A presente proposta recorre a uma verificação de como a estrutura
arquitetônica da cidade se apresenta no Ensino das Artes Visuais no
contexto contemporâneo. Desde os primórdios das civilizações, a
construção arquitetônica vincula-se com as transformações sociais e
culturais de cada época. Percebe-se assim, que a estruturação
arquitetônica da cidade em relação a nossa trajetória cotidiana,
nossos costumes, hábitos, estruturações políticas, econômicas e
culturais também se apresentam fortemente imbricadas neste processo
de transformação social. Como o apresentado por Stroeter (1986,
p.43), tem-se que na “arquitetura, não é a função que tem uma forma.
Ao contrário, a forma representa a função, pois é a forma que é
construída, é ela que vence o tempo, atravessa o século e vem até
nós”. Destarte é a forma, a estrutura arquitetônica que constitui
sua função naquele determinado período no momento em que esta forma
se modifica, modificará sua função e assim também seu tempo
histórico. Observa-se então, que cada período aborda sua organização
de acordo com os avanços e transformações ocorridas, e isso é
ressaltado novamente por Stroeter (1986, p.73) quando coloca
claramente que, “sabemos que as alterações da forma arquitetônica
são explicadas por mudanças sociais”. Sendo assim, pontuamos a
importância da imagem arquitetônica não apenas pelo seu valor
estético, mas como uma forma de compreender e valorizar o papel
social desta na vida cultural dos sujeitos.
Diante deste contexto de transformações presenciadas na cultura e
organização espacial, tem-se que o ensino das Artes Visuais
apresenta-se como mediador no processo de compreensão das
transformações do meio arquitetônico e social. Assim, a Arquitetura
local enquanto espaço constituído e matericamente existente
possibilita momentos vivenciados/visualizados que podem ser
analisados, discutidos e estudados dentro do contexto escolar,
propiciando aos alunos um maior contato com as transformações da
cultura visual na contemporaneidade. Para que isso aconteça, o
imaginário social e cultural do aluno precisa ser desconstruído e
reconstruído constantemente a fim de não estagnar em valores e
interpretações que há tempos se encontram em processo de
transformação. Destarte, dialogar, discutir as
vivências/experiências dos educandos com o conteúdo proposto faz com
que eles sejam autores/atores de suas próprias concepções e valores.
Tem-se então, que o espaço que nos rodeia está fortemente imbricado
aos signos e significados da sociedade, pois é esta sociedade que
nos aponta os espaços dominantes, intensificando-os e difundindo-os
no ambiente social. Assim, é de extrema relevância entender os
valores que são atribuídos ao espaço arquitetônico pela sociedade
local e, a partir disso, englobá-los na prática educativa,
relacionando-os com as teorias e práticas do ensino das Artes
Visuais. Partindo destas constatações, objetivou-se nesta pesquisa,
verificar como a Arquitetura enquanto imagem e espaço cultural e
artístico está sendo trabalhada pelos professores da disciplina de
Artes Visuais nas escolas de Ensino Médio da cidade de Santa Maria/
RS, bem como, verificar qual a relação estabelecida por estes
professores entre a cultura e história das construções
arquitetônicas com as tecnologias e inovações contemporâneas. Frente
a isso, objetivou-se ainda, detectar quais as maiores dificuldades
apresentadas por estes professores ao tratar desta temática em suas
aulas.
Para que fosse realizado este mapeamento, foram realizadas
entrevistas semi-estruturadas com três professoras de diferentes
escolas de Santa Maria (uma escola particular, uma municipal e uma
estadual). Desta forma, a pesquisa estruturou-se a partir de uma
abordagem qualitativa onde as falas e as discussões foram sendo
articuladas através de reflexões sobre o assunto proposto não sendo
colocado de forma rígida e dando ênfase ao que Lüdke e André (1986,
p.12) nos dizem ”O significado que as pessoas dão às coisas e à sua
vida devem ser focos de atenção do pesquisador”. Apresentou-se
assim, um caráter dialético e de inter-relação do assunto com os
fenômenos sociais e culturais da comunidade escolar em questão.
O levantamento dos dados da pesquisa realizou-se então, através de
entrevistas semi-estruturadas, onde segundo Triviños (1987, p.146),
este tipo de entrevista
parte de certos
questionamentos básicos, apoiados em teorias e hipóteses que
interessam à pesquisa, e que, em seguida, oferecem amplo campo de
interrogativas, fruto de novas hipóteses que vão surgindo à medida
que se recebem as respostas do informante.
Sendo assim, este processo não foi um processo acumulativo e linear,
pois não visou somente uma sistematização dos fatos ao encontro dos
quais os dados foram construídos. Contrariamente, foi um processo
interativo de idas e voltas nas diversas etapas da pesquisa e na
interação com seus sujeitos.
Desvelando o caminho percorrido
De posse dos dados obtidos na pesquisa, podem-se observar pontos
relevantes que possibilitam algumas reflexões frente aos objetivos
do estudo. Como primeira categoria elencada frente às colocações das
professoras entrevistadas, pode-se destacar as questões
metodológicas, ou seja, como esta temática é abordada no
contexto da sala de aula. Ao encontro desta categoria,
evidenciou-se certa regularidade nas respostas. Tem-se que, a
Arquitetura, por ser uma das linguagens das Artes Visuais e, em
alguns casos, o suporte de outras linguagens, muitas vezes fica
relegada a um segundo plano, porém não deixa de ser trabalhada.
Neste sentido uma das professoras referenda sua prática dizendo
“nós passamos para estes alunos slides que temos aqui na escola, e
estes slides são próprios da Arquitetura, assim eu vou falando a
partir deles sobre a temática. E, quando eles saem da escola eu
solicito que, no caminho pra casa- no ônibus, que eles observem toda
Arquitetura, qualquer tipo de construção. Na aula seguinte a gente
comenta o que cada um viu, e retoma os slides demonstrando o que
eles estão vendo, como era antigamente, e alguns anos atrás, e como
é hoje”.
Embora seja um formato de aula bastante estruturalista, onde o
professor apresenta o conteúdo de forma expositiva, não se pode
negar que há uma preocupação no observar, no interpretar e instigar
o olhar do aluno para as coisas que às vezes parecem banais. Neste
limiar, Martins (2007, p.30) nos trás que “valores culturais são
disseminados e estruturas sociais ganham vida a partir de espaços,
movimentos, silêncios e vozes que interagem informando e formando”.
Pode-se assim verificar, que cada construção, cada ambiente e cada
imagem tomam um valor próprio e uma identidade que se deve analisar
e interpretar de acordo com a realidade social, cultural e
individual. E, desta forma então, privilegiar o olhar crítico
reflexivo em relação aos acontecimentos e transformações da imagem e
do espaço contemporâneo. Este poder visualizar a imagem
arquitetônica torna-se um dos fatores de suma importância para o
“sucesso” da ação interpretativa e reflexiva. Tem-se de fazer, no
entanto, que os conhecimentos culturais e artísticos operem de forma
colaborativa para a reflexão, para pensar e questionar sobre o nosso
cotidiano e nossas vivências tornando-se uma mediação para a
interpretação e compreensão social.
Percebeu-se também, nesta conversa com as professoras, a necessidade
prática, de concretizar, de colocar a estrutura e o espaço
arquitetônico em uma representação real/tridimensional ou
bidimensional, pois segundo elas, é a partir da concretização que se
pode apreender e refletir sobre o conhecimento apresentado, ou seja,
buscar através do observar e do interpretar novas possibilidades de
criar. Com isso, flui a necessidade de utilizar materiais e instigar
o imaginário através de práticas sobre a temática.
Observa-se aqui, a inserção de um material da própria cultura do
jovem - a câmara fotográfica digital - o uso de uma tecnologia
acessível e instigante do mundo atual. Martins (2007, p.37) coloca
que, “são muitas as maneiras de quebrar e de construir o saber
artístico e visual. A idéia de ruptura, embora incômoda, é presença
contínua na história da cultura e da arte.” É assim então, que
através desta e de outras tecnologias que a comunicação visual passa
a ver a imagem de outras formas, extrapolando a barreira do real.
Tem-se com isso, a visualização dos bens locais de formas
diferenciadas, possibilitando uma ação inventiva e criativa sobre a
imagem. E, como diz Pimentel (1999, p.40) “sente-se que o mundo não
vive somente lá fora, o outro não é distante do eu, o tempo não é
linear, a história não é passado, faz-se agora, diante dos nossos
olhos, mesmo quando tão distante fisicamente.”
No entanto, como assinala Teixeira (2005, p.195) apesar das
“inúmeras possibilidades educativas, estas exigem de nós um conjunto
amplo de competências pedagógicas para que se possa explorá-las”. O
que, em grande medida, torna-se um fator determinante na prática
pedagógica dos professores. No entanto, é a partir do uso destas
tecnologias e do contato físico com o meio estudado que se pode
partir para possíveis discussões e questionamentos em torno das
opiniões e dos valores dos alunos. Nisso, Martins continua sua
ressalva ao colocar que graças a essas rupturas/descontinuidades
pode-se argumentar que já não existem certezas epistemológicas.
No segundo desígnio categórico desta pesquisa, podemos perceber
questões referentes à Formação dos profissionais da área de
Artes Visuais. Neste trilhar, percebeu-se já em uma primeira
instância, a repercussão da trajetória formativa na prática
educacional, onde se pode visualizar que uma das professoras
apresenta um trabalho bastante minucioso voltado para trabalhos
manuais e técnicos. Ao encontro desta percepção, relata com muito
saudosismo suas experiências enquanto aluna de uma escola técnica.
Apresenta-se então, a questão da valorização da prática em
detrimento da dialética e da discussão e, hoje em muitos casos, até
o detrimento da prática por falta de espaços físicos e tempo
disponível para a realização das propostas, o que recai em uma ação
com muitas problemáticas. Reforça-se assim, a necessidade da
formação conjunta do conhecimento e, como diz Pimentel (1999, p. 49)
“Professor, aluno e atividade devem ter uma relação dinâmica, devem
ser/ter experiências compartilhadas de construção de conhecimentos”,
e com isso, desmistificar a idéia de que o professor é quem sabe
tudo e, assegurar a afirmação de Coelho (apud PIMENTEL, 1999
p. 71):
Nenhuma
idéia nos assegura a salvação,
Nenhuma
idéia é portadora de uma verdade que sabe,
Nenhuma
idéia nos dispensa de sermos nós próprios
A criarmos
nosso modelo e itinerário de salvação.
Em geral, a formação inicial apenas instiga algumas curiosidades e
somos nós posteriormente como profissionais quem temos que definir
melhor o que desejamos em termos de conhecimentos. No entanto,
tem-se de estar conscientes de que sempre haverá conhecimentos a
serem pesquisados em nossas práticas e, é isto que irá possibilitar
e incitar novos aprofundamentos tornando-nos
professores/pesquisadores. Esta necessidade de pesquisar e de ir ao
encontro do que não dominamos enquanto conteúdo encontra-se cada vez
mais presente, devido às inovações tecnológicas e midiáticas as
quais nossos jovens e crianças estão em contato. Isso vem ao
encontro da colocação de Teixeira (2005), onde, partindo destas
questões inovadoras há uma insegurança do professor, pois implica em
uma maior carga de trabalho, de questionar-se e qualificar-se. Neste
sentido então, há a acomodação e a falta de interesse de muitos
professores na área do ensino. É muito mais fácil e mais cômodo
apresentar “o” de sempre do que estar discutindo, questionando-se e
construindo novos conhecimentos com os alunos.
Destarte, percebe-se no Ensino das Artes Visuais a necessidade de
fazer com que a valorização cultural e histórica da Arquitetura e
das imagens artísticas sejam analisadas e postas em correlação com
os períodos atuais, com a nossa arte e a nossa estrutura
arquitetônica. Estas relações, conforme colocado anteriormente são
fatores, que aparecem na estrutura da organização educacional destes
professores, ao ponto em que buscam fazer relação das imagens da
arquitetura histórica com as imagens do cotidiano do aluno
estabelecendo uma relação de ensino que, como coloca Hernández
(2000, p.53):
Não se trata de
uma aproximação às produções visuais das diferentes culturas e
épocas buscando o sentido da beleza apresentado pelo idealismo
estético do século XVIII, mas sim de conhecer o que vêm que história
nos conta e contaram estas obras a outros indivíduos de épocas e
lugares, e conhecer a cultura da qual procedem.
Ao encontro disso, Martins (2005, p.143) corrobora ao colocar que:
A imagem é uma elaboração complexa, prenhe de significados e
interpretações, que depende de uma rede de informações, convenções e
interações sociais que não operam de forma linear. Os significados
não são fixos e não existe uma lógica especial que permita
interpretação determinante de seus sentidos. O sentido, enredado em
camadas de sensações, acepções, torna-se, por isso mesmo
multireferencial.
Sendo assim, emerge a necessidade da articulação entre a história da
Arquitetura e das Artes como precursoras para um entendimento e
reflexão acerca das modificações e significados atribuídos a estas
representações atuais.
Finalizando na objetivação dos fatos analisados, têm-se uma
categoria de suma importância para a atuação do profissional, as
Dificuldades da prática educativa. No relato das professoras
vê-se que uma das maiores dificuldades encontra-se no exercício da
escuta, no observar, em estar atento ao que nos cerca, em arriscar
outros caminhos que não sejam aqueles já trilhados e dos quais já se
conhece a linha de chegada. Trabalhar com a Cultura Visual ainda
assusta aos professores entrevistados. Trabalhar com a arte local,
regional e brasileira, ainda é custoso. Romper o mito de que somente
os artistas famosos são os estrangeiros, também é uma grande
dificuldade. Porém há uma questão ainda maior, percebe-se que, além
da desvalorização da cultura e arte local, há uma grande
desvalorização no ensino das Artes Visuais, o qual pode ser
objetivado pelo curto período de tempo destinado às atividades
artísticas, e esta é uma questão que foge do controle do professor,
é uma questão da gestão escolar, de instâncias superiores com as
quais se tem de lutar. No entanto, estas questões são bem
problemáticas ao ponto em que, como enfatiza Bourdieu (1974), a
escola limita-se a exercer um papel de reprodução, pois o ensino, a
forma educativa a qual as instituições educacionais se estruturam
para a formação cidadã, nada mais é, do que uma caução facultativa
que serve para legitimar a herança cultural e social que já se
encontra no contexto aí presente. Desta forma, podemos perceber
claramente o hábitus educacional inculcado em nossas instituições de
ensino onde a mudança e as inovações feitas pelas disciplinas ditas
“menos importantes”, são vistas como algo indesejável, perigoso,
pois poderá afetar a estrutura rígida e deliberadamente organizada
das disciplinas técnicas que há séculos vem reinando sobre o sistema
social e educacional.
Todavia, apesar destas colocações, a qual se pode perceber
claramente em nosso sistema educacional, Pimentel (1999, p. 128)
enfatiza que:
Para garantir
boa prática e bons standarts, é necessário não só repetir boas
experiências, mas ir além delas e possibilitar novas, o que é mais
difícil quando o sistema em torno da educação em Arte é opressivo.
Outra dificuldade apresentada pelos sujeitos da pesquisa vai ao
encontro da pouca disponibilidade de tempo para pesquisar novas
atividades que privilegiem e atendam os interesses sociais e
culturais do período contemporâneo em especial, as novas tecnologias.
Assim, frente a estas proposições pode-se fazer uma metáfora do
ensino das Artes Visuais na contemporaneidade, como processo de
estruturação arquitetônica colocado por Broand. Destarte, como
apresenta Broand (1991), com o extraordinário crescimento das
cidades, que aconteceu no período do fim do século XIX e início do
século XX, proporcionou após a Segunda Guerra, um grande mercado de
trabalho para os arquitetos. Estes passaram a ter possibilidades de
criação em campos mais variados de edifícios, apartamentos e assim
fazer seu setor se desenvolver. As grandes cidades passaram a
assumir um aspecto caótico, proveniente de justaposições
desordenadas de edifícios concebidos isoladamente e não em função de
um conjunto. Esta colocação apresenta-se como uma metáfora que
reporta a situação a qual se encontra o ensino das Artes Visuais na
contemporaneidade, onde os professores de Ensino Médio, aqui em
específico os sujeitos da pesquisa, muitas vezes se sentem inseguros
em trabalhar novas propostas e voltam-se apenas a comparações e
apresentação de algo com o qual se sentem seguros. Cabe então, a
flexibilidade do professor em, mesmo não tendo um posicionamento
definido, trazer estes questionamentos, estas problemáticas caóticas
e às vezes incompreensíveis do mundo contemporâneo para discutir,
dialogar, construir um novo conhecimento e um posicionamento
coletivo junto ao aluno.
Ao tentar sistematizar os dados deste estudo, contatou-se que,
apesar das dificuldades frente ao ensino das Artes Visuais,
percebe-se o interesse dos professores e dos alunos pela temática da
construção arquitetônica enquanto espaço e imagem da cultura visual.
Isso é perceptível uma vez que todos os sujeitos pesquisados
reconhecem a necessidade e a importância desta temática para a
compreensão e formação do sujeito enquanto ser social conhecedor de
seu espaço arquitetônico, de sua cultura e de sua historicidade.
Contudo, conscientes de que a escola não pretende e não objetiva a
formação de artistas verifica-se a necessidade de ir a fundo à busca
de fazer com que ela contribua para a formação cidadã do ser humano
enquanto sujeito consumidor e construtor de sua cultura visual.
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