O presente artigo discute a
categoria Organização do Trabalho Didático, pressuposto
assentado à luz da Ciência da História, portanto,
marxiana. Inicialmente, será apresentada os pressupostos
conceituais os quais, sustentam o desenvolvimento conceitual
desta categoria. Posteriormente, explicitar-se-á os seus
elementos constitutivos, tendo em vista compreender as suas
formas históricas. Por fim, após tecer algumas considerações
sobre o processo histórico do trabalho Didático, concluiu-se que
a proposta de escola moderna, preconizada por Comenius em sua
Didactica Magma ainda é vigente na atualidade e, como
decorrência desta constatação, acredita-se ser urgente a
produção de uma nova didática e uma nova Organização do Trabalho
Didático.
Palavras-chave:
Organização do trabalho Didático, Trabalho Docente, Escola.
Abstract
This article discusses the
category Labour Organization Didactic, seated assumption in
light of the Science of History, so Marxist. Initially, you will
see the conceptual assumptions which, support the conceptual
development of this category. Later, it will explain its
constituent elements in order to understand their historical
forms. Finally, after some considerations about the historical
process of the teaching work, it was concluded that the proposed
modern school, advocated by Comenius in his Didactic
Magma is still in force today, and as a result of this finding,
believed to be urgently production of a new didactic and a new
work
organization Didactic.
Key-words:
Work Organization Didactic, Work’s teacher, school.
INTRODUÇÃO
O presente artigo tem por objetivo discutir a categoria chamada
Organização do Trabalho Didático, pressuposto este
assentado à luz da ciência da história, portanto,
marxiana. A partir da discussão de seus três aspectos
constitutivos, isto é, o tipo histórico de ‘relação entre
educador-educando, o instrumental mediado’ desta
relação e, o tipo de local específico’ (ALVES, pp. 10-11,
2005) em que se deu/dá tal relação, é que os autores deste
trabalho tecem suas considerações e reflexões sobre tal
categoria, tendo em vista, uma maior compreensão sobre o
processo de trabalho docente. Inicialmente, será apresentada os
pressupostos bibliográficos e documentais os quais, deram
sustentação no desenvolvimento de tal categoria, em termos
conceituais. Posteriormente, tentar-se-á explicitar os elementos
constitutivos desta categoria, a qual foi desenvolvida por
Gilberto Luiz Alves[1].
Por fim, após tecer as
devidas considerações acerca desta categoria, bem como suas
formas históricas, explicita-se um questionamento sobre a
realidade educacional brasileira e a categoria aqui elencada
como objeto de reflexão, tendo em vista, contribuir para uma
maior compreensão sobre tal realidade e assim, promover uma
reflexão sobre a atual instituição social responsável pela
educação de nossas crianças e jovens, instituição esta que, como
se poderá perceber, não atende às exigências sociais de nosso
tempo.
A Organização do Trabalho
Didático: categoria e conceito
A Organização do Trabalho Didático trata-se de um empreendimento
teórico elaborado por Gilberto Luiz Alves[iii],
esta proposta teórica trata da compreensão do trabalho do
educador, isto é, “A organização do trabalho didático
constitui-se, conceitualmente, nos limites de outras categorias
mais centrais, tais como trabalho e organização técnica do
trabalho, e as implica” (Alves, 2005, p. 10, grifos nossos).
Portanto, trata-se de uma categoria a qual abrange, e tem como
objeto de estudo, o processo de trabalho (docente). Tal
pressuposto pode ser encontrado, em sua forma acabada, na obra
intitulada O Trabalho Didático na Escola Moderna: formas
históricas (2005). Para tanto, Alves (2005, p. 11) debruça-se
sobre obras clássicas e documentais, como por exemplo, “a
Didática Magma de Comenius (1976) e o Ratio Studiorum
de Franca (1952), além de obras consagradas da história da
educação como Cambi (1999), Manacorda (1989), Santoni Rugiu
(1998), Verger (2001), entre outros”.
Tendo em vista não cair em
um ecletismo teórico-metodológico, o autor elenca a ciência
da história como pressuposto norteador de sua categoria,
isto é, calcando-se na teoria marxiana, mais especificamente, no
rigor teórico-metodológico desenvolvido por Marx em
Contribuição a Crítica da Economia Política (2008), obra
esta na qual, Marx (2008, p. 264) afirma que “A
anatomia do homem é a chave da anatomia do macaco. O que nas
espécies animais inferiores indica uma forma superior, não pode,
ao contrário, ser compreendida senão quando se conhece a forma
superior”.
Evidencia-se com essa
afirmação que o estudo da forma mais desenvolvida é que permite
apreender o movimento tendencial das formas mais atrasadas. Por
exemplo, para melhor captar os movimentos de um determinado tipo
de organização social, à luz da “ciência da história”, torna-se
imperativo perscrutar as formas mais avançadas deste tipo de
organização social, pois, esta forma avançada seria a chave para
compreender as demais formas menos avançadas, tendo como suporte
teórico-metodológico, a categoria Totalidade. Por isso de
sua célebre frase: “a anatomia do homem é a chave para a
anatomia do macaco”.
A partir deste pressuposto
marxiano, Gilberto L. Alves percorre a história do homem e
assim, capta os condicionantes materiais a partir dos diferentes
modos de produção, em particular, o período de transição do
Feudalismo para o Capitalismo. O autor elencou este período
transitório como ponto inicial de seu estudo, pelo fato de
permitir-lhe captar, de forma mais clara, os embates
ideológicos, filosóficos, econômicos, sociais no interior dessas
sociedades, isto é, embates entre a nobreza feudal (em
decadência) e a burguesia (nascente). Situação esta que, por
conseguinte, incidiam de forma sensível sobre a educação, pois,
até aquele momento, encontrava-se sob a autoridade religiosa (o
clero) e a nobreza feudal e daquele momento em diante,
encontravam-se no foco da luta dos grupos burgueses, humanistas,
reformadores, iluministas os quais, clamavam por acesso e
principalmente, pela secularização, laicização e expansão da
instrução.
Não obstante, Lancillotti
(2008, p. 97-100) corrobora com tal estudo esclarecendo que,
desde o séc. XIV, período este reconhecido pela historiografia
como Renascença, também denominado como Renascença
pedagógica, pois, estendendo-se este período do referido
século acima até fins do séc. XVII, a autora elenca dois fatores
que, por sua vez, contribuíram para denominar este período como
a Idade da Didática, a saber: a) o humanismo e com esse
movimento, o surgimento de uma nova concepção de homem; b) a
reforma e a contra-reforma, ambos movimentos ocorridos em
momentos históricos posteriores os quais promoveram mudanças
sensíveis no pensamento pedagógico da época.
E assim, Alves (2005)[iv]
desenvolve suas premissas sobre a categoria Organização do
Trabalho Didático, tendo como cenário culminante o período
de transição destes dois modos de produção, isto é, do
Feudalismo para o Capitalismo, tendo como objeto de estudo, as
formas históricas do trabalho do educador.
AS FORMAS HISTÓRICAS DA
ORGANIZAÇÃO DO TRABALHO DIDÁTICO
Como já assinalado
anteriormente, esta categoria organiza-se em acordo com as
condições históricas dadas, ou seja, materiais. Neste sentido, o
autor esclarece, com um exemplo, a primeira forma histórica de
organização do trabalho didático:
na Antiguidade e na Idade
Média o educador era o preceptor; na Idade Moderna surgiu
o professor, dominante até nossos dias [...] nas duas
épocas referidas, os estudantes assumiram formas,
respectivamente, de discípulos e de alunos organizados em
classe. (ALVES, 2005, p. 11, grifos nossos)
Deste modo, detendo-se um
pouco mais sobre esta primeira forma histórica de Organização do
Trabalho Didático, “o preceptorado”, este irá se configurar de
modos variados, a depender do tempo e lugar, como exemplo,
tem-se a relação do ágrafo-bardo nas sociedades sem escrita,
os poetas da Grécia homérica ou os mestres-escolas da
Idade Média (MARTINS, RIBEIRO & HALBERSTADT, 2010). O que
marca o preceptorado é a relação educativa, de caráter
predominantemente individualizado. Mesmo quando tinha sob
sua responsabilidade um grande quantitativo de alunos, o
preceptor fazia um acompanhamento mais individualizado, de
seus discípulos. Como exemplo traz-se o caso da relação
educativa entre Pepino e Alcuíno, Agostinho e Adeodato, mesmo na
Modernidade há proposições de preceptorado, como foi o caso do
Emílio ou da educação, de Rousseau (séc. XVIII). É
importante ainda acrescentar que, como forma histórica, o
preceptorado também se dá em um espaço físico determinado - na
ágora, praças e feiras da Antiguidade; na casa do discípulo, nos
bosques e campos que a cercam, também implica no uso de alguns
instrumentos de trabalho e conteúdos (tabletes de argila, a
lousa).
Vale ressaltar que esta forma
histórica, o preceptorado, teve seu ápice de desenvolvimento
material na Idade Média, no entanto, com o processo de transição
do Modo de Produção Feudal para o Modo de Produção Capitalista,
esta forma histórica de relação educativa também é superada por
outra, a manufatureira, pois, aquela baseava-se em uma
organização técnica do trabalho de tipo artesanal, já esta,
organizada aos moldes técnicos da manufatura nascente,
consequentemente, a superou. Neste sentido, para Alves (2005,
pp. 60-63) o trabalho didático se organizou nos moldes do
preceptorado até a Modernidade, quando com Comenius, surge uma
nova forma de organização, a do ensino simultâneo. Embora
essa forma histórica de Organização do Trabalho Didático tenha
sido preconizada em meados do séc. XVII esta se universaliza no
século XIX.
Além deste modelo de ensino
também houve outras proposições, como foi o caso do ensino
mútuo que surgiu como alternativa para ampliar o atendimento
escolar, em um momento em que não havia professores suficientes
para atender a demanda por escola, diferenciando-se do ensino
simultâneo pela introdução e utilização, em vistas de auxiliar o
atendimento , dos monitores ou decuriões . No entanto,
logo que esse quantitativo foi atendido, tal forma histórica de
ensino foi superada. (ALVES, 2005, p.117 e seguintes)
É importante destacar que
essas formulações de Comenius (ensino simultâneo) e Lancaster e
Bell (ensino mútuo) não surgiram por acaso, foram sendo forjadas
por aproximações sucessivas, a partir de variadas experiências.
Antes de Comenius pode-se observar elementos do trabalho
manufatureiro na proposta de outros educadores de “renome”, tais
como: os Irmãos da vida comum, Melanchton, Sturm, Ratke,
dentre outros. Mas, foi Comenius quem elaborou a proposta mais
madura. Quanto ao ensino mútuo, pode-se identificar sugestões do
uso de monitores na própria obra de Comenius, porém, não foi o
centro de sua proposta, entretanto, será a base da proposta de
Andrew Bell e que, será aprofundada por Lancaster. Neste
sentido, Alves (2005, p. 123) pondera, “ao ensino mútuo, deve
ser creditado o mérito de ter sido um recurso pioneiro visando à
universalização da educação”. Deste modo, na tentativa de melhor
captar tais movimentos impactantes sobre a educação, sobre o
ensino e sobre a escola moderna nascente, o autor elege o “bispo
morávio” Comenius como precursor e como sujeito que melhor
atendeu às exigências ao seu tempo, no que diz respeito, à
expansão, barateamento e simplificação da instrução pública
(ALVES, 2005).
Segundo o autor, o bispo
morávio ao captar os movimentos de tensões ideológicas
impactantes na educação, propôs através de seus escritos, mais
especificamente, a partir de sua grande obra Didática Magma,
o ideal de ensinar tudo a todos e, consequentemente,
promoveu a introdução de um “novo instrumental” na relação de
ensino. Sendo que este novo instrumental revolucionaria e daria
cabo das exigências educacionais ao seu tempo, assim é que surge
o manual didático em substituição aos compêndios
clássicos utilizados até então, os quais encareciam e
impossibilitavam a secularização, laicização e barateamento da
instrução pública, tão aclamada pela burguesia nascente. Este
novo instrumental didático, o pan-metódico segundo
Comenius necessariamente, deveria ser de dois tipos: um
destinado aos alunos e outro aos professores. Para isso, ambos
seriam elaborados por doutos e em larga escala como o próprio
bispo alerta: “Uma só coisa é de extraordinária importância,
pois, se ela falta, pode tornar-se inútil toda a máquina, ou, se
está presente, pode pô-la toda em movimento: provisão
suficiente de livros pan-metódicos”. (COMENIUS, 1996, p.
459, grifos nossos) Logo, percebe-se que este instrumental é a
base de todo o “edifício da organização do trabalho proposta por
Comenius [...] instrumento que permitiu a simplificação e
objetivação do trabalho docente, e, por conseguinte, a
diminuição dos custos da instrução”. (LANCILLOTTI, 2008, p. 115)
Portanto, com a introdução do
manual didático, este enquanto novo instrumental na
relação educador-educando, os condicionantes e as exigências de
sua época serão atendidas e com isso, consolidando o seu projeto
de “ensinar tudo a todos”. Reitera-se que, além de
introduzir um novo instrumental, o bispo morávio
colaborou para o surgimento de um novo tipo de relação entre
educador-aluno. A partir de seus escritos e de seu novo
instrumental, tal relação de ensino, até então caracterizada
pelo preceptorado, seria superada por um novo tipo de
relação, isto é, o ensino simultâneo modelo este o qual
foi desenvolvido e organizado a partir do modo de organização da
indústria manufatureira, em ascensão naquele período,
substituindo a oficina de artesanato do período feudal. (ALVES,
2005)
Além disso, é imperativo
evidenciar um terceiro fator que, a partir dos trabalhos
elaborados pelo bispo morávio, contribuiu significativamente,
para a consolidação de seu plano de ensino, isto é, o
estabelecimento de um local específico no qual, se daria
o processo de ensino e assim, baseada na organização
manufatureira, atender ao montante de crianças e jovens sedentos
por instrução. Esta demanda, por sua vez, seria atendida a
partir do momento em que fosse instaurada uma divisão de forma
ordenada em todas as atividades docentes:
I. Distribua-se
cuidadosamente a totalidade dos estudos em classes, de modo que
os primeiros abram e iluminem o caminho aos segundos, e assim
sucessivamente.
II. Distribua-se
meticulosamente o tempo, de modo que a cada ano, mês, dia e hora
seja atribuída a sua tarefa especial.
III. Observe-se estritamente
esse horário e essa distribuição das matérias escolares, de modo
que nada seja deixado para trás e nada seja invertido na sua
ordem. (COMÉNIO, 1996, p. 223).
Logo, evidencia-se neste
fragmento que a organização no processo de trabalho deveria ter
como elemento essencial, a divisão do trabalho. Como decorrência
desta reorganização em classes, o mesmo deveria ocorrer com o
ensino, como pode ser constatado da seguinte forma:
Dividiremos, portanto, em
quatro partes distintas os anos de idade ascendente: infância,
puerícia, adolescência, e juventude, atribuindo a cada uma
destas partes seis anos e uma escola de modo peculiar, de modo
que:
I. O regaço materno seja a
escola da infância;
II. A escola primária (ludis
literarius), ou escola pública de língua vernácula, seja a
escola da puerícia;
III. A escola de latim ou o
ginásio seja a escola da adolescência;
IV. A Academia e as viagens
sejam a escola da juventude. (COMÉNIO, 1996, p. 410).
Além da divisão do ensino em
classes e em diferentes níveis, o bispo morávio ainda acrescenta
a necessidade de ser cada uma das matérias escolares ensinadas
por um único professor, isto é, “I. Cada escola, ao menos cada
classe, tiver um só professor. II. Para cada matéria, houver um
só autor.” (COMÉNIO, 1996, p. 278-279) Fica evidente, nestes
fragmentos de Comenius, que o sucesso na instrução escolar bem
como o bom funcionamento desta nova instituição, sua engrenagem
de funcionamento deveria seguir os moldes e o mesmo processo que
estava ocorrendo com a manufatura ascendente.
Estas determinações materiais
em processo de transição, também são discorridas por Santoni
Rugiu (1998, p. 123) que assim se manifesta sobre a distinção
existente entre “colégios e oficinas” como decorrência destas
determinações mais amplas da sociedade (artesanato versus
manufatura) naquela época. Para o autor, “na oficina, a
autoridade era o mestre e não outrem”, o que por sua vez,
refletia a relação de preceptor e mais que isso, a necessidade
dos mestres-artesão terem pleno domínio da maior gama possível
de habilidades que envolviam esse processo pedagógico artesanal.
Quanto aos colégios o autor
assim os distingue do ambiente artesanal:
Nos colégios, ao contrário, o
aluno não estabelecia um relacionamento com um único instrutor
ou educador, mas com uma multiplicidade de figuras que se
importavam em distinguir-se claramente pelas funções: um era o
papel de professor, um outro aquele de diretor de estudos, um
outro ainda o de prefeito de disciplina [...]. (SANTONI RUGIU,
1998, p. 123)
Cabe ainda ressaltar que este
triunfo da manufatura sobre as oficinas e Corporações, também
evidenciados no âmbito da educação, promoveu o desaparecimento
definitivo destas últimas somente no séc. XVIII (Ibid., pp. 127-
129). Para Santoni Rugiu (1998, p. 128), a derrocada do
artesanato deu-se de forma lenta e gradual até que restringiu-se
a um ambiente familiar, isto é, “mesmo que a loja ou a oficina
ou a fábrica fossem ainda uma escola e uma pequena comunidade
educativa, tratar-se-á sempre mais de escola ou de comunidade
educativa no âmbito familiar”.
Constata-se com isso, que a
relação pedagógica entre mestre-discípulos não eram mais
suficientes para atender a grande demanda por instrução e que,
somente uma reorganização da educação poderia vir a dar conta
deste montante de clientes à procura de instrução, como coaduna
Alves (2005; 2006), Comênio (1994) e Lancellotti (2008). Deste
modo, a racionalização do ensino a qual deveria seguir os passos
da organização técnica da manufatura, segundo o bispo morávio,
era a chave para a sua universalização.
Deste modo, sempre tendo em
vista atender as exigências materiais de seu tempo, é que se deu
o surgimento da chamada “escola moderna”. Este local, frisa-se
novamente, segundo Alves (2006) teve a base de sua organização
técnica e estrutural, a estrutura e a organização da indústria
manufatureira, em ascensão desde o séc. XV tendo seu ápice no
séc. XVII e XVIII com o advento do Modo de Produção Capitalista,
superando com isso, a oficina artesanal. Ponderação esta,
corroborada por Santoni Rugiu (1998) e Saviani (2010). Nas
palavras de Alves (2005, p. 63, grifos nossos): “foi Comenius
quem anunciou, claramente, a proposta de escola moderna,
cuja organização do trabalho didático, por inspirar-se na
manufatura burguesa, representou, também, a superação
definitiva do ensino artesanal”. E o autor acrescenta,
“Comenius foi o mentor que melhor encarnou, por meio de sua
obra, a concepção e a mais elaborada iniciativa prática visando
à realização dessa nova instituição social especializada, cuja
finalidade era a de ‘ensinar tudo a todos’ .” (Alves, 2005, p.
63).
Para tanto, a produção de um instrumental que atendesse essas
exigências não passou despercebida pelo bispo morávio, como
atesta Gilberto Alves em outra obra, A Produção da Escola
Moderna Pública Contemporânea (publicada pela primeira vez
em 2001 e que, encontra-se já em sua 4ª edição). Na referida
obra, o autor expressa de forma concisa, os condicionantes
materiais que permitiram, a partir das proposições de Comenius
em meados do séc. XVII, o surgimento da chamada escola
moderna e com ela,
Surgia um novo instrumento de
trabalho do professor: o manual didático. Quanto à sua
forma e à sua função, essa nova tecnologia educacional
distinguia-se tanto dos livros clássicos, até então muito caros
e pouco universalizados como decorrência dos limites próprios
dos livros clássicos [...] O manual didático surgiu com a
pretensão de consubstanciar uma síntese dos conhecimentos
humanos de uma forma mais adequada ao desenvolvimento e à
assimilação da criança e do jovem. (ALVES, 2006, p. 76, grifos
nossos)
Deste modo, com a produção destes dois fatores, Comenius tenta
atender as exigências ao seu tempo, além de promoverem a
superação da antiga forma de organização do trabalho didático,
no que se refere tanto à relação educador-educando, como o tipo
de instrumental e local no qual, se dava o ensino preceptorado.
O “manual possibilitou a queda dos custos da instrução pública.
Com isso, atendeu a um pré-requisito necessário à
universalização do ensino” (ALVES, 2006, p. 77), isto é, o
barateamento dos custos de instrução e possibilidade de haver um
atendimento quantitativo maior de crianças e jovens.
Por fim, Alves (2006, p. 80, grifos nossos) anuncia que, com os
movimentos condicionantes que promoveram a superação do trabalho
artesanal por uma organização manufatureira e, por conseguinte,
a superação do trabalhador artesanal por um novo tipo de
trabalhador, o manufatureiro,
A Didática Magma é o
registro clássico de uma época que postulava transição análoga
no domínio da educação; que reconhecia a necessidade histórica
de superação do mestre artesanal pelo professor
manufatureiro. O primeiro, um sábio que, na condição de
preceptor, realizava um trabalho complexo, desde operações
correspondentes à alfabetização até a transmissão das noções
humanísticas e cientificas mais elaboradas, cedia lugar ao
professor manufatureiro, que passava a ocupar-se de uma pequena
parte desse extenso e complexo processo.
Tal transição ocorrida em meados do séc. XVII e que,
consolidou-se no séc. XIX, como já pontuado anteriormente,
mostra como os sujeitos à sua época conseguiram responder às
exigências ao seu tempo, promovendo a superação daqueles
modelos/modos organizativos cristalizados, no interior de sua
sociedade, os quais já não atendiam às exigências sociais ao seu
tempo.
Neste sentido, Saviani (2010, p. 14, grifos nossos) colabora,
significativamente, esclarecendo tais movimentos condicionantes
e a perspicácia de Comenius no que se refere à educação:
Assim como no processo
produtivo as manufaturas introduziram a divisão do trabalho com
a decorrente especialização e simplificação das funções, Comênio
preconizou a divisão do trabalho pedagógico, conduzindo à
especialização e simplificação das tarefas do professor,
facilitadas pela introdução de novos instrumentos do trabalho
didático, entre os quais se destacou o manual didático.
Conforme este sistema de fábrica foi se desenvolvendo e
sufocando gradualmente as Corporações e desqualificando os seus
mestres-artesãos, primeiramente, na dimensão de manufaturas e
depois na forma da grande indústria. O mesmo ocorrera, no plano
educacional, visto que, o preceptor e o seu correspondente grau
de complexidade nas atividades didático-pedagógicas foram
substituídos pelo professor manufatureiro e sua correspondente
racionalização e simplificação do ensino e de suas tarefas.
Embora se constate em Comenius o surgimento da escola moderna,
suas propostas educacionais vão se materializar somente no séc.
XIX onde a própria manufatura, que lhe serviu de base material
para reorganizar o seu plano de ensino, já haviam sido superada
pelos avanços da Revolução Industrial e a correspondente
consolidação do sistema fabril. (SAVIANI, 2010, p. 17)
Considerações finais
Assim, Gilberto Alves (2005; 2006; 2010), Britto et. al. (2010)
e Lancillotti (2008) clamam por uma nova didática, um novo
instrumental, um novo local específico e, consequentemente, uma
nova relação entre professor-aluno a qual, atenda às exigências
de nosso tempo superando com isso, o modelo manufatureiro ainda
vigente em nossos dias, pois, “não é essa escola comeniana que
pode formar o cidadão demandado pela sociedade, hoje” (Alves,
2005, p. 140).
Portanto, quanto a uma nova didática, o autor assim se
manifesta: “constitui uma proposta de educação para a sociedade;
visa atender necessidades sociais pertinentes à sua época e
mobiliza, para a sua consecução, os recursos mais avançados
produzidos pela humanidade em seu tempo.” (Alves, 2006,
p. 234)
E com esta nova didática, o autor acrescenta que “A produção de
uma nova forma de organização do trabalho didático exige
a incorporação de outros recursos tecnológicos que não o
manual didático” (2006, p. 244, grifos nossos). Isto é, com
uma nova didática, um novo instrumental mediador no processo de
ensino e uma nova instituição social a qual, dê conta das
exigências de nosso tempo.
Para finalizar, traz-se um fragmento no qual, o autor pondera
sobre a escola vigente de nossos dias (ou seja, o local
específico) e a necessidade de sua superação:
caberia tão-somente
reconhecer que a escola contemporânea não está dotada, de fato,
das condições suficientes para assumir as novas funções sociais
que vem incorporando. [...] Ela, sim, revela-se despreparada e
incompetente para assumir as funções sociais que o novo tempo
impõe. Aliás, ela revela-se despreparada e incompetente para
realizar, inclusive, a função especificamente pedagógica
que lhe é própria [...] O seu desaparecimento, que já se
faz tardio, fará submergir não somente a organização
manufatureira do trabalho didático que lhe corresponde, mas
também a forma histórica do professor manufatureiro.
(Alves, 2006, p. 266-267, grifos nossos)
Para tanto, esta “nova didática” conclamada pelo autor teria sua
materialidade na escola a partir do momento em que fosse aceito
esta mudança na organização, estruturação, dimensão e todas as
implicações disto decorrentes na escola. Ou seja,
Aceitar esse
desafio implica, ainda, mudar radicalmente a natureza da relação
professor-aluno, não só para subtrair do mestre a função quase
exclusiva de transmissão do conhecimento, mas para valorizar as
funções docentes de programação, de direção e de avaliação das
atividades discentes. Quanto a estas, podem ser desenvolvidas,
agora, com maior autonomia pelos estudantes, individualmente ou
em pequenos grupos, junto a um terminal de computador, na
biblioteca, na sala de multimeios e na sala de estudos. Os
encontros com os professores podem ser realizados em sessões
coletivas, devotadas à programação de atividades, a
sistematizações parciais e finais de conteúdo e a avaliações,
bem como em sessões de esclarecimento, com atendimento
individual ou a pequenos grupos, quando se fizerem necessárias.
Cumpridos esses encontros, os alunos estariam liberados para o
exercício de atividades curriculares que dispensam a presença de
professores e estes, por sua vez, disporiam de mais tempo para o
estudo e para o planejamento do trabalho didático. (ALVES, 1998,
p. 12)
Portanto, a urgência de uma nova reorganização do trabalho
didático em nossos tempos se faz necessária assim como se fez à
época do bispo morávio, no entanto, como Alves (Idem.) pondera,
diferentemente daquela época,
Hoje, numa
época dominada pela especialização do saber, necessariamente a
construção de uma nova didática não será produto da ação de um
intelectual solitário mas, sim, da atuação coletiva e combinada
de muitos especialistas que coloquem a educação no centro de
suas preocupações.
Assim, conclui-se que, discutir sobre as proposições basilares
desta
categoria e suas implicações, como por exemplo, a
urgência de se produzir uma nova didática. Assim como,
compreender os movimentos históricos no processo de trabalho do
educador, em seus diferentes momentos e circunstâncias
históricas são imperativos ao se pensar uma mudança qualitativa
e radical na educação e no trabalho de seu agente, o professor.
Bibliografia
ALVES,
Gilberto Luiz. Nasce uma Nova Instituição educacional.
Revista
Intermeio:
Revista do Mestrado em Educação / Universidade Federal de Mato
Grosso do Sul. – v. 4, n. 8, p. 1-124. Campo Grande, MS: A
Universidade, 1998.
ISSN: 1413-0963
_____________. O Trabalho
Didático na Escola Moderna: formas históricas.
Campinas: Autores Associados, 2005.
_____________. A Produção
da Escola Pública Contemporânea. 4ª ed. Campinas:
Autores Associados, Campo Grande: UFMS, 2006.
__________.O Liberalismo e a
Produção da Escola Pública Moderna. IN: LOMBARDI, J. C. e
SANFELICE, J. C. (Org.). Liberalismo e educação em debate.
Campinas, SP: Autores Associados, Histedbr, 2007.
___________. História da educação: a produção teórica sobre o
trabalho didático. IN: BRITO Silvia Helena de [et. al.] (Org.).
A Organização do Trabalho Didático na História da Educação.
Campinas, SP: Autores associado: Histedbr, 2010.
BRITO,
Silvia Helena de [et. al.] (Org.). A Organização do Trabalho
Didático na História da Educação. Campinas, SP:
Autores associado: Histedbr, 2010.
MARTINS,
Jander Fernandes; RIBEIRO, José Iran; HALBERSTADT, Talita
Elisabeth Os Detentores do Saber Educativo: primeiras
considerações. P@rtes. Dezembro de 2010. Disponível em:
http://www.partes.com.br/educacao/detentores.asp. acesso:
23/Set/2011.
MARX,
Karl. Contribuição à Crítica da Economia Política. 2ª ed.
São Paulo: Expressão Popular. Trad. e Intr. de Florestan
Fernandes, 2008.
LANCELLOTI,
Samira Saad Pulchério. A Constituição Histórica do Trabalho
Docente. Tese de Doutorado. Unicamp-SP. 2008.
SANTONI
RUGIU, Antonio. Nostalgia do Mestre Artesão. Trad.
Maria de Lourdes Menon. Campinas, SP: Autores Associados, 1998.
SAVIANI,
Demerval. Trabalho didático e história da educação: enfoque
histórico-pedagógico. IN: BRITO, Silvia Helena Andrade de, [et.
al.] (org.). A Organização do Trabalho Didático na História
da Educação. Campinas, SP: Autores Associado: Histedbr,
2010.
[i]
Pedagogo formado na Universidade Federal de Santa Maria-RS/UFSM,
professor de educação infantil concursado no Municipio de
Campo Bom-RS. E-mail:
martinsjander@yahoo.com.br;
[ii]
Especializanda em Tecnologias da Informação e da Comunicação
Aplicadas à Educação – UAB na Universidade Federal de Santa
Maria- UFSM-RS; Pedagoga formada pela mesma instituição.
E-mail:
ta.ufsm@yahoo.com.br.
[iii]
Gilberto Luiz Alves é, atualmente, professor do Programa de
Pós-Graduação em Meio Ambiente e Desenvolvimento Regional da
Universidade Anhanguera/UNIDERP, fez doutorado e
pós-doutorado em Filosofia e História da Educação na
UNICAMP. É professor aposentado pela Universidade Federal do
Mato Grosso do Sul (UFMS), também foi professor do Curso de
Mestrado em Educação na Universidade do Contestado,
campus Caçador, Santa Catarina.
[iv]
Para tal, Alves (2005, p. 10-11, grifos do autor) esclarece:
“No plano mais genérico e abstrato, qualquer forma histórica
de organização do trabalho didático envolve,
sistematicamente, três aspectos: a) Ela é, sempre, uma
relação educativa que coloca, frente a frente,
uma forma histórica de educador, de um lado, e uma
forma histórica de educando(s), de outro; b) realiza-se
com a mediação de recursos didáticos, envolvendo os
procedimentos técnico-pedagógicos do educador, as
tecnologias educacionais pertinentes e os conteúdos
programados para servir ao processo de transmissão do
conhecimento; c) e implica um espaço físico com
características peculiares, onde ocorre. E assim o autor
esclarece os três aspectos constituintes da OTD e, a
partir dessas, busca captar os elementos condicionantes da
sociedade e como estas implicam no trabalho do educador, ou
seja, no processo de trabalho docente.
Como citar este
artigo:
MARTINS,
J. F.; HALBERSTADT, T. E. A organização do trabalho didático como
forma de superação do trabalho docente manufatureiro.
Revista P@rtes. Outubro de 2011. Disponível em:
www.p@rtes.com.br/educacao/trabalhodidatico.
Acessado em __/__/2011.