Resumo
Tendo como objetivo
contribuir com as reflexões referentes aos fatores que interferem
na prática docente, emergindo como desafios para o profissional da
educação. Este trabalho busca investigar os conflitos, condições
de trabalho e o bem estar dos professores, bem como verificar seus
suas angústias e, principalmente, sua autoestima no cotidiano
escolar. Com o interesse de conhecer e mostrar a realidade
docente, o presente estudo verifica se as condições de trabalho e
saúde relacionam-se com a construção da práxis docente. Para tal é
utilizada uma pesquisa descritiva, o método fenomenológico, uma
análise documental, pesquisa bibliográfica e questionários. Os
resultados demonstraram que há uma precariedade nas condições de
trabalho docente e também um acarretamento de manifestações e
sintomas de adoecimento físico e psicológico nos professores.
Palavras chaves:
Professores, Condições de trabalho, Identidade, Adoecimento,
Autoestima.
Abstract
The objective of this
woks contribute with the reflections about the factores that
interfere in teaching practical as chalenges to the education
professional. This work searches to investigate the conflicts, the
work conditions and the teachers wellbeing, as well as to check
his anguish and mainly his selfesteem in your school routine. With
the interest to know and to show the teaching reality, this study
checks if the work conditions and health is related with the
building of the praxis. As such is used a analysed research. The
phenomenal method, a documentary analyses, bibliography research
and questionnaires. The results demonstrate that there’s a
precarious conditions of work that cause manifestations and
illness symptoms physical and psychologic in the teachers.
Key words: teachers, work conditions, identy, illness
selfesteem
Introdução
O trabalho de docência
tem sido cada vez mais alvo de estudos e pesquisas, devido ao alto
índice de baixa autoestima, estresse e adoecimento que os
professores têm enfrentado em suas jornadas de trabalho,
principalmente aqueles que vivenciam em sua profissão um processo
ainda maior de desvalorização.
É comum ouvir em sala de
professores e/ou em encontros de coordenação pedagógica
reclamações relacionadas ao cansaço, desânimo e falta de motivação
para enfrentar o cotidiano escolar, principalmente, em desenvolver
a atividade em sala de aula.
Muito se fala das
dificuldades de aprendizagem e falta de motivação dos alunos, do
desinteresse e descaso das famílias pelos filhos. E os professores
como são vistos no processo pedagógico? Como o professor está
diante de tantos conflitos? Quais são as condições de trabalho,
bem como, apoio ético e moral que eles têm recebido para ministrar
um ensino de qualidade? E para o professor que as circunstâncias
lhe obrigam a enfrentar uma jornada de quarenta ou até mesmo de
sessenta horas semanais na escola, como deve ser o ambiente
escolar? Qual o nível de satisfação e bem estar do professor no
ambiente escolar? E por fim, como está a sua saúde?
O trabalho docente está
intrinsecamente ligado às relações humanas, principalmente, na
dimensão afetiva e elas desempenham um papel respeitável na
satisfação profissional dos docentes, consequentemente em sua
autoestima. É necessário preocupar-se com o bem estar emocional e
as condições que determinem um equilíbrio nas relações humanas nas
instituições educacionais para que haja uma boa prática educativa.
Logo essa pesquisa
justifica-se pela preocupação de investigar os conflitos,
condições de trabalho e o bem-estar dos professores em sua práxis,
bem como verificar os seus suas angústias e sua autoestima dentro
do cotidiano escolar. Considerando que educadores que sonham com
uma educação de qualidade no universo escolar, essencialmente,
precisam conhecer e reconhecer o bem estar profissional como
coeficiente para o saber - fazer pedagógico.
Por isso a presente
pesquisa tem como objetivo identificar os fatores
sócio-pedagógicos que interferem na prática docente dos
professores do Ensino Fundamental das escolas públicas, assim como
as condições de trabalho e de saúde, oportunizando a reflexão
sobre o panorama atual destes professores e sua realidade, quiçá
contribuir para o bom desencadeamento ou melhoramento do processo
educativo.
Os objetivos que
nortearam esta pesquisa estavam calcados na hipótese de haver uma
relação entre a organização do trabalho e o processo de autoestima
e adoecimento dos professores, pois à natureza da rotina
profissional dos docentes pode-se transformar em um processo
exaustivo e estressante.
Para reunir as
informações e os dados relacionados à temática em estudo foi
aplicado um questionário objetivo a todos os professores atuantes
nas séries iniciais do Ensino Fundamental, de uma escola de Santa
Maria-DF, sobre a visão do professor em três dimensões: sobre si,
sobre as suas condições de trabalho e os sentimentos que o
envolvem no dia a dia. O questionário não identificou o professor,
nem a instituição para a qual ele trabalha. Os dados coletados
foram submetidos a uma análise quali quantitativa.
A pesquisa de caráter
descritivo seguindo as definições de Gil, (2002 p. 42) que
destaca, “as pesquisas descritivas têm como objetivo primordial à
descrição das características de determinada população ou fenômeno
ou, então estabelecimento de relações entre variáveis”. Traz uma
abordagem teórica apresentando o processo educacional, a prática
docente assim como as dificuldades enfrentadas pelo
profissional no ambiente físico e emocional.
Desenvolvimento
Há séculos, o ensino
ocupa um destacado lugar no âmbito dos valores sociais. Na
antiguidade Sócrates, início do século VI, antes de Cristo, já
debatia sobre o papel dos mestres e o valor do ensino dado pelos
sofistas, colocando que o real conhecimento era algo que não
poderia ter valor, ou seja, impagável.
Na modernidade estudos
referentes à educação reafirmam a dimensão do processo educativo
como Codo (2006), que coloca que a educação é onipresente,
onisciente e incomensurável, pois não tem um ambiente, ocupa todos
os lugares, não tem princípio nem fim, acompanha todos os períodos
da vida, pois é obra de todos em uma relação de dar e receber,
onde o professor acompanha o processo de construção, e também
constrói e incorpora conhecimentos novos. E estes conceitos são
dados dentro do contexto que o próprio Freud (1996) afirmou que
educação é uma tarefa impossível.
Diante das
impossibilidades e principalmente da responsabilidade de conduzir
o processo educacional a luta pela valorização do ensino e a
adoção de valores éticos dentro da educação são batalhas travadas
antes de Cristo (por volta do século V e VI), percorrendo a
colonização, onde foi imposto um método e uma maneira de
dogmatizar os sujeitos a favor de uma minoria dominante e chegando
a modernidade com grandes desafios a serem vencidos.
A história da educação
demonstra que um professor estabelece relação em todos os campos
educativos desde sua relação conceitual de conhecimentos a
relação, essencialmente, humana com o aluno, que mostra que um
professor desmotivado, consequentemene desmotivará seu aluno,
portanto a formação do professor implica na sua função e intervém
de forma decisiva no exercício da docência.
Diante de tantas
exigências como ser uma pessoa altamente competente, estar
disposto à atualização contínua entre outras, há necessidade de
identificar, desvendar e revelar a identidade docente que deriva
da certeza de que ela é uma forma de compreender e atribuir
relevância do ser professor dentro do contexto histórico
educacional.
Os papeis escolares
estão definidos ideologicamente, segundo prerrogativas sociais,
econômicas e políticas consequentemente atreladas a classe
dominante, (CUNHA,1989; LUCKESI,1994; FREIRE,1996), onde o
professor possui um papel primordial, porém não é reconhecido como
tal, reforçando a importância de conhecê-lo melhor.
Segundo a crítica de
Bourdieu e Passeron (1975) a escola é a principal instituição
responsável pela reprodução e legitimação do capital cultural
dominante, pois é ela que estabelece normas de conhecimento,
comportamento e linguagem. Fato esse que condiciona a
profissionalização docente ao crivo do desenrolar social dentro do
tempo e espaço.
Nessa concepção é
necessário que o professor reconheça a sua importância, assuma
suas responsabilidades educacionais com compromisso e
principalmente com coerência, com uma visão formativa atual e
consciente do papel social e pedagógico como agente transformador
de sua prática. (FREITAS, 1998), para que esse processo se realize
é importante o domínio das competências.
Competências são
definidas por Marchesi (2008, p. 26) como “habilidades
necessárias para se desempenhar uma determinada tarefa em um
contexto laboral determinado”. A medida que o professor adquiri
habilidade para desenvolver suas competências conquista a sua
identidade profissional.
Fazendo um viés dessa
idéia Gadotti (2003) reforça “o professor se tornou um aprendiz
permanente, um construtor de sentidos, um cooperador, e,
sobretudo, um organizador da aprendizagem”, sendo um profissional
imprescindível para a sociedade atualmente.
Ser professor hoje é
viver intensamente o seu tempo com consciência e sensibilidade.
Não se pode imaginar um futuro para a humanidade sem educadores.
Os educadores, numa visão emancipadora, não só transformam a
informação em conhecimento e em consciência crítica, mas também
formam pessoas. Diante dos falsos pregadores da palavra, dos
marqueteiros, eles são os verdadeiros “amantes da sabedoria”, os
filósofos de que nos falava Sócrates. Eles fazem fluir o saber -
não o dado, a informação, o puro conhecimento - porque constroem
sentido para a vida das pessoas e para a humanidade e buscam
juntos, um mundo mais justo, mais produtivo e mais saudável para
todos. Por isso eles são imprescindíveis. (GADOTTI, 2003, p.17).
Com essa identidade
emancipadora cabe rever o perfil profissional do professorado,
pois profissionalmente para preencher todos os requisitos
levantados é necessário exteriorizar alguns aspectos, como a
motivação de fazer um bom trabalho, de gostar de ser professor
como coloca Paulo Freire (1996) em Pedagogia da Autonomia.
Assim, como aloca com
certa propriedade Marchesi (2008), os professores precisam
adquirir, atualizar e consolidar ao longo da sua vida profissional
disposições básicas no que tange o equilíbrio afetivo e à
responsabilidade moral. Disposições estas que nas últimas décadas
percebe-se estam se perdendo pois há uma despersonalização da
escola e consequentemente do professor exigindo uma mudança nas
estratégias profissionais do docente.
Para Demo (1996), o
perfil do professor para o atual contexto de contemporaneidade
deve ser: autônomo, renovador, criativo, crítico e transformador.
Um profissional docente capaz de orquestrar o processo pedagógico
e buscar caminhos para o futuro.
Nessa linha Basso (1998)
afirma que o significado do fazer docente é mediar à aprendizagem,
pois o professor trabalha com aspectos emocionais, cognitivos e
sociais do aluno instrumentalizados culturalmente pela vivência e
relação de significado do aprendiz. Assim o trabalho do professor
precisa ter significado social e sentido pessoal, para não
descaracterizar sua ação educativa.
Os professores bem
sucedidos são aqueles que conseguem integrar significado e sentido
[...] com uma formação adequada que inclui a compreensão do
significado de seu trabalho e que, encontrando melhores condições
objetivas ou lutando muito por elas, e, em alguns casos, contando
com o apoio institucional, concretizam uma prática pedagógica mais
eficiente e menos alienante. (BASSO, p. 6)
Conforme argumenta o
autor na escola pública, desde a década de 1980, processos de
descentralização e centralização permeiam as políticas. Esses
processos formatam os eixos de ação para a mercantilização da
educação, com medidas para homogeneização das ações com a
finalidade de ajustarem-se as características típicas do
neoliberalismo e o professor sendo um dos principais atores desse
ambiente sofre todas as medidas desse sistema.
Tais afirmações vêm de
encontro com as idéias de Bruno (2005), o qual percebe que as
mudanças na escola pública e, conseqüentemente, no professor são
tangidas pela adequação às tendências gerais do capitalismo
contemporâneo à organização do trabalho pedagógico com ênfase no
trabalho do professor.
Os estudos desses
autores coadunam-se com as conclusões do Relatório da UNESCO,
Delors et al (1998) que trata também sobre a Educação que se
almeja para o século XXI, dentro de um contexto de mudanças
sociopolíticas mundiais e se admite objetivamente que são muitas
as atribuições determinadas aos professores:
Compreende-se que
atualmente os educadores estão passando por uma crise de
identidade. De maneira mais ou menos direta, o conjunto de fatores
que ingressam na configuração dessa crise aponta a um
questionamento do saber e saber-fazer dos educadores, da sua
competência para lidar com as exigências crescentes do mundo
contemporâneo em matéria educativa e com uma realidade social cada
vez mais deteriorada que impõe impasses constantes à atividade dos
profissionais. Por isso busca-se estabelecer relações entre essa
crise de identidade que abala a “crença de si” e o “sentido de si”
destes profissionais e a sua saúde no trabalho. (CODO, 2006 e
ESTEVES, 1999).
Pois com “a acelerada
mudança do contexto social acumulou as contradições do sistema de
ensino. O professor, como figura humana desse sistema, se queixa
de mal-estar, cansaço, desconcerto”. (ESTEVES, 1999, p. 32),
cabendo investigar os elementos que provocam essas patologias.
Alguns estudos buscam
identificar esses fatores Marchesi (2008) aponta a falta de apoio
social, as características do contexto escolar, o deficiente
funcionamento das escolas, a organização e o funcionamento das
escolas e a falta de envolvimento nas tarefas coletivas como
algumas características para situação de adoecimento dos
professores. Enfatizando ainda que a liderança do diretor possue
uma grande dimensão na situação de bem-estar ou mal-estar do
profissional considerando que a capacidade da gestão em “evitar
conflitos e negociar soluções e para criar uma cultura que
facilite trabalho docente é um elemento fundamental nessa
atividade profissional” (MARCHESI, 2008, p.55)
Segundo Esteves (1999),
o adoecimento docente, relaciona-se ao seu ambiente profissional e
suas deficiências nas condições de trabalho, esgotamento físico e
insuficiência de recursos materiais favorecidos ainda pela
acelerada transformação política e econômica que os obrigam a
encararem o aumento das responsabilidades e as transformações
sociais sem uma formação continuada adequada.
Em consonância com esses
autores Mendes (2008. p. 7), indica em sua pesquisa estudos que
demonstram que as doenças mais comuns dos professores são as do
aparelho respiratório como laringite crônica, os nódulos das
cordas vocais, a rinite alérgica e a sinusite; as doenças
decorrentes das lesões por esforços repetitivos que dizem respeito
aos distúrbios ósseos dos membros superiores, como síndrome do
túnel do carpo, síndrome do manguito rotatório, sinovite,
tenossinovite, epicondilite, síndrome cervicobranquial, bursite e
tendinite e também os riscos presentes no ambiente de trabalho dos
professores que estão associados à existência das doenças
ocupacionais. Os mais comuns são os movimentos repetitivos, o uso
em excesso da voz e a postura inadequada.
Destaca ainda que “além
dos sofrimentos físicos, os professores enfrentam no seu
cotidiano, também os sofrimentos psíquicos que advêm, sobretudo,
de uma característica central da profissão que é o envolvimento
afetivo”. (MENDES, 2008, p. 7)
Coadunam-se com esses
autores Vasques-Menezes e Gazzotti (2006, p. 377), que coloca que
o professor possui “dificuldades e obstáculos estruturais e
afetivos”, muitas frustrações dentro do seu cotidiano e falta de
reconhecimento profissional o que desencadeia sofrimento e
questionamentos a cerca da valorização do seu trabalho.
A pesquisa realizada por
Codo (2006) no Brasil com professores do sistema público de ensino
abrangendo 1.440 escolas e 30 mil professores, revela que 26% dos
sujeitos estudados demonstravam ter exaustão emocional, motivada
pelo cansaço, pela desvalorização profissional e baixa autoestima.
Neste contexto Mendes
(2008) cita estudos que argumentam que essa síndrome tem se
intensificado nos professores, nota-se a perda do entusiasmo, a
qualidade do trabalho diminui e o aumento da frustração, a ponto
de o professor chegar ao desespero e sentir-se depressivo e com
vontade de abandonar o trabalho.
Cita também estudos de
Sobrinho (2002), que coloca alguns fatores que contribuem para o
estresse ocupacional do professor.
[...] conteúdos
curriculares (no processo de formação profissional), os quais são
separados da demanda; a ausência de capacitação para lidar com
questões concernentes ao próprio trabalho; a exigência de manter a
disciplina entre os alunos; a sobrecarga de trabalho
extraclasse;o clima organizacional do ambiente escolar; as
condições impróprias para o exercício do magistério; e ainda, o
volume de carga cognitiva habitualmente identificando nas
atividades típicas do posto de trabalho docente.[...] (SOBRINHO,
2002 apud MENDES, 2008, p.9)
O estudo desses autores
vem ao encontro com as conclusões da pesquisa de Mendes (2008, p.
56), com uma amostra de 1462 professores da rede pública do
Distrito Federal, no ano de 2008, onde se constataram que os
professores têm doenças ocupacionais relacionadas com os “danos
físicos”, dizem respeito às dores no corpo e distúrbios
biológicos. Sendo “as dores corpo e nas pernas, as alterações no
sono, os distúrbios respiratórios e na visão foram as mais
citadas”,“danos psicológicos” são definidos como sentimentos
negativos em relação a si mesmo e a vida em geral. E “danos
sociais” que são definidos como isolamento e dificuldades nas
relações familiares e sociais, tendo como sintomas dessas doenças
a vontade de ficar sozinha, impaciência com o colega, conflito nas
relações familiares, incapacidade de se colocar no lugar do outro,
dificuldades na relação fora do trabalho.
Ressaltando que os danos
sociais foram considerados críticos por 37% dos entrevistados
sendo sua aparição e repetição um forte indicador de adoecimento
recomendando-se a intervenção imediata visando a eliminá-los e/ou
atenuá-las.
A presente pesquisa
apresenta o seguinte perfil 95% dos entrevistados são do sexo
feminino, onde 65% possui idade entre 31 a 50 anos, e como
estatística de 95% em jornada de 40 horas semanais de trabalho com
um salário superior a R$3.000,00 sendo que 70% da categoria possui
escolaridade superior e especialização.
Nota-se uma série de
limitações que agem diretamente sobre a prática diária, limitando
efetivamente a ação docente e contribuindo para o aumento do
incômodo e sofrimento do professor a médio ou longo prazo.
Onde foram apontados os
principais fatores que causam incômodos e/ou sofrimento no
trabalho, 75% dos professores entrevistados alegaram que é a falta
de material didático/pedagógico e materiais e equipamentos
inadequados, evidenciando a necessidade de uma intervenção
imediata no provimento e adequação dos instrumentos
didático/pedagógico.
Neste contexto Esteves
(1999) acrescenta:
[...] a falta de
recursos generalizada aparece como um dos fatores referidos em
diversos trabalhos de investigação. [...] professores que
enfrentam com ilusão uma renovação pedagógica de sua atuação nas
aulas encontram-se frequentemente, limitados pela falta de
material didático necessário e pela carência de recursos para
adquiri-los. [...] Quando esta situação se prolonga a médio e
longo prazo, costuma-se produzir uma reação de inibição no
professor, que acaba aceitando a velha rotina escolar, depois de
perder a ilusão de uma mudança em sua prática docente que, além de
utilização de novos recursos dos quais ele não dispõe. (Esteves,
1999, p. 48)
Portanto, há necessidade
de maior investimento público nas escolas para que haja uma
efetividade no processo educativo, pois se percebe muitos arranjos
e improvisos principalmente por parte do professor que diante das
exigências da sociedade e o Estado para que eles promovam uma
renovação metodológica, sem dotá-los dos recursos necessários.
Os professores
entrevistados (70%) apontaram também que as dificuldades de
aprendizagem dos alunos é um fator de sofrimento no trabalho.
A cerca desse problema
Marchesi (2008) pontua sobre este tema enfatizando a dimensão do
trabalho docente que precisa organizar o extenso programa de
ensino criando situações de aprendizagens bem estruturadas para
despertar o desejo do saber discente e envolvê-lo na atividade de
aprender. Esse envolvimento precisa instigar o aluno, para que ele
encontre sentido nas suas aprendizagens e que lhes permitam
comprovar, pela própria experiência, que o conhecimento avança
quando é visto com esforço e dedicação.
Assim o autor coloca que
para alcançar o objetivo da efetiva aprendizagem o professor
precisa ser um profissional interessado pelo aluno e pelo
conhecimento. Estar disposto a fazer o melhor, reconhecer a
realidade e agir sobre ela. E principalmente ter capacidade e
vontade de inovar o que exige uma busca efetiva da formação
continuada.
Fazendo um viés Freire
(1996) com Marchesi (2008) coloca:
Não há ensino sem
pesquisa e pesquisa sem ensino. Esses que-fazeres se encontram um
no corpo do outro. Enquanto ensino, continuo buscando,
reprocurando. Ensino porque busco, porque indaguei, porque indago
e me indago. Pesquiso para constatar, constatando, intervenho,
intervindo educo e me educo. Pesquiso para conhecer o que ainda
não conheço e comunicar ou anunciar a novidade. (FREIRE, 1996,
p.32 )
A quarta situação de
incomodo e/ou sofrimento é a violência na escola (55%). A cerca
desse problema Batista e El-moor (2006, p. 158) colocam os efeitos
da violência para educação e os educadores. Nesse contexto eles
enfatizam que o processo educativo ocorre de maneira cíclica,
planejada e que diante de atos de vandalismos, brigas mais
violentas, destruição proposital, há uma ruptura na dinâmica do
trabalho, pois é preciso interromper a aula, levar o aluno para
diretoria, prover acareação de fatos para encontrar o responsável
ou aplicar as punições do culpado.
Nesse cenário não há
como ensinar acabou o clima de aprendizagem. “A ocorrência da
violência como parte integrante do cotidiano da escola é
literalmente incompatível com o trabalho de educar”. (BATISTA e
EL-MOOR, 2006, p.159)
Evidenciam também a
importância do sentimento de confiança e liberdade no processo
ensino-aprendizagem o que é quase impossível em um ambiente que
com suas grades, guardas no portão, coordenadores disciplinares
pelos corredores, polícia para conter os abusos juvenis, dar “baculejo”.
Destaca-se também no
gráfico o nível elevado de barulho como fator que causa incômodo
e/ou sofrimento a 45% dos docentes, índice considerado elevado.
A ausência de espaço
adequado para descanso ou repouso apontado por 35% dos
respondentes é outro ponto que contribui para precariedade das
condições de trabalho do professor que normalmente permanece 8
horas diárias na escola.
Dos professores (30%)
apontaram ainda o excesso de responsabilidade e exigência; pressão
dos pais (15%); pressão da secretaria/direção (10%); impaciências
com as pessoas em geral (5%) e jornada de trabalho excessiva (5%).
Nesse sentido é
importante salientar que as situações que causam incômodos e/ou
sofrimentos no trabalho, dizem respeito a um conjunto de recursos
com os quais o professor pode contar, e que impõem maior ou menor
qualidade na sua estadia diária na escola, embora não ingressem
diretamente como meios no processo de ensino-aprendizagem. São
recursos integrados na geografia e organização de trabalho que
dignificam o ambiente, valorizando o trabalhador.
Referente às
manifestações ou sintomas apresentados após uma semana de trabalho
um total de 80% dos respondentes assinalaram cansaço mental; 55%
ansiedade/angústia/fadiga; 40% nervosismo; 25% irritação com tudo;
20% mal humor; 15% vontade de desistir de tudo; 5% dúvida sobre a
capacidade de fazer as tarefas e 5% tristeza
Os sintomas tratados no
gráfico correspondem segundo Mendes (2008, p. 68) “aos danos
psicológicos e são definidos como sentimentos negativos em relação
a si mesmo e a vida em geral”.
Considerações finais
Com relação ao foco de
estudo delimitado que se explicitou como os fatores que interferem
na prática docente, emergindo como desafios para o profissional da
educação, averiguando que a dimensão da práxis docente perpassa
pela construção da identidade firmada nos eixos de envolvimento,
reconhecimento da sua autoestima e valorização profissional.
A pesquisa elucidou que
há um sentimento de desvalorização dos professores perante o
Estado, mas mesmo assim eles se agarram na cooperação coletiva e
na crença que seu trabalho possui um mérito social.
Todavia constatou-se nas
diversas obras trabalhadas que tarefa docente carrega uma grande
dimensão desde o cuidar da aprendizagem eficaz a ser responsável
pela formação social do ser, apontando para necessidade de se
revelar a dimensão histórica da profissionalização do
professor, conhecendo sua trajetória e alicerçando a composição da
sua identidade.
Nesse caminho erigiu-se
uma hipótese em que há uma crise de identidade docente e esta se
vincula às condições de trabalho e saúde dentro do seu cotidiano.
Os dados obtidos sobre o
perfil das condições de trabalho e saúde dos professores da rede
pública de educação do Distrito Federal permitiram constatar que
existe uma precariedade nas mesmas exigindo um maior desdobramento
profissional.
Quanto às questões de
saúde foram percebidos manifestações e sintomas de adoecimento
principalmente físico e psicológico. Evidenciados principalmente
pelas dores no corpo e o cansaço mental.
As relações
socioprofissionais dos professores entrevistados são satisfatórias
com os colegas. Havendo, portanto, um ambiente que favorece a
cooperação entre os pares.
As condições de trabalho
são percebidas como sendo não totalmente críticas. Pois há
satisfação quanto ao apoio institucional. Entretanto, de maneira
geral há evidencias de falta de material didático/pedagógico e
matérias e equipamentos adequados.
As exigências
profissionais da atividade docente acarretaram, principalmente,
cansaço mental e ansiedade/angústias/ fadigas. Evidenciando-se
também as dores nas pernas e na garganta relacionadas ao trabalho.
Os professores estão mais expostos aos riscos de adoecimento
físicos e psicológicos como evidencia os gráficos que tratam dos
sintomas e manifestações de incômodos e sofrimento no trabalho,
resultado compatível com as conclusões de Mendes (2008).
Quanto ao sofrimento
advém em grande parte da precariedade das condições de trabalho e
da falta de reconhecimento do Estado, já que as pesquisas
demonstraram que o professor se sente realizado na instituição,
participando de suas atividades e reconhece ainda a importância do
seu trabalho, sentindo-se seguro e manifestando o desejo de
permanecer na instituição e também na profissão.
Conclui-se, portanto que
entre os professores entrevistados há um sentimento de
reconhecimento pessoal por parte da instituição, porém em
contraposição percebe-se um descuido do Estado com esse
profissional que acarreta a sua jornada más condições de trabalho
e baixa autoestima em relação ao seu prestígio social.
Com o presente estudo
deduz-se que há necessidade de uma conquista social do
reconhecimento do professor desde a busca financeira a conquista
de melhores condições de trabalho e respeito pelos seus percalços.
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