“Se
o meu passado fosse outro/Se fosse outro o presente
Se o futuro nos trouxesse o que faltava
antigamente...”
Engenheiros do Hawaii

Das produções cinematográficas que temos acompanhado,
tamanha perplexidade é a sensação que tivemos ao sair das salas de
exibição. Não ouvimos aplausos de pé, nem comentários do tipo
‘maravilhoso’, como tão pouco críticas ou ironias. A percepção que
nos aguçou foi a de escutar o silêncio, o menor expressar de
palavras após a sua exibição. Seria essa a nossa definição ao
“Curioso Caso de Benjamim Button”, um filme sem palavras!
Em nossas variadas práticas escolares, nossas ações
pedagógicas nos mais diferentes níveis e espaços de educação, sejam
eles formais ou informais, a questão do Tempo, permeia nossas aulas
de Filosofia e História. Fascinante em sua essência, dinâmico por
princípio, permanente, constante, fascinávamos com literaturas onde
alquimistas queriam transformar qualquer matéria em ouro, como tão
impossível de ser realizado o desejo de jogar uma moeda ao poço e
pedir alguns anos de rejuvenescimento.
O curioso ‘caso’ nos remete a imagem de uma ampulheta,
instrumento que serve para medir o transcorrer do tempo, composto
por duas ampolas de vidro, uma sobre posta à outra, onde se escorre
uma fina quantidade de areia. Inicia-se cheia, sendo que se finaliza
quando a ampola superior esvaziar até o último grão de areia,
enchendo assim a extremidade oposta, tendo-se de virá-la de lado
para que possa recomeçar o processo. Nosso personagem iniciou-se
cheio de vida, e foi esvaziando-se até ficarmos sem palavras, mas
carregados de intensa emoção de sentimento de vida!
O filme aborda em seus mais de 180 minutos, questões não
apenas de cunho filosófico ou histórico, existenciais, mas sim,
temas ligados ao nosso ato de viver, de morrer, nossas concepções,
crenças, valores, nossos preconceitos, nossos medos, experiências,
superações, dores, sentimentos; sendo em especial, ao nosso
entendimento em específico, o posicionamento em um mundo moldado de
cabeça para baixo, instituído e posto de tal forma que conseguimos
nos emocionar, provocar lágrimas em situações hoje encaradas por nós
como normais, mas que nesta magnífica obra de arte, faz com que
possamos voltar nossos olhos para nossa vida em particular, a ponto
de sentirmos orgulho ou dor, pelas privações que nós assumimos,
muitas vezes esquecendo que somos humanos, que temos um tempo para
viver e outro para sermos lembrados.
Voltar ao tempo, corrigir o passado, “Efeito Borboleta”,
causarmos um efeito de anacronismo, dois, reverter nossas atitudes
de forma que não interferimos na vida das demais pessoas, ou
simplesmente voltarmos a ter a idade de 20 e poucos anos, mas com a
experiência que temos hoje? As questões que fazemos praticamente
todos os dias, seja de forma consciente ou inconsciente, postas em
um único filme parece mesmo fantasia, mas pelo contrário,
acreditamos não ser!
E
como professores, ao assistirmos o ‘Caso Benjamim’, momento a
momento vamos reconstituindo em nossa memória, em nossas lembranças,
cenas de nossa infância, capazes de fazer com que nos concentremos
na vida de nossos alunos. Questões perceptíveis ao ambiente escolar,
alguns podem até afirmar como ‘naturais’, mas sabemos todos, não são
naturais, são forjadas, criadas e manipuladas para serem vistas como
normais.
Em uma parte do filme, quando Benjamim relaciona-se com
quem será um amigo no sentido clássico, aquele que lhe mostra um
mundo novo a cada dia, em uma de suas conversas lhe é dito, que em
toda parte, pessoas negras, gordas, altas, magras, todas que são
‘diferentes’, possuem medo, e este medo faz com que se encontrem, se
unam, se agrupam, bem como percebemos em nossas salas escolares, os
diferentes se encontram, se identificam apesar de terem sido
excluídos das representações ‘normais’ impostas a estes. De acordo
com OLVEIRA e SANTOS (2008, p.10): ”A alteridade sendo elaborada,
vai ter sua afirmação num processo que cria representações sociais
e, por conseguinte, desenvolve identidades.” Segundo estudos
desenvolvidos por JODELET (In: ARRUDA, 1998, 50-1):
A Alteridade
não aparece como um atributo que pertenceria à essência do objeto
visado, mas sim como uma qualificação que lhe é atribuída do
exterior. É um substantivo que se elabora no seio de uma relação
social e em torno duma diferença. O trabalho de elaboração da
diferença é orientado para o interior do grupo em termos de
proteção; para o exterior, em termos de tipificação desvalorizante e
estereotipada do diferente. Nessa construção se movem interesses que
servem à comunidade, no interior do qual se define a identidade.
A capacidade própria do homem, de transpor as imagens
instituídas, para além destas, no desconforto que é submetido ou no
direito que lhe é negado, assume de maneira individual – naquilo que
se sente excluído, mas também no coletivo – o desejo por uma
conquista mais ampla, racional e humana; a capacidade de instituir
novas representações; sejam elas, uma necessidade vital ou mesmo a
troca dos pólos que comanda os poderes. Com base em CASTORIADIS
(1992, p. 89):
A imaginação é
a capacidade de colocar uma nova forma. [...] Mais radicalmente
ainda: a imaginação é o que nos permite criar um mundo, ou seja,
apresentarmos alguma coisa, da qual sem a imaginação não
poderíamos nada dizer e, sem a qual, não poderíamos nada
saber.
É por estas capacidades e pela possibilidade de aguçarmos
aos demais, que nós escolhemos tornarmos professores, porque
semelhante ao filme, adquirimos a mobilidade de ir e vir no tempo,
não de regredi-lo, mas sim, de manifestarmos nossas ações de forma
dinâmica, isso porque partimos de nossas experiências de adultos, de
nossa vida adulta, de nossos anseios para então pensarmos,
elaborarmos e aproximar-mos de nossos alunos, de suas vidas, de suas
idades, na intenção de interagir-mos com seus desejos, suas visões
de mundo, com suas capacidades criativas e não mais com as nossas,
de reprodução, de adaptação, mas sim de novidades, de
questionamentos e de investigativas de um mundo que ainda não
conhecemos, portanto, novo, cheio de vida.
O ‘Curioso Caso de Benjamim Button’, certamente será um
filme para vermos e revermos muitas e muitas vezes, para indicarmos
aos nossos alunos, para dele extrairmos diferentes leituras e
interpretações. Um filme que trata de amor ao longo dos tempos,
querido ao público como o “Amor nos Tempos do Cólera” ou como o
“Homem Bicentenário”; que fala de vida e morte com a mesma
sensibilidade que Antonie de Saint-Exupéry, no livro o “Pequeno
Príncipe”; que aborda a garra pela vida, pela vitória, mesmo quando
quem está mais próximo fraqueja em acreditar na superação, como bem
representa-se no filme “O Banheiro do Papa”; questões de abandono,
de fuga, de violência; que nos remete ao mundo dos idosos, muitas
vezes por nós esquecidos que há vida na ‘terceira idade’,
curiosamente cativante e engraçado pelas situações hilárias como
representado em “Elsa e Fred: Uma Paixão de Amor”, ou seja, muitos
filmes, muitos livros, muita vida em apenas uma única produção. Em
poucas palavras, tão fascinante quanto viver!
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CASTORIADIS;
ROUNET, CHAUÍ; TORRES e ROSENFIELD. A CRIAÇÃO HISTÓRICA.
Artes e Ofícios, 1992.
ARRUDA, Ângela
(org.). Representando a Alteridade. Petrópolis: Vozes, 1998.
OLIVEIRA,
Décio L.S.de. COM QUEM VAI FICAR O MEU FILHO? História e
Representação Social da APAE – Santa Maria (1995-2002).
Prefácio: Fernanda Gabriela Soares Santos. ISBN:
9788561128074, Santa Maria: [s.n.], 2008.
Graduado em História – Licenciatura Plena pela Universidade
Federal de Santa Maria. Especialista em História do Brasil/UFSM,
Mestrando em Educação/UFSM, Professor Substituto do
Departamento de Metodologia do Ensino – Centro de Educação –
UFSM, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imaginário
Social – GEPEIS – UFSM.
decioluciano@yahoo.com.br
Graduada em Filosofia – Licenciatura Plena pela Universidade
Federal de Santa Maria. Especialista
em
Gestão Educacional/UFSM, Especializanda em Pensamento
Político/UFSM, Mestranda em Educação/UFSM, Professora da
Rede Municipal de Formigueiro – RS, Membro do Grupo de
Estudos e Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS – UFSM.
fernandagssantos@yahoo.com.br