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ISSN 1678-8419                                                                                                           


 
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Educação
 

Ensino de Ciências para pedagogos: uma discussão necessária! 

Por: Guilherme Leonardo Freitas Silva
Em:  04/02/2012

                                                                 

   

 

 

RESUMO: Os objetivos da pesquisa foram analisar o conceito de Ciências dos alunos do 3º ano de pedagogia da UEPG, contextualizar o ensino de ciências naturais com a formação do pedagogo em processo de formação. Para analisar o conceito inicial foi utilizado o software EVOC, para obter evocações da concepção de ciências. Com esse trabalho concluímos que a falta de aprofundamento no conhecimento científico e na metodologia da ciência, bem como, a carência de um rigor epistemológico e crítico no ensino Ciências Naturais nos cursos de pedagogia, contribuem para uma visão romancista, naturalista e pragmática da Ciência, na visão dos alunos.

Palavras-chave: ensino de ciências, pedagogia, rigor metodológico, epistemologia.

ABSTRACT: The research objectives were to analyze the concept of Sciences of the 3rd year students of pedagogy UEPG, contextualize the teaching of natural sciences with training in the teacher training process. To analyze the initial concept was used EVOC software, for evocations of design science. With this work we conclude that the lack of depth in scientific knowledge and methodology of science, as well as the lack of an epistemological and critical rigor in teaching natural science courses in pedagogy, contribute to a vision novelist, naturalist and pragmatics of Science, in the view of students.

Keywords: science education, pedagogy, methodological rigor, epistemology.

 

INTRODUÇÃO

O ensino de ciências naturais faz parte da base curricular nos cursos de pedagogia atualmente como uma disciplina específica exigida nos currículos dos cursos. No entanto, a maneira como é ministrada a disciplina e o enfoque epistemológico varia conforme a ementa e a proposta de cada curso de pedagogia. Dessa forma configura-se um leque de possibilidades e variabilidades em lecionar as Ciências Naturais em cursos de graduação em pedagogia.

Sendo assim, instiga aos professores universitários como lecionar disciplinas específicas, que por vezes acabam passando por despercebidas, ou ainda, não relevante ao processo de ensino-aprendizagem aos estudantes em pedagogia.

Devido a uma caracterização do pedagogo como um profissional "polivalente" (BIZZO, 2002), ou seja, são atribuídas várias funções aos pedagogos (coordenação na área educacional, professor de séries iniciais e ensino fundamental, médio e superior, supervisão e cargos de chefia em instituições de ensino, etc.), além de exercer um papel importante na sociedade, participando ativamente ou passivamente em propostas educacionais nas políticas públicas, as disciplinas específicas como matemática, história, geografia, português e ciências, entre outras, acabam tendo um caráter formativo importante na formação do pedagogo, não menos importante do que outras disciplinas.

Porém, a forma como vêm sendo ministradas as disciplinas específicas, notadamente as Ciências Naturais nos currículos brasileiros, demonstram uma carência de rigor epistemológico da disciplina, acarretando em "erros" clássicos de termologias científicas e até mesmo erros conceituais e históricos da Ciência.

De certa forma, as reformulações do MEC nos currículos brasileiros feito principalmente a partir dos anos 90, tiveram sua parcela de contribuição para que moldasse essa estrutura de ensino que temos hoje em dia nas ciências. O número de horas das disciplinas, a exigência de um currículo, a forma e o conteúdo nos livros didáticos e como é ministrado, influenciou e influenciam a maneira de como a disciplina Ciências Naturais é ensinada.

Se pensarmos na disciplina de Ciências Naturais como um componente curricular importante para o ensino das séries iniciais, veremos que uma parcela dos alunos mal sai dos cursos de graduação preparados para atuar como professores de séries iniciais, muito menos lecionar uma Ciência sob o ponto de vista crítico e reflexivo.

Bizzo (2002) comenta que:

 

"Os professores polivalentes que atuam nas quatro primeiras séries do ensino fundamental têm poucas oportunidades de se aprofundar no conhecimento científico e na metodologia científica da área, tanto quanto sua formação ocorre em cursos de magistério como em cursos de pedagogia" (Bizzo, N. Ciência: fácil ou difícil?, 2002, p.65)

 

Quando falamos em um ensino crítico e reflexivo, não quer dizer que estamos nos referindo somente ao ensino sobre o viés da Pedagogia Histórico-Crítico das Ciências, até porque seria um reducionismo epistemológico dentro do próprio campo do ensino de Ciências. No entanto, quando nos referimos a esse ensino é pensar na própria formação do pedagogo diante essa disciplina em processo de formação, ou seja, partindo de um pressuposto que para haver uma melhora no ensino de Ciências como um todo, deve-se refletir sobre a própria essência da disciplina nos níveis filosóficos e epistemológicos e como ela poderia ajudar a favorecer uma melhora gradativa no ensino das séries inicias.

Para isso propusemos estabelecer uma discussão de como vêm sendo ministrada as Ciências Naturais, especificamente no curso de pedagogia da UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa – PR), buscando uma reflexão teórico-prática dos alunos de pedagogia diante a disciplina de Fundamentos Teóricos e Metodológicos das Ciências Naturais.

Os objetivos da pesquisa foram: analisar o conceito de Ciências dos alunos do 3º ano de pedagogia da UEPG, contextualizar o ensino de ciências naturais com a formação do pedagogo em processo de formação.

 

METODOLOGIA

Para analisar o conceito inicial dos alunos do 3º ano de pedagogia, foi utilizado o software EVOC para obter evocações da concepção de ciências. Primeiramente foi solicitado aos alunos que escrevessem 5(cinco) palavras no caderno em ordem de importância sobre o que era Ciência. Após o registro das palavras, foi feito a análise das palavras no software EVOC e uma discussão das concepções do ensino de ciências nas séries iniciais. Por último, foi realizada uma síntese do conceito de Ciências com Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade. Essa pesquisa foi desenvolvida no início do ano letivo de 2011 (1º semestre) justamente para trabalhar inicialmente com as perspectivas dos graduandos em relação ao ensino de ciências nas séries iniciais, para fazer reflexão epistemológica e filosófica da importância da disciplina Fundamentos Teóricos e Metodológicos das Ciências Naturais.

 

RESULTADOS

Foram analisadas evocações de 26 alunos do 3º ano de pedagogia do período noturno, sendo que no dia que foi solicitado os registros das palavras estavam presentes somente 26 alunos do total de 34. Primeiramente foi estabelecido um tempo para que os alunos definissem o que era Ciência e anotassem em seu caderno. Posteriormente, foram recolhidas as concepções de ciências e foram registradas numa planilha do Excel conforme a imagem abaixo:

 

Fonte: O autor

 

As palavras geradas no excell foram salvas no formato csv; e posteriormente foram importadas para o software EVOC, gerando o relatório de frequências das palavras, RANGMOT, abaixo:

ENSEMBLE DES MOTS RANGS

:FREQ.: 1 * 2 * 3 * 4 * 5 *

aperfeiçoamento : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*

aprendizagem : 1 : 0* 1*

avanço_no_tempo : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*

busca : 1 : 0* 0* 0* 1*

comprovação : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*

conhecimento : 8 : 4* 1* 1* 1* 1*

moyenne : 2.25

consciência : 1 : 0* 0* 0* 1*

conservação : 1 : 0* 0* 1*

corpo : 1 : 0* 0* 1*

descoberta : 7 : 2* 1* 1* 2* 1*

moyenne : 2.86

desenvolvimento : 3 : 0* 0* 1* 0* 2*

dúvidas : 1 : 0* 0* 1*

ecologia : 1 : 0* 1*

estranho : 1 : 0* 0* 0* 1*

estudo : 8 : 2* 2* 2* 2*

moyenne : 2.50

estudo_científico : 1 : 1*

estudo_seres_vivos : 1 : 1*

evolução : 3 : 0* 2* 0* 0* 1*

experiência : 2 : 0* 1* 0* 1*

experiências : 4 : 2* 0* 2*

homem : 3 : 0* 1* 1* 1*

inovação : 3 : 0* 2* 0* 1*

investigação : 2 : 2*

laboratório : 1 : 0* 0* 1*

medo : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*

meio_ambiente : 3 : 0* 0* 1* 2*

movimento : 1 : 0* 0* 1*

mudanças : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*

mundo : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*

método : 2 : 0* 0* 1* 0* 1*

natureza : 16 : 4* 4* 2* 3* 3*

moyenne : 2.81

necessidade : 1 : 0* 1*

novidade : 1 : 0* 0* 1*

objetividade : 1 : 0* 1*

observação : 2 : 0* 0* 0* 2*

origem : 2 : 0* 2*

pensamento : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*

pesquisa : 6 : 1* 1* 2* 2*

moyenne : 2.83

plantas : 1 : 0* 1*

questionamento : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*

reciclagem : 1 : 0* 0* 0* 1*

resultado : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*

seres_vivos : 6 : 2* 1* 1* 2*

moyenne : 2.50

sociedade : 6 : 0* 1* 2* 0* 3*

moyenne : 3.83

substâncias : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*

tecnologia : 4 : 1* 0* 1* 1* 1*

teoria : 1 : 1*

transformação : 1 : 0* 1*

universo : 1 : 0* 0* 0* 1*

vida : 10 : 3* 1* 2* 1* 3*

moyenne : 3.00

Como pudemos observar as palavras destacadas são as que tiveram maior frequência evocada pelos alunos. É importante salientar a frequência que foi gerada dessas palavras, ou seja, da primeira a quinta posição. Isso contribui para que tenhamos uma percepção da representação dos alunos sobre ciência, apesar de um número pequeno de alunos, mas com o objetivo desse trabalho de entender o porquê dessas representações sobre ciência. A relação de uma palavra ter sido gerada por primeiro ou por último, está relacionado com a definição mais próxima sobre ciência que permanece no esquema cognitivo do aluno.

Pelos resultados gerados pelas frequências das palavras, observamos que as palavras, vida, seres vivos e natureza, fazem parte de uma das representações dos alunos mais fortes, pois a ideia que se tem de ciência, vinculado a um sentido naturalista, romancista da ciência é bastante comum na forma ensinada hoje nas escolas de séries iniciais legitimando uma visão simplista da ciência; por outro lado, obtivemos também palavras como conhecimento, descoberta, estudo e pesquisa, que abordam uma visão mais holística sobre a ciência, pois a própria ciência em si gera conhecimento, descoberta, estudo e pesquisa, num sentido pragmático/positivista. Ainda sobre um viés antropocêntrico de ciências, tivemos a palavra sociedade citada, o que pode ser interpretada de duas formas, uma ciência para e com o homem, ou seja, feita para ele e o homem parte integrante dessa ciência. Assim, constitui uma visão ao mesmo tempo antropocêntrica, pois considera a ciência importante para os seres humanos, desconsiderando o meio ambiente, por outro lado, considera o homem parte do meio ambiente, constituindo uma visão sistêmica/holística.

Após os alunos verificarem os resultados das palavras geradas, foi realizada uma discussão sobre ciência, tecnologia, sociedade e meio ambiente para ampliar a visão dos mesmos, sobre a ciência como um todo. Foram utilizados, artigos, livros e resenhas para obter uma leitura mais crítica da ciência.

 

CONCLUSÃO

Com esse trabalho concluímos que a falta de aprofundamento no conhecimento científico e na metodologia da ciência, bem como, a carência de um rigor epistemológico e crítico no ensino Ciências Naturais nos cursos de pedagogia, contribuem para uma visão romancista, naturalista e pragmática da Ciência, na visão dos alunos. No entanto, esse trabalho permite ensejar outras questões em aberto, como por exemplo: qual formação é ensinada aos alunos nos cursos de magistério e ou pedagogia na disciplina das ciências? Qual formação é dada para esses alunos egressos, após terem realizado essa disciplina e quando estão trabalhando numa instituição? Que formação é ensinada a nós desde séries iniciais até um curso superior sobre ciências?

Essas questões fazem nos pensar que o problema não é somente em cursos de graduação, mas na formação inicial e continuada de professores que ainda persistem com uma visão simplista da ciência. Certos estereótipos que definem quem faz ciência, quem produz ciência e quem ensina ciência, legitima cada vez mais uma visão separada do ensino da pesquisa das ciências. Professores, alunos, pedagogos tem diferentes representações do que é ciência, seja ela, feita por cientistas de "verdade", seja ela feita por educadores. Por isso insistimos, ensino de ciência para pedagogos: uma discussão necessária!

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BIZZO, Nélio. Ciências: fácil ou difícil. São Paulo: Ática, 2002.

 

 

                     

 

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::sobre o autor::
 
 
Guilherme Leonardo Freitas Silva é discente do Mestrado do Programa de Pós-Graduação em Educação da UEPG. E-mail: jskalibur@yahoo.com.br

 

 
 
 
 
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