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ISSN 1678-8419                                                                                                           


 
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Educação

Currículo da Educação Infantil: uma história de lutas e avanços

Beatriz Cristina Carvalho Cintra, Cláudia Maria de Gois Vilarinho, Rafaela Rodrigues Nogueira, Fernanda Duarte Araújo Silva

21/01/2012

                                                                 

   

Currículo da Educação Infantil: uma história de lutas e avanços

                                                    Beatriz Cristina Carvalho Cintra*

Cláudia Maria de Gois Vilarinho**

Rafaela Rodrigues Nogueira***

Fernanda Duarte Araújo Silva****

 

 

Resumo

O presente trabalho o objetivo de abordar a concepção e implementação de políticas públicas na elaboração de um currículo na perspectiva de compreender como se constitui a formação do mesmo na Educação Infantil, e quais os entraves que dificultam a construção de um currículo que realmente possua a identidade dos educadores infantis. Para tanto, abordaremos os documentos que definiram e legitimaram a educação infantil como primeira etapa da educação básica, quais as contribuições teóricas e concepções presentes no campo curricular, bem como a trajetória de luta para a superação entre o cuidar e educar, do campo assistencial e filantrópico, que instituiu a Educação Infantil no campo institucional.

Palavras chaves: Currículo; Educação Infantil; identidade.

Abstract

This paper focuses on addressing the design and implementation of public policies in the development of a curriculum with a view to understanding how the formation is the same in early childhood education, and what are the obstacles to building a resume that actually has the identity of early childhood educators. To this end, we discuss the documents that defined and legitimized early childhood education as the first stage of basic education, which the theoretical contributions and conceptions in the camp curriculum, and the record of struggle to overcome between care and education, assistance and field philanthropic, who brought early childhood education to the institutional field.

Keywords: Curriculum, Early Childhood Education; identity.

 

A história da educação de nosso país se configura como uma história de exclusão no que diz respeito à educação e focando especificamente a Educação Infantil podemos constatar essa afirmação por meio de sua trajetória. Inicialmente a mesma se constitui como um direito das crianças filhas de mães trabalhadoras, ou seja, se relacionava a questões de classe social.

Na década de 1970 a Educação Infantil assumiu um caráter compensatório com o intuito de suprir as necessidades sociais, culturais e econômicas, assim como, às linguísticas e afetivas, sendo concebida posteriormente como uma etapa que poderia solucionar os problemas de fracasso escolar da época.

Somente com a Constituição de 1988, houve o reconhecimento da Educação Infantil como dever do Estado, processo que contou com um amplo movimento de luta de todos os segmentos sociais, sendo esses, movimentos comunitários, movimentos de mulheres, movimentos de redemocratização do país e dos profissionais da educação, culminando em um ordenamento legal a ser regulamentado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 9394/96, instituindo uma série de inovações, dentre elas a inserção de creches e pré-escolas ao sistema de ensino, regulamentando a Educação Infantil como a primeira etapa da Educação Básica.

A Educação Infantil sendo considerada a primeira etapa da Educação Básica, direito de todas as crianças independente de classe social, ocasionou uma multiplicidade de estudos e pesquisas com intuito de nortear o trabalho dos docentes e das políticas educacionais, no intuito de dar legitimidade a essa etapa de ensino e construir a identidade de seus profissionais.

Segundo Nunes (2009), a identidade era multifacetada, oscilava entre o cuidar e o educar, produzindo uma dicotomia no processo educacional, que relegava ás crianças menores ao assistencialismo e a adaptação ao currículo pensado para crianças maiores. Pensando nessa concepção da criança como um sujeito de direitos, torna-se necessário compreende-la na perspectiva de uma educação que contemple seu desenvolvimento integral.

Essa proposta de educação se encontra explicitada nos Referenciais Curriculares para a Educação Infantil (RCNEI), publicados e distribuídos às escolas brasileiras, a partir de 1998, com o objetivo de apontar metas de qualidade que contribuíssem para que as crianças tivessem um desenvolvimento integral de suas identidades, capazes de crescer como cidadãos cujos direitos à infância são reconhecidos. Visando, também, contribuir para que possam realizar, nas instituições, o objetivo socializador dessa etapa educacional, em ambientes que propiciem o acesso e a ampliação, pelas crianças, dos conhecimentos da realidade social e cultural.

Desse modo, os RCNEI destacam quais os princípios para um ensino significativo onde as crianças podem se desenvolver e construir conhecimentos ao mesmo tempo em que se tornam autônomas. Esse documento está dividido em três volumes, sendo eles: Introdução, Formação Pessoal e Social e Conhecimento de Mundo (BRASIL, 1998).

Vale ressaltar a importância desse documento, pois se constitui na primeira proposta curricular oficial destinada igualmente à creche e à pré-escola, com o intuito de apresentar orientações para o desenvolvimento do trabalho na Educação Infantil.

Encontramos também as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil, aprovadas em 07/04/1999 e que possuem caráter mandatório, diferentemente dos RCNEIs, que se constituem apenas em um documento orientador do trabalho pedagógico e assim orientam a formulação de políticas, bem como a formação de professores e demais, profissionais. (BRASIL, 1999).

As Diretrizes objetivam especificar os princípios e orientações para organizar e articular os sistemas de ensino, visando o desenvolvimento e avaliações das propostas pedagógicas, constituindo-se como um dispositivo que poderá estimular o diálogo entre os elementos culturais de grupos marginalizados e a ciência, a tecnologia e a cultura dominante, bem como a articulação das necessidades, e chamando a atenção para o diverso e plural.

Entre as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil, Oliveira (2007) destaca algumas questões que abordam um diálogo sobre a constituição de um ambiente de crescimento e aperfeiçoamento humanos que contemplem as crianças, suas famílias e a equipe de educadores:

As novas DCNEIs consideram que a função sociopolítica e pedagógica das unidades de Educação Infantil inclui (Resolução CNE/CEB nº 05/09 artigo 7º): a. Oferecer condições e recursos para que as crianças usufruam seus direitos civis, humanos e sociais. b. Assumir a responsabilidade de compartilhar e complementar a educação e cuidado das crianças com as famílias. c. Possibilitar tanto a convivência entre crianças e entre adultos e crianças quanto à ampliação de saberes e conhecimentos de diferentes naturezas. d. Promover a igualdade de oportunidades educacionais entre as crianças de diferentes classes sociais no que se refere ao acesso a bens culturais e às possibilidades de vivência da infância; e. Construir novas formas de sociabilidade e de subjetividade comprometidas com a ludicidade, a democracia, a sustentabilidade do planeta e com o rompimento de relações de dominação etária, socioeconômica, étnico racial, de gênero, regional, linguística e religiosa (OLIVEIRA, 2007, p.3).

 

Percebemos assim que as Diretrizes Curriculares Nacionais para Educação Infantil norteiam o trabalho das políticas públicas em sua elaboração, bem como a formação de educadores e de todos os sujeitos envolvidos no contexto educacional, contribuindo para o desenvolvimento e formulação de documentos legais que servirão para esclarecimento de todo trabalho pedagógico desenvolvido pela instituição. Para além de todas essas considerações, vale destacar que as DCNEIs, se constituem legalmente como o principal instrumento a garantir uma Educação Infantil de qualidade.

Concluímos que houve uma evolução no que refere á essa área de estudo, a partir do momento que são elaboradas leis com intuito de garantir a educação de crianças pequenas. O reconhecimento desse direito afirmado na Constituição de 1988, no Estatuto da Criança e do Adolescente e na LDB de 1996 está explícito nas Diretrizes Curriculares para a Educação Infantil e no Plano Nacional de Educação.

É importante reafirmar que a história da construção de uma Educação Infantil de qualidade no Brasil já percorreu muitos caminhos, já contou com muitos protagonistas, já alcançou resultados significativos e já identificou obstáculos a serem superados. [...] Para tanto, faz-se necessário obter consensos a serem sempre revistos e renovados, de forma democrática, contemplando as necessidades sociais em constante mudança e incorporando os novos conhecimentos que estão sendo produzidos sobre as crianças pequenas, seu desenvolvimento em instituições de Educação Infantil, seus diversos ambientes familiares e sociais e suas variadas formas de expressão (BRASIL, 1999 p.10).

 

Diante disso, há a preocupação de vários fatores como a elaboração de propostas de trabalho para essa faixa etária. Nessa linha CRADY (2011, p.25) destaca que a tarefa imediata para as Prefeituras é "[...] estabelecer diretrizes curriculares que nortearão os planos pedagógicos das instituições".

Percebemos que, muitas são as questões a serem pensadas para a elaboração de um currículo. Nunes (2009) destaca algumas:

Como concebe suas funções? Como organiza o tempo e o espaço de convivência das crianças? Como considera suas necessidades e singularidades? Que práticas culturais e sociais desenvolvem? O que crianças produzem nas suas ações e interações? Que subjetividades emergem dessas interações institucionalizadas? (NUNES, 2009, p.15).

 

Estes questionamentos pressupõem um atendimento de qualidade, sendo esse um acolhimento que contemple as necessidades das crianças tanto no aspecto do cuidar, como do educar, bem como investimentos nas questões administrativas e pedagógicas dos sistemas de ensino. Os recursos materiais e humanos são fundamentais para a elaboração de uma proposta que possua um olhar prudente e compassivo às crianças pequenas, que hoje sentem a necessidade de uma educação institucionalizada. Diante disso concordamos com Nunes (2009) ao afirmar:

Se a instituição da infância se faz necessária, é preciso ter o cuidado de fazer dessas instituições lugares de respeito e de valorização das crianças pequenas e suas formas de pensar, sentir e expressar-se, de convivência, de múltiplas interações e abertura para o mundo, de acesso a diferentes produções culturais, de humanização e de promoção da equidade (NUNES, 2009, p.32).

 

Faz-se necessário então avaliarmos as propostas pedagógicas e curriculares das instituições de Educação Infantil assim como as orientações da Secretaria de Educação para analisarmos qual a concepção de criança e em que medida temos condições reais de elaborar um projeto político de sociedade, de educação e de cultura que envolva todos os aspectos mencionados no texto, afinal, entendemos que discutir sobre as propostas pedagógicas das secretarias e das instituições precedem a elaboração dos projetos políticos e pedagógicos das escolas e dos sistemas.

 

Algumas considerações...

Por meio de estudos bibliográficos realizados até aqui constatamos que muitos pesquisadores definem o conceito de currículo de forma diferente. Para Kishimoto (1994), currículo seria a busca de um caminho, uma orientação. Seguindo o mesmo critério, Oliveira (2007) define currículo como um balizar de ações e de acordo com Silva (1995) para além de percurso e relação de poder, currículo é constitui-se como documento de identidade.

Assim, podemos afirmar que o termo currículo pode ser compreendido por meio de distintas definições se diferenciando de outros termos tais como, proposta curricular, projeto curricular e programa curricular, entre outros. Pode também ser definido como orientador da ação escolar sendo a articulação entre as teorias do desenvolvimento infantil e a prática pedagógica.

Vale ressaltar que ao discutirmos a construção de um currículo para a Educação Infantil estamos contemplando tanto a creche (0 a 3 anos) e pré-escola (4 e 5 anos), mas o que os estudos na área apontam de forma geral é que a elaboração do currículo para a faixa etária menor fica na dependência de um currículo para crianças maiores e não consideraram suas especificidades.

Diante dessas premissas, Nunes (2009) destaca vários aspectos a serem considerados na elaboração e avaliação de propostas pedagógicas para a Educação Infantil, entre elas: a organização e manutenção do espaço para construção coletiva, a interação entre as crianças, as famílias e os profissionais, a organização da rotina, superação da função de preparar para o ensino fundamental, formação de identidades como eixo privilegiado de trabalho, valorização do ato de brincar e as brincadeiras, a presença da literatura infantil como arte e não como estratégia para ensino de conteúdos estabelecerem diferentes possibilidades de expressão, os registros (verbais e não verbais) como planejamento e avaliação do trabalho.

Por fim, destacamos a importância da formação continuada de professores, pois desse processo depende, a construção da proposta pedagógica e, principalmente, o desafio de relacionar concepções teóricas com as questões do cotidiano e das práticas com as crianças. No processo de formação, podemos consolidar os princípios éticos, políticos e estéticos da educação infantil (NUNES, 2009, p.46).

 

Diante dessas questões compreendemos a importância de conhecer todo o processo de luta que envolve a Educação Infantil como direito de todas as crianças, independente de classe social, etnia, gênero e cultura, pautando-se no princípio da equidade, na perspectiva de oferecer uma educação capaz de desenvolver uma aprendizagem significativa a todos os pequenos que anseiam por uma escola viva, que traga possibilidades, desafios e conquistas, na busca da formação de sujeitos fazedores de história.

 

Referências Bibliográficas

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, 1988.

_______. Lei de Diretrizes e Base da Educação Nacional. Brasília, 1996.

_______. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil: introdução, Brasília, DF: 1998.

_______. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, Brasília. DF: 2009.

CRAIDY, C. M. Educação Infantil e as novas definições da legislação. In:( autor)Educação Infantil: pra que te quero? Porto Alegre: Artmed, 2011. p. 67-69.

KISHIMOTO, T. M. Currículo de educação infantil: creches e pré-escolas. Significado do termo currículo, Currículo de educação infantil: critérios de qualidade e instrumentos de implementação. Texto encomendado pela Coordenação-Geral de Educação Infantil do MEC. Dez, 1994.

NUNES, M. F. R. Educação Infantil: Instituições, funções e propostas. In: CORSINO, P. (org.). Educação Infantil: cotidiano e políticas. Campinas, SP: Autores Associados, 2009. p. 33-47.

OLIVEIRA, Z. R. de. Currículo Infantil: Fundamentos e Métodos. 3 ed. - São Paulo: Cortez, 2007.

SILVA, T. T. da. Currículo e identidade social: territórios contestados. In: SILVA, T. T. da (org.). Alienígenas na sala de aula. Petrópolis: Vozes, 1995. p. 190-207.

*Aluna do Curso de Pedagogia da Faculdade de Ciências Integradas do Pontal (FACIP-UFU). biacarvalho2006@yahoo.com.br

**Aluna do Curso de Pedagogia da Faculdade de Ciências Integradas do Pontal (FACIP-UFU). claudiagoisvilarinho@uol.com.br

***Aluna do Curso de Pedagogia da Faculdade de Ciências Integradas do Pontal (FACIP-UFU). rafaelarnogueira@gmail.com

****Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Uberlândia, especialista em Docência no Ensino Superior e graduada em Pedagogia. Professora da Universidade Federal de Uberlândia, Campus do Pontal.

 

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Beatriz Cristina Carvalho Cintra é Aluna do Curso de Pedagogia da Faculdade de Ciências Integradas do Pontal (FACIP-UFU). biacarvalho2006@yahoo.com.br

Cláudia Maria de Gois Vilarinho é Aluna do Curso de Pedagogia da Faculdade de Ciências Integradas do Pontal (FACIP-UFU). claudiagoisvilarinho@uol.com.br

Rafaela Rodrigues Nogueira é Aluna do Curso de Pedagogia da Faculdade de Ciências Integradas do Pontal (FACIP-UFU). rafaelarnogueira@gmail.com

Fernanda Duarte Araújo Silva é Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Uberlândia, especialista em Docência no Ensino Superior e graduada em Pedagogia. Professora da Universidade Federal de Uberlândia, Campus do Pontal.

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