Resumo:
O paper vai relatar
sucintamente a observação de um grupo de professores de ciências
humanas numa pequena escola do Rio Grande do Sul. Relatando algumas
de suas experiências empíricas em educação básica realizadas
recentemente, tendo como base a metodologia construtivista, a qual o
epistemólogo suíço Jean Piaget ajudou a elaborar. Serão demonstradas
atividades pedagógicas nas áreas de história e filosofia do ensino
fundamental, seguidas de seus resultados práticos.
Palavras-chave: Educação,
interdisciplinaridade,
construtivismo, Piaget.
Abstract:
The paper will briefly report the observation of a group of
professors of human sciences in a small school of Rio Grande do Sul.
Reporting some of their empirical experiences in basic education
held recently, based on the constructivist approach, which the Swiss
epistemologist Jean Piaget helped draft. Educational activities will
be demonstrated in the areas of history and philosophy of basic
education, followed by its practical results.
Keywords:
Education, interdisciplinary,
constructivism, Piaget.
A escola e a realidade
educacional
O docente interagiu com as turmas em
questão através de uma metodologia construtivista, teoria de
aprendizagem a qual o mesmo adotou como sendo mais significativa e
apropriada para ligar a realidade dos alunos ao conteúdo curricular,
aliada também ao pensamento conjunto de educadores de diversas
disciplinas, trabalhando na modalidade interdisciplinar. O professor
teve a formação de graduação em história, mas não cursou o
magistério ao nível de ensino médio, depois passou a lecionar no
ensino fundamental e médio. Sendo assim, a maioria das experiências
que serão relatadas a seguir correspondem a uma faixa etária de 14 a
16 anos. Parece ser muito claro que já há alguns anos se concretiza
a tendência do modelo de implantação interdisciplinar nas escolas.
Tendência política adotada pelo MEC, que consequentemente é imposta
às esferas educacionais menores. Naturalmente essa mudança perpassa
inicialmente pela alteração dos sistemas de vestibulares, como já
acontece com o da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, de São
Leopoldo, no Rio Grande do Sul.
Na escola privada em que o professor
em foco leciona, os professores de artes, história, filosofia,
sociologia e geografia, montaram uma sala temática, com elementos
dessas diversas disciplinas decorando a mesma e dando um clima
característico. Foi uma perda apenas a matéria de literatura, a qual
não foi incluída em acordo para integrar o ambiente, disciplina que
mereceria o título de indissociável, tanto da história, quanto das
artes e da sociologia, ou filosofia.
A interdisciplinaridade
Além da sala citada, o corpo docente
das ciências humanas entrou em acordo para relacionar os conteúdos
previstos, o professor trabalhou com os gregos onde foi citada a
arte grega; a professora de arte, concomitantemente, buscou
subsídios para realizar um teatro e noções de escultura e desenho da
figura humana com a mesma turma. Foi combinado com o regente de
classe de filosofia que seria trabalhado o pensamento dos grandes
filósofos gregos na disciplina, ao mesmo tempo.
A outra professora da escola que
lecionava história se atinha ao conteúdo de mundo contemporâneo, com
o terceiro ano do ensino médio, que trabalhava no colégio em regime
de terceirão, conhecido como pré-vestibular. Em acerto, foi
combinado que ela trabalharia em sintonia com o professor de
filosofia na questão ética sobre a tecnologia e engenharia genética,
esse mesmo mentor de filosofia relacionaria com a professora de
biologia a questão da ética e do meio ambiente, devido ao alarmante
avanço do aquecimento global, conforme demandam os conteúdos da
maioria dos vestibulares atualmente.
Parece que se tratou de um projeto
muito proveitoso para os alunos e enriquecedor para o corpo docente.
Metodologias semelhantes são aplicadas em várias outras instituições
de ensino, com os mesmos objetivos. Esta nova corrente vai ao
encontro do futuro, trazendo um seu discurso a busca do equilíbrio e
do melhor desempenho da relação dos educandos com o mundo. Numa
edição virtual recente do Jornal Zero Hora, de Porto Alegre,
percebemos uma tendência local, da Secretaria Estadual de Educação,
que vem ao encontro dessa proposta:
Intenção da SEC
é agrupar as disciplinas em quatro áreas de forma gradual a partir
de 2010. A secretária estadual da Educação, Mariza Abreu, afirmou
ontem que a nova organização dos conteúdos escolares na rede
estadual será aplicada de forma gradual a partir de 2010. A proposta
que agrupa as disciplinas em quatro áreas do conhecimento prevê o
treinamento de professores para que lecionem, também, outras
matérias. O projeto será levado à Assembleia Legislativa no mês que
vem. Não significa que o currículo vai abandonar as disciplinas, mas
que estará organizado em áreas em que as pessoas terão de trabalhar
de forma integrada. O mesmo professor tem que dominar as disciplinas
de sua área [...] As disciplinas seriam agrupadas, no Ensino
Fundamental e no Ensino Médio, em quatro grandes áreas,
compreendendo as atuais disciplinas. (ZH virtual ,
2009, p. 1)
Sendo que o novo
agrupamento consistiria em quatro áreas: “Disciplinas: linguagens
(português, literatura, língua estrangeira, arte e educação física);
matemática; ciências de natureza (biologia, química e física);
ciências humanas (história, geografia, filosofia e sociologia).” (ZH
virtual,
2009, p. 1).
O futuro da
interdisciplinaridade
Há tendências que se referem ao
presente e ao futuro da escola pendendo para dois fatores básicos:
um fala na questão de que a escola não é, ou não será mais o único
local de produção de conhecimento, mas apenas mais um. Que esse
espaço coexiste junto à Internet e programas de ensino à distancia;
outro fator apontado é o da interdisciplinaridade como canal de
conhecimento. Algumas opiniões públicas ainda vão mais longe na
discussão e prevêem que passarão a existir, daqui a algum tempo,
apenas três disciplinas básicas: A matemática, que daria conta das
matérias lógicas, como física e raciocínio lógico. As línguas, que
trabalhariam a língua nativa, a produção e interpretação de textos,
além de línguas estrangeiras. E também a filosofia, que daria conta
de todas as ciências humanas, como história, literatura e
sociologia.
O construtivismo
Fazenda (1995) em sua obra
Interdisciplinaridade: Um Projeto em Parceria, cita algumas de
suas principais teorias do que seria tal projeto pedagógico,
basicamente ela incentivaria a pesquisa e troca de experiências
entre pesquisadores, do campo docente e discente, estimularia mais a
troca de experiências e diminuiria a questão do ensino-pesquisa e
abriria mais portas para a pesquisa em si como forma de
aprendizagem. Segundo ela, a proposta seria de que o tempo de aula
não seria mais imposto e sim proposto; que a disposição de espaços
na sala de aula poderia mudar a cada encontro; a avaliação se daria
durante o processo e não mais somente no final; que a autoridade do
professor seria conquistada e não mais imposta.
O construtivismo é uma teoria muito
bem aceita em alguns meios educacionais, ela trata do reconhecimento
do indivíduo nas interações como o ambiente externo, no qual o aluno
é sujeito ativo no processo de aprendizagem, e não mais um mero
receptáculo. Neste sistema, o educando experimenta, pesquisa, e
recebe estímulos ao raciocínio. Colocando o professor no papel de
provocador e estimulador de novas experiências, na busca de propor
estratégias e caminhos para encontrar novas respostas e conclusões.
Como é citado na teoria pós-construtivista:
Para Vygotsky, o desenvolvimento
mental é o processo de assimilação ou “apropriação” da experiência
acumulada pela humanidade no decurso da história social. (CÓRIA-SABINI,
1993, p. 150)
O pensamento desse autor, juntamente
com o de Piaget e Bruner, fez o professor abrir portas no sentido de
conseguir propor novas atividades e raciocínios que puderem
aproximá-lo mais dos alunos, compreendê-los melhor e fazê-los entrar
em maior sintonia com os conteúdos propostos pela grade disciplinar
da escola.
Práticas escolares
Em conjunto com o professor da área de
filosofia, foi trabalhada a questão do pós-modernismo e do
existencialismo, que remete ao humanismo da renascença, e antes
disso, à antiguidade clássica, resgatada mais recentemente pelo
pensamento do francês Jean Paul Sartre. Através de um estudo prévio
desse tema em conjunto com as duas disciplinas, com o auxílio do
livro “O Mundo de Sofia”, do autor Jostein Gaarder, foi construído
com os alunos o sentido da palavra existencialismo. Através de
algumas leituras prévias eles compreenderam que a “alienação” do
homem, citada por Sartre, reflete o sentimento do ser humano de ser
um estranho no mundo, o que leva à sensações de desespero, tédio e
náusea. A partir dessa explanação, os alunos foram levados a
refletir questionamentos a partir do cotidiano deles. Foi elaborada
uma situação ficcional para o aluno, onde ele se veria freqüentado
uma festa no final de semana, cercado de colegas e amigos,
procurando garotas para conhecer e conversar, sendo que a busca
tivesse sido infrutífera. Ao ter a experiência de não conseguir ter
feito novas amizades, o mesmo foi questionado num segundo momento, a
respeito da festa: O aluno respondeu que estava horrível, e que não
tinha nada na festa. Num terceiro momento foi colocado em discussão
o grande número de pessoas presentes na festa, um conjunto tocando,
várias pessoas trabalhando um equipamento de som montado, uma
organização disposta de equipamentos, um sistema de segurança
montado e tudo mais o que envolve um evento como esse, mas por
vezes, para aquele aluno em particular, não havia nada no local.
Chegou-se à conclusão de que do ponto de vista dele não havia nada
porque ele não tinha encontrado nada do que estava procurando, ou
seja, de que as pessoas enxergam o que querem, ou encontram o que
procuram, trata-se apenas de uma questão particular. Segundo os
professores, essa forma de abordagem fez os alunos demonstraram mais
interesse pelo assunto, e que tenham desenvolvido melhor seu grau de
aprendizagem.
O próximo passo do trabalho aplicado
neste campo foi o do existencialismo, onde foi enfocado a questão da
mídia, eles foram questionados sobre o termo “invisibilidade” de
cada um. Após uma confusão inicial, eles apontaram que não, ou que
nunca tinham pensado nisso. Foi colocado em pauta que eles eram
conhecidos nas suas casas, na sua escola e por algumas pessoas na
pequena cidade de 18.0000 habitantes onde moravam, mas que se
saíssem dela e fossem para outra cidade maior, eles seriam então
invisíveis, ninguém iria vir cumprimentá-los ou apontá-los na rua,
seriam apenas mais um rosto na multidão. A seguir os alunos foram
questionados sobre o que aconteceria se nessa mesma cidade grande
andasse pela rua pessoas que costumam aparecer na televisão e no
cinema, como o ator Leonardo Di Caprio, ou a modelo Gisele Bündchen?
Eles então responderam que essas personalidades seriam reconhecidos
e teriam que dar atenção aos fãs e tal. Surgiu a partir daí a
conclusão que aquelas pessoas não são invisíveis para o senso comum,
porque a mídia não os faz invisíveis, ela os faz serem objeto de
culto e de desejo, ideais a serem perseguidos, enquanto o resto da
humanidade permanece invisível aos olhos de si própria.
Em outra matéria, desta vez em
história, na parte da Idade Média Europeia, foi tocado na questão
higiênica (ou anti-higiênica) dos Europeus em relação aos indígenas
da América do Sul. Naquele período, sem qualquer tipo de geração de
energia artificialmente, e com o extremo frio muitas vezes negativo
da Europa, tornava-se praticamente inviável o ato de banhar-se
diariamente, enquanto que os felizardos indígenas da América do Sul
desfrutavam do confortável clima tropical. O professor simulou uma
situação onde eles iriam para casa normalmente após um dia cheio de
atividades, mas, como que por mágica, fossem transportados para a
Idade Média, onde não havia energia elétrica para aquecer a água do
banho, foram questionados se eles gostariam de banhar-se na água
gelada da ducha do banheiro. O resultado foi a atenção e
participação geral da turma, com muito interesse, em clima de
brincadeira. Os docentes acreditaram que tinham conseguido
relacionar os conteúdos temáticos com o cotidiano contemporâneo e
facilitaram a compreensão dessas outras mentalidades temporais
O pensador Jean Piaget faz um nexo de
como se tratava o educando pela escola clássica e como seria o ideal
de construção do conhecimento
De fato, a educação tradicional sempre
tratou a criança como um pequeno adulto, um ser que raciocina e
pensa como nós, mas desprovido simplesmente de conhecimentos e de
experiência. (PIAGET, 2006, p. 153).
Considero extremamente lúcida mais uma
posição de Piaget sobre o futuro da relação professor – aluno, onde
[...] salvo alguns casos extremos, os
novos métodos de educação não tendem a eliminar a ação social do
professor, mas a conciliar com o respeito do adulto a cooperação
entre as crianças, e a reduzir, na medida do possível, a pressão
deste último para transformá-la em cooperação superior. (PIAGET,
2006, p. 184).
Neste momento o pensador chega a um
clímax sobre a relação ideal entre os dois, dentro da lógica
construtivista, que busca acima de tudo a construção do saber com
respeito mútuo e sem medo de cometer erros. Erros sempre ocorrerão,
mas a maneira mais inteligente de lidar com eles é sabendo perceber
o que não deu certo, enxergar o lado bom, procurar não repetir os
equívocos, e buscar sempre o equilíbrio, parafraseando o antigo
sábio Aristóteles.
Conclusão
O modo tradicional da relação
professor/aluno, sem dar a devida atenção ao cotidiano, ou às
experiências próprias das crianças, parece insuficiente para os dias
atuais. No método tradicional o aluno é exposto à ação dominante do
professor sobre ele, sem troca alguma de experiência ou de quaisquer
ideias, um conhecimento jogado de um para outro, sendo que nem
sempre (ou quase nunca) este chamado conhecimento chegava a fazer
sentido para a parte passiva. Creio ser mais completa e eficaz essa
lógica construtivista experimentada pelo grupo de professores
citados no artigo, buscando sempre a construção do saber, com
respeito e procurando sempre a atualização necessária aos novos
tempos.
Referências
bibliográficas:
FAZENDA,
Ivani Catarina A. Interdisciplinaridade: um projeto em parceria.
3ª Ed. São Paulo: Loyola, 1995.
GAARDER,
Joistein. O mundo de Sofia, Romance da história da filosofia.
São Paulo: Cia. das Letras, 1995.
PIAGET,
Jean. Psicologia e Pedagogia. Rio de Janeiro, Ed: Forense
Universitária, 2006.
Formato Documento
Eletrônico (ISO)
ZH
Virtual. Caderno EDUCAÇÃO. O que vai mudar na sala de aula.
clicrbs.com.br [online]. mai. 2009.
Disponível na
World Wide Web:
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?
uf=1&local=1&source=a2500061.xml&template=
3898.dwt&edition=12255§ion=1003>