No paradigma formativo docente, o avanço dos
procedimentos científicos no meio social e cultural causa a
propagação da atitude objetivante no pensar e agir? Para
responder tal questionamento, vamos no decorrer do texto pontuar
e analisar a Teoria Crítica da Ação Comunicativa de Habermas e
seus pressupostos filosóficos.
A cultura tornada hegemônica visa a se
contrapor à esfera pública, porque ao contrário da formação da
vontade coletiva, a opinião não é esclarecida democraticamente.
Pois, o contexto da modernidade coloca a alternativa da ideia no
poder crítico da razão como potencial emancipador. O debate
nesse campo visa proporcionar um ambiente de agir e falar sem
coações que pode auxiliar a formação e o ensino, não sendo
entendido nas mesmas condições originadas pelo Iluminismo. Surge
então a instância da racionalidade da linguagem intersubjetiva e
comunicativa, que articula o ego que se encontra numa relação
interpessoal. Com isso, abrem-se outras possibilidades de
repensar a teoria pedagógica a partir de critérios de avaliações
do ato de pensar e agir comunicativamente. Para isso, pensa-se
na ampliação da discussão interpretativa, ao nível do diálogo
intersubjetivo, sobretudo no âmbito da educação. Repensar e
analisar criticamente o ensino, a partir do processo de
reconstrução do projeto emancipativo, pode significar uma
ruptura com valores e conceitos incoerentes com o ponderar
educativo e formativo.
O trabalho dialoga com a teoria habermasiana,
filósofo da Escola de Frankfurt a partir da Teoria Crítica, pois
a auto-reflexão em Habermas estabelece relações entre
conhecimento e interesse. A possibilidade de relação entre
Filosofia e educação, influenciada por um procedimento
científico, sustenta certo impasse moral e cognitivo, pois é
comprometido não somente na busca por fundamentos educacionais,
mas também na ideia de emancipação.
A possibilidade de comunicação pode gerar o
processo de emancipação, por que a recuperação do potencial da
razão representa a ideia de fazer a crítica, mas também a
autocrítica, o que pode ser indício de agir livre na educação. É
nessa perspectiva que Rouanet (1987) sugere a existência, em
Habermas, de um iluminismo espontâneo, em estado prático,
incrustado nas estruturas da comunicação cotidiana, já que esse
pensamento pré-reflexivo contém todas as dimensões, ou seja, os
elementos estruturais da razão, como a crítica e o acervo
normativo. O autor remete à noção de razão mobilizada em cada
ato comunicativo para propor e refutar argumentos. Nessa ordem,
trabalha com um riqueza de valores iluministas implícitos que se
atualizam sempre que se instaura um processo comunicativo.
Essa proposta parece repensar criticamente a
prática científica e emancipativa nos processos educativos e
pedagógicos. Desse modo, a verossimilhança desse compromisso
trata de substituir a intencionalidade ou o modo de constituir
saberes científicos, culturais, sociais, artísticos, morais e
educacionais. É com possibilidade de restaurar da razão
abrangente que tentaremos identificar, no discurso de Habermas,
o potencial cognitivo da linguagem comunicativa que serve de
suporte teórico, repensando os "fundamentos da educação".
A tradição da história cultural procede de
maneira a provocar o processo de desvelar os valores da vida na
perspectiva dos participantes no desenvolvimento de interações.
O lócus pré-interpretativo pode revelar o sentido teórico na
esfera do ensino, pois, operar no passado no sentido de
reconstrução teórica dos aspectos formativos pode significar uma
contribuição pedagógica no ambiente de formação. É nessa
perspectiva que Pinto (1996) diz, acerca da educação, que não se
pode educar para o futuro sem se instruir no processo de
ensino-aprendizagem sobre o passado. Por este viés, Forquim
(1993, p. 10) comenta que "a educação é cada vez menos capaz,
hoje em dia, de encontrar um fundamento de uma legitimação de
ordem cultural, porque a cultura perdeu seu norte e se encontra
privada das amarras da tradição e da direção do princípio da
autoridade". Encontrar uma referência segura não é o propósito
fundamental da cultura contemporânea, pois o ensino encontra se
acabrunhado pelas múltiplas manifestações culturais e
autoritárias da razão e, é possível acrescentar também, por
causa da ausência de base conceitual da tradição.
O processo de se educar não é dado muitas
vezes à relevância no sentido de ser uma ação cultural múltipla
da tradição, que se preocupa em reaproximar o pensamento
contemporâneo dos ideais da idade clássica. A situação se
configura como um afastamento da essência da "natureza humana"
que se praticava ou se produzia no curso da história da
tradição, visto que o sentido do ensino, por exemplo, é
substituído por pensamentos velozes e transitórios da cultura do
imediatismo. Em vista desse entendimento, Arendt (1992) diz que
a problemática da educação liga-se à crise da autoridade, no
sentido de criar uma situação crítica, pois não se busca mais
vivenciar as experiências verdadeiras e incontestáveis, como a
quebra do princípio da autoridade e de valorização das grandes
obras do passado que foram fundamentais ao longo do processo de
formação humana.
Em consequência disso, o processo de
reconstrução na tradição se dá de maneira instantânea e, com
isso, a tendência é provocar a instabilidade na cultura
hodierna, incitando o processo de irreflexão no direito e a
liberdade de repensar o ensino. Entretanto, a proposta da ação
comunicativa habermasiana procura se expressar a partir da
linguagem que busca entender as bases universais voltadas para a
comunicação entre os interlocultores, pois é regida pelo cenário
amplo que compete à transmissão de questões fundamentais da
educação.
Pressupõe-se que essa linguagem de
comunicação pública é considerada uma fonte inesgotável nos
debates que envolvem a aprendizagem. É um diálogo sempre aberto
a argumentos inesperados, no qual novas teorias humanas podem
surgir a qualquer momento, já que é uma perspectiva comunicativa
e livre. O processo comunicativo se encontra no nível da
racionalidade da linguagem que tem a pretensão de almejar a
evolução social, cultural e, também educativa.
É possível dizer que essa concepção de
entendimento da linguagem pode apresentar algum benefício para a
educação, no sentido de que busca no processo de reconstrução a
noção de partilha dos saberes. O modo ultrapassa os paradigmas
da filosofia ocidental e, também o pensamento objetivista das
ciências para uma dimensão discursiva, na expectativa de que os
participantes atuam sem impedimentos. Não se trata de refutar o
saber do progresso intelectual e científico de emancipação, mas,
sim, de compreender um outro sentido da razão como potencial de
comunicação e linguagem.
Dessa forma, pensamos que a busca pelo
sentido da educação é um processo social, transformador, com
ideal emancipativo, sob a condição e a possibilidade de serem
construídos ou reconstruídos argumentos em grupos de pessoas que
participam democraticamente do processo. Nesse entendimento
pluralizado, o desenvolvimento pedagógico mediado por uma
linguagem intersubjetiva almeja o entendimento consensual entre
sujeitos. No entanto, a ideia de possível acordo é muitas vezes
despercebida pelos profissionais da educação, por entender que
seja uma mera idealização e por acreditar na ineficácia de
responder às expectativas da educação naquele instante.
Se há o entendimento que a educação não é
somente uma sequência de assimilação de conteúdos, então isso
requer a confluência entre as disciplinas pedagógicas para se
reunirem e somarem experiências formativas mediadas pela
reflexão crítica no processo de aprendizagem. Essa junção
interdisciplinar pode ser um diferencial que repense o ensino
teórico na procura de alternativas nas práticas pedagógicas, já
que trata de uma possibilidade de contribuir para um ensino
emancipador.
É possível que em algum momento ou fase da
vida, por hipótese, o educador contemporâneo ouviu ou mesmo
aprendeu que fazer educação leva tempo, já que o ensino deve ser
entendido também como uma trajetória ascendente e imanente na
constituição do gênero humano. A possibilidade de restauração
cultural da tradição pretende ser entendida e respeitada na
integridade, pois, do contrário, pode ocorrer o despreparo e se
perder a sua "validade".
Nesse sentido, existe aí a possibilidade de
valorizar não somente o aspecto intelectual de vivência
solidária em sociedade, mas também os espaços culturais mais
amplos possíveis de convivência social, costumes, lazer,
história e outras formas de condutas de vida humana que
constituem a evolução cultural. É nessa perspectiva que Habermas
diz: "Para mim, cultura é o armazém de saber, do qual os
participantes da comunicação extraem interpretações no momento
em que se entendem mutuamente sobre algo" (2002, p.96). Nessa
visão, a cultura é entendida como se fosse o núcleo da educação
que abrange o âmbito mais variado e amplo possível da
comunicação. Nessa expectativa de linguagem, a interpretação na
realidade do mundo social e educacional é possível mediante o
entendimento recíproco. É uma relação intersubjetiva por
excelência e, por essa razão, revela as diversidades culturais
que podem ser restauradas através da ação comunicativa e
interpretativa.
Pensa-se que a educação deveria dar mais
atenção à ideia de linguagem comunicativa, para ser reconstruída
em seu desenvolvimento. No entanto, isso não quer dizer agir sem
regras, pois as normas asseguram as condições necessárias à
validade do processo de diálogo e aprendizagem. É neste
entendimento que Habermas salienta na teoria do agir
comunicativo, visto que é uma reconstrução de relações humanas
pela via comunicativa da competência de cooperação e linguagem.
Unir a linguagem da ação comunicativa ao
ensino consiste na crítica ao processo emancipativo intelectual
em nível epistemológico. Sem dúvida, esse é um dos diagnósticos
críticos vividos pela educação, visto que a perda da tradição da
história, conjugada com a proliferação da modernização, são
modos exteriores do uso da razão técnica e objetivista, dando a
ilusão de que eles são processos de aprendizagem pedagógica.
A possibilidade da condição da linguagem
comunicativa articular saberes da esfera pública que permitem
capacitar, orientar, organizar, negociar, dialogar, criticar,
concordar, discordar, conversar, ouvir, entre outras atitudes
que atuam em diferentes espaços de comunicação social e
educativa. A integração dos conteúdos, mediada, por exemplo, por
um docente em sala de aula, pode ser inspirada por uma
racionalidade comunicativa habermasiana e, também, reflexiva e
participativa. Em vista desse entendimento, o processo é
concebido pela ação e a fala, pois são inseparáveis do conjunto
de relações comunicativas na perspectiva da educação. É nessa
perspectiva de desenvolvimento de ensino que se afirma Hermann:
A formação do
sujeito, enquanto tarefa básica da
educação escolar vinculada à tradição,
encontra formas de superação de um
fundamento que entra em queda pela
possibilidade de extrair uma
racionalidade comunicativa das condições
sociais. Trata-se de componentes
estruturais do mundo da vida, cuja
realização depende diretamente do
processo educativo, capaz de produzir
competência interativa e de autonomia
(1999, p.84).
Pode-se dizer que o processo de formação
cultural do sujeito encontra reforços interativos na razão
comunicativa, pois trata da cooperação entre os indivíduos.
Nesse sentido, os meios de aprendizagem se manifestam no
ambiente acadêmico e buscam credenciar a si e aos membros
envolvidos. Isso caracteriza-se uma possibilidade de conjugação
da ideia de liberdade e solidariedade colaborativa para a
educação, na perspectiva de emancipação social.
Por este viés, a perspectiva habermasiana, a
relação intersubjetiva da comunicação, propõe uma linguagem
entre sujeitos que buscam a melhor argumentação. A ação
comunicativa não segue a padronização da ciência objetivista que
define critérios, mas, sim, as próprias experiências
comunicativas que possibilitam a (re) construção.
Nessa direção, há uma
possibilidade na pluralidade de ideias, saberes, enfim, opiniões
que norteiam a vida cotidiana humana, pois o conceito de razão
comunicativa significa um processo que avalia todas as
tendências possíveis de linguagem e compreensão. É nesse sentido
que Habermas afirma:
Em qualquer processo
de entendimento do mais simples ao mais
complicado, todos os partidos apóiam se
num ponto de referência comum: o de um
consenso possível, mesmo que esse ponto
de referência seja esboçado a partir do
respectivo contexto individual, porque
ideias tais como verdade, racionalidade
ou justificação desempenham a mesma
função gramatical em toda a comunidade
lingüística, mesmo que venham a ser
interpretadas diferentemente e aplicadas
com critérios distintos (2002, p.175).
Por trás da expectativa de um possível
consenso, está à ideia de "verdade" que não é assumida aqui como
nas ciências objetivistas no processo de verificação de
respectivas experiências, mas, sim, como uma perspectiva ideal
que acate o melhor argumento racional do momento. É uma noção
transitória e falível de referência fundamental no processo
comunicativo capaz de buscar o entendimento em qualquer
discurso, já que a racionalidade comunicativa não exerce a
função de julgar, mas, sim, a de interpretar. Nessa expectativa,
a busca pelo consenso social deriva da ação comunicativa, ou
seja, da orientação que responde ao interesse cognitivo por um
entendimento comum na opinião pública que faz a crítica e também
a autocrítica.
Esse pensamento apresenta a tentativa de
ultrapassar os limites básicos de reflexão, buscando
possibilidade de propor a categoria da comunicação
argumentativa, por acreditar ser condição da ação comunicativa e
da linguagem tentar interromper o discurso hegemônico. Em
oposição a essa ação que tende a dificultar o processo de
linguagem pedagógica, a noção é de que.
Todo o agir, também o
agir comunicativo, é uma atividade que
visa a um fim. Porém, aqui se interrompe
a teleologia dos planos individuais de
ação e das operações realizadoras,
através do mecanismo de entendimento,
que é coordenador da ação [...] que
habita nas estruturas linguísticas força
aquele que age comunicativamente a uma
mudança de perspectiva (Ibid., p. 130).
A ideia de "fundo" cultural em que se baseia
a linguagem da ação comunicativa tem a perspectiva de consenso
possível. Esse modo de agir delega a participação de todos os
membros envolvidos no processo de compreensão. É um discurso
racional que oportuniza o saber partilhado, fundamentado na ação
comunicativa. Portanto, a noção de um fim não é entendido na
forma da razão estabelecida e solitária, mas, sim, na
reconstrução democrática de saberes.
Ultrapassar essa concepção de racionalidade
associada a um fim estabelecido gera uma perspectiva de
compreender a partir dos processos de linguagem. Para isso temos
que nos utilizar de uma ação social que repense as formas
históricas diversas da tradição e presentes na vida cultural
cotidiana, restaurando-as, já que,
el concepto de acción
comunicativa se refiere a la interacción
de a lo menos dos sujetos capaces de
linguaje y de acción que (ya sea con
médios verbales o con médios
extraverbales) entablan uma relación
interpersonal. Lo actores buscan
entenderse sobre una situación de acción
para poder así coordinar de común
acuerdo sus planes de acción y con ello
sus acciones. El concepto aqui central,
el de interpretación, se refiere
primordialmente a la negociación de
definiciones de la situación
susceptibles de consenso (HABERMAS,
2003, p.124).
A ação comunicativa apresenta nas relações
interpessoais o mundo social e também introduz um componente
possível na esfera da compreensão. O ideal de emancipação humana
desdenhado pelo histórico cultural da ciência não constitui mais
uma atitude com orientação sem contestação de interpretação. A
proposta das ações comunicativas entre atores representa as
possibilidades de futuros acordos na perspectiva de
entendimento. É relevante clarificar a possibilidade de
interpretação mediante a linguagem, pois se justifica pela ideia
de que.
Sólo el concepto de
acción comunicativa pressupone el
lenguage como un médio de entendimento
sin más abreviaturas, en que hablantes y
oyentes se refieren, desde el horizonte
preinterpretado que su mundo de la vida
representa, simultáneamente a algo en el
mundo objetivo, en el mundo social y en
el mundo subjetivo, para negociar
definiciones de la situación que pueden
ser compartidas por todos (Ibid.,
p.137-138).
Observamos que a ideia da ação comunicativa,
mediada pela linguagem intersubjetiva, caracteriza a
manifestação de interesses na expectativa de emancipação
universal entre falantes e ouvintes. Os conteúdos refletidos e
compartilhados na esfera objetiva, social e subjetiva
subentendem os espaços possíveis de interpretação linguística.
Nessa linha de entendimento, repensa-se aqui
a ideia de que isso não deixa de ser um processo de libertação
metodológica crucial do modelo epistemológico, centrado no
sujeito, em que a "passagem do paradigma da filosofia da
consciência para o paradigma da filosofia da linguagem constitui
um corte de igual profundidade" (HABERMAS, 2002, p.15). A saída
do cogito cartesiano, não só representa um avanço conceitual,
mas significa principalmente uma mudança de postura social.
A compreensão alicerçada na linguagem coloca
em crédito a proximidade do processo de restauração da tradição
da história cultural, o que pode significar uma atividade de
reconstrução da razão. A aposta dessa experiência cognitiva
estabelece uma racionalidade desvinculada da instrumental, pois
"da possibilidade do entendimento através da linguagem podemos
chegar à conclusão de que existe um conceito de razão situada"
(Ibid., p.175).
A razão adquire aqui status de socialização
mediante o uso da linguagem independente da ação teleológica.
Dessa forma, a compreensão linguística se manifesta a partir de
um agir motivador e comunicativo. A reconstrução discursiva
introduz uma "teoria" que alia a procura do conhecimento
verdadeiro ao possível, no sentido de conduzir à ideia de
emancipação. É nessa perspectiva que Habermas afirma.
Para el modelo
comunicativo de acción el lenguage sólo
es relevante, al hacer uso de oraciones
orientando se al entendimiento, contraen
relaciones com el mundo, y ello no sólo
directamente, como en la acción
teleológica, en la acción regida por
normas o en la acción dramatúrgica, sino
de un modo reflexivo (2003, p.143).
A semelhança entre a ação comunicativa e a
teleológica é que ambas trazem consigo a ideia de uma
racionalidade orientada para um fim, porém, na ação
comunicativa, o fim está no meio do próprio agir, e não fora.
Nesse sentido, somente a referência da razão aos processos
comunicativos pode pressupor relações livres de coações. É nessa
perspectiva de linguagem comunicativa que se pode repensar a
teoria e o próprio pensamento e, nesse sentido, almejar uma
situação de compreensão ideal que não seja uma imposição, mas,
sim, uma possibilidade de agir.
Para Habermas (2003) a ação comunicativa não
pode ser considerada da mesma forma que racionalidade orientada
para um fim, pois o agir teleológico se relaciona com o mundo
físico de modo causal. Já a racionalidade dos processos
comunicativos de entendimento é medida por um conjunto de
condições de validade como requisito dos atos de fala e por
pretensões de validez que se manifestam por razões discursivas
da linguagem.
A ação comunicativa da linguagem habermasiana
pode gerar, não somente possíveis processos de entendimento, mas
também, situações de desentendimento pelos sujeitos quando não
há possibilidade de consenso; e nesse entendimento, o uso da
linguagem possibilita a reconstrução de argumentos racionais na
própria ação. Dessa maneira, a "orientação em função das
operações da consciência é abandonada em proveito da orientação
em função das objetivações do agir e do falar" (Ibid., p.26). A
linguagem é ampliada mediante o processo de comunicação, pois é
a afirmação de uma prática discursiva em direção ao entendimento
possível na linguagem intersubjetiva1.
Nessa expectativa de comunicação da
linguagem, Habermas (2002) baseia a reflexão dos atos de fala em
atos linguísticos emitidos por um falante que gostaria de chegar
a um entendimento com outro falante acerca de algo no mundo.
Esse agir da linguagem apresenta um fim pautado num contexto que
vise à cooperação. A colaboração entre os falantes descreve uma
preocupação de introduzir conceitos de solidariedade, pois a
reciprocidade entre os falantes indica escuta, atenção,
sinceridade, e compreensão na perspectiva de possíveis acordos.
A ação linguística se constitui, portanto, no diálogo entre dois
falantes ou mais, visto que a comunicação só acontece mediante a
possibilidade de entendimento pelo consenso.
Por este viés, Habermas (2002) entende que o
agir voltado para o entendimento pode ser apontado como processo
de reconstrução, uma vez que a intersubjetividade requer o
consenso possível mediante o uso da linguagem, segundo as
perspectivas iniciais dos falantes. É nessa guinada linguística
que os falantes e ouvintes almejam o entendimento mútuo, por
causa do processo argumentativo e retórico que torna possível o
diálogo. Dessa forma, os falantes interagem de forma convincente
e livre, proporcionando um ambiente democrático, pois a
linguagem da ação comunicativa não precisa ser idêntica. Assim,
o processo comunicativo e linguístico tornam-se possível na
medida em que a ação é orientada para o mesmo fim. Essas
estruturas gramaticais da linguagem passam a ser estudadas como
sinais que possuem sentido e significado, pois as frases são
constituídas, os enunciados são emitidos, mas podem ser
depreendidos das reconstruções linguísticas. A saída, então, do
modelo da Filosofia da consciência para a Filosofia da linguagem
permite a distinção entre racionalidade estratégica e
comunicativa. A racionalidade comunicativa é uma tentativa de
escapar da razão monológica e mostrar a prática usual da fala. A
validade do processo comunicativo encontra, portanto, na fala
humana o mundo prático e concreto. Em consequência disso,
Wellmer, falando sobre Habermas, diz que a concepção da ação
comunicativa pode ser percebida,
Não só como um
‘mecanismo de coordenação’ de ações dos
indivíduos em sociedade, mas também como
portadora de um potencial de
racionalidade comunicativa que só pode
tornar-se manifesto depois que se tenha
destruído o dogmatismo implícito das
concepções do mundo tradicionais, e de
que os requisitos de validade tenham
sido reconhecidos como aqueles para os
quais não há nenhuma justificativa,
exceto por meio de argumentos (1994,
p.92).
Assim, o processo comunicativo se realiza nos
possíveis acordos sociais que se manifestam no cotidiano da
linguagem provinda de ação comunicativa. Configura-se, desse
modo, um agir racional em que a racionalidade problematiza a
crença em relação à tradição. O possível entendimento depende
das regras que forem apresentadas como condições de comunicação
por meio da argumentação, a fim de reconstruir o mundo cultural
e a sociedade.
Nessa perspectiva, a razão comunicativa,
mediada pelo ideal de consenso, implica o processo
intersubjetivo da linguagem e a intercompreensão que tem em
vista a questão do poder. A crítica de Habermas à forma
dominante da razão ocidental é vista como democrática, pois a
pluralidade de "competência" e opinião pública permite que todos
tenham possibilidades de fazer a partilha de saberes entre si na
relação dialógica com o outro, desde que sejam respeitadas as
suas respectivas normas. Nesse sentido, afirma Habermas.
El concepto de acción
comunicativa presupone el lenguaje como
un médio dentro del cual tiene lugar un
tipo de procesos de entendimiento em
cuyo transcurso los participantes, al
relacionarse con un mundo, se presentan
unos frente a otros con pretensiones de
validez que pueden ser reconocidas o
puestas en cuestión (2003, p.143).
Pode-se observar que o conceito expresso na
ação comunicativa supõe uma condição que legitima esse processo,
no intuito de estabelecer os interesses e possibilidades
consensuais. A pretensão de validez torna afiançável a
racionalidade intersubjetiva. Nessa perspectiva, a interação
social busca o entendimento possível pautado na autocrítica,
mesmo em condições de dissenso.
O entendimento
através da linguagem funciona da
seguinte maneira: os participantes da
interação unem-se através da validade
pretendida de suas ações de fala ou
tomam em consideração os dissensos
constatados. Através das ações de fala
são levantadas pretensões de validade
criticáveis, as quais apontam para um
reconhecimento intersubjetivo (HABERMAS,
2002, p.72).
O processo de restauração discursiva das
pretensões de validade mediante a linguagem intersubjetiva é
vinculado à ideia de consenso refutável. A noção de possível
acordo se reconhece também pelo pensamento crítico na
compreensão de "verdade absoluta", pois é nessa condição que se
pode estabelecer o argumento refutável que mantém a relação
social e a teoria de verdade na perspectiva em aberto.
Em outro sentido de ação, Habermas (2002) vai
dizer que o agir estratégico é baseado na capacidade de produzir
uma racionalidade planejada para um fim que direciona na
perspectiva do sujeito diante do processo descomedido da
modernização. O procedimento elaborado pelo uso prático e
técnico da razão instrumental é como se fosse um mecanismo que
atua nas esferas da sociedade social e cultural. É nessa
perspectiva que tanto o agir comunicativo como o agir
estratégico são mediados pela linguagem, mas somente um deles
apresenta condições favoráveis de interação e entendimento.
Dessa forma,
Somente ao agir
comunicativo é aplicável o princípio
segundo o qual as limitações estruturais
de uma linguagem compartilhada
intersubjetivamente levam os atores – no
sentido de uma necessidade
transcendental tênue – a abandonar o
egocentrismo de uma orientação pautada
pelo fim racional de seu próprio sucesso
e a se submeter aos critérios públicos
da racionalidade do entendimento (Ibid.,
p.82-83).
Ao contrário do agir estratégico, o agir
comunicativo é constituído por atores que desempenham uma
linguagem intersubjetiva na expectativa da comunicação. Os
intérpretes partilham de forma democrática a razão que permite
compreender mediante a ação linguística reconstruída. Não se
estará assim definindo uma ação, mas orientando-a para um fim
que pressupõe um possível entendimento. Consequentemente, os
atores deixam em suspensão os seus fundamentos na função de uma
racionalidade que busca expor os seus próprios argumentos para
serem avaliados pela opinião pública crítica.
Na perspectiva de Habermas (2002), o agir
comunicativo é tomado como possível padrão na relação
intersubjetiva, pois torna possível a compreensão da linguagem
no discurso. A interação comunicativa é construída entre
sujeitos engajados por uma proposta habitual. A finalidade
recíproca torna viável a emancipação do sujeito, embora seja ao
mesmo tempo uma interação social. É uma relação comunicativa que
pretende formar o indivíduo através da razão reflexiva, mas
também um agir livre em que o participante interage e respeita o
posicionamento do outro. Dessa forma, a comunicação permite que
as opiniões dos sujeitos sejam ouvidas e respeitadas, porque o
saber é partilhado com o objetivo de que seja seguida a norma
inicial no entendimento ideal dos participantes.
De outra forma, seguindo o entendimento de
Habermas, os atores agem estrategicamente na perspectiva da
comunicação e não podem ser qualificados como possíveis
geradores de entendimento intersubjetivo. Mas é possível que o
agir estratégico possa ser uma alternativa, isto é, possa
funcionar se o agir comunicativo fracassar. Nesse sentido, é uma
opção, e não uma escolha como uma proposta realizável do
discurso na comunicação.
Por este entendimento, Apel (1994) pontua a
improvável de compreender a comunicação linguística a partir da
interação estratégica, por causa da ação teleológica, pois é uma
representação de uma ação calculada. Em vista dessa
interpretação, Habermas indica outro sentido para o qual as
ações podem ser comunicativas, já que,
As pessoas gostariam
de agir comunicativamente, mas que elas
são obrigadas a agir assim. Quando os
pais querem educar os seus filhos,
quando as gerações que vivem hoje querem
se apropriar do saber transmitido pelas
gerações passadas, quando os indivíduos
e os grupos querem cooperar entre si,
isto é, viver pacificamente com o mínimo
de emprego de força, são obrigados a
agir comunicativamente (1993, p.105).
Como se vê, o agir comunicativo é um processo
que envolve a linguagem intersubjetiva e que deve ser
compreendido como inerente à ação entre os sujeitos, sem coação.
A "preservação" na tradição da história pode ser realizada na
perspectiva de continuidade na transmissão cultural, desde que
seja interpretada e compartilhada entre os indivíduos em
processo de cooperação mútua possível. Sendo assim, traz à tona
as possibilidades de emancipação coletiva mediante as relações
dialógicas entre sujeitos que colaboram entre si.
A categoria do agir comunicativo habermasiano
apresenta com isso a perspectiva de emancipação frente aos
princípios do âmago da questão ideológica da modernidade, ou
seja, o interesse da ação instrumental e do conhecimento
empírico. A relação intersubjetiva na ação comunicativa permite
a possibilidade de democratização dos saberes, experiências que
conjugam teorias e práticas, valorizando o processo de
restauração estabelecido pela cultura e pela tradição. Com essa
proposta, busca-se redimensionar o potencial da comunicação na
sociedade, mas também nos processos em que se pensa discutir
alguns aspectos da linguagem da ação comunicativa, dando-lhe
prosseguimento também no âmbito da formação docente.
Partindo para as considerações finais,
gostaríamos de frisar que um dos motivos significativos desta
pesquisa foi apontar o empenho habermasiano em ultrapassar a
lógica objetivista contida nas ciências naturais. Nesse sentido,
propomos restaurar os pressupostos submersos na tradição da
história, na perspectiva de reaproximar a Filosofia e a
Pedagogia. A tentativa de entender os processos educacionais
trouxe a possibilidade de reconstruir algumas discussões que
envolveram a demanda da formação docente. A reconstituição no
âmbito do ideal de formação humana fez pensar a reflexão como
princípio imprescindível nas práticas pedagógicas, pois pode
referenciar e auxiliar no contexto de ensino e da formação de
professores.
Para melhor entender esta investigação,
partiu-se da ideia de inserção da hermenêutica crítica[*] na
perspectiva de Habermas, que nos permitiu fazer articulações com
a teoria da linguagem. Podemos descrever que essa estratégia
interpretativa e argumentativa delineou as mais variadas
possibilidades de restauração cultural do processo docente. A
escrita procurou investigar nos textos dos autores as intenções
que abrigam a articulação do discurso filosófico-pedagógico, que
fizesse a crítica no âmbito da formação de saberes, mas também a
autocrítica referente aos discursos velozes e transitórios da
cultura hodierna. O diagnóstico contemporâneo assumiu a forma de
despertar no homem/mulher a ideia de que a sociedade de consumo
não está interessada em restaurar a concepção da tradição
histórica em sua essência, mas em trazer a ideia do antigo para
o presente renovado. A adaptação moderna cultua a noção do
"eterno presente" nas dimensões culturais, intelectuais,
estéticas, mas também nas relações entre a educação e a
formação.
Em diferentes épocas do ensino ocidental
entende-se que não somente a Filosofia se ampliou para novas
concepções de mundo, mas também a própria pedagogia nas diversas
formas. Nesse sentido, o nosso trabalho problematizou a íntima
relação da formação do pedagogo a partir dos pressupostos
metafísicos no curso da tradição da história, trazendo
perspectivas de recuperação teórica na aprendizagem docente.
A perspectiva do ideal de formação humana
emergiu do processo de reflexão em várias dimensões da vida
social e cultural. Propôs-se esclarecer o processo de
articulação entre o passado e o presente que fizeram a noção de
formação humana cultivada por várias gerações. A ideia dessa
dinâmica formativa deixou um legado de reconhecimento, pois o
avanço cultural considerou a possibilidade de restauração da
tradição na formação do pedagogo. O lócus imaginário em
desenvolvimento do cidadão, bem como a própria formação e a
educação, sustentaram por séculos o pensamento ideal de
constituição dos saberes cognitivo, moral e artístico. Cada um
desses pilares da formação serviu de base conceitual, portanto,
até certo ponto de referências imutáveis de saberes a serem
consultados.
Abordamos o pensamento pós-metafísico em
Habermas, na perspectiva de contribuir para o esclarecimento da
educação. Ele pretendeu descentralizar a razão, propondo a
pluralidade de culturas e ideias que procuraram articular a
dinâmica de fazer experiência nas relações entre sujeito,
sociedade, identidade, homem/mulher e natureza. A virada
pragmática da linguagem ocorrida na Filosofia situou a razão em
estruturas quase transcendentais. A mudança de paradigma do
metafísico para pós-metafísico trouxe a possibilidade de
abertura para refletir o ensino referente às contingências da
contemporaneidade. Na perspectiva da prática pedagógica, os
sujeitos manteriam o horizonte da razão ampliada, pressupondo um
acervo cultural não-idêntico imperante nas diversidades de
culturas. A reconstrução da tradição da história, na perspectiva
de formação do pedagogo, deixou de ser um propósito exclusivo de
uma teoria da Filosofia para ser uma perspectiva na condição
múltipla de experiência da alteridade.
Foi dada continuidade ao processo de
entendimento da descentralização da razão, em que se encontra,
nos ideais iluministas, a possibilidade de restauração do
projeto emancipativo, na perspectiva de Habermas, como proposta
para o ensino e a formação docente. Nesse contexto, a cultura, a
tradição da história e o conhecimento científico foram tomados
por uma razão formal e intelectual que credencia os
procedimentos instrumentais na educação. A reconstrução da
pedagogia iluminista mediante o processo e a possibilidade de
abertura da razão trouxe a expectativa de ampliação de saberes.
Sendo assim, as etapas de formação do educador não obedecem
somente ao sentido intelectual.
Surge a partir daí a expectativa habermasiana
de contribuição no âmbito da educação, especialmente na formação
de professores, propondo o recurso performativo da razão como
potencial de linguagem, com expectativas na formação docente,
redimensionando para o contexto da crítica. A razão descentrada
concentrou seus esforços na restauração da estrutura do discurso
comunicativo mediante a linguagem intersubjetiva. E possibilitou
a compreensão do motivo pelo qual o trabalho da epistemologia
tradicional na formação do educador foi se desgastando,
assumindo outra expectativa de pensamento, que fomentou a
linguagem em vista do processo formador, pois essas referências
devem fazer frente às situações culturais emergentes que abalam
o campo educacional.
A partir do processo interior cultural, nos
empenhamos a investigar a inserção da hermenêutica crítica*
segundo Habermas, propondo argumentar com a ideia de
consenso possível, contrapondo-se ao estabelecido que
desarticulou a expectativa de um entendimento participativo da
pedagogia docente. Ao propor um discurso falível, as
circunstâncias de argumentação projetaram um processo de
racionalidade que abrange e respeita os múltiplos
desenvolvimentos dos educadores. A reconstrução de argumentos
mais solidários produz vivências de aprendizagens
transformadoras da formação docente e consequentemente numa ação
comunicativa que revela uma possível contribuição emancipadora
para a educação.
Nessa perspectiva, a formação docente
encontra-se em constantes desafios que permeiam a sua prática
pedagógica. Tornar as verdades irrefutáveis em refutáveis nos
discursos acadêmicos, por meio do agir comunicativo e da
linguagem, pode oferecer condições mais plausíveis para somar
esforços contributivos na formação do educador atual. Esta
possibilidade significa reavaliar o sentido da formação de
professores, propondo uma reabilitação mediante a prática
comunicativa de formar aprendizes de saberes sem pleitear a
verdade absoluta. Nesse sentido, a posição conservadora da ação
docente busca nada mais ou nada menos do que restaurar e renovar
a formação e o ensino, no sentido plural e interdisciplinar,
preocupando-se em expandir as possibilidades de aprendizagem
docente. A recuperação do mundo cultural na perspectiva da
pedagogia e da formação, no âmbito das ciências humanas, permite
acreditar no potencial da linguagem intersubjetiva e
comunicativa como condição possível para a quebra da lógica
cientificista, porém sem extingui-la.
Dentro desta perspectiva de formação, é
importante perceber o que ocorreu no discurso do novo e do
concreto, repensando como se dá a evolução abrangente do campo
da cultura e do conhecimento. Tem-se por certo que sem a
compreensão crítica e hermenêutica do processo de reprodução da
tradição da história, não há possibilidade de melhoras
acentuadas no processo pedagógico atual, inclusive na formação
docente. Com isso, o uso dos bons argumentos é o que mantém viva
uma tradição da história que se mantém à base da partilha de
saberes. Talvez a teoria da ação comunicativa auxilie a educação
exatamente nesse ponto, ao propor a atenção dos educadores para
a importância da tradição afeita à leitura dos clássicos, à
disciplina teórica, ao compromisso crítico social, à visão
pluralista e à ideia interdisciplinar que sobrevive na medida em
que tiver as suas bases assentadas nos processos de linguagem e
que convença os educadores a não abrir mão dessas instâncias.
Nota [*] Conforme Bleicher (2002), a
ideia da hermenêutica crítica tanto para Apel como Habermas está
em desacordo com uma abordagem metódica e objetiva na busca do
conhecimento prático. Nesse sentido, a presente pesquisa é
baseada na "crítica", entendida no sentido da averiguação
interpretativa frente às regras que formam os saberes na
formação. As manifestações intelectuais e culturais consideradas
ideológicas ou não poderão ser avaliadas, pois a proposta dessa
hermenêutica é fundamentalmente auto-reflexiva, libertadora,
dando maior relevância à conjuntura sócio-histórica. Em termos
de educação e formação, pensamos que a análise considerável
dessa investigação busca entender o rompimento da formação do
pedagogo com a tradição, no realizar-se do Iluminismo; para isso
a possibilidade da hermenêutica crítica ser o elo no processo de
restauração cultural pode ser um parâmetro contributivo na
contemporaneidade.
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