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ISSN 1678-8419         última atualização em: quarta-feira, 01 de outubro de 2008 01:06:06                                               

 
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EDUCAÇÃO
"Ciências pra quê(m)?!” ou “A estreita relação entre as diversas faces do conhecimento”  
Maceti, H.; Levada, C. L.; Lautenschleguer, I. J.

publicado em 01/10/2008

“Renda-se, como nós nos rendemos.
Mergulhe no que você não conhece, como nós mergulhamos.
Não se preocupe em entender,
Viver ultrapassa qualquer entendimento...”
(Clarice Lispector)

 


Em resposta a alguns colegas “cientistas” que não enxergam a beleza e a importância das outras áreas do conhecimento, achando um tanto quanto inútil se conhecer Shakespeare ou mesmo dedicar-se ao estudo de artes, administração ou música, tornando-se ocos ao considerar uma dimensão da cultura da ciência maior que outra. Como disse Albert Einstein “A religião sem a ciência é cega. A ciência sem a religião é manca!”. Essas pessoas são cegas de um olho, são mutiladas intelectualmente. Convém esclarecê-las!
Caros colegas cientistas, poetas, historiadores, músicos, etc...
To be or not to be...


Participando de um grupo de discussões na Internet, ficamos estarrecidos ao nos depararmos com alguns comentários, um tanto quanto pretensiosos, a respeito da importância única e exclusiva das ciências exatas. Alguns colegas defenderam a importância do estudo de outras áreas de conhecimento, enquanto outros criticavam-nas, como pseudociências. Também achamos todo o tipo de estudo muito bem-vindo.


Concordamos com o não-tratamento de "ciência" para algumas pseudociências (Astronomia x Astrologia). Poderíamos até parafrasear o grande matemático Joseph Fourier, quando diz que "uma ciência é feita de fatos, assim como uma casa é feita de pedras. Mas cuidado! Assim como um monte de pedras não é uma casa, uma porção de fatos não é uma ciência!"
Mas o fato de um conhecimento não ser científico (musical, poético, etc..) não tira dele a beleza e a importância para a humanidade. Concordo que Shakespeare, assim como , Edgar Allan Poe, Clarice Lispector, Machado de Assis, Mozart, Bethoven, etc, apesar de não serem cientistas, foram grandes gênios de nossa humanidade e contribuíram muito mais para a humanidade que muitos cientistas.
E o que dizer de Copérnico, Tycho Brahe e Arquimedes, já que o método científico foi edificado por Galileu Galilei, algum (ou muito) tempo depois? Onde se enquadrariam Michelangelo ou Leonardo da Vinci? E os grandes filósofos como Platão?
Sem contar Demócrito e Leucipo que nos brindaram com a idéia dos átomos. Se não houvesse essa relação interdisciplinar, o que seria da biologia sem o uso da microscopia (Robert Hooke) ou da neurociência sem os conhecimentos conjuntos de biologia, física, química, matemática, psicologia, etc? E as idéias geniais de Júlio Verne com foguetes, submarinos e viagens à Lua e ao Centro da Terra (um “mero” escritor)?


E o fantástico físico inglês, Michael Faraday, que revolucionou o mundo com seu motor elétrico, edificando brilhantemente o eletromagnetismo, sem possuir formação acadêmica? (“Imagination is more important than Knowledge!” – A. Einstein)
O problema não é o conhecimento em si, mas o que fazemos com ele. A descoberta da radioatividade trouxe consigo a beleza dos tratamentos de câncer e o terror das bombas nucleares. Temos a beleza das músicas de Mozart (matematicamente perfeitas) em contraposição com a "dança da motinha" ou "vai lacraia". A questão é a ética no uso de sua área do conhecimento e a tolerância com as diferenças entre elas : (...)“Uma vez que a vida é feita não só de atividade, mas também de repouso, e este inclui o lazer e o entretenimento, parece haver aqui também uma espécie de intercâmbio que se relaciona com o bom gosto. Pode-se dizer, e também escutar, o que se deve e o que não se deve. A espécie de pessoa com quem falamos ou escutamos, influi no caso do mesmo modo. Evidentemente, também neste campo existe o excesso e a falta em relação a um meio termo”. (Aristóteles - Ética a Nicômaco).


... “Sane sicut lux seipsam et tenebras manifestat, sic veritas norma sui et falsi est 1” (Espinosa, Ética, Pt. II, Prop.43) (“Verdadeiramente, como a luz manifesta-se a si mesma e a escuridão, assim a verdade é o padrão de si mesma e do erro.”)


Vemos que os grupos de estudos de Física, assim como todo grupo de discussão sobre poesia ou artes, são uma ferramenta de extrema valia pois, tudo o que é realmente grandioso e inspirador, é criado pelo indivíduo que pode trabalhar com liberdade. Não só devemos tolerar as diferenças de opiniões entre pessoas e grupos, como devemos de fato aceitá-las e com satisfação e considerá-las enriquecedoras de nossa existência. Essa é a essência de toda tolerância verdadeira; sem tolerância neste sentido mais amplo, não se pode falar da verdadeira moralidade (ou ética). "Segundo muitos, a teoria de Darwin da luta pela existência e da seletividade a ela associada autorizaria o incentivo ao espírito de competição. Usando o mesmo argumento, houve também quem tentasse provar, pseudocientificamente, a necessidade da competição econômica (e de status) destrutiva entre os indivíduos.


Mas isto está errado, porque o homem deve sua força, na luta pela existência, ao fato de ser um animal que vive socialmente. Uma batalha entre os membros individuais de uma comunidade humana é tão pouco essencial à sua sobrevivência como uma batalha entre as várias formigas de um formigueiro. É essa harmonia a única realidade objetiva, a única verdade que podemos atingir." (Albert Einstein)
Além do mais, estamos tratando não apenas de conhecimento científico, mas de cultura geral!


Quem acha que se torna um bom físico apenas com conhecimentos de sua área acaba se tornando um profissional medíocre, assim como um poeta que desconhece a ciência ou um médico que não sabe física. Essas pessoas deveriam ler mais Albert Einstein ("Como vejo o Mundo"), Carl Sagan ("O Mundo Assombrado pelos Demônios"), Richard P. Feynman ("Lectures on Physics") e Werner Heisenberg ("A parte e o Todo"). Também deveriam ler “Ode a este esplêndido ornamento de nosso tempo e nação: o tratado físico-matemático pelo eminente sr. Isaac Newton”, publicado pelo sr. Edmund Halley, no prefácio dos “Principia” (I. Newton)...

Simplesmente poético. Ou ainda ler (ou assistir) ao “Contato” (Carl Sagan), quando a física e astrônoma tem a possibilidade de viajar para outra galáxia e diz” Poesia....
deviam ter enviado um poeta!”. Sem falar de Isaac Asimov, George Gamow e até mesmo Stephen Hawking.
Aí poderão entender o porque dessas pessoas serem tão especiais e únicas...
Conhecer a sua “ciência” requer conhecer não apenas os conceitos que a envolvem, mas também os pensamentos e os pensadores que a edificaram. A história da nossa área de estudos é vital para que possamos edificar nosso conceito de ciência e cultura. Não se faz ciência sem paixão... Assim como não se produz um belo texto ou uma música de qualidade.
Se continuarmos com essa visão torpe em relação às diversas áreas do conhecimento, corremos o risco de formarmos governantes ignorantes cientificamente
ou cientistas sem perspectiva de impactos sociais.
Podemos entender a beleza desta visão holística, através desses dois trechos maravilhosos, de dois grandes “cientistas-poetas”, ambos agraciados com o prêmio Nobel:

“(...) Von Holst buscou sua viola, sentou-se entre os dois rapazes e juntou-se a eles na execução da Serenata em ré maior, uma obra da juventude de Beethoven. Ela é transbordante de alegria e força vital: a confiança na ordem central dissipa a covardia e o cansaço. Enquanto eu ouvia, fortaleceu-se minha convicção de que, avaliadas pela escala temporal humana, a vida, a música e a ciência prosseguiriam para sempre, ainda que nós mesmos não sejamos mais que visitantes transitórios, ou nas palavras de Niels Bohr, simultaneamente espectadores e atores do grande drama da vida.” (Werner Heisenberg - A Parte e o Todo)


“(...) Mas a mais notável descoberta em toda a astronomia é o fato de que as estrelas constituem-se de átomos da mesma espécie dos da Terra. (...)
(...) Uau, que pressa! Quanta coisa contém esta frase nesta breve história. “As estrelas constituem-se dos mesmos átomos que a Terra”. Normalmente, escolho um pequeno tema como este para dar uma palestra.
Dizem os poetas que a ciência retira a beleza das estrelas – meros globos de átomos de gás. Nada é “mero”. Também sei contemplar as estrelas em uma noite no deserto e senti-las. Será que vejo menos ou mais? A vastidão do firmamento estende minha imaginação – preso neste carrossel, meu olhinho consegue captar luz com um milhão de anos. Um vasto padrão – do qual faço parte -, talvez minha matéria foi expelida por alguma estrela esquecida, como uma está expelindo ali. Ou vê-las com o olho maior do observatório de Palomar, afastando-se céleres de algum ponto inicial comum onde estiveram talvez todas reunidas. Qual o padrão, o significado, o porquê?
Não prejudica o mistério saber um pouco sobre ele. Pois a verdade é mui mais maravilhosa do que qualquer artista do passado imaginou! Por que os poetas do presente não falam a respeito? Que poetas são esses capazes de falar de Júpiter se for como um homem, mas que se for uma imensa esfera girante de metano e amônia têm de se calar?”
“(...) Disse certa vez um poeta:´Todo o universo está em um copo de vinho.`


Provavelmente jamais saberemos o que ele quis dizer, pois os poetas não escrevem para serem entendidos. Mas é verdade que, se examinarmos um copo de vinho bem de perto, veremos todo o universo. Há as coisas da física: o líquido vivo que evapora dependendo do vento e do clima, os reflexos no copo, a nossa imaginação acrescenta os átomos. O copo é uma destilação das rochas da Terra e, em sua composição, vemos os segredos da idade do universo e da evolução das estrelas. Que estranho arranjo de substâncias químicas está no vinho? Como vieram à existência? Há os fermentos, as enzimas, os substratos e os produtos. Ali no vinho encontra-se a maior generalização: toda vida é fermentação. Ninguém descobre a química do vinho sem descobrir, como Louis Pasteur, a causa de muitas doenças. Como é vivo o clarete, impondo sua existência à consciência que o observa! Se nossas pequenas mentes, por alguma conveniência, dividem esse copo de vinho, o universo, em partes – física, biologia, química, geologia, astronomia, psicologia e assim por diante -, lembre-se de que a natureza as ignora! Assim, reunamos tudo de volta, sem esquecer para que serve afinal. Que nos conceda mais um último prazer: bebê-lo e esquecer tudo isso!”
(Richard P. Feynman - Física em Seis Lições).
... Poético e ao mesmo tempo científico, não?!


Achamos a física (ciência) algo fascinante. Dedicamos nossas vidas a esta área do conhecimento por, exatamente, enxergar o seu potencial criador e interdisciplinar.
Cada parte do conhecimento humano, seja ele científico, artístico ou mesmo “espiritual”, nos torna mais humanos, no sentido mais amplo da palavra.


Segundo o bioquímico Isaac Asimov, (Antologia), “(...) Não terão, a ciência e a tecnologia, promovido toda sorte de efeitos colaterais, da ameaça de uma guerra nuclear à poluição sonora do rock pesado (não compartilho dessa opinião), transmitido pelos aparelhos de rádio transistorizados? Sim, isso não é novidade. Cada pequeno avanço tecnológico trouxe mais alimento para a humanidade – e tornou as guerras mais mortíferas. A utilização do fogo trouxe iluminação, calor e alimentos mais abundantes e de melhor qualidade – e a possibilidade de incêndios premeditados e da condenação à morte numa fogueira. O desenvolvimento da fala tornou o homem humano – e, ao mesmo tempo, mentiroso. A escolha entre o bem e o mal cabe ao homem...”


Sem essa “humanidade” (humanismo?), continuaremos criando médicos que prestam seus “serviços” à experiências de guerra (nazismo), físicos que produzem bombas atômicas - “no último século, da granada às bombas de Hidrogênio, as armas ficaram 1 bilhão de vezes mais potentes, mas não ficamos 1 bilhão de vezes mais inteligentes para lidarmos com isso” (Carl Sagan – O Mundo Assombrado pelos Demônios) - químicos que produzem Napalm e gás Sarim, engenheiros que produzem mísseis cada vez mais potentes, biólogos que produzem armas biológicas e músicos que tratam as mulheres como “cachorras” e as convence de cantar exaustivamente, em alto volume, nos bailes.
E o pior: Professores que acham que tudo isso é normal e repassam isso para seus alunos...


… That is The Question!
“Aquilo que observamos não é a Natureza em si, mas, sim, a Natureza exposta ao nosso método de questionar”
(Werner Heisenberg)

 

 
 
  

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