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QUASE CRISTAIS: DO DESCRÉDITO AO PRÊMIO NOBEL
Celso Luis
Levada (1) (celsolevada@yahoo.com.br)
Miriam de Magalhães O. Levada (2)
Ana Laura Remédio Zeni Beretta (2)
(1)
Academia da Força Aérea
(2) Centro Universitário Hermínio Ometto – Uniararas
Resumo
Algumas vezes na história da ciência, os investigadores são
forçados a travar uma batalha com as “verdades estabelecidas”,
as quais, em retrospectiva, têm provado não passar de meros
pressupostos. O trabalho de Shechtman foi desprezado por
brilhantes cientistas, incluindo o premiado duplamente com o
Nobel químico, Linus Pauling, mas depois que foi publicado,
outros exemplos de quase cristais foram obtidos em todo o mundo.
Isso mostra claramente que até mesmo os nossos maiores
cientistas não estão imunes a ficar estagnados com as
convenções. Mantendo a mente aberta e a ousadia para questionar
o conhecimento estabelecido pode ser de fato, o aspecto mais
importante de um cientista.
Palavras-chave: Prêmio Nobel; Shechtman; quase cristais
Abstract
Over and over again in the history of science, researchers have
been forced to do battle with established “truths”, which in
hindsight have proven to be no more than mere assumptions. The
Shechtman´s work was scorned by luminaries including
double-Nobel-prizewinning chemist Linus Pauling, but after it
was published, other examples of the crystals flooded in from
around the globe.
This clearly shows that even our greatest scientists are not
immune to getting stuck in convention. Keeping an open mind and
daring to question established knowledge may in fact be a
scientist’s most important character traits.
Keywords: Nobel Prize; Premium Nobel; Shechtman; crystals
Introdução
Daniel Shechtman anunciou ter descoberto
os quase cristais em 1982, motivo pelo qual foi ridicularizado
por vários outros cientistas e acabou desempregado por dizer que
havia descoberto uma classe totalmente nova de materiais
sólidos. Shechtman observou um padrão desconhecido no nível
molecular na amostra de uma liga metálica visualizada por um
microscópio eletrônico. As afirmações de Shechtman em relação ao
fenômeno contrariavam as leis da natureza nas quais os químicos
acreditavam.
Segundo o autor,
tratava-se de um novo material denominado quase cristal. Por
outro lado, os cristalógrafos diziam que os quase cristais não
passavam de deformações da rede cristalina. Elas seriam causadas
por pequenos deslocamentos dos átomos de suas posições
regulares, devido a tensões ou tratamento térmico.
Toda essa confusão ocorreu porque, conforme o modelo
tradicional, em toda matéria sólida os átomos estavam arranjados
dentro de cristais em padrões simétricos que se repetiam
periodicamente. No experimento de Shechtman tais padrões formam
uma estrutura que se denominou mosaicos aperiódicos e são
regulares, seguem regras matemáticas, mas nunca se repetem.
Conforme consta na literatura específica, a comunidade
científica não deu crédito para as inovações proposta pela
referida descoberta. Linus Pauling, duas vezes vencedor do Nobel
em Química, afirmou que não havia quase cristais, o que poderia
existir era um quase cientista.
Com o passar do tempo a nova teoria foi aceita, pois, centenas
de quase cristais foram sintetizados em laboratórios. Então, em
1992, a União Internacional de Cristalografia alterou, com base
no trabalho de Shechtman, sua definição de cristal. Pode-se
dizer que os quase cristais romperam todas as regras de um
cristal convencional, sendo considerado um material com
propriedades antiaderentes, isolantes elétricos, extremamente
resistentes a deformação, usados em produtos, como frigideiras e
motores a diesel.
CONCEITOS BÁSICOS: CRISTAIS
De acordo com MAGALHÃES (2011), o nome cristal vem do grego
Krystallo, usado para designar pedaços de quartzo encontrados em
regiões frias, onde eram congelados de maneira tão forte que não
se fundiam mais. A principal característica de um cristal é a
repetição periódica de íons, átomos ou moléculas no espaço, ou
seja, em três dimensões.
Robert Hooke foi o primeiro a sugerir que a regularidade
da aparência externa de um cristal era a um reflexo de um alto
grau de regularidade interna, em 1664.
Nicolaus Steno em 1671 observou que a variação na forma
de cristais de uma mesma substância não está relacionada com a
variação de estrutura interna, mas sim com o fato de algumas
direções de crescimento se desenvolvem mais que as outras.
Nos cristais normais, os átomos formam estruturas
periódicas bem ordenadas, ou seja, eles se organizam em uma
estrutura integral global, sem falhas ou interrupções, com um
único padrão simétrico repetindo-se regularmente (GAMBARDELLA
2011).
Os materiais sólidos podem ser classificados de acordo
com a regularidade na qual os átomos ou íons se dispõem em
relação à seus vizinhos. Material cristalino é aquele no qual os
átomos encontram-se ordenados sobre longas distâncias atômicas
formando uma estrutura tridimensional que se chama de rede
cristalina.
Todos os metais, muitas cerâmicas e alguns polímeros
formam estruturas cristalinas sob condições normais de
solidificação. Nos materiais não-cristalinos ou amorfos não
existe ordem de longo alcance na disposição dos átomos.
Algumas cerâmicas e polímeros não apresentam estruturas
cristalina. Há um número grande de diferentes estruturas
cristalinas, desde estruturas simples exibidas pelos metais até
estruturas mais complexas exibidas pelos cerâmicos e polímeros.
QUASE-CRISTAIS
WALLER (2011) menciona que primeiramente é preciso explicar que
o termo quase. Isso não quer dizer que eles são pseudos
cristais, pelo contrário, são cristais cujo ordenamento atômico
é quase periódico. Cristais comuns estão organizados com átomos
simetricamente dispostos, um ao lado do outro, em linha reta.
Nos quase cristais, a simetria dos átomos é rotacional, ou seja,
é como se a estrutura estivesse retorcida. Em geral, os quase
cristais são ligas metálicas, sendo a mais comum obtida através
da fusão do alumínio, do paládio e do manganês.
Para CARACELLI (2010), os quase cristais são uma nova
classe de sólidos, com características diferentes das conhecidas
para cristais: têm ordem quase periódica, simetrias rotacionais
proibidas para cristais e ocorrência de unidades de repetição em
número finito.
O químico
israelense Daniel Shechtman estudou uma liga de alumínio e
manganês utilizando microscopia eletrônica, sendo que a foto
obtida mostrava um padrão de difração que apresentava círculos
concêntricos feitos de 10 pontos brilhantes a mesma distância.
Isso significava um padrão de simetria de ordem 10, o que
contrariava a lógica científica vigente. Pensou que havia
ocorrido algum problema com o experimento ou com a amostra.
Então, os cientistas tentaram buscar explicações e
realizar outros testes para confirmar os resultados. Mas, tudo
foi confirmado, pois, a análise do material estudado por
Shechtman apresentou elementos de simetria de ordem 2, 5, 10 e
20, não permitidos em cristais, o que gerou dúvidas e
questionamentos a outros cientistas. O assunto ficou mais de 25
anos na berlinda até que concluíram ser algo inovador.
PRODUÇÃO DE QUASE CRISTAIS
Uma das técnicas de produção dos quase cristais consiste em
derreter uma liga metálica e depois produzir um resfriamento
ultra rápido em que o metal esfria em apenas um milésimo de
segundo. Devido a rapidez excessiva do processo, os átomos se
agrupam de forma diferente do normal. Observados no microscópio,
os quase cristais são como um mosaico. Grupos de átomos estão
sobrepostos, mas, não se encaixam perfeitamente, permitindo
algumas lacunas na estrutura cristalina. Tais imperfeições
proporcionam propriedades especiais nos compostos.
Os quase cristais são diferentes e se comportam de
maneira diferente. Eles são caracterizados por um alinhamento
muito incomum dos átomos.
O quase cristal se parece com um cristal e, em certas condições,
reproduz seu comportamento; mas não é.
Eles contêm estruturas aperiódicas, ou seja, eles possuem pelo
menos dois padrões simétricos diferentes, que formam uma
estrutura também sem lacunas, mas que não se repete
regularmente.
De acordo com
LANG (1988), a
descoberta dos quase cristais rompeu um paradigma na
cristalografia, a parte da física que lida com cristais, os
quase cristais são materiais metálicos, mas agem quase como
isolantes para eletricidade e condução de calor. Segundo, esses
materiais são muito duros e resistem à fricção e ao desgaste.
Também não furam facilmente, como o teflon, de forma que as
pessoas usam-nos para recobrir frigideiras e panelas – mas, ao
contrário do teflon, se você os raspa com uma faca, eles não se
soltam não se desgastam. Em outra aplicação, importante e muito
útil, se adiciona pequenas porções de quase cristais em plástico
e ele não se desgastará tão facilmente como o plástico
tradicional.
Por outro lado, considerando-se que muitos aparelhos têm
engrenagens de plástico, por exemplo, ventiladores e batedeiras,
a introdução quase cristais em pó no plástico destes componentes
eles terão maior durabilidade.
Nas
últimas décadas, os quase-cristais vêm atraindo
interesse e suas
propriedades estruturais, eletrônicas, térmicas e magnéticas vêm
sendo investigadas.
Em geral, os quase-cristais são bons isolantes elétricos e
térmicos, são muito duros e resistem à fricção e ao desgaste.
Esses materiais são preparados principalmente por técnicas de
resfriamento rápido. Entretanto, a moagem de alta-energia é
também um processo bastante apropriado na síntese de
quase-cristais metaestáveis e estáveis, via reação de estado
sólido.
Recentemente, foi divulgado que os quase-cristais podem ser
utilizados como armazenadores de hidrogênio apresentando
vantagens sobre outros tipos de materiais.
Os quase cristais são excelentes condutores de calor,
resistem à abrasão e à corrosão e suportam temperaturas de até
400 graus Celsius, condição ideal para o revestimento de
materiais do tipo de panelas e frigideiras.
As ligas de quase cristais para este fim, geralmente à
base de alumínio, ao qual se aplica o revestimento, permitem
reduzir drasticamente o tempo de cozimento e assim conseguir
maravilhas como fritar um bife em 30 segundos ou cozinhar o
arroz em menos de 20 minutos.
Estão
sendo fabricadas ligas leves de alta resistência mecânica, pela
precipitação de finas partículas de quase-cristais em uma matriz
de alumínio, criando uma estrutura mais rígida e menos sujeita a
rupturas. Essas novas ligas que poderão tornar mais leve as
estruturas dos aviões, além de aperfeiçoar os trens de pousos,
por exemplo. Ligas especiais deverão ser criadas também para a
Informática e a para Eletrônica.
Na França, pesquisadores do grupo de pesquisas Péchiney criaram
um material quase cristal a base de alumínio e lítio. A
descoberta terá importantes repercussões industriais,
especialmente na criação e utilização de ligas de
alumínio-cobre-lítio em Aeronáutica e Informática; isso sem
mencionar as repercussões no plano estritamente científico e
teórico (LANG, 1988).
CRISTALOGRAFIA UM TEMA TRANSDISCIPLINAR
O princípio dos novos materiais, como os quase cristais, é,
essencialmente, transdisciplinar, envolvendo químicos, físicos,
biólogos, engenheiros e farmacêuticos, entre outros
profissionais. A
cristalografia é uma ciência interdisciplinar que estuda os
cristais, uma forma de organização da matéria com
características peculiares ao nível do ordenamento atômico.
A cristalografia moderna usa técnicas de difração, com raios-X,
elétrons ou nêutrons, como principal ferramenta analítica. A
interdisciplinaridade surge da idéia de que para compreender a
complexa realidade é necessário relacionar os diferentes
conteúdos das disciplinas, ou seja, interagir diferentes áreas
do conhecimento a procura de um entendimento mais global e
parcelado.
MORIN (2000) comenta que o novo paradigma requer mudança
nos valores e na forma de pensar. A visão de complexidade da
realidade é contrária à idéia da fragmentação da ciência e
conseqüentemente do ensino baseado em disciplinas isoladas. De
um modo geral, percebe-se que a questão da interdisciplinaridade
vem sendo pouco explorada nas aulas de Ciências e, de um modo
geral, na educação.
Conforme menciona CARDOSO (2009), uma das fontes mais
evidentes da necessidade interdisciplinar encontra-se na
artificialidade do olhar científico, compreendendo-se por isso a
característica metodológica de trabalhar um “projeto
construído”, não com a realidade imediata. Este trabalho é uma
sugestão para ensinar Ciências relacionando-se outros
conhecimentos, o que motiva e incentiva o aluno, definindo com
mais clareza que a Ciências está presente em muitas situações do
seu cotidiano.
O assunto que foi apresentado é muito comentado nos
noticiários, em jornais e revistas o que faz com que seja um bom
motivo para ser trabalhado com os alunos. Permite que o aluno
tenha uma visão mais ampla do mundo, desenvolvendo nele um
pensamento mais crítico, para dar andamento aos seus estudos se
empenhando mais em aprender.
Um trabalho interdisciplinar a partir do tema exposto
pode viabilizar uma melhor interação professor e alunos como um
elemento facilitador do processo de ensino-aprendizagem e
interação pedagógica. A interdisciplinaridade permite uma visão
diferenciada do mundo, pois uma diversificação dos enfoques em
torno do mesmo assunto permite ampliar sua compreensão, abrindo
espaço a novas idéias (ROCHA FILHO, 2006).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Nesse artigo, percebemos
a importância da pesquisa básica e, enquanto pesquisadores,
devemos sempre buscar uma possibilidade de articulação entre
ciência fundamental e experimental. A questão da pesquisa básica
versus aplicada envolve prioridades administrativas, ação
governamental, dinheiro do contribuinte, entre outras coisas,
sendo fundamental para o desenvolvimento das empresas e do país.
No entanto, pesquisa é algo que necessita de
investimentos, em especial a ciência básica que é mais demorada,
mas dispendiosa e os resultados, em geral, são de longo prazo. O
que se observa é que está cada vez mais difícil encontrar
pesquisadores que se dedicam exclusivamente a ciência básica,
por ser ela mais custosa, demorada, por vezes polêmica ou sem
resultados imediatos.
Entretanto, sem investimentos em ciência básica torna-se
mais difícil obter futuras conquistas.
Por outro lado,
conforme mencionam BATISTA et al (2010) : “Ensino Científico e
Tecnológico tem sido, em tempos atuais, de forma justa, bem
discutida, com foco no compromisso final das diversas
instituições de ensino: promover a formação de cidadãos capazes
de compreender o mundo em que vivem, realmente, a escolha de
temas contemporâneos é, por si só uma abordagem estratégica
muito para motivar discussões sobre essas questões em sala de
aula. Os quase cristais podem ser tratados de forma
interdisciplinar, unindo ciências exatas e naturais e, até
mesmo, ciências humanas e sociais.
Questões básicas relacionadas a qualquer material: como são
preparados? Como estão estruturados? Como se comportam? Qual sua
utilidade? Onde podem ser empregados?, são discussões sociais.
Por outro lado, neste caso, podemos destacar também a ineficácia
do argumento de autoridade, a partir de colocações que tentam
sustentar uma conclusão apelando ao conhecimento ou reputação de
uma autoridade. Essa autoridade tanto pode ser uma pessoa como
uma obra ou instituição.
No caso específico o
argumento de autoridade referiu-se na opinião de um especialista
chamado Linus Pauling. Ele
disse que o trabalho
de Shechtman era totalmente equivocado. A maioria dos
cristalográficos, liderados por Linus Pauling, acreditava que a
explicação para os estranhos padrões de difração seria a
existência de defeitos de crescimento dos cristais.
Passou
muito tempo para a aceitação das novas idéias, mas em 1992,
graças ao estudo em questão,
a União Internacional de Cristalografia alterou a
definição de cristal.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BATISTA,
R.S. et al. Nanociência e Nanotecnologia como temas tópico para
uma discussão sobre ciência, tecnologia, sociedade e meio
ambiente , Ciência & Educação , vol. 16, n° 2, 2010.
CARACELLI,
I. O premio Nobel da Química, Revista Química Nova na Escola,
Novembro de 2011
GAMBARDELLA, M.T.P., apostila de Cristalografia, disponível em
http://graduacao.iqsc.usp.br/files/CelulaUnit.
eReticulosdeBravais.pdf, acesso em 25/11/2011
GIACOMO, F.
et al, Quase-cristais na cozinha, revista SUPERINTERESSANTE,
edição n.34, julho de 1990, disponível em super.abril.com.br/.../quase-cristais-cozinha-43949,
acesso em 10/09/2011
LANG, M.J.M., Cad.
Cat. Ens. Fís., Florianópolis, 38 5 (1): 36-38, 1988.
MAGALHÃES, V., Curiosidades lingüísticas, site Língua
Estrangeira, disponível em
http://www.linguaestrangeira.pro.br/voce_sabia.htm, acessado
em 20/11/2011
MORIN, E. Os sete saberes necessários à educação do futuro.
Cortez, Brasília, Unesco, 2000
ROCHA FILHO, J.B. et al ; Repensando uma proposta
interdisciplinar sobre ciência e realidade; Revista Electrónica
de Enseñanza de las Ciencias Vol. 5 nº2 , 2006.
ROVERI, A.P.
et al , Síntese e caracterização estrutural de quase cristais,
disponível em
http://www.sbpcnet.org.br/livro/58ra/SENIOR, acessado em
05/11/2011
WALLER, J.,
Pedacinho do Nobel é nosso, disponível em
http://www.ufpe.br/agencia/index.php,
acessado em 25/10/2011
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