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ISSN 1678-8419         última atualização em: quinta-feira, 06 de setembro de 2012 20:46:45                                               

 
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EDUCAÇÃO
Refletindo sobre a obra “Profissão Professor”: contribuições de Antônio Nóvoa.[1]    

Jamily Charão Vargas

publicado em 01/10/2008

          

          Quando pensamos a profissão docente, não conseguimos omitir a realização de uma reflexão sobre vários assuntos, diversos conceitos e uma complexidade de concepções do “ser professor” que carregamos ao longo de nosso ofício docente. Assim, muitas questões permeiam a nossa profissão, sendo importante refletir sobre a imagem e a função do professor ao longo do tempo, e como elas se estabelecem hoje. Na obra “Profissão Professor” de Antônio Nóvoa, encontramos pontos de vistas de autores, oportunizando-nos uma reflexão sobre a situação atual da profissão docente. Segundo Nóvoa (1999, p.10) “É verdade que os professores estão presentes em todos os discursos sobre a educação. Por uma ou por outra razão, fala-se sempre deles. Mas muitas vezes está-lhes reservado o “lugar do morto[2]””. Percebemos, assim, que ser professor requer uma busca constante da identidade profissional, não aceitando passivamente os papéis que a nós está instituído pelo sistema educativo. Desse modo, destaco a relevância da leitura desta obra de Nóvoa (1999) para compreendermos a situação atual da profissão docente, analisando e refletindo frente à história da educação e ao lugar ocupado pela nossa profissão ao longo do tempo.           

 

No primeiro capítulo intitulado “O passado e o presente dos professores”, o próprio Nóvoa saliente que na segunda metade do século XVIII, na Europa, ocorreu a estatização do ensino e o professor passou a ser laico e não mais religioso. Assim, buscou-se esboçar um modelo para o professor, o qual tinha um perfil próximo ao do padre. Os professores passaram a ter presença mais ativa e intensa na educação, produzindo um “corpo de saberes e de técnicas[3]” e um “conjunto de normas e valores[4]”. O Estado instituiu os professores como um corpo profissional, provocando a hierarquização, homogeneização e unificação dos profissionais docentes, tornando-nos funcionários com ações de forte intenção política, valorizando-nos devido à nossa relevância social. Dessa forma, ocorreu a profissionalização do professor e o trabalho docente passou a ser assunto de especialista, não mais sendo uma atividade secundária. Nesse momento, também ocorreu transformação na escola, que passou a ser a instituição de ascensão social. 

  

No século XIX, segundo Nóvoa (1999), ocorreu a expansão da escola pela grande procura da sociedade devido à crença na superioridade social por meio desta instituição. Juntamente a este acontecimento, ocorreu a institucionalização da formação específica e especializada para o professor: as escolas normais, que consolidaram a imagem e o estatuto do professor, mas também oportunizaram um maior controle estatal. A partir da segunda metade do século XIX, a profissão docente passou a ser marcada por ambigüidades, pois os professores não são burgueses, não são do povo, não devem ser intelectuais, devem ter instrução e relacionar-se com todos os grupos sociais. Todas estas questões reforçam a feminização, o isolamento social e a indefinição do estatuto da nossa profissão, mas por outro lado também avigoram a solidariedade interna entre os profissionais e a formação de uma identidade decente. No começo do século XX iniciou-se um maior prestígio do professor devido às ações das Associações Profissionais de Professores e à adesão a um conjunto de normas e valores.         

 

          Apesar do prestígio da profissão docente permanecer intacto e das sociedades modernas perceberem a importância de investir na educação atualmente, Novoa (1999) salienta que os professores não são valorizados de forma íntegra e digna: nosso salário, muitas vezes, não serve nem para o sustento; nossa função é múltipla; as regras para entrada no curso de formação de professores são inadequadas; a formação inicial e continuada são, muitas vezes, ineficazes. Para Nóvoa (1999) os professores, há muito tempo, vêm sofrendo de uma situação de mal-estar na profissão, que causa desmotivação pessoal com a docência, abandono, insatisfação, indisposição, desinvestimento e ausência de reflexão crítica, entre outros sintomas que demonstram uma autodepreciação do professor. Esta situação abarca a crise da profissão docente, que vem sendo bastante analisada e discutida pelos teóricos contemporâneos. 

  

         Torna-se importante pensarmos a profissão docente em relação às ações educativas do professor e do seu trabalho pedagógico. No capítulo II, “O educador e a acção sensata”, Daniel Hameline destaca que agir é um processo que requer um “desvendamento de nós”. Para Hameline (1999), não precisamos nem devemos tentar fazer o máximo na educação, pois excelência é diferente de maximização. Ele ressalta que os professores “práticos”, que produzem teses a partir da análise das suas escolas, suas práticas ou seus alunos, são questionados sobre a validade deste trabalho. Porém, na maioria das vezes estes docentes são os que mais se preocupam com a qualidade da educação de seus alunos. Há professores que buscam “modelizar[5]” suas práticas, o que empobrece suas ações, pois as padronizam de forma sistemática e metódica. O ideal, segundo o autor, não é “modelizar”, mas sim “modalizar[6]” as práticas, pois assim enriquecem as suas ações através de várias “modalidades”, ou várias maneiras de realizar o processo. 

  

É importante todo o profissional da educação ter consciência sobre as suas práticas para agir frente a elas. Isso permite a formação de um conjunto de características específicas do ser professor, que devem ser contextualizadas, abrangendo o pedagógico, o profissional e o sócio-cultural. Assim, não é fácil definir o conceito de “ser professor”, visto que a prática docente abrange essas diferentes dimensões e é determinada por várias instâncias: o coletivo social dos professores; o prestígio relativo da profissão; a posição social do professor. No Capítulo III desta obra, intitulado “Consciência e acção sobre a prática como libertação profissional dos professores”, Gimeno Sacristán considera a definição cultural da função do professor, determinada pelas necessidades sociais que a educação deve dar resposta. Dessa forma, o autor destaca que o debate social sobre a educação constrói diferentes exigências em relação à função docente, pois a evolução em que a sociedade se encontra acarreta cada vez mais atividades e responsabilidades a serem cumpridas pela escola e mais aspirações educativas a serem assumidas pelos professores. 

  

Tudo isso ocasiona a indefinição da real função do professor, pois as exigências frente à profissão abrangem aspectos de ensino-aprendizagem, de cuidados à infância, de higiene, de saúde, de administração escolar, de respeito e trabalho com os diferentes contextos sociais, econômicos e culturais, bem como com as diferentes estruturas familiares de hoje. Podemos considerar que os professores, em certos momentos, assumem o papel de psicólogos, médicos, enfermeiros, assistentes sociais, e mesmo de pai e mãe. Assumir a profissão docente hoje é um desafio, pois além desta indefinição em suas funções, Sacristán (1999) destaca que o professor não detém a exclusividade na responsabilidade de suas ações educativas, devido às influências políticas, econômicas, culturais e à desprofissionalização do professorado.  

  

Conforme Sacristán (1999, p. 68) “Os professores não produzem os conhecimentos que são chamados a reproduzir nem determinam as estratégias práticas de ação. Por isso, é muito importante analisar o dignificado da prática educativa...” O autor prossegue colocando que a prática educativa não se limita apenas às atividades dos professores, pois está interligada e depende dos vários contextos em que nos encontramos: há práticas de caráter antropológico, práticas institucionalizadas e práticas concorrentes (que são os mecanismos de supervisão). Esta diversidade de funções provoca a superabundância de saberes docentes, pois cada tarefa exige conhecimentos específicos, sendo necessária uma consciência progressiva da prática, sem a desvalorização da teoria. 

  

         Todas as mudanças sociais ocorridas nos últimos tempos também influenciam a vida pessoal e profissional dos professores, colocando-os novos desafios. Estes são explorados no Capítulo IV, “Mudanças sociais e função docente”, por José Esteve, ressaltando que as mudanças justificam a tentativa de reforma do ensino, pois embora a sociedade tenha sofrido tantas transformações, nosso sistema educacional permanece igual. Há um desgaste da imagem social do ensino e dos professores; com a passagem do sistema de ensino de elite para o sistema de ensino de massa, aumentou-se a quantidade de alunos, heterogeneizando as turmas; ensinar não é mais fácil como antigamente. Assim, encontramo-nos num ceticismo em relação à educação, pois a sociedade não acredita mais que esta pode ser melhorada ou pode melhorar o nosso futuro.  

A situação dos professores perante a mudança social é comparável à de um grupo de actores, vestidos com trajes de determinada época, a quem sem prévio aviso de muda o cenário, em metade do palco, desenrolando um novo pano de fundo, no cenário anterior. Uma nova encenação pós-moderna, colorida e fluorescente, oculta a anterior, clássica e severa. (Esteve, 1999, p.97) 

 

         Os professores sentem-se perdidos frente ao novo cenário da educação e, as reações perante este desajuste, é o que conhecemos por “mal-estar docente”, que vem sendo muito discutido por grandes teóricos da contemporaneidade, pois pode ocasionar uma crise de identidade nos professores. Nesse mal-estar docente, há diferentes reações dos professores, apontadas por Esteve (1999), como: desajustamento e insatisfação perante os problemas reais da prática; pedidos de transferência para fugir das situações problemas; inibição de envolvimento pessoal; desejo de abandono da profissão; absentismo laboral; esgotamento; estresse; ansiedade; autodepreciação; reações neuróticas; depressões. No que se refere à formação dos professores perante todas estas transformações e os problemas ocasionados por elas, é preciso identificarmos erros e incorporarmos novos modelos na formação inicial para evitar o aumento de profissionais da educação desajustados às demandas sociais, bem como articularmos estruturas de apoio aos professores.  

 

         No capítulo V, “Aspectos sociais da criatividade do professor”, Peter Woods ressalta que cada situação de ensino é única, devido ao uso da criatividade, que pode ser produto de uma experimentação ou inesperada e repentina. Mas que, em ambas as maneiras, a criatividade proporciona a capacidade de o professor elaborar seu próprio trabalho e ter satisfação e realização pessoal e profissional. A criatividade docente pode ser uma forma muito eficaz para a libertação do profissional docente na contemporaneidade, pois uma vez desenvolvida nos professores pode trazer inovações, alargando fronteiras do convencional, introduzindo ou combinando novos fatores na prática docente.           

 

         Acreditamos que é necessário refletirmos sobre o ofício docente, colocando em pauta nesta reflexão o tempo de mudanças em que estamos, ressaltando a fase da carreira em que o professor se encontra, as relações entre os profissionais docentes e o percurso profissional de cada professor. Isso é ressaltado por Maria Helena Cavaco, no último capítulo desta obra, intitulado “Ofício do professor: o tempo e as mudanças”

 

Se a escola se organizar para acolher os novos docentes, abrindo o caminho para que possam refletir e ultrapassar de forma pertinente e ajustada as suas dificuldades, se assumir colectivamente a responsabilidade do seu encaminhamento através de projetos de formação profissional, talvez contribua para inverter, por essa via, a actual tendência para a descrença generalizada que se associa à desvalorização social da imagem do professor. (Cavaco, 1999, p.168) 

 

         As escolas, juntamente com as instituições de formação de professores, têm grande poder para a transformação desta realidade em que se encontra a profissão docente, pois a parceria destas duas instâncias pode, sem dúvida, qualificar a formação do profissional para uma educação mais adequada e pertinente à sociedade contemporânea.

 

Resenha da Obra: 

NÓVOA, Antonio. Profissão professor. NÓVOA, A. (org.). Profissão professor. 2 ed. Porto: Porto Editora, 1999. 


 

[1] Jamily Charão Vargas, Licenciada em Pedagogia, Mestranda em Educação pela UFSM.

[2] O autor recorre à imagem de bridge, explicando que esta expressão refere-se ao ser que não pode interferir no jogo, mas é obrigada a expor suas cartas em cima da mesa, onde nenhuma jogada é feita sem atender suas cartas. 

[3] Organização de princípios e estratégias de ensino, quase sempre produzidos no exterior do mundo dos professores.

[4] Influenciados por crenças e atitudes morais e religiosas.

[5] Expressão utilizada por Hameline (1999) para falar da padronização a um tipo de prática.

[6] Expressão que Hameline (1999) utiliza para falar da diversas maneiras de proceder em nossas práticas.

 

 

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