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A linguagem das
crianças intriga lingüistas e estudiosos do assunto. Sendo assim
crianças do século XII, por exemplo, apesar de crianças como as de hoje
não brincavam com os mesmos brinquedos, nem sentiam, nem pensavam, nem
se vestiam como as crianças de hoje. E, certamente as crianças deste
século terão características muito diferentes das de hoje. É
interessante que assim surge um questionamento: se as crianças de
antigamente eram diferentes das de hoje certamente as de amanhã também
serão. Por que é então interessante estudar a infância se esta muda?
Na tentativa de
responder a essa questão surgiram muitas teorias. Segundo Maingueneau “a
aquisição da linguagem tenta explicar entre outras coisas o fato
de as crianças, por volta dos 3 anos, serem capazes de fazer o uso
produtivo - de suas línguas”. Com base nisso tentarei aqui expor alguns
pontos importantes de aquisição da linguagem pela criança.
Desde
pequenos já existe a comunicação, mas esta não é feita por meio oral. A
linguagem é um sistema de símbolos culturais internalizados, e é
utilizada com o fim último de comunicação social. Assim como no caso da
inteligência e do pensamento, o seu desenvolvimento passa também por
períodos até que a criança chegue a utilização de frases e múltiplas
palavras.
Ao nascer, a criança
não entende o que lhe é dito. Somente aos poucos começa a
atribuir um sentido ao que escuta. Do mesmo modo acontece com a
produção da linguagem falada. O entendimento e a produção da linguagem
falada evoluem.
Existem diferentes
tipos de linguagem: a corporal, a falada, a escrita e a gráfica. Para se
comunicar a criança utiliza, tanto a linguagem corporal ( mímica,
gestos, etc.) como a linguagem falada. Lógico que ela ainda não fala,
mas já produz linguagem. Vamos ver como!
O desenvolvimento da
linguagem se divide em dois estádios: pré – lingüístico, quando o
bebê usa de modo comunicativo os sons, sem palavras ou gramática; e o
lingüístico, quando usa palavras.
No estádio pré –
lingüístico a criança, de princípio, usa o choro para se comunicar,
podendo ser rica em expressão emocional. Logo ao nascer este choro ainda
é indiferenciado, porque nem a mãe sabe o que ele significa, mas aos
poucos começa a ficar cheio de significados e é possível, pelo menos
para a mãe, saber se o bebê está chorando de fome, de cólica, por estar
se sentindo desconfortável, por querer colo etc. è importante ressaltar
que é a relação do bebê com sua mãe, ou com a pessoa que cuida dele, que
lhe dá elementos para compreender seu choro.
Além do choro, a
criança começa a produzir o arrulho, que é a emissão de um som gutural,
que sai da garganta, que se assemelha ao arrulho dos pombos. O balbucio
ocorre de repente, por volta dos 6-10 meses, e caracteriza – se pela
produção e repetição de sons de consoantes e vogais como “ma – ma – ma –
ma”, que muitas vezes é confundido com a primeira palavra do bebê.
No desenvolvimento da
linguagem, os bebês começam imitando casualmente os sons que ouvem,
através da ecolalia. Por exemplo: os bebês repetem repetidas vezes os
sons como o “da – da – da”, ou “ma – ma – ma – ma”. Por isso as crianças
que tem problema de audição, não evoluem para além do balbucio, já que
não são capazes de escutar.
Por volta dos 10
meses, os bebês imitam deliberadamente os sons que ouvem, deixando clara
a importância da estimulação externa para o desenvolvimento da
linguagem. Ao final do primeiro ano, o bebê já tem certa noção de
comunicação, uma idéia de referência e um conjunto de sinais para se
comunicar com aqueles que cuidam dele.
O estádio
lingüístico está pronto para se estabelecer. Sendo assim, contando
com a maturação do aparelho fonador da criança e da sua aprendizagem
anterior, ela começa a dizer suas primeiras palavras.
A fala
lingüística se inicia geralmente no final do segundo ano, quando a
criança pronuncia a mesma combinação de sons para se referir a uma
pessoa, um objeto, um animal ou um acontecimento. Por exemplo, se a
criança disser apo quando vir a água na mamadeira, no copo, na
torneira, no banheiro etc., podemos afirmar que ela já esta falando por
meio de palavras. Espera – se que aos 18 meses a criança já tenha um
vocabulário de aproximadamente 50 palavras, no entanto ainda apresenta
características da fala pré – lingüística e não revela frustração se não
for compreendida.
Na fase
inicial da fala lingüística a criança costuma dizer uma única palavra,
atribuindo a ela no entanto o valor de frase. Por exemplo, diz ua,
apontando para porta de casa, expressando um pensamento completo; eu
quero ir pra rua. Essas palavras com valor de frases são chamadas
holófrases.
A partir
daqui acontece uma “explosão de nomes”, e o vocabulário cresce muito.
Aos 2 anos espera – se que as crianças sejam capazes de utilizar um
vocabulário de mais de cem palavras.
Entre os 2
e 3 anos as crianças começam a adquirir os primeiros fundamentos de
sintaxe, começando assim a se preocupar com as regras gramaticais. Usam,
para tanto, o que chamamos de super – regularização, que é uma aplicação
das regras gramaticais a todos os casos, sem considerar as exceções. É
por isso que a criança quer comprar “pães”, traze – los nas “mães”. Aos
6 anos a criança fala utilizando frases longas, tentando utilizar
corretamente as normas gramaticais.
Chomsky
defende a idéia de que a estrutura da linguagem é, em grande parte,
especificada biologicamente (nativista). Skinner afirma que a linguagem
é aprendida inteiramente por meio de experiência (empirista). Piaget
consegue chegar mais perto de uma compreensão do desenvolvimento da
linguagem que atenda melhor a realidade observada. Segundo ele tanto o
biológico quanto as interações com o mundo social são importantes para o
desenvolvimento da linguagem (interacionista).
Dentro da
óptica interacionista, da qual Piaget é adepto, o aparecimento da
linguagem seria decorrência de algumas das aquisições do período
sensório – motor, já que ela adquiriu a capacidade de simbolizar ao
final daquele estádio de desenvolvimento da inteligência. Soma – se a
isso a capacidade imitativa da criança. As primeiras palavras são
intimamente relacionadas com os desejos me ações da criança.
O
egocentrismo da criança pré – operatório também se faz presente na
linguagem que ela exibi. Desse modo, ela usa frequentemente a fala
egocêntrica, ou privada, na qual fala sem nenhuma intenção muita
clara de realmente se comunicar com o outro, centrada em sua própria
atividade. É como se a criança falasse em voz alta para si mesma.
Contudo ela também usa a linguagem socializada, que tem como objetivo se
fazer entendida pelo interlocutor.
Já de
acordo com Vygostisky “não basta apenas que a criança esteja ‘exposta’ à
interação social, ela deve estar ‘pronta’, no que se refere à maturação,
desenvolver o (s) estágio (s) para compreender o que a sociedade
tem para lhe transmitir:
·
sensório
– motor, de 0 a 18/24 meses, que precede a linguagem;
·
pré –
operatório, de 1;6/2 anos a 7/8 anos, fase das representações, dos
símbolos;
·
operatório – concreto, de 7/8 a 11/12 anos, estágio da construção da
lógica;
·
operatório – formal, de 11/12 anos em diante, fase em que a criança
raciocina, deduz, etc. “
Para fazer uma síntese
do que torna fácil ou difícil de aprender para a criança, apresentamos o
quadro abaixo:
|
A
LÍNGUA
É
FÁCIL
QUANDO |
A
LÍNGUA
É
DIFÍCIL
QUANDO
|
|
É
real
e
natural
|
É
artificial
|
|
É
integral |
É dividida
em
pedaços |
|
Faz
sentido |
Não
faz
sentido
|
|
É interessante |
É
chata
e desinteressante |
|
Faz
parte
de
um
acontecimento
social |
Esta
fora
de
um
contexto
|
|
Tem
utilidade
social |
Não
possui
valor
social
|
|
Tem
propósito
para
a
criança |
Não
tem
finalidade
para
a
criança
|
|
A
criança
a utiliza
por
opção |
É
imposta
por
outra
pessoa
|
| |
|
Após essas
considerações esperamos ter ajudado a compreender um pouco mais da
complexidade que é o mundo da fala infantil.
Conclusão
Seria
importante apenas ressaltar o quanto os estudos contribuíram para as
diferentes contribuições no âmbito dos estudos da fala infantil. O
quanto as crianças conseguem antes mesmo de 1 ano transmitir a noção de
fala. Bem como todo o processo vivido por ela no intervalo de tempo de
zero a 6 anos.
É digno
de nota as idéias de Chomsky, Piaget e Skinner, bem como Vygostisky que
muito contribuíram para o aperfeiçoamento de nosso estudo. Esperamos que
o referido artigo possa contribuir para aprofundamento de estudos nesse
assunto.
Referências Bibliográficas
SAMPAIO, Fátima Silva.
Linguagem na Educação Infantil. Fortaleza, SEDUC, 2003 pp. 12 – 18.
FARIAS, Maria Cílvia
Queiroz. Linguagem na Educação Infantil. Fortaleza, SEDUC, 2003 pp. 12 –
18.
FROTA, Ana Maria Monte
Coelho. Formação de educadores infantis Desenvolvimento Infantil: a
criança de 0 a 6 anos. IMEPH pp. 19 – 21.
DEL RÉ, Alessandra.
Aquisição da Linguagem. São Paulo, 2006. pp. 13 – 44.
Para
a
elaboração
do presente
artigo,
Janieri de Sousa
Oliveira,
Maria de Lourdes da
Rocha
e Conceição Elane contou
com
a
orientação
do professor
Vicente Martins, da
Universidade
Estadual Vale
do Acaraú(UVA),
em
Sobral,
Estado
do Ceará.
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