Ensino de Ciências para pedagogos: uma discussão necessária!
Por:
Guilherme Leonardo Freitas Silva
Em: 04/02/2012
RESUMO: Os objetivos da
pesquisa foram analisar o conceito de Ciências dos alunos do 3º
ano de pedagogia da UEPG, contextualizar o ensino de ciências
naturais com a formação do pedagogo em processo de formação.
Para analisar o conceito inicial foi utilizado o software
EVOC, para obter evocações da concepção de ciências. Com esse
trabalho concluímos que a falta de aprofundamento no
conhecimento científico e na metodologia da ciência, bem como, a
carência de um rigor epistemológico e crítico no ensino Ciências
Naturais nos cursos de pedagogia, contribuem para uma visão
romancista, naturalista e pragmática da Ciência, na visão dos
alunos.
Palavras-chave: ensino de
ciências, pedagogia, rigor metodológico, epistemologia.
ABSTRACT: The research
objectives were to analyze the concept of Sciences of the 3rd
year students of pedagogy UEPG, contextualize the teaching of
natural sciences with training in the teacher training process.
To analyze the initial concept was used EVOC software, for
evocations of design science. With this work we conclude that
the lack of depth in scientific knowledge and methodology of
science, as well as the lack of an epistemological and critical
rigor in teaching natural science courses in pedagogy,
contribute to a vision novelist, naturalist and pragmatics of
Science, in the view of students.
O ensino de ciências naturais faz
parte da base curricular nos cursos de pedagogia atualmente como
uma disciplina específica exigida nos currículos dos cursos. No
entanto, a maneira como é ministrada a disciplina e o enfoque
epistemológico varia conforme a ementa e a proposta de cada
curso de pedagogia. Dessa forma configura-se um leque de
possibilidades e variabilidades em lecionar as Ciências Naturais
em cursos de graduação em pedagogia.
Sendo assim, instiga aos
professores universitários como lecionar disciplinas
específicas, que por vezes acabam passando por despercebidas, ou
ainda, não relevante ao processo de ensino-aprendizagem aos
estudantes em pedagogia.
Devido a uma caracterização do
pedagogo como um profissional "polivalente" (BIZZO, 2002), ou
seja, são atribuídas várias funções aos pedagogos (coordenação
na área educacional, professor de séries iniciais e ensino
fundamental, médio e superior, supervisão e cargos de chefia em
instituições de ensino, etc.), além de exercer um papel
importante na sociedade, participando ativamente ou passivamente
em propostas educacionais nas políticas públicas, as disciplinas
específicas como matemática, história, geografia, português e
ciências, entre outras, acabam tendo um caráter formativo
importante na formação do pedagogo, não menos importante do que
outras disciplinas.
Porém, a forma como vêm sendo
ministradas as disciplinas específicas, notadamente as Ciências
Naturais nos currículos brasileiros, demonstram uma carência de
rigor epistemológico da disciplina, acarretando em "erros"
clássicos de termologias científicas e até mesmo erros
conceituais e históricos da Ciência.
De certa forma, as reformulações do
MEC nos currículos brasileiros feito principalmente a partir dos
anos 90, tiveram sua parcela de contribuição para que moldasse
essa estrutura de ensino que temos hoje em dia nas ciências. O
número de horas das disciplinas, a exigência de um currículo, a
forma e o conteúdo nos livros didáticos e como é ministrado,
influenciou e influenciam a maneira de como a disciplina
Ciências Naturais é ensinada.
Se pensarmos na disciplina de
Ciências Naturais como um componente curricular importante para
o ensino das séries iniciais, veremos que uma parcela dos alunos
mal sai dos cursos de graduação preparados para atuar como
professores de séries iniciais, muito menos lecionar uma Ciência
sob o ponto de vista crítico e reflexivo.
Bizzo (2002) comenta que:
"Os
professores polivalentes que atuam
nas quatro primeiras séries do
ensino fundamental têm poucas
oportunidades de se aprofundar no
conhecimento científico e na
metodologia científica da área,
tanto quanto sua formação ocorre em
cursos de magistério como em cursos
de pedagogia" (Bizzo, N. Ciência:
fácil ou difícil?, 2002, p.65)
Quando falamos em um ensino crítico
e reflexivo, não quer dizer que estamos nos referindo somente ao
ensino sobre o viés da Pedagogia Histórico-Crítico das Ciências,
até porque seria um reducionismo epistemológico dentro do
próprio campo do ensino de Ciências. No entanto, quando nos
referimos a esse ensino é pensar na própria formação do pedagogo
diante essa disciplina em processo de formação, ou seja,
partindo de um pressuposto que para haver uma melhora no ensino
de Ciências como um todo, deve-se refletir sobre a própria
essência da disciplina nos níveis filosóficos e epistemológicos
e como ela poderia ajudar a favorecer uma melhora gradativa no
ensino das séries inicias.
Para isso propusemos estabelecer
uma discussão de como vêm sendo ministrada as Ciências Naturais,
especificamente no curso de pedagogia da UEPG (Universidade
Estadual de Ponta Grossa – PR), buscando uma reflexão
teórico-prática dos alunos de pedagogia diante a disciplina de
Fundamentos Teóricos e Metodológicos das Ciências Naturais.
Os objetivos da pesquisa foram:
analisar o conceito de Ciências dos alunos do 3º ano de
pedagogia da UEPG, contextualizar o ensino de ciências naturais
com a formação do pedagogo em processo de formação.
METODOLOGIA
Para analisar o conceito inicial
dos alunos do 3º ano de pedagogia, foi utilizado o software
EVOC para obter evocações da concepção de ciências.
Primeiramente foi solicitado aos alunos que escrevessem 5(cinco)
palavras no caderno em ordem de importância sobre o que era
Ciência. Após o registro das palavras, foi feito a análise das
palavras no software EVOC e uma discussão das concepções do
ensino de ciências nas séries iniciais. Por último, foi
realizada uma síntese do conceito de Ciências com Tecnologia,
Meio Ambiente e Sociedade. Essa pesquisa foi desenvolvida no
início do ano letivo de 2011 (1º semestre) justamente para
trabalhar inicialmente com as perspectivas dos graduandos em
relação ao ensino de ciências nas séries iniciais, para fazer
reflexão epistemológica e filosófica da importância da
disciplina Fundamentos Teóricos e Metodológicos das Ciências
Naturais.
RESULTADOS
Foram analisadas evocações de 26
alunos do 3º ano de pedagogia do período noturno, sendo que no
dia que foi solicitado os registros das palavras estavam
presentes somente 26 alunos do total de 34. Primeiramente foi
estabelecido um tempo para que os alunos definissem o que era
Ciência e anotassem em seu caderno. Posteriormente, foram
recolhidas as concepções de ciências e foram registradas numa
planilha do Excel conforme a imagem abaixo:
Fonte: O autor
As palavras geradas no excell foram
salvas no formato csv; e posteriormente foram importadas para o
software EVOC, gerando o relatório de frequências das palavras,
RANGMOT, abaixo:
ENSEMBLE DES MOTS RANGS
:FREQ.: 1 * 2 * 3 * 4 * 5 *
aperfeiçoamento : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*
aprendizagem : 1 : 0* 1*
avanço_no_tempo : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*
busca : 1 : 0* 0* 0* 1*
comprovação : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*
conhecimento : 8 : 4* 1* 1* 1* 1*
moyenne : 2.25
consciência : 1 : 0* 0* 0* 1*
conservação : 1 : 0* 0* 1*
corpo : 1 : 0* 0* 1*
descoberta : 7 : 2* 1* 1* 2* 1*
moyenne : 2.86
desenvolvimento : 3 : 0* 0* 1* 0* 2*
dúvidas : 1 : 0* 0* 1*
ecologia : 1 : 0* 1*
estranho : 1 : 0* 0* 0* 1*
estudo : 8 : 2* 2* 2* 2*
moyenne : 2.50
estudo_científico : 1 : 1*
estudo_seres_vivos : 1 : 1*
evolução : 3 : 0* 2* 0* 0* 1*
experiência : 2 : 0* 1* 0* 1*
experiências : 4 : 2* 0* 2*
homem : 3 : 0* 1* 1* 1*
inovação : 3 : 0* 2* 0* 1*
investigação : 2 : 2*
laboratório : 1 : 0* 0* 1*
medo : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*
meio_ambiente : 3 : 0* 0* 1* 2*
movimento : 1 : 0* 0* 1*
mudanças : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*
mundo : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*
método : 2 : 0* 0* 1* 0* 1*
natureza : 16 : 4* 4* 2* 3* 3*
moyenne : 2.81
necessidade : 1 : 0* 1*
novidade : 1 : 0* 0* 1*
objetividade : 1 : 0* 1*
observação : 2 : 0* 0* 0* 2*
origem : 2 : 0* 2*
pensamento : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*
pesquisa : 6 : 1* 1* 2* 2*
moyenne : 2.83
plantas : 1 : 0* 1*
questionamento : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*
reciclagem : 1 : 0* 0* 0* 1*
resultado : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*
seres_vivos : 6 : 2* 1* 1* 2*
moyenne : 2.50
sociedade : 6 : 0* 1* 2* 0* 3*
moyenne : 3.83
substâncias : 1 : 0* 0* 0* 0* 1*
tecnologia : 4 : 1* 0* 1* 1* 1*
teoria : 1 : 1*
transformação : 1 : 0* 1*
universo : 1 : 0* 0* 0* 1*
vida : 10 : 3* 1* 2* 1* 3*
moyenne : 3.00
Como pudemos observar as palavras
destacadas são as que tiveram maior frequência evocada pelos
alunos. É importante salientar a frequência que foi gerada
dessas palavras, ou seja, da primeira a quinta posição. Isso
contribui para que tenhamos uma percepção da representação dos
alunos sobre ciência, apesar de um número pequeno de alunos, mas
com o objetivo desse trabalho de entender o porquê dessas
representações sobre ciência. A relação de uma palavra ter sido
gerada por primeiro ou por último, está relacionado com a
definição mais próxima sobre ciência que permanece no esquema
cognitivo do aluno.
Pelos resultados gerados pelas
frequências das palavras, observamos que as palavras, vida,
seres vivos e natureza, fazem parte de uma das representações
dos alunos mais fortes, pois a ideia que se tem de ciência,
vinculado a um sentido naturalista, romancista da ciência é
bastante comum na forma ensinada hoje nas escolas de séries
iniciais legitimando uma visão simplista da ciência; por outro
lado, obtivemos também palavras como conhecimento, descoberta,
estudo e pesquisa, que abordam uma visão mais holística sobre a
ciência, pois a própria ciência em si gera conhecimento,
descoberta, estudo e pesquisa, num sentido
pragmático/positivista. Ainda sobre um viés antropocêntrico de
ciências, tivemos a palavra sociedade citada, o que pode ser
interpretada de duas formas, uma ciência para e com o homem, ou
seja, feita para ele e o homem parte integrante dessa ciência.
Assim, constitui uma visão ao mesmo tempo antropocêntrica, pois
considera a ciência importante para os seres humanos,
desconsiderando o meio ambiente, por outro lado, considera o
homem parte do meio ambiente, constituindo uma visão
sistêmica/holística.
Após os alunos verificarem os
resultados das palavras geradas, foi realizada uma discussão
sobre ciência, tecnologia, sociedade e meio ambiente para
ampliar a visão dos mesmos, sobre a ciência como um todo. Foram
utilizados, artigos, livros e resenhas para obter uma leitura
mais crítica da ciência.
CONCLUSÃO
Com esse trabalho concluímos que a
falta de aprofundamento no conhecimento científico e na
metodologia da ciência, bem como, a carência de um rigor
epistemológico e crítico no ensino Ciências Naturais nos cursos
de pedagogia, contribuem para uma visão romancista, naturalista
e pragmática da Ciência, na visão dos alunos. No entanto, esse
trabalho permite ensejar outras questões em aberto, como por
exemplo: qual formação é ensinada aos alunos nos cursos de
magistério e ou pedagogia na disciplina das ciências? Qual
formação é dada para esses alunos egressos, após terem realizado
essa disciplina e quando estão trabalhando numa instituição? Que
formação é ensinada a nós desde séries iniciais até um curso
superior sobre ciências?
Essas questões fazem nos pensar que
o problema não é somente em cursos de graduação, mas na formação
inicial e continuada de professores que ainda persistem com uma
visão simplista da ciência. Certos estereótipos que definem quem
faz ciência, quem produz ciência e quem ensina ciência, legitima
cada vez mais uma visão separada do ensino da pesquisa das
ciências. Professores, alunos, pedagogos tem diferentes
representações do que é ciência, seja ela, feita por cientistas
de "verdade", seja ela feita por educadores. Por isso
insistimos, ensino de ciência para pedagogos: uma discussão
necessária!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BIZZO, Nélio. Ciências:
fácil ou difícil. São Paulo: Ática, 2002.