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ISSN 1678-8419         última atualização em: quinta-feira, 06 de setembro de 2012 20:46:35                                               

 
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POESIAS

Cartografia escolar. Uma cartografia diferente?

   

Clézio Santos

publicado em 27/05/2007

 

Resumo

 

O artigo procura apresentar a Cartografia Escolar enquanto tema  e área de estudo, presente entre a Geografia, a Cartografia e a Educação. Dividi-se em duas partes: a primeira parte trabalha a relação entre Cartografia e a Geografia no contexto escolar; já, na segunda parte focaliza mais diretamente a área de Cartografia Escolar, apresentado em linhas gerais suas preocupações, pesquisas e temas presentes no grupo de Cartografia escolar que vem se reunindo desde 1995. A Cartografia Escolar é trabalhada como uma metodologia de ensino-aprendizagem, capaz de revelar informações socioespaciais na disciplina escolar denominada de Geografia.

 

Palavras-chave: ensino de geografia, cartografia escolar, educação, ensino básico.

 

 

Cartografia e Geografia no Contexto Escolar

 

Aprender Cartografia para a Geografia é aprender regras de construção de mapas, suas diferenças, o uso de cada tipo de produto, e, atualmente, técnicas computadorizadas. Isso deve ser considerado e ensinado como conteúdo técnico, mas não basta. Temos que entender a Cartografia como construção social, não como algo pronto, acabado e estático. A Cartografia não é meramente um amontoado de técnicas, ela constrói, reconstrói e acima de tudo revela informações.

Para MARTINELLI (1999:224): “Como em toda a produção do saber, também a Cartografia teria seus grandes avanços nas inovações em estreita consonância com as mais significativas transformações da vida material da sociedade. Este desenvolvimento, portanto, não pode ser entendido nem explicado fora do contexto do processo de desenvolvimento das forças produtivas e relações de produção”.

O compromisso com a cidadania que cada ramo do conhecimento humano deve ter, deve estar também diretamente relacionado com o seu meio social, dessa forma a Cartografia e a Geografia estão diretamente presentes na sociedade tanto no dia-a-dia como em setores específicos. A escola é um desses locais cuja presença desses conhecimentos são importantes na tarefa de formar e informar nossos cidadãos. Temos no ensino de Geografia a necessidade de conteúdos de Cartografia para cumprir seu papel junto às disciplinas escolares. Por essa perspectiva é que vemos a relação muito próxima entre Cartografia e Geografia.

Trazer a Cartografia para escolares como tema de análise de pesquisas educacionais pode elucidar melhor como produzir mapas cartograficamente adequados aos usuários das escolas. Isto significa que ensinar mapas para crianças e jovens nas escolas é uma questão que vai além da Cartografia. Na verdade, os mapas, assim como todos os demais meios de produção de conhecimento escolar, criam significado para a aprendizagem quando vistos no contexto de uma epistemologia escolar. Isto quer dizer, considerar que a aprendizagem não se faz em separado dos meios e dos modos de pensar que eles possibilitam; e, que as relações de aprendizagem são também mediadas pelas relações pessoais entre os alunos e o professor, e entre os próprios alunos. Assim, não basta produzir mapas cartograficamente adequados, se estes não forem devidamente apropriados pelos "usuários" da escola.

Reafirmamos as idéias de ANDERSON & VASCONCELLOS (1996) e ALMEIDA (1999), onde enfatizam: torna-se imprescindível que, tanto os cartógrafos que se interessam pela educação, quanto os educadores que lidam com o ensino de Geografia e de outras áreas que usam representação cartográfica, busquem trabalhar juntos no desenvolvimento desta área que começa a se estabelecer no quadro educacional brasileiro.

Reforçando, a Cartografia enquanto ramo do conhecimento científico sempre atrelado à Geografia,  principalmente ao ensino de Geografia. Essa relação fez com que inúmeros Geógrafos e professores de Geografia se dedicassem à área de Cartografia e em especial a Cartografia direcionada às crianças e jovens no contexto escolar.

Algumas dessas preocupações acabaram reunindo um grupo cada vez maior de pesquisadores preocupados com essa temática.

As preocupações da Cartografia para Crianças e Jovens ou Cartografia para Escolares, debruça-se na questão pertinente aos mapas escolares, e como esses mapas devem ser gerados e desenvolvidos a partir das relações entre os usuários (professores e alunos). Lembramos, para exemplificar, a tese pioneira de OLIVEIRA (1978:88) que concluiu: "o mapa é usado como recurso audiovisual, e até agora não se considerou devidamente o ensino do mapa, e sim o ensino pelo mapa".

Cartografia e a Geografia no momento atual estão comprometidas com a realidade presente em nossa sociedade, não podemos ignorá-las, temos que procurá-las.

 “A sabedoria não consiste em fazer um balanço do presente em relação ao passado mais recente e intitulá-lo ‘o novo mapa do mundo’, sabendo-se bem que desde já é preciso preparar o próximo. A geografia e a cartografia são responsáveis pelo empreendimento humano de seu tempo” GEORGE (1994:17).

A Geografia tem por tarefa descrever, analisar e predizer os acontecimentos terrestres. A descrição, análise ou predição geográfica dos fenômenos são sempre realizadas tendo em vista suas coordenadas espaciais. Como o conceito geográfico de espaço coincide com o de toda a Terra, o geógrafo teve a necessidade de recorrer à representação da superfície terrestre para realizar seus estudos (OLIVEIRA, 1977).

Desta definição apresentada por OLIVEIRA (op.cit.) sobre a Geografia, devemos acrescentar e avançar, trazendo para junto da Geografia e da Cartografia a realidade e o cotidiano do mundo em nossas pesquisas. Anexamos a Cartografia também como conhecimento e prática do coletivo, do social.

Para Lívia de OLIVEIRA (1978)[1], representar os fenômenos estudados sempre foi uma necessidade básica em Geografia e afirma que sua história está intimamente correlacionada com a representação espacial. Segundo a autora, a grande maioria dos geógrafos concordam que o mapa é uma representação indispensável aos seus trabalhos. Durante muitos anos além de abarcarem os estudos dos mapas os geógrafos freqüentemente sugeriram os mapas como o coração da disciplina.

Concordamos com MARTINELLI (1990), quando afirma que os mapas sempre estiveram associados à Geografia. Pode-se dizer que de todas as ciências ligadas à Cartografia, a Geografia é uma das mais importantes, à medida que os fatos e fenômenos se originam de diversos ramos da Geografia, quer física, humana, econômica, etc. (OLIVEIRA,1988).

A Cartografia tem se apresentado muito como auxiliar das demais ciências, inclusive a Geografia, ela é quase um discurso neutro. Se é que alguém possa identificar no conhecimento científico, algo neutro e sem envolvimentos políticos e sociais. Neste entendimento temos que fixar a Cartografia não como auxiliar e sim agente da prática social.

 

A Cartografia Escolar

 

Na escola, a Cartografia fixou-se como mapa-ilustração, retomando as idéias novamente de GIRARDI (1997) sobre o papel de mercadoria que esses produtos ganharam  dentro da disciplina Geografia escolar, principalmente no momento da ruptura entre Cartografia/Geografia dentro da corrente denominada de Geografia Crítica.  A Cartografia pode fornecer, ou pelo menos tem condições de fornecer, preciosos elementos  com finalidade didática:  revelar o conteúdo da informação, por meio da construção e reconstrução, até chegar na informação.

 A ilustração pode ser utilizada em segundo plano, para reforçar as idéias da informação, jamais como sendo o único contato e entendimento da Cartografia.  Dentre as ilustrações destacamos: fotografias, desenhos, blocos-diagrama, croquis, entre outros.

A Cartografia oferece à Geografia múltiplas condições de concretização dos fatos estudados ou pela representação do produto final da obra geográfica ou pela sua utilização como apoio e mesmo instrumento  para as pesquisas dos geógrafos, desde que ele entenda a Cartografia como reveladora da informação e não meramente como ilustração. A Cartografia que interessa mais de perto à Geografia, é aquela que exprime com mais fidelidade o produto do pensamento geográfico e por isso é altamente desejável que os construtores e usuário da Cartografia estejam em constante contato com as discussões e evoluções do conceito de espaço geográfico.

 O campo de atuação e de apoio da Cartografia à sociedade é muito amplo e variado seja no sentido horizontal quando se utiliza de técnicas e métodos de outras ciências, ou no vertical quando se aprofunda em sua base teórico-metodológica.

Em relação à Geografia brasileira, em que temos uma proximidade maior com a Cartografia, já que se configura como disciplinas em nossas universidades, ela pode influenciar o geógrafo, o professor de Geografia e o estudante de Geografia. Neste caso, a Cartografia deve atuar principalmente como reveladora de informações geográficas. Vale lembrar que alguns dos grandes princípios da Geografia – extensão, localização – realizam-se  melhor através da representação, pois ela tem condições de contribuir para a aglutinação dos fatos fragmentados pelos estudos especializados – notadamente os físicos e humanos – na demonstração final de que a Geografia é una, universal e o espaço um todo coerente e sistêmico (ou incoerente e contraditório, dependendo da ótica do pesquisador).

Gostaríamos de ressaltar que a Cartografia pode ser um modo, ou mesmo, um caminho para se entender uma questão espacial e melhor revelá-la por meio da linguagem gráfica.

O trabalho com Cartografia e representação gráfica ainda está muito distante das escolas brasileiras. Grande parte das habilidades de leitura, escrita e visualização através de meios gráficos é desconhecida dos professores e, consequentemente, dos alunos. Necessitamos alterar essa condição de “analfabetos” em relação ao mundo das representações gráficas e especialmente da Cartografia. Essa constatação reafirma a necessidade de nossa pesquisa e reforça o ramo da Cartografia escolar, dentro da Cartografia.

Representamos em Cartografia Escolar a realidade, esta realidade pode ser aquela da Geografia. Realidade é entendida segundo BERTIN (1967), retomado por MARTINELLI (1991), realidade entendida como diversidade, deve ser representada através de uma diversidade visual; a ordem através de uma ordem visual; a proporcionalidade através de uma proporcionalidade visual. Pois, a comunicação eficaz da informação depende de como o mapa é construído, uma vez que cada forma que se utiliza para organizar a informação cria nova informação e uma nova compreensão.

Não se pode esquecer também o fato de que existem diferentes mapas para diferentes usuários. Isto pode parecer simples, mas em termos de ensino é fundamental que se faça uma seleção dos principais elementos possíveis de serem vistos por seus alunos. Um aluno que esteja nas primeiras séries do ensino fundamental não tem o mesmo potencial de entendimento da representação gráfica que um aluno do ensino médio. Essa colocação é importante quando lidamos com a Cartografia Escolar, com seus diversos produtos da representação gráfica.

 

Considerações finais
 

Temos a necessidade de refletir acerca da teoria e metodologia da Cartografia quando adentramos no ambiente educacional (escola formal incluindo o ensino fundamental, ensino médio e ensino superior). Pois, falar de Cartografia no Ensino de Geografia implica falar de uma Cartografia feita de forma crítica no ambiente educacional sem esquecer ou reduzir o conhecimento teórico e científico dos mapas frente os seus pressupostos básicos consolidados na longa história da Cartografia, atrelados às novas tecnologias e à complexidade espacial.

A Cartografia Escolar, portanto, não deve ser entendida da perspectiva da epistemologia dominante do positivismo científico, mas deve estar enraizada na teoria social adotadas por HARLEY (1990) e TAYLOR (1991). A teoria social, como o contexto social é culturalmente específico e muda no tempo e no espaço, porém  a Cartografia Escolar deve ficar atenta a três conceitos básicos: a cognição, a visualização e a comunicação.

 

Bibliografia

 

ALMEIDA, R. D. III Colóquio de Cartografia para Crianças: questões sobre a Cartografia para Crianças no Brasil. Anais, III Colóquio de Cartografia para Crianças. São Paulo: AGB-SP, 1999.

ANDERSON, J. & VASCONCELLOS, R. “Mapas para e por crianças: possíveis contribuições dos cartógrafos”. Anais, I Colóquio Cartografia para Crianças. Rio Claro: LEMADI-USP / LEG-UNESP, 1995.

BALCHIN, W. G. V. Graficacia. Revista Geografia, abril 1987. Rio Claro: UNESP-RC.

BERTIN, J. Sémiologie Graphique: Les Diagrames, Les Réseaux, Les Cartes. Mounton e Gauthier – Villars. Paris, 1967 (432 p.).

GEORGE, P. A geografia no encalço da história. In SOUZA, M. A. A. et.ali (org.). Natureza e sociedade de hoje: uma leitura geográfica. São Paulo: Hucitec/Anpur, 1994 (p15-17).

GIRARDI, G. A Cartografia e os mitos: ensaios de leitura de mapas. Dissertação de mestrado. São Paulo: DG/FFLCH/USP, 1997.

GIRARDI, G. Do outro lado do mapa: eixos de pesquisa em cartografia temática. Monografia.  São Paulo: DG/FFLCH/USP, 1992.

HARLEY, J. B. A nova história da cartografia. O Correio da UNESCO – Mapas e cartógrafos. Edição em português, 19 (08). São Paulo: FGV, 1991.

JOLY, F. A cartografia. Editora Papirus. Campinas, 1990.

LIMA, J. J. T. A comunicação cartográfica como instrumento aplicável à sociedade: o mapa como expressão da realidade observada pelo cartógrafo. Tese de doutorado. São Paulo: DG/FFLCH/USP, 1999.

MARTINELLI, M. As representações gráficas da Geografia: os mapas temáticos. Tese de Livre Docência. São Paulo: DG/FFLCH/USP, 1999.

MARTINELLI, M. Curso de Cartografia Temática. Campinas: Papirus, 1991.

MARTINELLI, M. Orientação semiológica para as representações da Geografia: mapas e diagramas. In revista Orientação (8), IGEOG-DG/USP. São Paulo, 1990 (p.55-62).

NOGUEIRA, A . R. B. Mapa mental: recurso didático no ensino de Geografia no 1º Grau. Dissertação de mestrado, DG/FFLCH/USP. São Paulo, 1994.

OLIVEIRA, C. Curso de Cartografia Moderna. Rio de Janeiro: FIBGE, 1991.

OLIVEIRA, L. Estudo Metodológico e Cognitivo do Mapa. Tese de livre docência, Série teses e monografias (32), IGEOG/USP. São Paulo, 1978.

PAGANELLI, T. Y. Para a construção do espaço Geográfico na Criança. In Revista Terra Livre (2), ABG/Marco Zero. São Paulo, 1997.

PENCHENIK, B. B. Cognição em Cartografia. Originalmente publicado em : Cartographia: The Nature of Cartographic Communication, University Toronto Press, Toronto , Monograph n.14:117-128, 1977. Tradução de Gisele Girardi e Regina R. Ramires. Reimpressão em Geocartografia, 6. São Paulo: DG/FFLCH/USP, 1995.

PIAGET, J. The Construction of Reality in the Child.  Ballantine Books. New York, 1971.

REVISTA GEOGRAFIA & ENSINO, volume 1, nº1, mar. 1982. UFMG, Instituto de Geociências, Departamento de Geografia.

SANTOS, C. Cartografia geográfica: representando graficamente o relevo. Ribeirão Preto: Edição do Autor, 1999.

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SANTOS, C. A Cartografia Escolar e sua participação no Ensino de Geografia. Santo André, GECART, 2007.

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SIMIELLI, M. E. Cartografia e ensino: proposta e contraponto de uma obra didática. Tese de livre docência. São Paulo: DG/FFLCH/USP, 1996.

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SOUZA M. A. A . O ensino da geografia na virada do século. In SOUZA, M. A. A. et.ali (org.). Natureza e sociedade de hoje: uma leitura geográfica. São Paulo: Hucitec/Anpur, 1994 (p. 29-35).

TAYLOR, D. R. F. A conceptual basis for cartography: new directions for the information era. Cartoghaphica, Toronto, v. 28, n. 4, p.1-8, 1991.

 

[1] Tese de Livre Docência defendida junto ao Instituto de Ciências Exatas e da Terra da Universidade Estadual Júlio Mesquita Filho (UNESP), Campus Rio Claro em 1978 e editada pelo Instituto de Geografia da USP no mesmo ano.  

 

 

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::sobre o autor::

Clézio Santos é professor orientador de portfólio e TCC dos Cursos Especiais de Formação de Professores da FAFIL/CUFSA. Do curso de Geografia do UNIFAI, Bacharel e Licenciado em Geografia USP, membro do Colegiado de Geografia da FAFIL/CUFSA, mestre em Geografia Humana FFLCH/USP, mestre e doutorando em Geociências e Ensino IG/UNICAMP; e autor de inúmeros trabalhos na área de Geografia, Educação e Turismo.
 

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