A Gestão
Escolar constitui-se numa atuação que objetiva promover a
organização, a mobilização e a articulação de todas as condições
materiais e humanas dos estabelecimentos de ensino. Estes que visam
promover a efetiva aprendizagem dos alunos, de modo a torná-los
capazes de enfrentar adequadamente os desafios da sociedade
globalizada e da economia centrada no conhecimento. Portanto, o
processo de Gestão Escolar deve estar voltado para garantir que os
alunos aprendam sobre o seu mundo e sobre si mesmo. Adquiram
conhecimentos úteis e aprendam a trabalhar com informações
complexas, gradativamente, sendo estas, muitas vezes contraditórias
com a realidade social, econômica, política e científica (LÜCK,
2000).
Os professores de Educação Física com base na história de
sua profissão desarticulada com os saberes pedagógicos da docência,
muitas vezes, se eximem de atuar ativamente nas atividades que
envolvem o processo de Educação Escolar. O Coletivo de Autores
(1992) esclarecem que ela surge pelas necessidades sociais que são
identificadas pelos diferentes momentos históricos e pelas funções
que assumiu em cada um desses períodos. Nas décadas de 70 e 80
surgem movimentos de críticas à Educação Física, que buscam
construir teorias para reorientar a sua prática. Este processo
envolve diversas transformações, tanto nas pesquisas acadêmicas que
envolvem este contexto, quanto na prática pedagógica dos professores
do componente curricular (MORO, 2004). As novas teorias têm como
objetivo comum promoverem a disciplina de Educação Física no sistema
escolar, de modo que enfoque a formação integral dos alunos.
Diante disso, o objetivo desta investigação foi analisar as
representações de professores de Educação Física acerca da gestão
escolar. A metodologia utilizada baseou-se na fenomenologia e na
abordagem qualitativa. Os participantes do estudo foram cinco
professoras de Educação Física atuante na rede estadual de ensino do
município de Santa Maria (RS). Para a coleta das informações foram
feitas entrevistas semi-estruturadas com estas professoras, tendo
sua interpretação seguida pela análise de conteúdo. Com vistas a não
expor as professoras e também por questões éticas, seus nomes foram
substituídos pelos seguintes: Professora Flor,
Professora Mel, Professora Sol,
Professora Lua e Professora Estrela.
As representações das professoras acerca da Gestão Escolar
A maioria das Professoras, quando questionadas sobre o que
representa a Gestão Escolar, mostraram-se bem orientadas para o
sentido mais ampliado que se vem trabalhando para se desenvolver nas
instituições escolares e educacionais uma gestão menos marcada pela
figura do diretor/administrador. De acordo com Lück (2006, p.18) vem
se buscando uma mudança paradigmática da visão de administração
educacional para o entendimento de gestão educacional, no entanto,
não com o intuito de negação de um paradigma sobre outro, mas sim,
na busca de sua superação. “Mesmo, porque uma gestão competente se
assenta sobre processos de administração igualmente competente”.
Ainda que, os processos de gestão se caracterizam por pressupostos
mais abrangentes que incluam orientações mais dinâmicas, objetivos
mais significativos, formativos e contextualizados.
Apenas uma delas (Professora Flor), declarou não
entender o significado de Gestão, ao dizer que não se apropria desse
termo.
“Seria todo
o tipo que gestão, gerir, que se relacione a escola, a instituição
escolar, então seria todas as ações políticas, ou até própria dos
profissionais no sentido de pensar em melhorar e desenvolver a
escola”
(Professora
Estrela).
“Nosso
trabalho da escola, como ele é desenvolvido”
(Professora Sol).
“É uma
equipe que o objetivo dessa equipe, dessa gestão é a organização do
ambiente escolar e para que esse ambiente seja produtivo, pra que
haja boas relações, pra que haja uma boa aprendizagem dos alunos,
que sempre que tu precise tu procura as pessoas para resolver pra
melhorar o ambiente da escola” (Professora
Mel).
“É um todo,
como é que ta direcionado isso que eu não sei, não consigo entender
como é que ta direcionado essa gestão na escola porque, tem aquela
coisa a direção, a supervisão, os professores, funcionários e os
alunos, fora isso, tem a comunidade escolar, é esse todo aí que
constitui a gestão escolar, a direção manda e os outros mais ou
menos obedecem, agora já ta tendo mais uma democratização, tão
colhendo opinião do que é possível fazer pra melhorar a escola, tão
colhendo opinião dos pais para saber o que é possível trazer pra
dentro da escola, mas muito lentamente, ainda ta tendo a figura,
diretor, professor e pais” (Professora
Lua).
Entretanto, apenas o entendimento mais amplo de Gestão das
professoras, não fundamenta as mudanças na escola, sendo que se
percebe em suas falas, que a instituição escolar e sua equipe não
convergem atitudes e estratégias para construírem juntas uma Gestão
mais participativa. Para que isso ocorra realmente, é necessário que
os demais integrantes do processo educativo se apropriem dessa
visão, o que muitas vezes se torna difícil pelo mínimo espaço de
tempo em torno de discussões e reflexões referentes a essas
questões, ao dar voz ao professores, pais e alunos, e não somente ao
diretor e aos profissionais de cargo administrativos da escola.
Em torno dessa desarticulação, Tavares (2001) parte do pressuposto
de que a busca pela qualidade nas organizações escolares deve estar
imbricada de um relevo especial, serem mais desenvolvidas,
reflexivas e flexíveis, capazes de respostas rápidas e eficazes.
Porém essas características não convergem com sistemas burocráticos,
complexos, pesados, lentos, rígidos, concentrados e autoritários.
Nem mesmo objetiva-se o caos, a confusão, a anarquia, mais ou menos
organizadas, porém sabe-se que as organizações mais democráticas e
flexíveis são as que respondem melhor aos desafios dos novos tempos.
Nesse sentido, almejar organizações menos burocráticas sem alterar
as atitudes dos seus membros não faz sentido. Trata-se de um
problema ético, cultural e talvez de inter, multi e transcultural.
Precisa-se ter uma visão mais dinâmica e instituinte, não só
pensando no mercado de trabalho, mas também nas situações diárias de
vida.
De acordo com as concepções de Libâneo; Oliveira; Toschi (2005) a
que mais se identifica com o depoimento das professoras seria a
Gestão Democrática. Segundo esses autores, a Gestão Democrática
representa uma atividade coletiva imbricada na participação e em
metas comuns, contudo, considera essenciais as capacidades e
responsabilidades individuais guiadas por uma ação coordenada e
controlada. Essa idéia converge com Falcão Filho (1997 apud
PEREIRA; KIRCH, 1999) ao pontuar que as atividades da escola são
complementares, sendo que cada uma delas necessita de um agente
individual, contudo exige a participação de outras, para que juntas
possam concretizar qualquer objetivo ou meta da mesma.
Diante dessas reflexões, o que fica evidente é que apesar da
concepção de Gestão Democrática estar presente no âmbito de leis
educacionais há muito tempo, ainda não houve a sua incorporação em
termos práticos no cotidiano das escolas. No Inciso VII do Artigo
206 do Capítulo III da Seção I da Constituição Federal de 1988
consiste: “gestão democrática do ensino público, na forma de lei”
(BRASIL, 1988). E posteriormente na Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional (Lei 9.364, de 20 de dezembro de 1996) no Inciso
VIII do Artigo 3º do Título II “gestão democrática do ensino público
na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino” (BRASIL,
1996).
A questão da necessidade de melhora na qualidade da
Educação já se constitui como um problema e um desafio a um longo
prazo. Entretanto, para se atingir esse objetivo é preciso uma
revisão não apenas nas práticas docentes, mas nas concepções que
orientam essas ações (DELLORS, 1999 apud LÜCK, 2006).
Desencadeando assim, a compreensão da relevância da Gestão
Educacional na construção de um novo enfoque, partindo de uma visão
de conjunto, embasada na mobilização de pessoas que articulam os
saberes entre si, suas práticas com vistas a maximizar as metas
desejadas (LÜCK, 2006).
REFERÊNCIAS
BRASIL. Constituição de 1988 da República Federativa do Brasil:
promulgada em 5 de outubro de 1988: atualizada até a Ementa
Constitucional n. 20, de 15-12-1998. 21. ed. São Paulo: Saraiva,
1999.
BRASIL. Lei n° 9.394. Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional. Brasília: Congresso Nacional, 1996.
COLETIVO DE AUTORES. Metodologia do ensino de Educação Física.
São Paulo: Cortez, 1992.
LIBANEO, José Carlos; OLIVEIRA, João Ferreira; TOSCHI, Mirza Seabra.
Educação escolar: políticas, estrutura e organização. 2. ed.
São Paulo: Cortez, 2005.
LÜCK, Heloísa. A gestão participativa na escola. 2. ed.
Vozes: Petrópolis, 2006.
LÜCK, Heloísa. Apresentação. In: LUCK, H. (Org.). Gestão escolar e
formação de gestores. Em Aberto, Brasília, v.17, n.72,
p.7-10, fev./jun., 2000.
MORO Roque. Luiz. Educação Física escolar: reflexão e ação
curricular? Ijuí: Ed. Unijuí, 2004. 1996p. (Coleção Educação
Física).
PEREIRA, Sueli Menezes; KIRCH, Elisete. O diretor de escola e os
novos desafios da gestão: um estudo de caso. Cadernos CEDAE,
Porto Alegre: PUCRS, p.51-67, 1999.
TAVARES, J. Relações interpessoais em uma escola reflexiva. In:
ALARCÃO, I. (Org.).
Escola reflexiva e nova racionalidade.
Porto Alegre: Artmed, p.31-64, 2001.