A presente proposta tem por objetivos, o desenvolvimento,
aprofundamento e elaboração de ‘Ações’ significativas ao
conhecimento, necessárias à formação docente dos profissionais das
disciplinas de História e Filosofia, bem como dos demais docentes e
Cursos de Formação, que trabalham em seus espaços educacionais com
estas disciplinas.
O trabalho docente é um esforço meticuloso, densamente
pensando, discutido, refletido, que se estabelece em consonância com
nossas experiências didáticas e que, alcança maior significação,
quando confrontadas também com outras experiências docentes. Assim
cremos que para construirmos novas alternativas didáticas –
metodológicas, se faz necessário nos debruçarmos sobre dois
aspectos: o planejamento e a avaliação. Segundo LIBÂNEO (1994,
p.221):
Com efeito, o
planejamento de ensino e a avaliação são atividades que supõem o
conhecimento da dinâmica interna do processo de ensino e
aprendizagem e das condições externas que co-determinam a sua
efetivação. O planejamento escolar é uma tarefa docente que inclui
tanto a previsão das atividades didáticas em termos da sua
organização e coordenação em face dos objetivos propostos, quanto a
sua revisão e adequação no decorrer do processo de ensino. O
planejamento é um meio para se programar as ações docentes, mas é
também um momento de pesquisa e reflexão intimamente ligado à
avaliação.
Considerando-se as especificidades das disciplinas em
questão, têm-se como conhecimento de suas práticas e intervenções
pedagógicas, aulas que por longo tempo priorizaram a exposição oral
do conteúdo por parte do professor e a passividade dos alunos, por
vezes escutando, outras lendo e copiando a matéria transmitida. As
formas utilizadas para avaliar a aprendizagem dos alunos,
resumiam-se em sua maioria, na resolução de provas escritas ou mesmo
orais, onde os alunos respondem conforme o texto lido ou assimilado
mediante a leitura do professor, ignorando assim, os conhecimentos
advindos dos discentes, das reais experiências destes, do seu
cotidiano e, em especial, depositando inteira responsabilidade dos
‘fracassos’ na falta de esforço dos alunos.
Não recentemente, mas ainda em fase de amadurecimento,
começa-se a apresentar práticas que se opõem a esta didática, onde o
professor deixa de ser o centro único do saber no espaço denominado
‘aula’, para então o aluno adentrar na História enquanto sujeito de
seu fazer e de seu aprender. Essa nova visão de educação também
reflete novas concepções a respeito dos aspectos que se relacionam
ao processo educacional, como por exemplo, na seleção, organização e
desenvolvimento do conteúdo a ser trabalhado. Em FREIRE (1987,
p.83-4), o diálogo necessário entre educador – educandos, enquanto
proposta de relação horizontal de educação, ganha maior significação
quando dedicamos nossa atenção no que pode ser importante a ser
estudado, ao invés, do que tem de ser estudado.
O DIÁLOGO
COMEÇA NA BUSCA DO CONTEÚDO PROGRAMÁTICO. Daí que, para esta
concepção como prática da liberdade, a sua dialogicidade comece, não
quando o educador – educando se encontra com os educandos –
educadores em uma situação pedagógica, mas antes, quando aquele se
pergunta em torno do que vai dialogar com estes. Esta inquietação em
torno do conteúdo do diálogo é a inquietação em torno do conteúdo
programático da educação. Para o “educador – bancário”, na sua
antidialogicidade, a pergunta, obviamente, não é a propósito do
conteúdo do diálogo, que para ele não existe, mas a respeito do
programa sobre o qual ele dissertará a seus alunos. E a esta
pergunta responderá ele mesmo, organizando o seu programa.
[...] Para o educador – educando, dialógico, problematizador, o
conteúdo programático da educação não é uma doação ou uma imposição
– um conjunto de informes a ser depositado nos educandos – , mas a
devolução organizada, sistematizada e acrescentada ao povo daqueles
elementos que este lhe entregou de forma desestruturada.
Assim, acreditamos também nas concepções de avaliação que
não priorizam a mensuração de acertos ou erros, perante respostas
pré-programadas. Ao contrário disso, apostamos em uma avaliação da
aprendizagem, onde o aluno possa demonstrar, por diferentes formas
de expressão, suas relações de vida com os conteúdos a que
planejamos para seu ensino. Portanto, além de mudarmos a concepção
de avaliação, também nos utilizamos da interdisciplinaridade entre
Filosofia e História, para propormos atividades diferenciadas ao
trabalharmos nossos diferentes conteúdos. Quanto à avaliação cabe
definirmos:
A avaliação é
uma tarefa complexa que não se resume à realização de provas e
atribuição de notas. A mensuração apenas proporciona dados que devem
ser submetidos a uma apreciação qualitativa. A avaliação, assim,
cumpre funções pedagógico-didáticas, de diagnóstico e de controle em
relação às quais se recorre a instrumentos de verificação do
rendimento escolar. (LIBANEO, 1994, p. 195).
Nesse
sentido, corroboramos com HOFFMANN (2005, p.17):
A avaliação é
a reflexão transformada em ação. Ação, essa, que nos impulsiona a
novas reflexões. Reflexão permanente do educador sobre sua
realidade, e acompanhamento de todos os passos do educando na sua
trajetória de construção do conhecimento. Um processo interativo,
através do qual educandos e educadores aprendem sobre si mesmos e
sobre a realidade escolar no ato próprio da avaliação.
Ao postular esta concepção, focamos a avaliação não
exclusivamente no aluno ou no professor, como tão pouco apenas no
conteúdo de ensino, mas sim fazemos dela um momento de mútua
reflexão:
Nessa
dimensão, avaliar é dinamizar oportunidades de auto-reflexão, num
acompanhamento permanente do professor que incitará o aluno a novas
questões a partir de respostas formuladas. [...] A avaliação deixa
de ser um momento terminal do processo educativo (como hoje é
concebida) para se transformar na busca incessante de compreensão
das dificuldades do educando e na dinamização de novas oportunidades
de conhecimento. (HOFFMANN, 2005, pp. 19).
Dessa forma, destacamos ainda que sucintamente, dada às
limitações da formatação do artigo, três atividades desenvolvidas
pelas disciplinas de História e Filosofia, na qual possamos
trabalhar diferentes aspectos das aprendizagens dos alunos, tendo
como princípio norteador o diálogo constante e a construção conjunta
dos conhecimentos entre educador e educandos. Os nomes das
atividades didáticas e de suas metodologias foram pensadas e
empregadas com diferentes conteúdos, sendo que mencionamos aquelas
que consideramos vitais para outros encaminhamentos. Outras
dinâmicas encontram-se publicadas sob a forma de um Caderno Didático
organizado para este fim:
Das trocas de
diálogos, das realizações de atividades conjuntas, das experiências
de pesquisa e elaboração de artigos, o material foi ganhando corpo e
fundamentação. Hoje se apresenta sobre esta forma, agregando
dinâmicas, idéias e intenções para com o público que se pretende
alcançar. (OLIVEIRA; SANTOS, 2008, p.6).
Ainda, cabe salientarmos que algumas são variações de
jogos ou brincadeiras, mas que adquirem maior tonacidade pelas
disciplinas em questão. Dentre elas: telefone-sem-fio, xerife e
ladrão e colcha de retalhos.
A dinâmica do telefone-sem-fio:
demonstra-se, por meio desta atividade, que as idéias perpassadas de
pessoas a pessoas ou de grupos para grupos, sofrem interferências em
seus significados originais, modificando assim a informação e mesmo
a interpretação de determinado evento. Da mesma forma que
algumas idéias são elaboradas para este fim, ou seja, para
que modifiquem seus significados ao longo dos tempos. A atividade se
assume como tal, ao interagir com alunos, que precisam re-transmitir
determinada frase (exemplo: “Enquanto o dominado não dominar o
que o dominador domina, não conseguirá sair de seu estado de
dominação.” (SAVIANI. In: FARIA, 1984, p.79)),
falando ao ouvido do colega. Após uma seqüência de pessoas, a frase
é dita em voz alta para o restante da turma, ao atingir a última
pessoa do círculo, podendo ser pronunciada como a original, ou
ainda, como de fato acontece, apresentar divergência da inicial.
Essa variação em seu sentido e em sua própria organização, serve de
demonstrativo das diferentes formas de se contar um evento
histórico, como também, elimina visões autoritárias e positivistas
de ‘verdades absolutas’.
O jogo de expressão facial, denominado xerife e ladrão,
que consiste em o “ladrão” burlar a percepção dos
demais participantes (reféns e Xerife), na tentativa de
eliminar (piscando o olho) os primeiros e não ser desvendado pelo
“Xerife”, ao ser analisado pela ótica do panoptismo, proposto
pelos estudos de Foucault (VEIGA-NETTO, 2007), nos sugere que o
professor, simbolizando a estrutura arquitetônica da torre central,
precisa estar atento aos alunos e às possíveis situações surpresas
da sala de aula, além dos ‘rótulos’ criados pelo sistema; tendo pelo
lado dos alunos, a possibilidade de criar formas de escapar a esta
observação e a constante “vigia” imposta pelo professor, ou seja, ao
“disciplinamento que cria corpos dóceis”. Ainda, como
salienta VEIGA-NETTO (2007, p.66):
Nas palavras
de Foucault: “Daí o efeito mais importante do panóptico: induzir no
detendo um estado consciente e permanente de visibilidade que
assegura o funcionamento automático do poder. Fazer com que a
vigilância seja permanente em seus efeitos, mesma que seja
descontínua em sua ação”.
Por último, destacamos também a dinâmica colcha de
retalhos:
Também sob este olhar a Colcha pode ser considerada: espaço habitado
por diferentes pessoas, cada qual com sua maneira única de ver o
mundo, entrecruzando estes diferentes caminhos a colcha é tecida, a
partir de aceitações e negações, valores que se unem e se dissociam,
vidas que se cruzam, olhares que vão para além da ótica que a escola
oferece. E, para não perder a ternura, a inesquecível frase do
Caetano: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
(OLIVEIRA; SANTOS, 2008, Revista Virtual Partes).
Partindo do princípio da cooperação, desenvolvem-se
estilos variados de expressão, em tecidos, com materiais diversos,
com a intenção de compor um mosaico de idéias e compreensões sobre
temas característicos da disciplina. Intensifica-se os diálogos com
a possibilidade de utilizá-la como painel, exposto em locais de
intensa circulação de pessoas.
Assim, acreditamos nestas propostas por serem abertas
metodologicamente, não se compondo de regras pré-estabelecidas e nem
mesmo limitando-se a espaços específicos de educação. Diferentes
conteúdos podem ser abordados ao mesmo tempo em que podemos
diagnosticar as aprendizagens de nossos alunos.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FARIA, Ana
Lúcia G. de. IDEOLOGIA NO LIVRO DIDÁTICO. São Paulo:
Cortez/Autores Associados, 1984.
FREIRE, Paulo.
Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, JR: Editora Paz e
Terra, 17ª Edição, 1987.
HOFFMANN,
Jussara. AVALIAÇÃO – MITO E DESAFIO: Uma Perspectiva
Construtivista. Porto Alegre, RS: Editora Mediação, 35ª Edição,
2005.
LIBÂNEO, José
Carlos. Didática: Coleção Magistério – 2º Grau – Série Formação
do Professor. São Paulo: Cortez, 1994.
OLIVEIRA, D.
L. S., SANTOS, FGS, OLIVEIRA. Projeto Teórico-Prático de Ações
Dialogáveis
em História.
Cad. Ensino Pesqui. Ext., Santa Maria, n.81, 2008.
SANTOS, F. G.
S., OLIVEIRA, D. L. S. Costurando Saberes Através da Colcha de
Retalhos: Aprendendo a Dialogar com Diferentes Áreas do Saber.
Revista Virtual Partes - Educação. , out. 2008, p.1 – 3.
Disponível na Web:
http://www.partes.com.br/educacao/costurandosaberes.asp.
ISSN:
1678-8419.
VEIGA-NETO,
Alfredo. Foucault & a Educação. 2ª ed. Minas Gerais: Belo
Horizonte, Autêntica, 2007.
Graduado em História – Licenciatura Plena pela Universidade
Federal de Santa Maria. Especialista em História do Brasil/UFSM,
Mestrando em Educação/UFSM, Professor Substituto do
Departamento de Metodologia do Ensino – Centro de Educação –
UFSM, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imaginário
Social – GEPEIS – UFSM.
decioluciano@yahoo.com.br
Graduada em Filosofia – Licenciatura Plena pela Universidade
Federal de Santa Maria. Especialista
em
Gestão Educacional/UFSM, Especializanda em Pensamento
Político/UFSM, Mestranda em Educação/UFSM, Professora da
Rede Municipal de Formigueiro – RS, Membro do Grupo de
Estudos e Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS – UFSM.
fernandagssantos@yahoo.com.br