|
Resumo
O artigo procura
apresentar a Cartografia Escolar enquanto tema e área de estudo,
presente entre a Geografia, a Cartografia e a Educação. Dividi-se em
duas partes: a primeira parte trabalha a relação entre Cartografia e a
Geografia no contexto escolar; já, na segunda parte focaliza mais
diretamente a área de Cartografia Escolar, apresentado em linhas gerais
suas preocupações, pesquisas e temas presentes no grupo de Cartografia
escolar que vem se reunindo desde 1995. A Cartografia Escolar é
trabalhada como uma metodologia de ensino-aprendizagem, capaz de revelar
informações socioespaciais na disciplina escolar denominada de
Geografia.
Palavras-chave: ensino de
geografia, cartografia escolar, educação, ensino básico.
Cartografia e
Geografia no Contexto Escolar
Aprender Cartografia para
a Geografia é aprender regras de construção de mapas, suas diferenças, o
uso de cada tipo de produto, e, atualmente, técnicas computadorizadas.
Isso deve ser considerado e ensinado como conteúdo técnico, mas não
basta. Temos que entender a Cartografia como construção social, não como
algo pronto, acabado e estático. A Cartografia não é meramente um
amontoado de técnicas, ela constrói, reconstrói e acima de tudo revela
informações.
Para MARTINELLI
(1999:224): “Como em toda a produção do saber, também a Cartografia
teria seus grandes avanços nas inovações em estreita consonância com as
mais significativas transformações da vida material da sociedade. Este
desenvolvimento, portanto, não pode ser entendido nem explicado fora do
contexto do processo de desenvolvimento das forças produtivas e relações
de produção”.
O compromisso com a
cidadania que cada ramo do conhecimento humano deve ter, deve estar
também diretamente relacionado com o seu meio social, dessa forma a
Cartografia e a Geografia estão diretamente presentes na sociedade tanto
no dia-a-dia como em setores específicos. A escola é um desses locais
cuja presença desses conhecimentos são importantes na tarefa de formar e
informar nossos cidadãos. Temos no ensino de Geografia a necessidade de
conteúdos de Cartografia para cumprir seu papel junto às disciplinas
escolares. Por essa perspectiva é que vemos a relação muito próxima
entre Cartografia e Geografia.
Trazer a Cartografia para
escolares como tema de análise de pesquisas educacionais pode elucidar
melhor como produzir mapas cartograficamente adequados aos usuários das
escolas. Isto significa que ensinar mapas para crianças e jovens nas
escolas é uma questão que vai além da Cartografia. Na verdade, os mapas,
assim como todos os demais meios de produção de conhecimento escolar,
criam significado para a aprendizagem quando vistos no contexto de uma
epistemologia escolar. Isto quer dizer, considerar que a aprendizagem
não se faz em separado dos meios e dos modos de pensar que eles
possibilitam; e, que as relações de aprendizagem são também mediadas
pelas relações pessoais entre os alunos e o professor, e entre os
próprios alunos. Assim, não basta produzir mapas cartograficamente
adequados, se estes não forem devidamente apropriados pelos "usuários"
da escola.
Reafirmamos as idéias de
ANDERSON & VASCONCELLOS (1996) e ALMEIDA (1999), onde enfatizam:
torna-se imprescindível que, tanto os cartógrafos que se interessam pela
educação, quanto os educadores que lidam com o ensino de Geografia e de
outras áreas que usam representação cartográfica, busquem trabalhar
juntos no desenvolvimento desta área que começa a se estabelecer no
quadro educacional brasileiro.
Reforçando, a Cartografia
enquanto ramo do conhecimento científico sempre atrelado à Geografia,
principalmente ao ensino de Geografia. Essa relação fez com que inúmeros
Geógrafos e professores de Geografia se dedicassem à área de Cartografia
e em especial a Cartografia direcionada às crianças e jovens no contexto
escolar.
Algumas dessas
preocupações acabaram reunindo um grupo cada vez maior de pesquisadores
preocupados com essa temática.
As preocupações da
Cartografia para Crianças e Jovens ou Cartografia para Escolares,
debruça-se na questão pertinente aos mapas escolares, e como esses mapas
devem ser gerados e desenvolvidos a partir das relações entre os
usuários (professores e alunos). Lembramos, para exemplificar, a tese
pioneira de OLIVEIRA (1978:88) que concluiu: "o mapa é usado como
recurso audiovisual, e até agora não se considerou devidamente o ensino
do mapa, e sim o ensino pelo mapa".
Cartografia e a Geografia
no momento atual estão comprometidas com a realidade presente em nossa
sociedade, não podemos ignorá-las, temos que procurá-las.
“A sabedoria não
consiste em fazer um balanço do presente em relação ao passado mais
recente e intitulá-lo ‘o novo mapa do mundo’, sabendo-se bem que desde
já é preciso preparar o próximo. A geografia e a cartografia são
responsáveis pelo empreendimento humano de seu tempo” GEORGE
(1994:17).
A Geografia tem por
tarefa descrever, analisar e predizer os acontecimentos terrestres. A
descrição, análise ou predição geográfica dos fenômenos são sempre
realizadas tendo em vista suas coordenadas espaciais. Como o conceito
geográfico de espaço coincide com o de toda a Terra, o geógrafo teve a
necessidade de recorrer à representação da superfície terrestre para
realizar seus estudos (OLIVEIRA, 1977).
Desta definição
apresentada por OLIVEIRA (op.cit.) sobre a Geografia, devemos
acrescentar e avançar, trazendo para junto da Geografia e da Cartografia
a realidade e o cotidiano do mundo em nossas pesquisas. Anexamos a
Cartografia também como conhecimento e prática do coletivo, do social.
Para Lívia de OLIVEIRA
(1978),
representar os fenômenos estudados sempre foi uma necessidade básica em
Geografia e afirma que sua história está intimamente correlacionada com
a representação espacial. Segundo a autora, a grande maioria dos
geógrafos concordam que o mapa é uma representação indispensável aos
seus trabalhos. Durante muitos anos além de abarcarem os estudos dos
mapas os geógrafos freqüentemente sugeriram os mapas como o coração da
disciplina.
Concordamos com
MARTINELLI (1990), quando afirma que os mapas sempre estiveram
associados à Geografia. Pode-se dizer que de todas as ciências ligadas à
Cartografia, a Geografia é uma das mais importantes, à medida que os
fatos e fenômenos se originam de diversos ramos da Geografia, quer
física, humana, econômica, etc. (OLIVEIRA,1988).
A Cartografia tem se
apresentado muito como auxiliar das demais ciências, inclusive a
Geografia, ela é quase um discurso neutro. Se é que alguém possa
identificar no conhecimento científico, algo neutro e sem envolvimentos
políticos e sociais. Neste entendimento temos que fixar a Cartografia
não como auxiliar e sim agente da prática social.
A Cartografia Escolar
Na escola, a Cartografia
fixou-se como mapa-ilustração, retomando as idéias novamente de
GIRARDI (1997) sobre o papel de mercadoria que esses produtos ganharam
dentro da disciplina Geografia escolar, principalmente no momento da
ruptura entre Cartografia/Geografia dentro da corrente denominada de
Geografia Crítica. A Cartografia pode fornecer, ou pelo menos tem
condições de fornecer, preciosos elementos com finalidade didática:
revelar o conteúdo da informação, por meio da construção e
reconstrução, até chegar na informação.
A ilustração pode ser
utilizada em segundo plano, para reforçar as idéias da informação,
jamais como sendo o único contato e entendimento da Cartografia. Dentre
as ilustrações destacamos: fotografias, desenhos, blocos-diagrama,
croquis, entre outros.
A Cartografia oferece à
Geografia múltiplas condições de concretização dos fatos estudados ou
pela representação do produto final da obra geográfica ou pela sua
utilização como apoio e mesmo instrumento para as pesquisas dos
geógrafos, desde que ele entenda a Cartografia como reveladora da
informação e não meramente como ilustração. A Cartografia que interessa
mais de perto à Geografia, é aquela que exprime com mais fidelidade o
produto do pensamento geográfico e por isso é altamente desejável que os
construtores e usuário da Cartografia estejam em constante contato com
as discussões e evoluções do conceito de espaço geográfico.
O campo de atuação e de
apoio da Cartografia à sociedade é muito amplo e variado seja no sentido
horizontal quando se utiliza de técnicas e métodos de outras ciências,
ou no vertical quando se aprofunda em sua base teórico-metodológica.
Em relação à Geografia
brasileira, em que temos uma proximidade maior com a Cartografia, já que
se configura como disciplinas em nossas universidades, ela pode
influenciar o geógrafo, o professor de Geografia e o estudante de
Geografia. Neste caso, a Cartografia deve atuar principalmente como
reveladora de informações geográficas. Vale lembrar que alguns dos
grandes princípios da Geografia – extensão, localização – realizam-se
melhor através da representação, pois ela tem condições de contribuir
para a aglutinação dos fatos fragmentados pelos estudos especializados –
notadamente os físicos e humanos – na demonstração final de que a
Geografia é una, universal e o espaço um todo coerente e sistêmico (ou
incoerente e contraditório, dependendo da ótica do pesquisador).
Gostaríamos de ressaltar
que a Cartografia pode ser um modo, ou mesmo, um caminho para se
entender uma questão espacial e melhor revelá-la por meio da linguagem
gráfica.
O trabalho
com Cartografia e representação gráfica ainda está muito distante das
escolas brasileiras. Grande parte das habilidades de leitura, escrita e
visualização através de meios gráficos é desconhecida dos professores e,
consequentemente, dos alunos. Necessitamos alterar essa condição de
“analfabetos” em relação ao mundo das representações gráficas e
especialmente da Cartografia. Essa constatação reafirma a necessidade de
nossa pesquisa e reforça o ramo da Cartografia escolar, dentro da
Cartografia.
Representamos em
Cartografia Escolar a realidade, esta realidade pode ser aquela
da Geografia. Realidade é entendida segundo BERTIN (1967), retomado por
MARTINELLI (1991), realidade entendida como diversidade, deve ser
representada através de uma diversidade visual; a ordem
através de uma ordem visual; a proporcionalidade através
de uma proporcionalidade visual. Pois, a comunicação eficaz da
informação depende de como o mapa é construído, uma vez que cada forma
que se utiliza para organizar a informação cria nova informação e uma
nova compreensão.
Não se pode esquecer
também o fato de que existem diferentes mapas para diferentes usuários.
Isto pode parecer simples, mas em termos de ensino é fundamental que se
faça uma seleção dos principais elementos possíveis de serem vistos por
seus alunos. Um aluno que esteja nas primeiras séries do ensino
fundamental não tem o mesmo potencial de entendimento da representação
gráfica que um aluno do ensino médio. Essa colocação é importante quando
lidamos com a Cartografia Escolar, com seus diversos produtos da
representação gráfica.
Considerações finais
Temos a necessidade de
refletir acerca da teoria e metodologia da Cartografia quando adentramos
no ambiente educacional (escola formal incluindo o ensino fundamental,
ensino médio e ensino superior). Pois, falar de Cartografia no Ensino de
Geografia implica falar de uma Cartografia feita de forma crítica no
ambiente educacional sem esquecer ou reduzir o conhecimento teórico e
científico dos mapas frente os seus pressupostos básicos consolidados na
longa história da Cartografia, atrelados às novas tecnologias e à
complexidade espacial.
A
Cartografia Escolar, portanto, não deve ser entendida da perspectiva da
epistemologia dominante do positivismo científico, mas deve estar
enraizada na teoria social adotadas por HARLEY (1990) e TAYLOR (1991). A
teoria social, como o contexto social é culturalmente específico e muda
no tempo e no espaço, porém a Cartografia Escolar deve ficar atenta a
três conceitos básicos: a cognição, a visualização e a comunicação.
Bibliografia
ALMEIDA, R. D. III
Colóquio de Cartografia para Crianças: questões sobre a Cartografia para
Crianças no Brasil. Anais, III Colóquio de Cartografia para
Crianças. São Paulo: AGB-SP, 1999.
ANDERSON, J. &
VASCONCELLOS, R. “Mapas para e por crianças: possíveis contribuições dos
cartógrafos”. Anais, I Colóquio Cartografia para Crianças. Rio
Claro: LEMADI-USP / LEG-UNESP, 1995.
BALCHIN, W. G. V.
Graficacia. Revista Geografia, abril 1987. Rio Claro: UNESP-RC.
BERTIN, J. Sémiologie
Graphique: Les Diagrames, Les Réseaux, Les Cartes. Mounton e
Gauthier – Villars. Paris, 1967 (432 p.).
GEORGE, P. A geografia no
encalço da história. In SOUZA, M. A. A. et.ali (org.). Natureza e
sociedade de hoje: uma leitura geográfica. São Paulo: Hucitec/Anpur,
1994 (p15-17).
GIRARDI, G. A
Cartografia e os mitos: ensaios de leitura de mapas. Dissertação de
mestrado. São Paulo: DG/FFLCH/USP, 1997.
GIRARDI, G. Do outro
lado do mapa: eixos de pesquisa em cartografia temática.
Monografia. São Paulo: DG/FFLCH/USP, 1992.
HARLEY, J. B. A nova
história da cartografia. O Correio da UNESCO – Mapas e cartógrafos.
Edição em português, 19 (08). São Paulo: FGV, 1991.
JOLY, F. A cartografia.
Editora Papirus. Campinas, 1990.
LIMA, J. J. T. A
comunicação cartográfica como instrumento aplicável à sociedade: o mapa
como expressão da realidade observada pelo cartógrafo. Tese de
doutorado. São Paulo: DG/FFLCH/USP, 1999.
MARTINELLI, M. As
representações gráficas da Geografia: os mapas temáticos. Tese de
Livre Docência. São Paulo: DG/FFLCH/USP, 1999.
MARTINELLI, M. Curso
de Cartografia Temática. Campinas: Papirus, 1991.
MARTINELLI, M.
Orientação semiológica para as representações da Geografia: mapas e
diagramas. In revista Orientação (8), IGEOG-DG/USP. São Paulo, 1990
(p.55-62).
NOGUEIRA, A . R. B.
Mapa mental: recurso didático no ensino de Geografia no 1º Grau.
Dissertação de mestrado, DG/FFLCH/USP. São Paulo, 1994.
OLIVEIRA, C. Curso de
Cartografia Moderna. Rio de Janeiro: FIBGE, 1991.
OLIVEIRA, L. Estudo
Metodológico e Cognitivo do Mapa. Tese de livre docência, Série
teses e monografias (32), IGEOG/USP. São Paulo, 1978.
PAGANELLI, T. Y. Para
a construção do espaço Geográfico na Criança. In Revista Terra Livre
(2), ABG/Marco Zero. São Paulo, 1997.
PIAGET, J.
The Construction of Reality in the Child.
Ballantine Books. New York, 1971.
REVISTA GEOGRAFIA &
ENSINO, volume 1, nº1, mar. 1982. UFMG, Instituto de Geociências,
Departamento de Geografia.
SANTOS, C. Cartografia
geográfica: representando graficamente o relevo. Ribeirão Preto:
Edição do Autor, 1999.
SANTOS, C. Cartografa
Temática no Ensino Médio: do tema à representação. Anais, IV
Colóquio de Cartografia Escolar. Maringá: UEM, 2001 (p.5-6).
SANTOS, C. A
Cartografia Escolar e sua participação no Ensino de Geografia. Santo
André, GECART, 2007.
SANTOS, M. Técnica,
espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico informacional.
São Paulo: Hucitec, 1997.
SIMIELLI, M. E.
Cartografia e ensino: proposta e contraponto de uma obra didática.
Tese de livre docência. São Paulo: DG/FFLCH/USP, 1996.
SIMIELLI, M. E. R. O
mapa como meio de Comunicação: implicações no ensino de Geografia do 1º
Grau. Tese de doutorado, DG/FFLCH/USP. São Paulo, 1986.
SOUZA M. A. A . O ensino
da geografia na virada do século. In SOUZA, M. A. A. et.ali (org.).
Natureza e sociedade de hoje: uma leitura geográfica.
São Paulo:
Hucitec/Anpur, 1994 (p. 29-35).
TAYLOR, D.
R. F. A conceptual basis for cartography: new directions for the
information era.
Cartoghaphica,
Toronto, v. 28, n. 4, p.1-8, 1991.
|