Pensar a educação, e em especial a formação de professores, é uma
tarefa complexa e desafiante, se não poderíamos dizer que por ser
complexa já se torna por si só desafiante. Mas pensemos: que mundo
queremos? Que sociedade? Que homem? Para passarmos a compreender a
educação que temos e a que queremos?
Sem dúvida, é um convite a uma reflexão sobre a espécie de mundo em
que vivemos a ser feito por meio do exame dos fundamentos
emocionais do nosso viver (MATURANA, 2004). Assim, vamos pensar a
educação na perspectiva do amor e da solidariedade, percebendo os
fundamentos emocionais que influenciam nossas ações, ao mudar nosso
emocionar em relação ao nosso ser cultural.
Em tempos de guerra, o que mais ouvimos falar é de paz. Mas que
sentido estamos dando a paz? Paz que não significa silenciar o
outro, mas tornar o mundo mais tolerante as diferenças existenciais.
Santos (2002) já nos lembra que “temos o direito a ser iguais
sempre que diferença nos inferioriza; temos o direito a ser
diferentes sempre que a igualdade nos descaracteriza”, mas
“como realizar um diálogo multicultural quando algumas culturas
foram reduzidas ao silêncio e as suas formas de ver e conhecer o
mundo se tornaram impronunciáveis?” (SANTOS, 2002, p.30).
Este é questionamento que o autor faz quando se refere ao grande
desafio do diálogo multicultural, já que os valores universais foram
impostos a razão de uma forma de pensar e de uma classe social. Como
lembra Santos (2002, p.30): “Estamos tão habituados a conhecer o
conhecimento como um princípio de ordem sobre as coisas e sobre os
outros que é difícil imaginar uma forma de conhecimento que funcione
como princípio de solidariedade”.
Para o autor a solidariedade é uma forma de conhecimento que se
obtém por via do reconhecimento do outro enquanto produtor de
conhecimento, assim, todo o conhecimento–emancipação tem uma vocação
multicultural, pois o conhecimento–emancipação não aspira a uma
grande teoria, mas sim uma teoria da tradução que sirva de suporte
epistemológico às práticas emancipatórias, todas elas finitas e
incompletas e, por isso, apenas sustentáveis quando ligadas em rede.
A construção de um conhecimento multicultural, segundo Santos
(2002), tem duas dificuldades, o silêncio e a diferença. O silêncio
seria um bloqueio de uma potencialidade que não pode ser
desenvolvida; a diferença só poderá ser compreendida por outra
cultura por via da
teoria da
tradução
e da hermenêutica diatópica designada pelo autor, pois acredita que
só existe conhecimento e, portanto, solidariedade nas diferenças.
Como educadores temos o grande desafio de transformar nossa ação
educativa em um espaço de solidariedade e amor,
reconhecendo que todos somos singulares, desta forma, nos
aproximamos do que Maturana (1998, p.30) sugere: “vivamos nosso
educar de modo que a criança aprenda a aceitar-se e a respeitar-se,
ao ser aceita e respeitada em seu ser aprenderá a aceitar e a
respeitar os outros. O que nos torna humanos não é o racional,
mas a emoção, enfim a nossa capacidade de reconhecer o outro como um
outro legítimo, pois há o entrelaçamento cotidiano entre razão e
emoção que constitui nosso viver, onde percebemos que todo o sistema
racional tem um fundamento emocional (MATURANA, 2004).
Maturana (1998) coloca que não podemos refletir sobre a educação sem
antes, refletir sobre algo fundamental no viver cotidiano que é o
projeto de país no qual estão inseridas nossas reflexões sobre
educação. Entendemos como o autor que toda nossa ação educativa está
norteada pela visão de homem, sociedade, mundo que faz parte de nos
mesmo, consciente ou inconscientemente, o que requer de nós,
educadores, uma retomada dos fundamentos epistemológicos que
orientam nossa prática, bem como uma avaliação permanente do nosso
trabalho, por isso, sustentamos também que não há relação humana sem
uma emoção que se estabeleça como tal e se torne possível como ato,
ou seja, não é a razão o que nos leva à ação, mas a emoção.
Então a educação serviria para recuperar a harmonia que não destrói,
que não explora, que não abusa, que não pretende dominar o mundo
natural, mas que deseja conhecê-lo na aceitação e respeito para que
o bem-estar humano se dê no bem-estar da natureza em que se vive.
Maturana (1998) refere-se a educação como um processo contínuo que
dura toda a vida e por esse motivo, o central na convivência humana
é o amor, as ações que constituem o outro como um legítimo outro na
realização do ser social que tanto vive na aceitação e respeito por
si mesmo quanto na aceitação e respeito pelo outro.
Podemos dizer que este pensamento se aproxima de Santos (2002)
quando se refere a solidariedade como uma das virtualidades
epistemológicas do principio da comunidade, considerando-a como o
reconhecer a existência do outro, respeitá-lo e aceita-lo como o
outro legítimo.
De acordo com estes pressupostos dos autores, a educação teria como
função ajudar as pessoas a se respeitarem e a virem o outro como um
outro legitimo, ajudar a conviver com o amor e a solidariedade para
que ocorra o fenômeno social. O professor, a partir de então, se
perceberia enquanto construtor de conhecimento e não apenas como
aplicador/reprodutor, e seus saberes experienciados seriam
valorizados e os alunos construtores de um mundo mais digno para
todos.
Ao viabilizar este dialogo, chegaríamos próximo do que fala Santos
(2002), quando afirma que o conhecimento é uma produção
contextualizada, e depende das condições que o tornaram possíveis.
Desta forma, devemos conhecer o contexto no qual estamos inseridos,
nos questionando, como faz Maturana (1998) referindo-se ao Chile, “A
educação atual serve ao Brasil e a sua juventude?” Precisamos
conhecer e reconhecer o contexto atual da educação brasileira,
compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo, e
não esquecer que respeitar o diferente não significa sermos
obrigados a concordar com tudo o que o outro diz, mas estabelecer um
dialogo o qual implica em ouvir o que o outro tem a nos dizer.
“Para isso
devemos abandonar o discurso patriarcal da luta e da guerra, e nos
entregarmos ao viver matrístico do conhecimento da natureza, do
respeito e da colaboração na criação de um mundo que admita o erro e
possa corrigi-lo. Uma educação que nos leve a atuar na conservação
da natureza, a entendê-la para viver com ela e nela sem pretender
domina-la, uma educação que nos permite viver na responsabilidade
individual e social que afaste o abuso e traga consigo a colaboração
na criação de um projeto nacional em que o abuso e a pobreza sejam
erros que se possam e se queiram corrigir...”
(MATURANA, 1998, p.35).
Nesse sentido, os espaços educativos constituem-se em fenômenos
sociais que manifestam, com fundamento nas emoções, os pensamentos,
os conceitos e os objetivos dos grupos sociais, num processo
histórico e relacional, criando realidades que, nesta interação
constante, recria os sujeitos dela participantes. Para Maturana
(1998), este agir humano nas relações é cooperativo, pois a educação
para a competição não se constitui em um exercício de caráter
natural/biológico, em sua constituição, mas é algo construído
culturalmente. Para ele: “a competição não é nem pode ser sadia,
porque se constitui na negação do outro (...) A competição é um
fenômeno cultural e humano, e não constitutivo do biológico” (MATURANA,
1998, p. 13).
Acreditando na perspectiva do humano como integrado com
seus pares, biodiversificados, a concepção educacional de Maturana
(1998) busca resgatar a vida como centro de todos os processos
sistêmicos. Do ser humano enquanto sistema que se constitui na
cultura e na convivência. Pensa e desafia-nos a buscar uma educação
que resgate a diversidade. O lugar da vida e da amorosidade nos
relacionamentos e ações dos viventes. Um fio condutor que nos ajuda
ir refletindo a educação, a prática educativa e a mudança na
finalidade da educação, passando da busca mercadológica como
objetivo educacional para a melhor qualidade do conviver humano.
A tarefa da educação seria então, desenvolver e consolidar novas
práticas de convivência e solidariedade, capazes de enfrentar o
desafio de recuperar a diferença como relação de alteridade: relação
efetivamente construída, que tem na solidariedade o fundamento para
a construção de uma postura educativa que não vê o outro, a outra
cultura como deficiência ou como mera diferença, mas o reconhece
como legítimo outro (SANTOS, 2002). O que implica pensar a
sala de aula como espaço plural que congrega diferentes sujeitos e
diferentes culturas, que traduzem diferentes formas de organizar o
real e responder aos desafios da vida cotidiana.
Neste ensaio, tratamos algumas das questões levantadas pelos
autores; sabemos que muito ainda pode ser feito, mas iniciamos neste
momento uma reflexão sobre as contribuições epistemológicas para a
educação. Acreditamos também na possibilidade de aproximar a
biologia do amor apresenta por Maturana (1998) da solidariedade como
um dos princípios da comunidade apresentada por Boaventura Santos
(2002), entendendo que estas reflexões se fazem necessárias para que
possamos “materializar”, vivenciar e experienciar na nossa prática
educativa.
Referências
MATURANA, H. R. & ZÖLLER, G.V. Amar e brincar: fundamentos
esquecidos do humano. SP: Palas Athena, 2004.
MATURANA, H. R. Uma abordagem da educação atual na perspectiva da
biologia do conhecimento in: Emoções e linguagem na educação e
na Política. 3ª reimpressão. Belo Horizonte: Ed. UFMG,1998.
SANTOS, Boaventura de Sousa. A crítica da razão indolente: contra
o desperdício da experiência. SP: Cortez, 2002.
Licenciada em Educação Física (CEFD/UFSM), especialista em
Ciência do Movimento Humano (CEFD/UFSM), mestranda em Educação
pelo Programa de Pós-graduação em Educação (CE/UFSM). E-mail:
alexandranaidon@yahoo.com.br