RESUMO
Sabemos que ensinar a ler
e a escrever constituiu-se como um dos principais objetivos das
instituições escolares, além de representar um de seus maiores
desafios, porém, na maioria das vezes as discussões realizadas sobre
o tema no Brasil tinham seu foco no método mais eficaz a ser
utilizado. Nesse sentido, buscaremos nesse artigo abordar a relação
entre alfabetização e letramento, destacando algumas abordagens que
visam conceituar, descrever ou explicar esses fenômenos a partir de
um posicionamento político, social e pedagógico.
Palavras-chave:
Alfabetização; Letramento; Leitura; Escrita.
Abstract
We know
that teaching reading and writing established itself as one of the
main goals of educational institutions, and represents one of his
biggest challenges, however, in most cases the discussions on the
subject in Brazil had its focus on the most effective method to be
used. Accordingly, this article
will seek to address the relationship between literacy and literacy,
highlighting some approaches to conceptualize, describe or explain
these phenomena from a political, social and educational.
Keywords: Literacy, Literacy, Reading, Writing.
Ensinar a ler e a escrever
representa um dos principais objetivos das instituições escolares,
além de constituir-se como um de seus maiores desafios, porém, já há
muitas décadas, discussões sobre a formação de sujeitos que sejam
capazes de lidar de maneira competente com as situações sociais que
envolvem a leitura e a escrita permeiam espaços de formação inicial
e continuada de profissionais que atuam na educação. Mas, na maioria
das vezes as discussões realizadas sobre o tema no Brasil tinham seu
foco no método mais eficaz a ser utilizado no período de
alfabetização.
Vale destacar que são
numerosas as tentativas para conceituar, descrever ou explicar a
alfabetização e o letramento e todas demonstram um posicionamento
político, social ou pedagógico. Contudo, ao realizarmos um
aprofundamento teórico percebemos que a alfabetização e o letramento
são fenômenos complexos e multifacetados. Na maioria das vezes os
educadores não possuem a clareza conceitual acerca dos temas
alfabetização e letramento, sendo influenciados por “modismos”, o
que por conseqüência reflete na prática cotidiana desses
profissionais.
Por um longo período,
acreditava-se que ser alfabetizado resumia-se em conhecer o código
lingüístico, ou seja, identificar as letras do alfabeto, assim, os
sujeitos eram classificados em alfabetizados ou analfabetos, pela
condição de dominarem, ou não, a escrita do próprio nome, condição
básica para que pudessem votar e escolher seus governantes.
A partir da década de 80,
o mundo passou por mudanças significativas, o que contribuiu para
que a sociedade se tornasse mais globalizada, mais complexa,
exigindo um aprimoramento contínuo, criando novas necessidades.
Nesse período, com base nas ciências lingüísticas e psicogenéticas
da escrita ocorreram mudanças também nas concepções que dizem
respeito ao aprendizado da leitura e escrita.
Pesquisas e estudos
realizados por Ana Teberosky e Emília Ferreiro, contribuíram para
que compreendêssemos que a aprendizagem da leitura e da escrita não
reduzi-se a um conjunto de técnicas percepto-motoras, nem a vontade,
ou a motivação, mas trata-se de uma construção conceitual. Dessa
forma aquela preocupação com o método de ensino começa ser
questionada, assim, a discussão deixa centra-se em como se ensina e
começa a girar em torno de como a criança aprende.
No contexto dessas
discussões, surge o termo “analfabetismo funcional” para designar as
pessoas que, freqüentaram a escola por um período e mesmo sabendo
escrever o próprio nome e identificar letras, não conseguem fazer
uso da leitura e da escrita em seu cotidiano.
Atualmente, sabemos que,
embora seja importante que os sujeitos tenham o conhecimento das
letras, o mesmo não é suficiente para torná-lo competente no uso da
língua escrita. A língua não pode ser resumida a um mero código para
comunicação. A linguagem deve ser compreendida como um fenômeno
social, estruturado de forma dinâmica e coletiva e, assim, a escrita
também deve abordada do ponto de vista cultural e social. Para
contemplar esse processo de inserção numa cultura letrada, é que
utilizamos o termo letramento.
Nesse sentido, podemos
afirmar que em linhas gerais, alfabetizado é aquele indivíduo que
sabe ler e escrever; já o indivíduo letrado, o indivíduo que vive em
estado de letramento, é não só aquele que sabe ler e escrever, mas
aquele que consegue utilizar socialmente a leitura e a escrita,
respondendo adequadamente às demandas sociais.
Faz-se então necessário
repensar a função social da instituição escolar. Devemos trabalhar
não apenas com a codificação e decodificação de códigos. Não podemos
também apenas buscar que o indivíduo permaneça na escola por mais
tempo. Mas precisamos dar qualidade a esse tempo de permanência nas
escolas. Ou seja, letrar os alunos, afinal, o letramento possibilita
que o indivíduo modifique as suas condições iniciais, sob os
aspectos: social, cultural, cognitivo e até mesmo o econômico.
Letrar significa assim,
trabalhar com os diferentes usos da escrita na sociedade. Vale
destacar, que essa inserção começa muito antes da entrada das
crianças na escola, quando a criança começa a interagir socialmente
com as práticas de letramento no contexto social: os pais lêem para
ela, a mãe faz anotações, segue receitas culinárias, os rótulos
indicam os produtos, entre outros, desse modo, podemos afirmar que o
letramento é cultural, afinal, as crianças já vão para a escola com
conhecimentos adquiridos no cotidiano. A escola deve, nessa
perspectiva, continuar o desenvolvimento das crianças nesse
processo, evitando as práticas que tornam a criança com conhecimento
do código, mas incapaz de compreender o sentido dos textos.
Compreendemos assim, a
aprendizagem da leitura e da escrita como uma construção processual
de conhecimentos, onde ocorre o estabelecimento de relações entre os
saberes que o sujeito já possui com os novos saberes que estarão
sendo despertados no cotidiano escolar.
No decorrer do processo
histórico, percebemos que antes acreditava-se que a aprendizagem da
leitura e da escrita era iniciada na escola devido ao ensino
sistematizado e intencional, seguindo as estratégias de ensino do
método selecionado, mas atualmente a partir de vários estudos e
pesquisas desenvolvidas, sabemos que essas suposições não mais se
sustentam. Dessa forma, consideramos que as crianças possuem
conhecimentos prévios, que precisam ser valorizados e instigados,
sendo concebidas como sujeitos ativos do processo de
ensino-aprendizagem.
Para Ferreiro e Teberosky
(1989), existe uma diferença entre o sujeito passivo aprendizagem,
que apenas reconhece, recorda, reproduz e repete e ao qual é preciso
ensinar tudo desde o princípio- “tabula rasa”, com o sujeito ativo
que não define apenas seus próprios problemas, mas constrói
mecanismos para resolvê-los.
A criança consegue nesse
sentido, interpretar a realidade na qual vive, antes de chegar à
escola, já que possui uma série de conceitos e constrói a partir da
sua vivência conhecimentos sobre o mundo e a realidade. Assim as
crianças iniciam a aprendizagem da leitura e da escrita nos mais
variados contextos reais, contextos letrados em que a leitura e a
escrita são usadas constantemente como objetos sociais e culturais.
Estes são os contextos de
aprendizagem em que os sujeitos aprendem a interação com a escrita e
por sua relação com outros sujeitos que dominam a escrita e seus
usos situações sociais. Portanto, o saber sobre a língua escrita não
deve limitar-se ao mero conhecimento do alfabeto.
Desse modo, as discussões
acerca do melhor método de alfabetização, no qual no centro
encontra-se o professor, considerado como o detentor do saber, dá
lugar as discussões sobre a construção de conhecimentos pela
criança. Segundo Lerner (1990), as crianças aproximam-se cada vez
mais das regras do sistema, como evidenciam diversas pesquisas que
ressaltam a ineficácia da informação vinda do exterior para
modificar o raciocínio da criança.
A aprendizagem é um
processo cotidiano e natural do ser humano, o qual elabora e
constrói seus conhecimentos como resultado de uma atividade global,
flexível, contextualizada, subjetiva e compartilhada, sendo o
conhecimento sobre leitura e escrita construído em um processo de
exploração, experimentação, observação e interação.
Devemos propiciar
situações nas quais as crianças tenham oportunidade de participar de
atos sociais nos quais ler e escrever têm propósitos explícitos
(recordar, buscar informação, registrar, comunicar, expressar,
desfrutar,...), pois isso as auxilia a construir suas próprias
idéias sobre a natureza e as funções da escrita como objetos
sociocultural e sobre sua importância no contexto social.
O professor tem então a
função de criar um clima de interação e construção dos conhecimentos
em torno do escrito, deve propor desafios, incentivar a elaboração
de hipóteses a partir de contextos reais. Nesse sentido, deixa de
ser considerado como um “transmissor” de conteúdos, ajudando e
orientando, o aluno na busca de significados da escrita.
Percebemos nessa linha,
que a intervenção docente deverá sempre estar dirigida a propor
desafios que questionem as hipóteses e as idéias dos alunos sobre a
realidade, e a oferecer as orientações contextuais para dar
significados e compreensão a tudo o que se faz e se aprende na
escola.
A leitura segundo Soares
(2004) deve ser compreendida como uma atividade cognitiva que requer
um sujeito envolvido na obtenção de significados e na busca da
compreensão, ou na interpretação do conteúdo, assim a escrita não
deve ser mais entendida como uma cópia de modelo externo, afinal não
devemos querer formar escribas, mas escritores. A escrita, não é só
atividade motora- produzir texto, mas, uma atividade cognitiva, na
qual produzir um texto tem uma finalidade e um destinatário,
conforme a capacidade de produção de cada um.
Vale destacar que as
capacidades de interpretação e produção de textos podem e devem ser
realizadas antes de os alunos terem a capacidade de decifrar e de
codificar, além disso, consideramos imprencidível sua abordagem na
escola desde o início do ensino para evitar a desnecessária perda de
tempo que significa esperar escritas e interpretações corretas, e
também para evitar o erro pedagógico de introduzir a leitura e a
escrita pelo viés da decifração e da atividade motora.
Muitas vezes, privamos o
aluno de interagir com a língua escrita, com seus usos e com suas
funções sociais, pois não valorizamos a construção de hipóteses
exploratórias para compreensão da estrutura interna da escrita,
privilegiando atividades mecânicas como cópias, nas quais as
crianças devem repetir traçados de outro sem compreender sua
estrutura, dificultando a aprendizagem.
Nesse sentido, aprender a
ler e a escrever é um processo cognitivo, mas também uma atividade
social e cultural que facilita a construção de vínculos entre a
cultura e o conhecimento. Assim, quando a escola ensina a ler e a
escrever, não possibilita apenas a aprendizagem dos conteúdos
educativos, mas também contribui para a formação de sujeitos que
conseguem usar a linguagem em sua qualidade de ferramenta de
comunicação entre as pessoas e as culturas.
Quando consideramos a
importância do letramento, deixamos de lado os exercícios mecânicos
e repetitivos, baseados em palavras e frases descontextualizadas.
Nosso enfoque está no aluno que constrói seu conhecimento sobre a
língua escrita e não no professor que ensina. Na escola, a criança
deve prosseguir a construção do conhecimento iniciada em casa e
interagir constantemente com os usos sociais da escrita. O
importante não é simplesmente codificar e decodificar, mas ler e
escrever textos significativos.
Dessa forma, o processo de
alfabetização e letramento ocorrem concomitantemente, no qual
enquanto a alfabetização se ocupa da aquisição da escrita por um
indivíduo, ou grupo de indivíduos, o letramento focaliza os aspectos
sócio-históricos da aquisição de um sistema escrito por uma
sociedade.
Para Vygotsky (1984), o
letramento representa o coroamento de um processo histórico de
transformação e diferenciação no uso de instrumentos mediadores.
Representa também a causa da elaboração de formas mais sofisticadas
do comportamento humano que são os chamados “processos mentais
superiores”, tais como: raciocínio abstrato, memória ativa,
resolução de problemas, entre outros.
Concluímos assim que a
construção do processo de leitura e escrita acontecerá quando
aprendermos e ensinarmos fatos relevantes, significativos, no qual a
leitura e escrita possuem finalidades e sentidos, e que responda
essencialmente às necessidades funcionais e aos interesses e
expectativas dos alunos. Destacamos a necessidade de fazermos uma
leitura crítica da realidade; para tanto devemos ler e escrever
textos diversos em diferentes contextos, com variedade de intenções
e com diferentes destinatários. Essa construção de conhecimento deve
ser uma conquista, que resulte de uma atividade compartilhada entre
aluno e professores em uma escola que valorize a participação, e que
seja integradora e democrática, com vistas a possibilitar a
interação constante com diferentes textos e entre sujeitos. Este
então é nosso desafio.