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O intuito deste artigo é um convite aos educadores e educadoras para
refletirem conosco, a situação do ensino brasileiro no tocante às
práticas educativas de Leitura e Escrita desenvolvidas em nossas escolas
do Ensino Fundamental nos anos iniciais.
Pois, ainda é sensível uma ação pedagógica voltada para uma abordagem
tradicionalista, mesmo após as últimas discussões das políticas públicas
sobre as reformas educacionais que vem se discutindo o papel da educação
escolar, as concepções de alfabetização, as práticas pedagógicas e a
formação do professor, como essencial à melhoria do processo
ensino-aprendizagem dos alunos na escola.
No sentido de se ter hoje uma política voltada para a promoção a
ampliação do ensino fundamental, com a inclusão de crianças de seis
anos, suponhamos que não justifica o fato, pelo qual as crianças ainda
não tenham conseguido chegarem ao 3º ano alfabetizadas.
Porém, vários programas foram implantados (PROFA, PRÓ-Infantil, PRÓ
Letramento e tantos outros) pelo Ministério de Educação e Cultura – MEC,
destinados aos nossos educadores, objetivando melhorar o índice de
alfabetização no país. Todavia, os retornos desses cursos não estão
chegando aos nossos alunos, quer dizer, as dificuldades das crianças com
relação ao aprendizado da língua oral e escrita é muito presente em
nossas escolas. É um caso a se pensar.
Seria muita ousadia está acusando os profissionais em educação, pais e
outros segmentos da sociedade, por não obtermos sucesso no processo
alfabetizador na escola. Para o professor – USP-SP, Gabriel Chalita, em
entrevista a revista Páginas Abertas, afirma:
97% das crianças em
idade escolar estão efetivamente na escola. Mas muitas abandonam os
estudos ao longo da vida, por uma série de razões de natureza familiar,
como desemprego ou subemprego dos pais; doenças na família; necessidade
de trabalhar para contribuir com a renda familiar; preconceito e
desmotivação. (CHALITA, 2006, p. 9).
É evidente a preocupação com o aprendizado escolar, pois o maior
problema hoje no país é o ato de ler e escrever. As crianças não
conseguem serem alfabetizadas, talvez, por estas problemáticas que
apontam o professor Chalita, ou por outras razões. A situação é séria e
vem se efetuando a cada dia; e, o nosso estado é o campeão. Por isso,
chamamos para uma reflexão a respeito da situação.
A nossa pretensão é refletirmos sobre esta situação que nos inquieta e
tentarmos compreender a prática pedagógica nas suas multifacetas no
ensino, pois, se o nosso interesse é contribuirmos para a melhoria da
ação docente, precisamos investigar e entender os motivos pelos quais
vêm desenvolvendo o processo ensino e aprendizagem do ato de ler e
escrever, que não possibilita as crianças o acesso à leitura e a
escrita.
Todavia, entendemos que necessário se faz trilharmos por caminhos que
busquem a superação das dificuldades de nossos alunos, considerando-os e
respeitando-os como sujeitos sócio-históricos, transformadores do seu
meio e produtores de linguagens em interação com os outros.
No âmbito das discussões, atualmente, é inegável o valor que assumem as
interações sociais na formação cognitiva, social e afetiva dos
educandos. Oliveira (1998, p. 17), comentando acerca das principais
idéias de Vygotsky (1989), coloca que “a interação com o outro é base
para o processo de internalização dos conteúdos e procedimentos
psicológicos fundamentais para aquela cultura”.
Por essa afirmação, compreendemos a importância da criança se relacionar
de forma significativa umas com as outras, pois é através da vivência de
situações de significação que a criança entenderá os significados de seu
mundo cultural num plano externo, podendo mais tarde internalizá-los,
passando a pertencer ao seu mundo interior.
Assim, podemos considerar que é no relacionar-se que surge a
possibilidade de negociações de significados, de posições, enfim, de um
constituir-se socialmente com o outro.
Essa idéia deixa bem claro que o indivíduo não percorre a sua trajetória
de desenvolvimento sozinho, e sim, necessita de fornecimentos de
modelos, de possibilidades de trocas sociais, de explicações, aspectos
esses, somente viabilizados através de uma vivência rica de significados
partilhados socialmente que trazem para a escola e que muitas vezes são
despercebidas sem notarem que são seres com capacidades de uso da
linguagem oral e escrita.
Como também, sem proporcionar momentos de reflexão sobre essa linguagem
em situações de aprendizagens significativas, estabelecendo relações
entre o conhecido e o desconhecido (conteúdo escolar) estruturado de
maneira a tornar possível à compreensão do ato de ler e escrever,
cabendo assim, ao professor organizar atividades que favoreçam a
reflexão da criança sobre a escrita e a leitura, porque é pensando e
refletindo que ela aprende através do erro construtivo.
Nessa perspectiva, podemos pontuar que a escrita, enquanto objeto de
conhecimento de natureza alfabética, de múltiplos usos sociais e
mantedores de algumas especificidades em relação à fala, não se
assimilada de forma repentina, nem tampouco desvinculada da realidade
histórica e social dos aprendizes.
As vivências que os alunos têm com materiais escritos mesmo anterior
e/ou exterior à escola assumem uma importância primordial na
aprendizagem da escrita e da leitura. O contato com esses materiais vai
suscitar idéias, hipóteses, enfim, elaborações conceituais cada vez mais
próximas da compreensão da essência de sua natureza – a leitura e a
escrita.
Se pretendermos atingir o desenvolvimento da escrita num trabalho
educativo, é importante que o aluno sinta e compreenda a função social
dessa habilidade lingüista e o porquê de sua de existência. Para tanto é
necessário motivá-lo a escrever, mostrando a relevância do que ele tem a
dizer, a necessidade de expressão de cada indivíduo; enfim, deixar claro
que quando se produz um texto com a finalidade de comunicar algo que se
deseja, escrever deixa de ser um tormento e passa a ser uma atividade
agradável e prazerosa.
De acordo com Santos (1991), a finalidade da escrita na escola não se
limita apenas ao conhecimento dos mecanismos lingüísticos e variedades
literárias, mas também e, principalmente, para satisfazer necessidades
de expressão e de comunicação.
A criança precisa saber e estar consciente de que não se expressa na
forma oral ou escrita apenas para obter uma nota, para cumprir uma
tarefa solicitada pelo professor. Mas pelo fato de ser um ser social
necessita interagir com outras pessoas, e uma das formas de usar a
comunicação é a escrita, sabendo que vive numa sociedade letrada. Quando
ela perceber que o ato de escrever lhe será útil na vida prática,
conseqüentemente passará a interessar-se em aprender e aperfeiçoar a
escrita.
Considerando que a criança necessita de oportunidades para adquirir
novos conceitos e palavras, na dinâmica das interações verbais, mediadas
pelo professor, o processo de alfabetização deve considerar o aluno como
sujeito que interage com os outros, “onde o sujeito é social e a
linguagem é um trabalho histórico e social” Vygotsky (1989). Não há um
indivíduo pronto, mas um homem se completando, se constituindo nas suas
falas. Daí a importância de se refletir sobre a apropriação da leitura e
da escrita pelas crianças no mesmo contexto social, numa perspectiva da
linguagem como processo de interação.
É nessa dinâmica de intercâmbio humano e meio social que a criança
torna-se ser ativo, construtor e produtor do seu saber. Ao aprender uma
língua não o bastante para aprender as palavras, mas entender,
“interpretar e representar os significados culturais de acordo com o
meio sociocultural, e com eles, promover experiências significativas de
aprendizagem da língua”. (RCNEI, 1998, p.127).
Investigar o conhecimento que os alunos já têm antes de ir para a escola
tem que ser ponto de partida para o planejamento da prática escolar,
realizando em sala de aula atividades que contribuam para o
desenvolvimento das habilidades de falar e ouvir. É relevante considerar
as suas vivências no ato de planejar, para que se possa desenvolver um
trabalho coerente com a sua realidade.
As diferenças de contexto sócio-econômico e familiar fazem com que as
crianças tenham maiores ou menores oportunidades de participar de
atividades sociais mediadas pela escrita. No Brasil, as disparidades
sociais acirram ainda mais essas diferenças; casas que consomem
tecnologia da era da Internet são vizinhas daquelas em que é difícil
encontrar lápis e papel.
Esse perfil da realidade endossa a necessidade e a importância do
aprender a ler e a escrever como garantia para uma participação mais
significativa dos alunos na vida social. Além disso, não se pode
esquecer que a aprendizagem se realiza através do confronto entre o que
se sabe (conhecimento prévio) e a nova experiência que se vive (elemento
novo – conteúdo escolar).
Desse modo, é interessante ressaltar que o processo de construção da
leitura e escrita aconteça nesse “ato de conhecer”, no processo de
interação que o sujeito efetua com o objeto e vai tentando captar do
objeto a sua lógica, a possibilidade de expressá-lo conceitualmente,
assim se dá o processo de produção do conhecimento de forma prazerosa em
que a leitura e a escrita devem fazer parte da vida da criança e para
isso é preciso que ela entenda seus diferentes usos e funções.
A leitura e a escrita devem ser vivenciadas como meios de comunicação
necessários à interação social, dando-se ênfase aos seus diferentes usos
e funções através de temas que façam parte do universo da criança. Em
função disso, tanto é importante explorar o lúdico e a tradição cultural
infantil, selecionando-se diferentes tipos de textos, como parlendas,
trava-línguas, poesias, histórias, cantigas de roda, quanto textos de
jornais, de bilhetes, cartas, placas, avisos, receitas, propagandas,
entre outros.
Ao colocá-la em contato com os diversos usos da escrita, estaremos
possibilitando que a criança compreenda para que se escreva e para que
se leia. A contextualização dos trabalhos é um pré-requisito fundamental
no sentido de que a leitura e a escrita tenham verdadeiramente um
significado e um sentido. Um significado que ultrapasse o caráter do
meramente escolar. É isso que a escola deve fazer, e não ficar presa a
textos escritos de forma mecânica e artificial através de livros e
cartilhas em que se cultivam os textos criados para ensinar as
correspondências grafo-fônicas existentes na nossa escrita alfabética.
Dessa forma, podemos considerar que ao se iniciar o processo formal e
escolar da aprendizagem da escrita, essas crianças não partam do zero
(como a perspectiva empirista nos fazia acreditar). Ao contrário, já são
possuidoras de um determinado nível de conhecimento acerca do que seja a
escrita, considerando esse conhecimento como ponto de partida para novas
reformulações, atualizações e expansão de suas concepções sobre a mesma,
o que não dispensa a necessidade de uma ação sistemática e competente
por parte da escola e do professor em levá-la a compreender seus
aspectos mais complexos e arbitrários.
Às crianças se devem oportunizar ambientes que dêem prioridade ao uso da
língua escrita. A prática de leitura deve ser fonte de prazer para a
criança. Num ambiente alfabetizador, a criança deve ser estimulada a
realizar leituras de histórias, de poesias, parlendas, notícias de
jornal e outros. O contato com uma diversidade de textos, ainda que não
consiga decodificar o material escrito, mas possibilitam o avanço no
conhecimento das suas estruturas, usos funcionais e aspectos gráficos,
elementos essenciais para o desenvolvimento da leitura compreensiva.
Possibilitam também o acesso a novos conteúdos, aos aspectos sonoros da
linguagem, além das questões culturais e afetivas também ali presentes.
Por outro lado, é importante considerar o papel do professor na criação
desse ambiente alfabetizador. Para que os alunos percebam as diferenças
entre a língua falada e a língua escrita, é importante à participação do
professor fazendo a mediação entre o processo da leitura e da escrita.
Antes mesmo das crianças estarem aptas a desenvolverem os processos de
maneira autônoma, o professor deve realizar leituras e escritas de
textos diversificados para as mesmas, como por exemplo: lendo histórias
ou assumindo o papel de escriba ao escrever as histórias que a criança
dita. Permitindo-lhes serem sujeitos participativos na busca da
compreensão e composição de texto, o professor estará assim favorecendo
a formação de verdadeiros leitores e escritores.
Numa revisão da literatura acerca dos processos cognitivos básicos
envolvidos no processo de alfabetização, encontram-se referências
bastante elucidativas acerca dos efeitos significativos da leitura e
escuta de histórias para o aprendizado da escrita. Kato e Moreira (1997,
p. 36), por exemplo, mencionam estudos realizados na década de 70 que
apontam nessa direção. Segundo os referidos autores, esses estudos
registram “relações positivas entre a experiência de ouvir histórias
lidas e desenvolvimento de vocabulário, desenvolvimento lingüístico,
motivação para a leitura, sucesso na aprendizagem escolar da leitura”.
Kato e Moreira (1997, p. 40-41), citando Britton (1982), também coloca
que a leitura de histórias pela criança ou o fato de alguém ler para
ela, se apresenta como “uma das mais efetivas vias de internalização da
linguagem escrita nas séries iniciais”. Para os referidos autores,
quando a criança escuta ou produz histórias, a mesma vai construindo o
seu conhecimento acerca da linguagem escrita, “o que não se limita ao
conhecimento das marcas gráficas a produzir ou interpretar, mas envolve
gênero, estrutura textual, funções, formas e recursos lingüísticos”.
Não se trata de simplesmente ensinar-lhes um conto ou um novo
vocabulário, mas sim de proporcionar o contato com um determinado gênero
de texto, que as ajudem a perceber suas nuances, funções, formas e
aspectos estruturais, assim como favorecer o despertar de sua imaginação
e capacidade criadora. É importante instigar o surgimento de perguntas e
comentários por parte das crianças para que a história não se transforme
num ritual didático alheio aos seus interesses.
É preciso seduzir a criança a contar e recontar suas histórias, deixando
aflorar a sua linguagem, criatividade e conhecimentos já construídos,
pois, como afirma Garcia (1999, p. 40) “Seduzir as crianças para a
apropriação da palavra escrita significa contribuir para torná-las donas
de sua linguagem, capazes de nela se afirmar, livres para dizer o seu
mundo, sagazes para ler criticamente a realidade”.
Portanto, quando se sabe que a questão central diz respeito à
implantação de uma prática pedagógica que se volte para os processos de
construção e descoberta da língua escrita por parte da criança, torna-se
imperativo oportunizar às crianças o máximo de contato com diferentes
tipos de histórias (orais ou escritas), procurando sintonizá-los com os
conhecimentos que as mesmas já possuem acerca destes referidos textos.
O contato com o mundo letrado faz com que as crianças percebam as
situações de uso e as funções dos textos, além de suas características
lingüísticas e visuais. Por outro lado, a participação em práticas de
leitura e escrita, no cotidiano, possibilita e amplia os conhecimentos
da criança sobre a língua, favorecendo a produção de textos livres em
que o aluno possa expressar seus sentimentos, alegrias, suas angústias e
seus sonhos.
Dessa maneira, para não se esgotar a discussão e a reflexão sobre a
problemática aqui exposta, necessário se fazem levarmos o debate sobre o
ato de ler e escrever, de modo que não fique no discurso, mas, sim, na
ação, em busca da superação deste processo para termos leitores e
escritores conscientes e críticos da sociedade a qual estamos inseridos.
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