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ISSN 1678-8419         última atualização em: sábado, 03 de julho de 2010 21:37:27                                               

 
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EDUCAÇÃO
Construtivismo e interdisciplinaridade na sala de aula  
Lucas Eduardo Ramos

publicado em 03/07/2010

 Resumo: O paper vai relatar sucintamente a observação de um grupo de professores de ciências humanas numa pequena escola do Rio Grande do Sul. Relatando algumas de suas experiências empíricas em educação básica realizadas recentemente, tendo como base a metodologia construtivista, a qual o epistemólogo suíço Jean Piaget ajudou a elaborar. Serão demonstradas atividades pedagógicas nas áreas de história e filosofia do ensino fundamental, seguidas de seus resultados práticos.

Palavras-chave: Educação, interdisciplinaridade, construtivismo, Piaget.

Abstract: The paper will briefly report the observation of a group of professors of human sciences in a small school of Rio Grande do Sul. Reporting some of their empirical experiences in basic education held recently, based on the constructivist approach, which the Swiss epistemologist Jean Piaget helped draft. Educational activities will be demonstrated in the areas of history and philosophy of basic education, followed by its practical results.

Keywords: Education, interdisciplinary, constructivism, Piaget.


 

A escola e a realidade educacional
 

O docente interagiu com as turmas em questão através de uma metodologia construtivista, teoria de aprendizagem a qual o mesmo adotou como sendo mais significativa e apropriada para ligar a realidade dos alunos ao conteúdo curricular, aliada também ao pensamento conjunto de educadores de diversas disciplinas, trabalhando na modalidade interdisciplinar. O professor teve a formação de graduação em história, mas não cursou o magistério ao nível de ensino médio, depois passou a lecionar no ensino fundamental e médio. Sendo assim, a maioria das experiências que serão relatadas a seguir correspondem a uma faixa etária de 14 a 16 anos. Parece ser muito claro que já há alguns anos se concretiza a tendência do modelo de implantação interdisciplinar nas escolas. Tendência política adotada pelo MEC, que consequentemente é imposta às esferas educacionais menores. Naturalmente essa mudança perpassa inicialmente pela alteração dos sistemas de vestibulares, como já acontece com o da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, de São Leopoldo, no Rio Grande do Sul.

Na escola privada em que o professor em foco leciona, os professores de artes, história, filosofia, sociologia e geografia, montaram uma sala temática, com elementos dessas diversas disciplinas decorando a mesma e dando um clima característico. Foi uma perda apenas a matéria de literatura, a qual não foi incluída em acordo para integrar o ambiente, disciplina que mereceria o título de indissociável, tanto da história, quanto das artes e da sociologia, ou filosofia.


 

A interdisciplinaridade
 

Além da sala citada, o corpo docente das ciências humanas entrou em acordo para relacionar os conteúdos previstos, o professor trabalhou com os gregos onde foi citada a arte grega; a professora de arte, concomitantemente, buscou subsídios para realizar um teatro e noções de escultura e desenho da figura humana com a mesma turma. Foi combinado com o regente de classe de filosofia que seria trabalhado o pensamento dos grandes filósofos gregos na disciplina, ao mesmo tempo.

A outra professora da escola que lecionava história se atinha ao conteúdo de mundo contemporâneo, com o terceiro ano do ensino médio, que trabalhava no colégio em regime de terceirão, conhecido como pré-vestibular. Em acerto, foi combinado que ela trabalharia em sintonia com o professor de filosofia na questão ética sobre a tecnologia e engenharia genética, esse mesmo mentor de filosofia relacionaria com a professora de biologia a questão da ética e do meio ambiente, devido ao alarmante avanço do aquecimento global, conforme demandam os conteúdos da maioria dos vestibulares atualmente.

Parece que se tratou de um projeto muito proveitoso para os alunos e enriquecedor para o corpo docente. Metodologias semelhantes são aplicadas em várias outras instituições de ensino, com os mesmos objetivos. Esta nova corrente vai ao encontro do futuro, trazendo um seu discurso a busca do equilíbrio e do melhor desempenho da relação dos educandos com o mundo. Numa edição virtual recente do Jornal Zero Hora, de Porto Alegre, percebemos uma tendência local, da Secretaria Estadual de Educação, que vem ao encontro dessa proposta:


 

Intenção da SEC é agrupar as disciplinas em quatro áreas de forma gradual a partir de 2010. A secretária estadual da Educação, Mariza Abreu, afirmou ontem que a nova organização dos conteúdos escolares na rede estadual será aplicada de forma gradual a partir de 2010. A proposta que agrupa as disciplinas em quatro áreas do conhecimento prevê o treinamento de professores para que lecionem, também, outras matérias. O projeto será levado à Assembleia Legislativa no mês que vem. Não significa que o currículo vai abandonar as disciplinas, mas que estará organizado em áreas em que as pessoas terão de trabalhar de forma integrada. O mesmo professor tem que dominar as disciplinas de sua área [...] As disciplinas seriam agrupadas, no Ensino Fundamental e no Ensino Médio, em quatro grandes áreas, compreendendo as atuais disciplinas. (ZH virtual , 2009, p. 1)


 

Sendo que o novo agrupamento consistiria em quatro áreas: “Disciplinas: linguagens (português, literatura, língua estrangeira, arte e educação física); matemática; ciências de natureza (biologia, química e física); ciências humanas (história, geografia, filosofia e sociologia).” (ZH virtual, 2009, p. 1).

O futuro da interdisciplinaridade
 

Há tendências que se referem ao presente e ao futuro da escola pendendo para dois fatores básicos: um fala na questão de que a escola não é, ou não será mais o único local de produção de conhecimento, mas apenas mais um. Que esse espaço coexiste junto à Internet e programas de ensino à distancia; outro fator apontado é o da interdisciplinaridade como canal de conhecimento. Algumas opiniões públicas ainda vão mais longe na discussão e prevêem que passarão a existir, daqui a algum tempo, apenas três disciplinas básicas: A matemática, que daria conta das matérias lógicas, como física e raciocínio lógico. As línguas, que trabalhariam a língua nativa, a produção e interpretação de textos, além de línguas estrangeiras. E também a filosofia, que daria conta de todas as ciências humanas, como história, literatura e sociologia.

O construtivismo
 

Fazenda (1995) em sua obra Interdisciplinaridade: Um Projeto em Parceria, cita algumas de suas principais teorias do que seria tal projeto pedagógico, basicamente ela incentivaria a pesquisa e troca de experiências entre pesquisadores, do campo docente e discente, estimularia mais a troca de experiências e diminuiria a questão do ensino-pesquisa e abriria mais portas para a pesquisa em si como forma de aprendizagem. Segundo ela, a proposta seria de que o tempo de aula não seria mais imposto e sim proposto; que a disposição de espaços na sala de aula poderia mudar a cada encontro; a avaliação se daria durante o processo e não mais somente no final; que a autoridade do professor seria conquistada e não mais imposta.

O construtivismo é uma teoria muito bem aceita em alguns meios educacionais, ela trata do reconhecimento do indivíduo nas interações como o ambiente externo, no qual o aluno é sujeito ativo no processo de aprendizagem, e não mais um mero receptáculo. Neste sistema, o educando experimenta, pesquisa, e recebe estímulos ao raciocínio. Colocando o professor no papel de provocador e estimulador de novas experiências, na busca de propor estratégias e caminhos para encontrar novas respostas e conclusões. Como é citado na teoria pós-construtivista:


 

Para Vygotsky, o desenvolvimento mental é o processo de assimilação ou “apropriação” da experiência acumulada pela humanidade no decurso da história social. (CÓRIA-SABINI, 1993, p. 150)


 

O pensamento desse autor, juntamente com o de Piaget e Bruner, fez o professor abrir portas no sentido de conseguir propor novas atividades e raciocínios que puderem aproximá-lo mais dos alunos, compreendê-los melhor e fazê-los entrar em maior sintonia com os conteúdos propostos pela grade disciplinar da escola.


 

Práticas escolares

Em conjunto com o professor da área de filosofia, foi trabalhada a questão do pós-modernismo e do existencialismo, que remete ao humanismo da renascença, e antes disso, à antiguidade clássica, resgatada mais recentemente pelo pensamento do francês Jean Paul Sartre. Através de um estudo prévio desse tema em conjunto com as duas disciplinas, com o auxílio do livro “O Mundo de Sofia”, do autor Jostein Gaarder, foi construído com os alunos o sentido da palavra existencialismo. Através de algumas leituras prévias eles compreenderam que a “alienação” do homem, citada por Sartre, reflete o sentimento do ser humano de ser um estranho no mundo, o que leva à sensações de desespero, tédio e náusea. A partir dessa explanação, os alunos foram levados a refletir questionamentos a partir do cotidiano deles. Foi elaborada uma situação ficcional para o aluno, onde ele se veria freqüentado uma festa no final de semana, cercado de colegas e amigos, procurando garotas para conhecer e conversar, sendo que a busca tivesse sido infrutífera. Ao ter a experiência de não conseguir ter feito novas amizades, o mesmo foi questionado num segundo momento, a respeito da festa: O aluno respondeu que estava horrível, e que não tinha nada na festa. Num terceiro momento foi colocado em discussão o grande número de pessoas presentes na festa, um conjunto tocando, várias pessoas trabalhando um equipamento de som montado, uma organização disposta de equipamentos, um sistema de segurança montado e tudo mais o que envolve um evento como esse, mas por vezes, para aquele aluno em particular, não havia nada no local. Chegou-se à conclusão de que do ponto de vista dele não havia nada porque ele não tinha encontrado nada do que estava procurando, ou seja, de que as pessoas enxergam o que querem, ou encontram o que procuram, trata-se apenas de uma questão particular. Segundo os professores, essa forma de abordagem fez os alunos demonstraram mais interesse pelo assunto, e que tenham desenvolvido melhor seu grau de aprendizagem.

O próximo passo do trabalho aplicado neste campo foi o do existencialismo, onde foi enfocado a questão da mídia, eles foram questionados sobre o termo “invisibilidade” de cada um. Após uma confusão inicial, eles apontaram que não, ou que nunca tinham pensado nisso. Foi colocado em pauta que eles eram conhecidos nas suas casas, na sua escola e por algumas pessoas na pequena cidade de 18.0000 habitantes onde moravam, mas que se saíssem dela e fossem para outra cidade maior, eles seriam então invisíveis, ninguém iria vir cumprimentá-los ou apontá-los na rua, seriam apenas mais um rosto na multidão. A seguir os alunos foram questionados sobre o que aconteceria se nessa mesma cidade grande andasse pela rua pessoas que costumam aparecer na televisão e no cinema, como o ator Leonardo Di Caprio, ou a modelo Gisele Bündchen? Eles então responderam que essas personalidades seriam reconhecidos e teriam que dar atenção aos fãs e tal. Surgiu a partir daí a conclusão que aquelas pessoas não são invisíveis para o senso comum, porque a mídia não os faz invisíveis, ela os faz serem objeto de culto e de desejo, ideais a serem perseguidos, enquanto o resto da humanidade permanece invisível aos olhos de si própria.

Em outra matéria, desta vez em história, na parte da Idade Média Europeia, foi tocado na questão higiênica (ou anti-higiênica) dos Europeus em relação aos indígenas da América do Sul. Naquele período, sem qualquer tipo de geração de energia artificialmente, e com o extremo frio muitas vezes negativo da Europa, tornava-se praticamente inviável o ato de banhar-se diariamente, enquanto que os felizardos indígenas da América do Sul desfrutavam do confortável clima tropical. O professor simulou uma situação onde eles iriam para casa normalmente após um dia cheio de atividades, mas, como que por mágica, fossem transportados para a Idade Média, onde não havia energia elétrica para aquecer a água do banho, foram questionados se eles gostariam de banhar-se na água gelada da ducha do banheiro. O resultado foi a atenção e participação geral da turma, com muito interesse, em clima de brincadeira. Os docentes acreditaram que tinham conseguido relacionar os conteúdos temáticos com o cotidiano contemporâneo e facilitaram a compreensão dessas outras mentalidades temporais

O pensador Jean Piaget faz um nexo de como se tratava o educando pela escola clássica e como seria o ideal de construção do conhecimento
 

De fato, a educação tradicional sempre tratou a criança como um pequeno adulto, um ser que raciocina e pensa como nós, mas desprovido simplesmente de conhecimentos e de experiência. (PIAGET, 2006, p. 153).
 

Considero extremamente lúcida mais uma posição de Piaget sobre o futuro da relação professor – aluno, onde


 

[...] salvo alguns casos extremos, os novos métodos de educação não tendem a eliminar a ação social do professor, mas a conciliar com o respeito do adulto a cooperação entre as crianças, e a reduzir, na medida do possível, a pressão deste último para transformá-la em cooperação superior. (PIAGET, 2006, p. 184).
 

Neste momento o pensador chega a um clímax sobre a relação ideal entre os dois, dentro da lógica construtivista, que busca acima de tudo a construção do saber com respeito mútuo e sem medo de cometer erros. Erros sempre ocorrerão, mas a maneira mais inteligente de lidar com eles é sabendo perceber o que não deu certo, enxergar o lado bom, procurar não repetir os equívocos, e buscar sempre o equilíbrio, parafraseando o antigo sábio Aristóteles.
 

Conclusão
 

O modo tradicional da relação professor/aluno, sem dar a devida atenção ao cotidiano, ou às experiências próprias das crianças, parece insuficiente para os dias atuais. No método tradicional o aluno é exposto à ação dominante do professor sobre ele, sem troca alguma de experiência ou de quaisquer ideias, um conhecimento jogado de um para outro, sendo que nem sempre (ou quase nunca) este chamado conhecimento chegava a fazer sentido para a parte passiva. Creio ser mais completa e eficaz essa lógica construtivista experimentada pelo grupo de professores citados no artigo, buscando sempre a construção do saber, com respeito e procurando sempre a atualização necessária aos novos tempos.


Referências bibliográficas:
 

CÓRIA-SABINI, Mana Aparecida. Psicologia do desenvolvimento. São Paulo, SP: Ática 1993.
 

FAZENDA, Ivani Catarina A. Interdisciplinaridade: um projeto em parceria. 3ª Ed. São Paulo: Loyola, 1995.
 

GAARDER, Joistein. O mundo de Sofia, Romance da história da filosofia. São Paulo: Cia. das Letras, 1995.
 

PIAGET, Jean. Psicologia e Pedagogia. Rio de Janeiro, Ed: Forense Universitária, 2006.
 

Formato Documento Eletrônico (ISO)

ZH Virtual. Caderno EDUCAÇÃO. O que vai mudar na sala de aula. clicrbs.com.br [online]. mai. 2009. Disponível na World Wide Web: http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?

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como citar:
RAMOS, L. E. Construtivismo e interdisciplinaridade na sala de aula. P@rtes.V.00 p.eletrônica. Julho 2010. Disponível em <www.partes.com.br/educacao/construtivismoeinterdisciplinaridade.asp>. Acesso em _/_/_.

 

 
  

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Lucas Eduardo Ramos, graduado em História pela FEEVALE e mestrando em Educação pela UNILASALLE. Contato: lucasramos@feevale.br

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