A interdisciplinariedade parece que tem sido assunto em voga nas
rodas de debate sobre educação. Não raro nos deparamos com discursos
na academia fazendo uma defesa concisa sobre a importância de
mostrarmos aos nossos alunos o diálogo entre as áreas de saber das
mais diferentes disciplinas. A pergunta norteadora é: como esse
passeio deve ser feito? Quais os caminhos a serem percorridos? Como
mostrar metaforicamente aos nossos alunos que os conhecimentos estão
interligados?
Em uma tentativa lançada por dois educadores advindos da Filosofia e
da História, respectivamente, mostramos através da Colcha de
retalhos o que deve ser esse caminho interdisciplinar. Para além de
um discurso que nos molda, uma prática que nos constitui. Ao invés
de um livro pesado de teoria, uma tarde de pura vivência de arte com
alunos de diferentes licenciaturas que no Fórum mundial de educação,
em alguns momentos não se disseram professores, mas alunos também
compartilhando espaços e aprendendo através do lúdico: em um pedaço
qualquer de tecido transcendendo sua disciplina e brincando com o
material disponível.
O título da oficina era esse: “Colcha de retalhos: significações de
um momento compartilhado com um grupo de educadores”. Nós,
oficineiros, imaginávamos que apareceriam para nosso
trabalho-brincadeira professores das ciências humanas, sobretudo.
Nossa surpresa maior se deu com uma professora de matemática, que ao
longo da atividade se mostrou a mais motivada com o trabalho. Nenhum
homem se dispôs a compartilhar a oficina conosco.
De alguma maneira e em diferentes momentos a oficina mostrou nossas
áreas dialogando, quando sérios contávamos nossas vivências em salas
de aula e ríamos das brincadeiras de alunos: além dos educadores que
somos a oficina também mostrava as pessoas que somos: quando
escolhemos o tecido escuro e não o claro, quando escolhemos tinta ou
canetinha, ou quando simplesmente torcemos o nariz para o resultado,
pois esperávamos uma colcha de retalhos mais refinada e não
desorganizada e levemente alinhavada, tal como fica o resultado
final.
Para FREIRE (1987, p.22): ”Através
de sua permanente ação transformadora da realidade objetiva, os
homens, simultaneamente, criam a história e se fazem seres histórico
– sociais.”
Expusemos para os educadores que se fazemos um discurso sobre a
importância do diálogo entre as disciplinas também devemos fazê-lo e
não apenas adorná-lo.
Muitos de nós jamais precisaremos deste discurso, pois
em nossas aulas sempre contextualizamos com um filme, uma poesia, um
trecho de música. A intertextualidade, a costura entre os saberes se
mostra de forma tão natural, que não se faz necessária uma discussão
separada. Contudo, vários de nós viemos de uma formação mais rígida
em que a aula era restritamente uma transmissão de conteúdos e
possuímos uma dificuldade muito grande de nos desligarmos de certos
vícios.
É para estes que a colcha serve: para uma tarde fria como
a que a confeccionamos nos sentirmos próximos. Sabermos que mesmo
com diferentes olhares, histórias de vida e visões de mundo estamos
todos trilhando um mesmo caminho: lutando por uma educação mais
digna e justa do que a que tivemos.. Lutando para que nossos alunos
não evadam, não tenham fracasso, não abandonem para sempre os bancos
escolares. É por estes motivos que devemos nos unir.
Para CHAUÍ ( 2002, p. 11):
Como se pode
notar, nossa vida cotidiana é toda feita de crenças religiosas, da
aceitação tácita de evidencias que
nunca questionamos
porque nos parecem naturais, óbvias. Cremos no espaço, no tempo, na
realidade, na qualidade, na quantidade, na verdade, na diferença
entre realidade e sonho ou loucura, entre verdade e mentira; cremos
também na objetividade e na diferença entre ela e a subjetividade,
na existência da vontade, da liberdade, do bem e do mal, da moral,
da sociedade.
Também sob este olhar a Colcha pode ser considerada: espaço habitado
por diferentes pessoas, cada qual com sua maneira única de ver o
mundo, entrecruzando estes diferentes caminhos a colcha é tecida, a
partir de aceitações e negações, valores que se unem e se dissociam,
vidas que se cruzam, olhares que vão para além da ótica que a escola
oferece. E, para não perder a ternura, a inesquecível frase do
Caetano: “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
Referências
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo, SP:
Editora Ática, 12ª ed., 2002.
FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro,
JR: Editora Paz e Terra, 17ª Edição, 1987.