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Enfoque Democrático na Gestão Escolar:
(in) Viabilidades Constitutivas de Cidadania?
Gabriel dos Santos Kehler *
Joacir Marques da Costa **
Resumo
Este estudo debruça-se em uma discussão qualitativa de cunho
crítico sobre os princípios básicos que orientam os sentidos de
democracia da gestão escolar, lidos a partir da elaboração de um
referencial que substancia os desafios da constituição da escola
cidadã sob bases burguesas. Assim, a perspectiva
crítica-reflexiva coaduna o estabelecimento de análise sobre as
relações entre o macro (sistemas de ensino) e micro (escola), em
que ambos convergem por apresentar um mesmo núcleo de sentido: a
gestão escolar democrática e a reestruturação produtiva do
trabalho no contexto social contemporâneo se imbricam, gerando
níveis paralelos de flexibilização, como forma de promover a
efetivação da cidadania.
Palavras-chave:
Cidadania. Democracia. Gestão Escolar. Reestruturação Produtiva
do Trabalho.
ABSTRACT
This study focuses on a qualitative discussion of critical slant
on the basic principles that guide the directions of the
democracy of school management, read from the elaboration of a
framework that challenges the constitution of the citizen school
grounds under bourgeois bases. Thus, the critical and reflexive
analyses conciliates to the establishment of relations between
the macro (school systems) and micro (school) in which both
converge to present a common core of meaning: the democratic
school management and the productive restructuring of work on
the social contemporaneous context, creating parallel levels of
flexibility, in order to promote effective citizenship.
Keywords:
Citizenship. Democracy. School Management. Productive
Restructuring of Work.
Considerações Iniciais
A discussão aqui apresentada sob análise das categorias
cidadania, democracia, gestão escolar e reestruturação produtiva
do trabalho no contexto da sociedade contemporânea têm sido
debatidas no contexto educacional vigente. Ademais, é visível
nos discursos de grande parte de professores/gestores um viés
naturalizado
sobre as mesmas, delimitando a mera organização
gerencial das escolas, em que muitas vezes não se analisa
criticamente o teor da reprodução desses discursos,
materializados por políticas públicas educacionais[i]
de ordens neoliberais.
Ademais, a proposta se coaduna a uma perspectiva
crítica-reflexiva de cunho bibliográfico. Embora se trate de uma
análise sobre a relação entre o macro (sistemas de ensino) e
micro (escola) ambos convergem por apresentar um mesmo núcleo de
sentido: a gestão escolar democrática e a reestruturação
produtiva do contexto social contemporâneo se imbricam, gerando
níveis paralelos na flexibilização do trabalho, como forma de
promover a efetivação da cidadania.
Para tanto, nos textos legais para/na educação brasileira
pode-se observar desafios à gestão escolar no seu âmbito de
efetivação, o que nem sempre revela o mesmo nível de
comprometimento. Tal aspecto pode ser observado, desde a
Constituição Federal de 1988, e especificamente no âmbito
educacional a partir da Lei de Diretrizes e Bases - LDB 9394/96,
que trazem a democracia como princípio à constituição da
cidadania. Logo, esta, na ótica do capitalismo no seu estágio
atual, consiste em uma cidadania burguesa, outorgando à escola
em seu âmbito de gestão, a responsabilidade em flexibilizar-se
para atender as premissas da reestruturação produtiva do
trabalho. Esta em ascensão nos anos 1990, passa por um processo
de metamorfose e com isso a
educação escolar “precisa” ajustar-se a tais necessidades. Nesse
sentido, é ingenuidade negar que há ditames ideológicos nessa
movimentação histórica entre a gestão escolar e democracia na
(re) configuração do plano burguês de sociedade.
Metodologicamente, este estudo embasa-se em uma discussão
qualitativa de cunho crítico sobre os princípios básicos que
orientam os sentidos de democracia da gestão escolar, lidos a
partir da elaboração de um referencial que substancia os
desafios da constituição da escola cidadã sob bases burguesas.
Dessa forma, foi necessário abordar questões de textos legais,
como os já citados, para compreender como as políticas públicas
educacionais estão sendo incisivas na (re) organização e
entendimento basilar dos discursos dos próprios professores
sobre a organização da gestão escolar democrática.
Cidadania burguesa e reestruturação produtiva do trabalho:
tendências e tensões na/para a gestão escolar
Constituir possibilidades de cidadania no contexto imbricado no
social é um desafio para além do fenômeno metabólico do contexto
macro-estrutural da sociedade capitalista contemporânea. Nessa
perspectiva, o imperativo que opera, consiste em uma democracia
liberal[ii],
propagando-se o discurso hegemônico de que “todos os indivíduos
são compreendidos como cidadãos e possuem as mesmas
oportunidades na esfera social, pois, afinal, todos são iguais
perante a lei e possuem seus direitos democráticos assegurados”.
Argumentos como estes, revelam uma falta de reflexão, que pode
ser explicada pela naturalização dos conceitos de cidadania e
democracia. Contudo, a própria LDB 9394/96 no Art. 14º, define
para a gestão democrática: “Os sistemas de ensino definirão as
normas da gestão democrática do ensino público na educação
básica, de acordo com suas peculiaridades”. Todavia, cabe aqui
ressaltar que o Estado[iii]
cumpre a função de regular e submeter à escola ao seu poder
através de suas intenções político-ideológicas, materializadas
através das políticas públicas neoliberais. Então, faz-se mister
indagar-se para que e para quem se constituiu essa gestão
democrática escolar?; Que tipo de democracia se quer constituir?
E afinal, o que se compreende por evidências orgânicas de
democratização na escola?
Nesse sentido, pode-se compreender que muitas são as questões
que envolvem esse processo conceitual. O economista austríaco
Schumpeter (1961) enfatiza que o método político se constitui
através de arranjos institucionais, afirmando a lógica da
democracia liberal, em que não existe bem comum, assim como o
governo do povo não passa de uma ficção, pois somente a elite é
capacitada para assumir postos de comando, configurando um
competitivo mercado político, em busca da preferência eleitoral.
É nessa confluência de sentidos que se constitui de certa forma
o conceito de democracia na esfera educacional, em que no jogo
político, as políticas públicas (aqui no caso as educacionais),
muitas vezes, são sufocadas pelas políticas de governo, em que
os interesses partidários funcionam semelhantes à lógica
empresarial, no que se refere à liberdade de concorrência na
“necessidade” de manter e conquistar o poder, mantendo discursos
vazios, como “igualdade participativa, qualidade, cidadania”,
enfim.
Ademais, percebe-se que o processo de democratização na gestão
do espaço escolar sob a lógica neoliberal não permite ir além da
“democracia representativa”, pois o que realmente interessa é
fazer com que as pessoas apenas representem seu poder de decisão
em termos de participação, isso na defesa de algo que já está
pré-definido conforme os interesses dominantes. Norberto Bobbio
(2000) aborda a concepção de democracia sob os preceitos da
teoria política e direitos individuais, que em razão do Estado
se constitui eticamente um conjunto de regras, como forma de
proceder para a participação coletiva. Todavia, essa concepção
de coletivo compromete-se com uma noção de duas vertentes
cruciais, sendo a democracia ideal e a real, em que o individuo
entendido como ser soberano passa a ser compreendido em grupos
de poder, em meio a uma sociedade pluralista, (re) distribuindo
de forma mais justa o poder.
Contudo, quaisquer que sejam os aspectos caracterizadores da
existência de práticas possibilitadoras de uma gestão escolar
sob o viés cidadão, todas elas acabam, por problematizar de
qualquer forma a discussão acerca de uma democratização da
gestão escolar. Isso se deve pelo fato de não haver um consenso
claro e definido epistemologicamente sobre o conceito de
cidadania e democracia enquanto possíveis, no campo da gestão
escolar.
Em suma, a gestão escolar democrática, na forma como foi
descrita por referendar as políticas de um Estado mínimo,
contribui para que constituam cidadãos na escola, o fazendo na
perspectiva de uma cidadania burguesa. Esse fenômeno é entendido
como próprio da metamorfose do estágio capitalista atual, como
contexto macro-estrutural da sociedade contemporânea. Assim, os
próprios argumentos usados em sua defesa, acabam revelando uma
falta de reflexão, que pode ser explicada pela naturalização dos
conceitos de cidadania e democracia. Contudo, a própria
Constituição Federal de 1988 e especificamente no campo
educacional a LDB 9394/96, define a Gestão Democrática como
princípio. Em suma, a gestão escolar democrática, na forma como
foi descrita por referendar as políticas de um Estado burguês,
contribui para que educação de cidadãos na escola, mas fazendo-o
na perspectiva de uma cidadania burguesa.
Considerações Finais
Fundamentando-se nos estudos realizados e na análise das
categorias cidadania, democracia, escola e gestão escolar no
contexto reestruturação produtiva do trabalho, é possível
destacar que este é um tema relevante para as pesquisas que se
tem desenvolvido na esfera a gestão escolar, mas que tal
temática não se esgota nesta investigação, devido a seu grau de
complexidade e outras possíveis análises. É preciso ampliar
sempre este tipo de análises, para que haja uma maior
compreensão sobre os sentidos destas categorias e sua
importância na efetivação e problematização da gestão escolar,
como maneira de superar as dificuldades de compreensão do
significado do processo democrático na escola. Aqui se destaca
discussões sobre os textos legais, por entender que estes são
norteadores e redefinidores das propostas de organização da
gestão, assim como da própria estrutura social da democracia
liberal.
Ao produzir reflexões sobre o campo da gestão escolar
democrática, a pesquisa possibilitou a elaboração de bases para
uma revisão das propostas do que é naturalizado conceitualmente
como busca pela cidadania, pelos interesses da organização
socioeconômica dos modos de produzir, próprios da sociedade
contemporânea, percebendo-se flexibilizações no âmbito da gestão
escolar, mediante as reestruturações das esferas produtivas do
trabalho.
Referências
BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. 9ª ed. Tradução
de Marco Aurélio Nogueira. São Paulo, SP: Paz e Terra, 2000.
FRIGOTTO, Gaudêncio. O
local face ao Nacional e ao Global - Limites e Possibilidades.
IN: Revista da ADUEL - SINDIPROL, nº 02, Ano 2, edição 1997.
FRIGOTTO, G. O enfoque da dialética materialista histórica na
pesquisa educacional. In: FAZENDA, I. (Org.). Metodologia da
pesquisa educacional. 7.ed. São Paulo: Cortez, 2001.
SCHUMPETER, Joseph A.
Capitalismo, socialismo e democracia. Rio de Janeiro:
Editora Fundo de Cultura, 1961.
[i]
[...] As políticas públicas surgem no cenário da
globalização como forma de regulação social e ajuste
estrutural, como um mecanismo formal (Estado) e informal
(sociedade civil) que estruturam o conjunto de setores
da vida social, política e econômica, nas dimensões
pública e privada e que, no caso específico do Brasil,
apontam para a concepção produtivista e mercantilista,
procurando desenvolver habilidades e competências
definidas pelo mercado, o que possibilitaria a
empregabilidade (FRIGOTTO, 2001, p. 64).
[ii]
Democracia Liberal é o processo político pautado pela
permanência de uma elite no poder. A Democracia para os
Liberais (como: Joseph Schumpeter) é vista como um
procedimento em que a sociedade civil delega a uma elite
política o poder de governar, havendo uma disputa
restrita às elites. Outra característica de um governo
liberal é a promoção do Estado mínimo, baseadas em
questões básicas como segurança, estrutura política e
macroeconomia. Assim Schumpeter diz que “a democracia
significa apenas que o povo tem oportunidade de aceitar
ou recusar aqueles que o governarão”. Essa
redução drástica do significado de “democracia”
inicia-se com Schumpeter, mas prossegue com Giovanni
Sartori, Robert Dahl, Norberto Bobbio e muitos outros
pensadores liberais contemporâneos, conservadores ou
progressistas. Democracia passa a ser, assim, o
cumprimento de uma formalidade, nas quais o povo escolhe
seus representantes entre elites.
[iii]
O Estado sempre fora um regulador educacional, sendo que
este sempre esteve submetido aos interesses do sistema
dominante vigente, perpassando historicamente pelos
interesses da Igreja católica até a firmação da classe
burguesa e hoje o neoliberalismo intrínseco nas relações
sociais, propagado pela lógica de consumo própria da
sociedade capitalista.
* Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação e
Especializando
em Gestão Educacional,
ambos na Universidade Federal de Santa Maria/UFSM.
Licenciado em Pedagogia pela Universidade de Cruz
Alta/UNICRUZ. Email:
gabkehler@gmail.com
** Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação e
Especializando
em Gestão Educacional,
ambos na Universidade Federal de Santa Maria/UFSM.
Licenciado em Matemática pela UFSM. Email:
mc.joacir@gmail.com
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