Introdução
A escola, os sujeitos que nela estão inseridos e as relações que
entre si se estabelecem têm sido campo de pesquisa sobre a gestão
educacional, formação de professores e (re)significação de maneiras
de ser e estar na profissão docente. Nesse espaço formativo
encontram-se sujeitos singulares que constroem parte de sua história
no coletivo. Dentre os saberes e os fazeres dos professores,
buscou-se nesse estudo conhecer a gestão escolar pelo olhar de três
coordenadoras pedagógicas de uma Escola Estadual do município de
Santa Maria (RS) e com isso, refletir sobre a sua prática gestora.
Entende-se que o coordenador pedagógico, ao mesmo tempo que atua no
coletivo, de forma a alcançar objetivos estabelecidos com a
participação de todos, também está em processo permanente de
desenvolvimento profissional, pois reconstrói seus saberes e seus
fazeres permanentemente.
O presente estudo baseou-se na abordagem qualitativa de pesquisa,
constituindo-se em um estudo de caso (TRIVINÕS, 1987; STAKE, 1999;
YIN, 2005). Cada coordenadora pedagógica
representou um caso. Para que o objetivo dessa pesquisa fosse
atingido, elegeu-se como instrumento de coleta de dados a entrevista
semi-estruturada. Para a organização dessa, foi elaborado um roteiro
com base em três categorias intituladas trajetória docente,
atribuições do coordenador pedagógico e prática de gestão do
coordenador pedagógico.
Trajetória, atribuições e prática do coordenador pedagógico
A gestão escolar na perspectiva da administração individual, da
hierarquia e da fragmentação de tarefas vem perdendo seu espaço para
a gestão democrática, entendida como compartilhamento de
responsabilidades no contexto escolar. No entanto, sua inserção na
organização e funcionamento das escolas configura-se como um grande
desafio para os gestores que necessitam, na maioria das vezes,
reconstruírem suas concepções e práticas de gestão.
Nessa perspectiva, a gestão escolar passa a ser concebida sob o
prisma de reconhecer a importância da participação de todos na
organização e no planejamento do trabalho escolar, uma vez que o
conceito de gestão está associado ao fortalecimento da
democratização no processo pedagógico, à participação de todos nas
decisões necessárias e na sua efetivação mediante compromisso
coletivo.
Entende-se que o coordenador pedagógico constitui-se em um sujeito
que assume o papel de coordenador de ações voltadas para objetivos
coletivamente estabelecidos. Ou seja, aquele gestor que por sua
articulação e integração desempenha juntamente com os demais
gestores o trabalho pedagógico-curricular.
Torna-se importante, assim, refletir como a trajetória docente
repercute na prática desse profissional, não mais chamado de
especialista em educação, mas de gestor escolar. Acredita-se que há,
inevitavelmente, influência das experiências pessoais e,
concomitantemente, da formação inicial e continuada na prática
gestora desenvolvida no cotidiano escolar. Esse fato não poderia ser
diferente com relação ao coordenador pedagógico: gestor, imbuído
pelo eu pessoal e profissional.
Nesse estudo, a memória apresenta-se como âmago dessas relações,
entendida não apenas como reminiscências do passado, mas,
principalmente, conforme Benjamim apud Kenski (1992, p. 146) como
“[...] um movimento permanente de reconstrução, determinado pelas
condições concretas e emocionais do sujeito, no momento presente”.
Assim, ao se reportarem à trajetória profissional, aos caminhos
percorridos na escolarização, as coordenadoras relembraram marcas
positivas e negativas, perfis de professores que fizeram com que
elas repensassem sua prática. A partir do exposto, percebe-se que
não há como negar a indissociabilidade entre o eu pessoal e o eu
profissional, ou seja, um está presente no outro. Dessa forma, é
preciso exercitar o conhecimento de si, do seu “processo identitário”
(NÓVOA, 1995), como pessoa e profissional, de seus desejos,
angústias e escolhas, pois “[...] a identidade é um lugar de lutas e
de conflitos, é um espaço de construção de maneiras de ser e de
estar na profissão [...], a maneira como cada um se sente e se diz
professor” (ibid, p. 16).
Sob essa perspectiva, quando se propõe a conhecer a trajetória do
professor, também se pretende dar voz a ele, a sua vida, a tudo
aquilo que faz parte de sua história, do seu processo formativo como
pessoa, como aluno que foi e professor que é. Segundo Goodson (1995,
p. 75),
[...] os
estudos referentes às vidas dos professores podem ajudar-nos a ver o
indivíduo em relação com a história do seu tempo, permitindo-nos
encarar a intersecção da história de vida com a história da
sociedade, esclarecendo, assim, as escolhas, contingências e opções
que se deparam ao indivíduo.
Em vista disso, percebe-se que conhecer a vida do professor é de
suma importância para entender sua formação e prática profissional.
No entanto, esse processo não é estanque, ele se modifica no
cotidiano das relações, dos conflitos e das decisões tomadas no
decorrer da carreira. Nessas vivências, outras aprendizagens,
reflexões e (re)significações acerca da profissão são possíveis.
Nessa perspectiva, muitas foram as razões que determinaram as
escolhas profissionais das coordenadoras entrevistadas. Segundo
elas, os fatores que influenciaram suas escolhas passaram pela
interferência da família, do trabalho com a área das ciências
humanas, com o conhecimento, o saber e o fazer na educação como
necessidade de formação. De acordo com Cunha (1996), “[...] o
professor nasceu numa época, num local, numa circunstância que
interferem no seu modo de ser e agir. Suas experiências e sua
história são fatores determinantes do seu comportamento cotidiano”.
Por isso, conhecer a trajetória da formação profissional dos
professores permite adentrar no campo dos sentidos e significados
que a profissão representa para cada um. Nesse caso, destaca-se a
importância da formação continuada, ressaltada pelas coordenadoras,
como processo de autoformação crítico-reflexiva da e na prática
docente.
Percebe-se, pois, que a continuidade da formação é indispensável
para a profissionalização no atual contexto educacional e que esse
processo se constrói durante toda a carreira profissional. A
formação permanente se faz necessária pela própria natureza dos
saberes e dos fazeres humanos como práticas que se transformam
constantemente. Nesse sentido, os coordenadores pedagógicos,
anteriormente chamados de supervisores escolares, possuíam um papel
associado, principalmente, ao controle das práticas docentes. A
partir das mudanças no processo de organização da escola, o
coordenador pedagógico passou a ser considerado, também, um
professor e seu foco passou a ser, prioritariamente, o processo de
ensino e aprendizagem. Desse modo, os saberes teóricos e práticos
oriundos da trajetória docente passaram a compor, juntamente com os
saberes para o desenvolvimento das atividades administrativas, os
conhecimentos necessários para o trabalho na coordenação.
Quanto às atribuições como coordenador pedagógico, as colaboradoras
apontaram que seu trabalho reside, prioritariamente, no
desenvolvimento das questões burocráticas, postas pela legislação
vigente, e no seu trabalho com a equipe docente. Ou seja, o
coordenador é o mediador das práticas do professor, uma vez que sua
ação está diretamente ligada à educação, aos aspectos pedagógicos do
ambiente escolar. Corroborando com o exposto, Libâneo, Toschi e
Oliveira (2005, p. 373) destacam que “[...] a coordenação pedagógica
[...] responde pela viabilização do trabalho pedagógico-didático e
por sua integração e articulação com os professores, em função da
qualidade do ensino”.
Dessa forma, o trabalho desenvolvido pelo coordenador pedagógico
constitui-se em uma prática mediadora no sentido de visar o
comprometimento com o corpo docente e o processo de
ensino-aprendizagem dos alunos. A partir disso, percebe-se que o
coordenador pedagógico é o gestor responsável por:
[...]
coordenar, acompanhar, acessorar, apoiar e avaliar as atividades
pedagógico-curriculares. Sua atribuição prioritária é prestar
assistência pedagógico-didática aos professores em suas respectivas
disciplinas, no que diz respeito ao trabalho interativo com os
alunos. (LIBÂNEO, OLIVEIRA E TOSCHI, 2005, p. 373)
Entende-se que a trajetória construtiva desse profissional necessita
ser visualizada com um olhar reflexivo, no sentido de se poder
identificar as possíveis interferências que venham a determinar a
sua prática gestora. Percebe-se que, na maioria das vezes, o gestor
escolar direciona a sua prática a partir das concepções de gestão
internalizadas ao longo de sua trajetória. Nessa perspectiva,
Mizukami et al. (2002, p. 48) apontam que “[...] os conhecimentos,
as crenças e as metas são elementos fundamentais na determinação do
que fazem e de por que o fazem”. Assim, a gestão escolar assume
diferentes perspectivas conforme a concepção que os gestores têm das
finalidades sociais e políticas da educação em relação à sociedade e
à formação discente.
Libâneo, Oliveira e Toschi (2005) apresentam quatro concepções de
gestão escolar que aqui serão expostas de maneira sucinta. A
primeira diz respeito a concepção técnico-científica que se baseia
na hierarquia de cargos e de funções, nas regras e nos procedimentos
administrativos, para a racionalização do trabalho e a eficiência
dos serviços escolares. A autogestionária baseia-se na
responsabilidade coletiva, na ausência de direção centralizada e na
acentuação da participação direta e por igual de todos os membros da
instituição. A interpretativa considera como elemento prioritário na
análise dos processos de organização e gestão os significados
subjetivos, as intenções e a interação das pessoas. A concepção
democrático-participativa baseia-se na relação orgânica entre a
direção e a participação dos membros da equipe, onde as decisões são
tomadas coletivamente. Essas concepções são decorrentes da
perspectiva de gestão sociocrítica, que propõe:
[...] de um
lado, a organização como uma construção social envolvendo a
experiência subjetiva e cultural das pessoas; de outro, essa
construção não como um processo livre e voluntário, mas mediatizado
pela realidade sociocultural e política mais ampla, incluindo a
influência de forças externas e internas marcadas por interesses de
grupos sociais sempre contraditórios e, às vezes, conflituosos. Tal
visão busca relações solidárias, formas participativas, mas também
valoriza os elementos internos do processo organizacional – o
planejamento, a organização, a gestão, a direção, a avaliação, as
responsabilidades individuais dos membros da equipe e a ação
organizacional coordenada e supervisionada [...]. (LIBÂNEO, 2001, p.
222-223)
Na escola tais processos de gestão, muitas vezes, não são percebidos
de maneira clara, ora por estarem imbricados uns nos outros, ora
pela gestão técnico-científica ainda predominar. Nesse sentido, ao
ser feita a análise da fala das entrevistadas, foi possível
verificar as categorizações “concepção de gestão: enfoque
sociocrítico (no sentido de agregar pessoas, considerar as
interações sociais e formas democráticas de tomada de decisões)”,
como também “coordenação: trabalho burocrático x trabalho
pedagógico”, quando as entrevistadas ao serem questionadas sobre a
concepção de gestão escolar que fundamenta a prática e prática
desenvolvida como gestor apontaram que:
[...] eu
procuro me pautar na gestão democrática, agora isso é difícil. De
vez em quando a gente tem que quase impor algumas resoluções,
inclusive pra não burlar a questão legal que a gente tem que zelar
bastante. (COORDENADORA DO TURNO DA TARDE)
[...] talvez
eu tenha me centrado mais na parte burocrática: diário de classe,
planos de curso, na época. Agora com o tempo mudou muito. Eu vejo
que a minha prática, como coordenação, mudou muito. Porque isso
precisa ser feito. São documentos, mas que não é a preocupação maior
que tu precisas ter. Tu precisas ter um olhar do professor,
auxiliando, ouvindo, ajudando na atividade pedagógica. (COORDENADORA
DO TURNO DA NOITE)
[...] como
gestão eu considero que, faz dois anos que se está tentando
trabalhar na escola. Porque até então era: tu és o coordenador, tu
és o administrador, tu és o supervisor e cada um o dono do seu
espaço. Ninguém palpitava na vida do outro. Não é essa a visão de
gestão, do processo e nem de professor gestor da sala de aula. Tem
escolas que aderiu da teoria a prática é bem um termo assim,
diretiva, que eu acho que não deve se usar mais. (COORDENADORA DO
TURNO DA MANHÃ)
Verifica-se que as três coordenadoras elegeram a perspectiva
sociocrítica como a forma de gestão que possibilita o trabalho
coerente e vislumbra os objetivos educacionais almejados. Por outro
lado, pode-se identificar um obstáculo em trabalhar de maneira
coletiva, quando os colegas e até mesmo elas são oriundas de uma
organização em que prevalece o trabalho compartimentado.
Assim, foi possível perceber que as posições aqui colocadas refletem
a mesma posição política sobre o papel da escola. No entanto, o que
está instituído na estrutura organizacional da escola, por meio da
fragmentação do trabalho pedagógico e desarticulação com o papel
social, acabam impossibilitando um trabalho visando o coletivo
escolar.
Considerações finais
Acredita-se que essa pesquisa contribuiu com uma reflexão sobre a
prática gestora do coordenador pedagógico, entendido como sujeito
que participa do processo de mediação e articulação de saberes e
fazeres, que busca construir, progressivamente, processos de
democracia e participação coletiva através de discussões, reflexões,
ações e avaliações constantes.
Entende-se que os saberes, as experiências e as vivências
decorrentes de sua trajetória profissional interferem no modo como
concebem, organizam e desenvolvem a prática de gestão. No entanto,
as coordenadoras entrevistadas deixaram claro que o processo de
gestão participativa e democrática ainda não se efetivou na escola.
As reflexões e ações são lentas e dependem do envolvimento e
comprometimento de todos. Em suma, pode-se destacar do trabalho das
coordenadoras a tentativa de gestão democrática-participativa, a
qual implica deveres e responsabilidades de todos os envolvidos e o
comprometimento com a educação de qualidade.
Referências
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Paulo: Papirus, 1996.
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Dar voz ao professor: a história de vida dos professores e seu
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Porto, 1995.
KENSKI, V.
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LIBÂNEO, J. C.
Organização e gestão da escola: teoria e prática. 4. ed.
Goiânia, Goiás: Alternativa, 2001.
LIBÂNEO, J.
C.; OLIVEIRA, J. F.; TOSCHI, M. S. Educação escolar:
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LÜCK, H.
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MIZUKAMI, M.
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NÓVOA, A. (Org.). Vidas de profesores. 2. ed.
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STAKE, R. E. Investigación con estudio de
casos. 2. ed. Madrid: Ediciones Morata S. L, 1999.
TRIVIÑOS, A.
N. S. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a
pesquisa qualitativa
em educação.
São Paulo: Atlas, 1987.
YIN, R. K. Estudo de caso: planejamento e métodos. 3.
ed. Porto Alegre: Bookman, 2005.
[*]
Licenciada em Pedagogia, Especialista em Gestão Educacional
e Mestranda em Educação pela Universidade Federal de Santa
Maria/RS. E-mail:
alexandrafurquim@hotmail.com
** Licenciada em Letras e
Especialista em Gestão Educacional pela Universidade Federal
de Santa Maria/RS. E-mail:
etiane77@yahoo.com.br
*** Graduada em
Pedagogia, Especialista em Gestão Educacional e Mestranda em
Educação pela Universidade Federal de Santa Maria/RS.
E-mail: reginapellens@yahoo.com.br