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ISSN 1678-8419         última atualização em: domingo, 05 de abril de 2009 18:04:24                                               

 
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EDUCAÇÃO
O Curioso Caso de Benjamin Button: o esvaziar da ampulheta    

Décio Luciano Squarcieri de Oliveira*
Fernanda Gabriela Soares Santos**

publicado em 04/04/2009

             

Se o meu passado fosse outro/Se fosse outro o presente

Se o futuro nos trouxesse o que faltava antigamente...”

Engenheiros do Hawaii

  

 

          Das produções cinematográficas que temos acompanhado, tamanha perplexidade é a sensação que tivemos ao sair das salas de exibição. Não ouvimos aplausos de pé, nem comentários do tipo ‘maravilhoso’, como tão pouco críticas ou ironias. A percepção que nos aguçou foi a de escutar o silêncio, o menor expressar de palavras após a sua exibição. Seria essa a nossa definição ao “Curioso Caso de Benjamim Button”, um filme sem palavras! 

 

 

          Em nossas variadas práticas escolares, nossas ações pedagógicas nos mais diferentes níveis e espaços de educação, sejam eles formais ou informais, a questão do Tempo, permeia nossas aulas de Filosofia e História. Fascinante em sua essência, dinâmico por princípio, permanente, constante, fascinávamos com literaturas onde alquimistas queriam transformar qualquer matéria em ouro, como tão impossível de ser realizado o desejo de jogar uma moeda ao poço e pedir alguns anos de rejuvenescimento.

 

 

          O curioso ‘caso’ nos remete a imagem de uma ampulheta, instrumento que serve para medir o transcorrer do tempo, composto por duas ampolas de vidro, uma sobre posta à outra, onde se escorre uma fina quantidade de areia. Inicia-se cheia, sendo que se finaliza quando a ampola superior esvaziar até o último grão de areia, enchendo assim a extremidade oposta, tendo-se de virá-la de lado para que possa recomeçar o processo. Nosso personagem iniciou-se cheio de vida, e foi esvaziando-se até ficarmos sem palavras, mas carregados de intensa emoção de sentimento de vida!

 

          O filme aborda em seus mais de 180 minutos, questões não apenas de cunho filosófico ou histórico, existenciais, mas sim, temas ligados ao nosso ato de viver, de morrer, nossas concepções, crenças, valores, nossos preconceitos, nossos medos, experiências, superações, dores, sentimentos; sendo em especial, ao nosso entendimento em específico, o posicionamento em um mundo moldado de cabeça para baixo, instituído e posto de tal forma que conseguimos nos emocionar, provocar lágrimas em situações hoje encaradas por nós como normais, mas que nesta magnífica obra de arte, faz com que possamos voltar nossos olhos para nossa vida em particular, a ponto de sentirmos orgulho ou dor, pelas privações que nós assumimos, muitas vezes esquecendo que somos humanos, que temos um tempo para viver e outro para sermos lembrados.

 

 

          Voltar ao tempo, corrigir o passado, “Efeito Borboleta”, causarmos um efeito de anacronismo, dois, reverter nossas atitudes de forma que não interferimos na vida das demais pessoas, ou simplesmente voltarmos a ter a idade de 20 e poucos anos, mas com a experiência que temos hoje? As questões que fazemos praticamente todos os dias, seja de forma consciente ou inconsciente, postas em um único filme parece mesmo fantasia, mas pelo contrário, acreditamos não ser!

 

          E como professores, ao assistirmos o ‘Caso Benjamim’, momento a momento vamos reconstituindo em nossa memória, em nossas lembranças, cenas de nossa infância, capazes de fazer com que nos concentremos na vida de nossos alunos. Questões perceptíveis ao ambiente escolar, alguns podem até afirmar como ‘naturais’, mas sabemos todos, não são naturais, são forjadas, criadas e manipuladas para serem vistas como normais.

 

          Em uma parte do filme, quando Benjamim relaciona-se com quem será um amigo no sentido clássico, aquele que lhe mostra um mundo novo a cada dia, em uma de suas conversas lhe é dito, que em toda parte, pessoas negras, gordas, altas, magras, todas que são ‘diferentes’, possuem medo, e este medo faz com que se encontrem, se unam, se agrupam, bem como percebemos em nossas salas escolares, os diferentes se encontram, se identificam apesar de terem sido excluídos das representações ‘normais’ impostas a estes. De acordo com OLVEIRA e SANTOS (2008, p.10): ”A alteridade sendo elaborada, vai ter sua afirmação num processo que cria representações sociais e, por conseguinte, desenvolve identidades.” Segundo estudos desenvolvidos por JODELET (In: ARRUDA, 1998, 50-1): 

 

 

A Alteridade não aparece como um atributo que pertenceria à essência do objeto visado, mas sim como uma qualificação que lhe é atribuída do exterior. É um substantivo que se elabora no seio de uma relação social e em torno duma diferença. O trabalho de elaboração da diferença é orientado para o interior do grupo em termos de proteção; para o exterior, em termos de tipificação desvalorizante e estereotipada do diferente. Nessa construção se movem interesses que servem à comunidade, no interior do qual se define a identidade.   

 

 

          A capacidade própria do homem, de transpor as imagens instituídas, para além destas, no desconforto que é submetido ou no direito que lhe é negado, assume de maneira individual – naquilo que se sente excluído, mas também no coletivo – o desejo por uma conquista mais ampla, racional e humana; a capacidade de instituir novas representações; sejam elas, uma necessidade vital ou mesmo a troca dos pólos que comanda os poderes. Com base em CASTORIADIS (1992, p. 89):  

 

 

A imaginação é a capacidade de colocar uma nova forma. [...] Mais radicalmente ainda: a imaginação é o que nos permite criar um mundo, ou seja, apresentarmos alguma coisa, da qual sem a imaginação não poderíamos nada dizer e, sem a qual, não poderíamos nada saber. 

 

 

          É por estas capacidades e pela possibilidade de aguçarmos aos demais, que nós escolhemos tornarmos professores, porque semelhante ao filme, adquirimos a mobilidade de ir e vir no tempo, não de regredi-lo, mas sim, de manifestarmos nossas ações de forma dinâmica, isso porque partimos de nossas experiências de adultos, de nossa vida adulta, de nossos anseios para então pensarmos, elaborarmos e aproximar-mos de nossos alunos, de suas vidas, de suas idades, na intenção de interagir-mos com seus desejos, suas visões de mundo, com suas capacidades criativas e não mais com as nossas, de reprodução, de adaptação, mas sim de novidades, de questionamentos e de investigativas de um mundo que ainda não conhecemos, portanto, novo, cheio de vida. 

 

 

 

          O ‘Curioso Caso de Benjamim Button’, certamente será um filme para vermos e revermos muitas e muitas vezes, para indicarmos aos nossos alunos, para dele extrairmos diferentes leituras e interpretações. Um filme que trata de amor ao longo dos tempos, querido ao público como o “Amor nos Tempos do Cólera” ou como o “Homem Bicentenário”; que fala de vida e morte com a mesma sensibilidade que Antonie de Saint-Exupéry, no livro o “Pequeno Príncipe”; que aborda a garra pela vida, pela vitória, mesmo quando quem está mais próximo fraqueja em acreditar na superação, como bem representa-se no filme “O Banheiro do Papa”; questões de abandono, de fuga, de violência; que nos remete ao mundo dos idosos, muitas vezes por nós esquecidos que há vida na ‘terceira idade’, curiosamente cativante e engraçado pelas situações hilárias como representado em “Elsa e Fred: Uma Paixão de Amor”, ou seja, muitos filmes, muitos livros, muita vida em apenas uma única produção.  Em poucas palavras, tão fascinante quanto viver! 

 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

CASTORIADIS; ROUNET, CHAUÍ; TORRES e ROSENFIELD. A CRIAÇÃO HISTÓRICA. Artes e Ofícios, 1992.

 

ARRUDA, Ângela (org.). Representando a Alteridade. Petrópolis: Vozes, 1998.

 

OLIVEIRA, Décio L.S.de. COM QUEM VAI FICAR O MEU FILHO? História e Representação Social da APAE – Santa Maria (1995-2002). Prefácio: Fernanda Gabriela Soares Santos. ISBN: 9788561128074, Santa Maria: [s.n.], 2008.


 

* Graduado em História – Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria. Especialista em História do Brasil/UFSM, Mestrando em Educação/UFSM, Professor Substituto do Departamento de Metodologia do Ensino – Centro de Educação – UFSM, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS – UFSM. decioluciano@yahoo.com.br

 

** Graduada em Filosofia – Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria. Especialista em Gestão Educacional/UFSM, Especializanda em Pensamento Político/UFSM, Mestranda em Educação/UFSM, Professora da Rede Municipal de Formigueiro – RS, Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS – UFSM. fernandagssantos@yahoo.com.br

 

Como citar este artigo:
 

OLIVEIRA, Décio Luciano Squarcieri de; SANTOS, Fernanda Gabriela Soares. O Curioso Caso de Benjamin Button: o esvaziar da ampulheta. P@rtes (São Paulo). V.00 p.eletrônica. Abril de 2009. Disponível em <www.partes.com.br/educacao/benjaminbutton.asp>. Acesso em ___/___/___.


 

 

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