escola Golda Meir. Torna-se
interessante visualizar as repostas.
- Qual a contribuição da escola em sua vida? Ele responde
que :
“A escola me serve para eu ser alguém na vida”
-E o que é ser alguém na vida?
“É saber ler, escrever e falar bem também.”
- E através do voto, você pode contribuir para mudar a sua
vida?
“Sim, eu tendo consciência do meu voto e votando certo, a
escola pode mudar, os professores também, a família e eu
também.”
Esta fala também permite apreciar a função da escola ou do
espaço escolar. Entende-se que a posição do estudante
Vinícius não é neutra. Este estudante também pode ser
sujeito transformador. Pode contribuir na formação de si
mesmo, de seu cotidiano, de sua história e na história da
sociedade, individual ou coletivamente, desde que na prática
político-epistemológica da escolarização se oportunize o
transformar-se, o ser transformado e o transformar
simultâneo do contexto social, econômico, cultural em que
está inserida. As microrelações poderão surgir como toda e
qualquer relação estabelecida pelo sujeito. Pelos sujeitos.
Pelos excluídos. Aqui se estabelece o saber poder de
Foucault.
A Professora Maria Helena Gomes Rodrigues de Paula, exerce
suas atividades didáticas na mesma escola da Baixada
Fluminense, lecionando a disciplina de Matemática. Foi
perguntado o que ela achava do diálogo travado entre
professor-aluno em suas práticas pedagógicas. Ela diz assim:
“O diálogo dá oportunidade aos alunos de mostrar até que
ponto eles são capazes de formularem conceitos e melhorarem
na participação das aulas.”
O lugar da sala de aula valoriza indivíduos como
representantes bem caracterizados de constituição e
formadores de identidade. Os conceitos, em sala de aula,
podem ser constituídos a partir do outro ou constituindo-se
de si mesmo. Observem quando a docente diz: “eles são
capazes de formular conceitos...” Essa intencionalidade
pressupõe a possibilidade de contribuição da educação da
escola, da Professora Maria Helena de Paula à transformação
da sociedade.
Assim posto, em um exercício de sintetize, pode-se
considerar que aula e sala de aula podem ser compreendidas,
como locais ou diversos locais, quaisquer que sejam, onde
ocorre uma relação de aprendizagem e desenvolvimento
recíproco entre sujeitos ou múltiplos sujeitos.
A aluna Maria Leonídia dos Santos da escola Golda Meir deu,
também, sua contribuição:
-Qual
a diferença entre escola e família?
A estudante afirma que: “escola é onde se aprende
e família é onde se vive”. Ao
questionamento foi perguntado se poderia ser ao contrário,
ou seja, que a escola é onde se vive e a família é onde se
aprende! Ela respondeu objetivamente que “sim”. Em
seguida ao questionar a mesma aluna, na tentativa de criar
dúvida, foi perguntado se a escola e família (se ela
concordava) ser local de vivência e aprendizado? Ela, sem
ponderar, riu e respondeu: “Se eu aprendo na escola é
porque eu vivo nela e se eu vivo em casa também aprendo
nela”.
No primeiro momento de sua fala, Maria Leonídia estabeleceu
diferenças entre casa e escola. Em um segundo momento, na
próxima pergunta estas diferenças não mais foram
estabelecidas. Ela percebeu que em suas relações familiares
algo também poderia ser apreendido, o que possivelmente, não
se aprende na escola, ou também se aprende? Depois
descobriu que tanto no espaço escolar e no contexto familiar
algo se constitui. Cada um com sua contribuição, sua
constituição, com o seu conhecimento. Mas aprenderia? Ou
apreenderia? Quem sabe ainda a descoberta de acolher e ser
acolhida, nos dois espaços, sobretudo aquele que ao longo da
vida tem sido sistemático e organicamente excluído do saber
e do próprio sentimento. Ser acolhido, ser ouvido, ser
escutado. A escuta como princípio básico da Democracia.
Possibilidade de ter direito a si mesmo, sem ser rejeitado,
sem ter medo de sê-lo. A possibilidade de falar de seu
sentir, de sua dor, de sua alegria, daquilo que a aflige no
cotidiano: família, casa, rua, escola. Aquilo que a aflige a
si mesmo, mas tendo alguém para partilhar e compartilhar,
ouvir, acolher, dar atenção. Contar sua história, sua
trajetória, rir de si mesmo, com o outro, brincar consigo e
com o outro. Ser. Enfim, um mundo de cultura historicamente
produzida e acumulada que passa pelo canto, desencanto,
encanto, desenho, conto, poesia, pelo impróprio, pelo
cordel, pela estória de avós, pais. Ser. Sabedoria popular
negada por todos os positivistas, mas presentes nos jovens e
adolescentes de escolas públicas, de Belford Roxo a Barra da
Tijuca, dos condomínios de luxo as classes mais miseráveis e
desprivilegiadas do Brasil, inerentes a um certo universo de
tráfico e traficantes, mas também ao universo do sentir e
pensar.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O que se pretende defender neste texto não é que
a escola se exima de possibilitar a reflexão à cerca da
ação dialógica, mas também ser instrumento e espaço social
aberto para tal reflexão entre discentes e docentes.
Como o objetivo é explicitar resultados de um processo, há
que se considerar que muitos deles ainda estão se tornando
mais explícitos agora, ao final de sua apresentação, pois a
organização do conhecimento acaba mostrando a gama de
caminhos para seu alcance e a impossível missão de ter
concluído ou chegado ao final da busca. Mais essa é a razão
do conhecimento, sua dinâmica e constante mutação por isso a
busca incessante e contínua.
A vida, bem como as experiências, são resultados de
participação num processo espiral em que se sabe o porquê
perseguir: experiências e imperiências também. A habilidade
está em conseguir a seta do tempo, onde as experiências se
dão! O que foi que denotou o impulso...
Posto que não se pode antecipar resultados prontos e
fechados, uma vez que a pesquisa revela que a experiência é
intransitiva. O artigo que foi apresentado que é parte
integrante de uma pesquisa não é um caminho até um objetivo
previsto, até uma meta que se conhece de antemão, mas uma
abertura diante do desconhecido, que não é possível
antecipar. Portanto a experiência traz a (in) certeza que a
pesquisa não é a descrição de um código, mas a construção de
um sentido, de um olhar, abrindo possibilidades de re
(significação).
Enfim, a pesquisa sobre a ação dialógica de professores de
escolas públicas não veio para mostrar um saber, um
resultado a que se chegar, mas se constitui um anúncio de
provisoriedade do saber, uma verdade particular e relativa -
uma construção de ética e cidadania.
Aqui se enfatiza a importância da responsabilidade ética no
exercício do papel de professores e formadores de outros
sujeitos e a participação e autorização da Direção do
Colégio Estadual Alice Paccini Gélio, Diretor Rubens e a
Vice Diretora, professora Marivalda e a Orientadora
Educacional, professora Alba. Assim também se faz presente o
corpo discente e docente do Colégio Golda Meir em sua Gestão
Democrática.
Assim, o estudo encontra-se permeado pelo sentido necessário
da ética que conota expressivamente a natureza da prática
educativa enquanto atividade reflexiva. Portanto, uma ética
afrontada na manifestação de qualquer forma discriminatória,
que envolve o crédito na capacidade do outro, que exige
acreditar nas pessoas e nas suas potencialidades e
possibilidades de produção.
O trabalho pedagógico, a escola e à realização deve ser
associada a um empenho em buscar, nos acontecimentos
produzidos pelos professores e seus alunos, o que há de
novo, de peculiar e potencial, com vistas a desmistificar
qualquer tipo de descrédito e despreparo do professor, mas
averiguando a possibilidade de que a escola, os professores
e seus alunos, se lá estão é porque há tempo para despertar
esperanças, auto - estima e valorização. De fato, uma nova
cultura, uma nova postura e uma nova ética imposta pelo novo
milênio, já estão a se exigir.
Ao encerrar este artigo, (re) afirma-se que, cada vez mais,
se estar convencido da implementação de uma prática que
advém de uma postura reflexiva, considerando que alunos e
professores são partes de um mesmo processo, de um mesmo
dizer, sem o qual ambos juntos, deixam de ter sentido.
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