Resumo: O
trabalho de pesquisa investiga a cultura musical midiática como
alternativa pedagógica na prática do educador, pois a cultura pode
ser uma tática para estudar a raiz, a definição e as funções da
vida cotidiana, assim como, classe, gênero e identidade do
sujeito. Nesse sentido, compreender criticamente esta cultura
musical, largamente difundida pelos meios de comunicação de massa,
além de ser uma necessidade, é também um compromisso do educador
frente ao desenvolvimento crítico e intelectual do aluno,
conduzindo-o a uma interpretação cultural, visualizando as
relações de poder e resignação nela existente.
Palavras
chave: Cultura Musical; Mídia e Educação
1 – Cultura Musical Midiática
A todo momento na mídia há um novo lançamento, seja de grupos de
pagode, sertanejos, funk etc, e o gosto musical de professores e
alunos pode estar sendo influenciado em grande parte por esta
mídia. Nesta direção, seria importante indagar: como a escola está
trabalhando o conteúdo da música de forma que possibilite ao aluno
um conhecimento musical significativo a partir de suas vivências?
Ou estaria apenas reforçando e avalizando a imposição massiva de
um determinado padrão cultural? Como são trabalhadas as
informações oriundas das vivências rítmicas, sonoras e musicais
empíricas das crianças, em especial as que se originam das
emissões midiáticas?
Sendo assim, pretendemos neste trabalho desenvolver algumas idéias
sobre o tema “cultura musical midiática” e algumas questões
particulares como: a apropriação dos objetos culturais midiáticos,
no caso a música, pela escola; o papel da mídia na socialização de
crianças e adolescentes; a ênfase dos autores no pólo da recepção;
a Indústria Cultural e os aspectos contraditórios no que se refere
à veiculação musical; e as possibilidades do uso dessas
veiculações midiáticas como forma de educar musicalmente.
2 - Produção e Inclusão Midiática Musical no Espaço Escolar
Nos trabalhos realizados junto às escolas, percebemos que existe
uma cultura de trabalhar a música sistematizada, especialmente as
cantigas tradicionalmente ligadas às datas comemorativas bem como,
as designadas às rotinas escolares, principalmente na Educação
Infantil. Também observamos nas demais séries, que é comum os
alunos dublar e imitar os gestos e requebros de artistas de TV com
o consentimento e incentivo dos professores. Dessa forma, coexiste
o consumo acrítico do que é passado pela mídia e as “cantigas
escolares” com forte apelo prescritivo, moralista e cívico. O
problema situa-se justamente nessa prática da música na escola
básica que incunha-se de informar, um lado pela mídia, de outro
por uma “tradição cultural musical” entranhada no espaço escolar.
Nesse processo cabe-nos refletir que formação do professor nas
Licenciaturas, pois acreditamos que sem o aporte das artes e da
cultura o educador não responde adequadamente a uma visão crítica
e consciente do que consome enquanto receptor midiático. Tal
abordagem requer a compreensão de que hoje as crianças nascem,
crescem e se desenvolvem num ambiente cultural repleto de
tecnologias da comunicação que informam e formam sobre modos de
ser, de agir, de se relacionar, enfim, de viver nessa sociedade.
De acordo com Almeida, atualmente é discutido o fato de que há uma
cultura escolar, com conteúdos, normas, saberes, textos, diferente
da cultura existente, produzida na sociedade em geral. Educação
sistematizada, organizada em currículos, métodos, séries, etapas,
fases, e cultura “falam de si e entre si coisas distintas”
(ALMEIDA, 1994, p.13). Essa discussão vai além quando entra no
aspecto da aprendizagem que a escola parece desconhecer essa
realidade audiovisual que forja sujeitos com outras habilidades e
novas sensibilidades para aprender que já não dependem tanto do
conhecimento fonético-silábico da língua e estão intrinsecamente
ligadas à cultura do som e da imagem.
Essa formação de um sujeito crítico, sensível, capaz de ler os
textos e o mundo, aberto às experiências estéticas, à fruição, ao
gozo artístico passa por um processo de humanização que é sem
dúvida social. Segundo o autor Marx Engels (1986),
Os sentidos
do homem social são diferentes dos do homem que não vive em
sociedade. Só pelo desenvolvimento objetivo da riqueza do ser
humano é que a riqueza dos sentidos humanos subjetivos, que um
ouvido musical, um olho sensível à beleza das formas... se
transformam em sentidos que se manifestam como forças do ser
humano e são quer desenvolvidos, quer produzidos... a formação dos
cinco sentidos representa o trabalho de toda a história do mundo
até hoje (p.25).
O mundo globalizado, sob a égide do capitalismo radical “onde a
cultura dominante é o consumismo, no qual o individualismo chegou
ao paroxismo do narcisismo social, muito bem expresso nas
publicidades de produtos para a beleza e a elegância, que
identificam felicidade com mercadoria” (BELLONI 1999, p.8), está
em plena ação uma mundialização da cultura jovem. Isto significa a
produção globalizada não só de produtos – tênis, jeans etc. – mas
de objetos culturais.
3 - O que Dizem Sobre Emissão/Recepção Midiática
Em conformidade com MARTIN e BARBERO, (1998), há que se considerar
a empatia existente entre os jovens e os audiovisuais, uma espécie
de “cumplicidade expressiva”, uma sintonia entre velocidades,
fragmentações, sonoridades dos relatos e das imagens que estão
presentes também no cotidiano. Essa “cultura a domicílio” tem a
ver com o idioma e os ritmos dessa juventude. Esse aspecto não
pode ser desconsiderado ao se analisar os processos de
emissão-recepção midiáticos. A criança/adolescente não é um
telespectador vazio, passivo, pelo contrário, atua junto com o
meio: canta, dança, faz gestos, rebola, acrescenta novos
movimentos.
Dessa forma, Evidencia-se a necessidade da mediação escolar na
recepção televisiva, no sentido de compreender como se processa a
apreensão do discurso televisual já que diante da
polidiscursividade da TV “o telespectador não desenvolve uma
relação homogênea e unívoca, mas sim diversificada, com
expectativas e gostos diferenciados. Não deveríamos portanto falar
da relação com a TV, mas das múltiplas relações com a TV” (SHAEFER
1995, p.152). A constatação da pluralidade de significados
possíveis de serem apreendidos e construídos no decorrer da
emissão e recepção midiática possibilitaria uma compreensão mais
orgânica e menos determinista dessa relação. A escola não deve
competir com a TV, mas travar com ela um jogo dialético. (PRETTO
1996). Cabe aprofundar essas considerações enfatizando as
contradições inerentes à Indústria Cultural enquanto
indutora do que vemos, ouvimos, gostamos ou deixamos de ver, ouvir
e gostar e os limites dessas formulações no que diz respeito
especialmente à música na escola.
4 - Indústria Cultural: Mídia Musical na Escola
A citação de ADORNO (1989) referenda o conceito de Indústria
Cultural estabelecido juntamente com HORKHEIMER (1963) de
demonstrar que o debate sobre a influência da mídia, na produção
social do gosto no interior da sociedade capitalista não é
recente.
Se
perguntarmos a alguém se "gosta” de uma música de sucesso lançada
no mercado, não conseguiremos furtar-nos à suspeita de que o
gostar e o não gostar já não correspondem ao estado real, ainda
que a pessoa interrogada se exprima em termos de gostar e não
gostar. Ao invés do valor da própria coisa, o critério de
julgamento é o fato de a canção de sucesso ser conhecida de todos;
gostar de um disco de sucesso é quase exatamente o mesmo que
reconhecê-lo, (ADORNO, 1989 p. 79-80).
FADUL (1993, p.53-54) reflete sobre o conflito existente entre
Escola X Meios de Comunicação de Massa e Escola X Indústria
Cultural, propondo sua superação, pontuando o fato de que todas as
informações contemporâneas são midiatizadas pelos meios massivos e
pela Indústria Cultural.
Nesse mesmo viés, SNYDERS (1992, p. 6 e 26) fala da necessidade de
guiar os estudantes na caminhada escolar rumo ao conhecimento
musical "de alto nível" a partir da posse tanto "de suas culturas
primeiras quanto
das
culturas de massa. Esse autor defende a escuta, por parte
dos alunos, de obras elaboradas como: Bach, Beethoven, entre
outros, obras primas consagradas, a partir de várias estratégias,
"o professor pode levá-los a exprimirem-se, sobre o papel da
música no cinema e na TV, sobre como ela modifica as impressões
suscitadas pelas imagens, pode levá-los a falarem também sobre a
música de que gostam, sobre como a sentem e sobre aquela que a
escola propõe" (SNYDERS p.26). Mais adiante acrescenta: "O
primeiro passo será escutar ou cantar mais ou menos as mesmas
coisas ouvidas fora da escola: obras das quais os alunos já
gostem, que não os choquem".
Nessa discussão acreditamos que o educador deve procurar
compreender os aspectos contraditórios da mídia em relação
à música na escola supondo o entendimento de que a mídia é um modo
peculiar de produção dos bens culturais numa sociedade capitalista
e assim como afirma a cultura burguesa, também absorve demandas e
contradições inerentes à luta de classes e pode servir à
emancipação política e cultural.
5 - Inserção das Emissões Musicais Midiáticas na Escola
O campo da educação enfrenta, pois, mais este desafio: o de
constituir-se em espaço de mediação entre a criança e esse meio
ambiente tecnificado e povoado de máquinas que lidam com a mente e
o imaginário. Cabe à escola não só assegurar a democratização do
acesso aos meios técnicos de comunicação os mais sofisticados, mas
ir além e estimular, dar condições, preparar as novas gerações
para a apropriação ativa e crítica dessas novas tecnologias.
ALMEIDA (1994, p.16), afirma: "A transmissão eletrônica de
informações em imagem-som propõe uma maneira diferente de
inteligibilidade, sabedoria e conhecimento, como se devêssemos
acordar algo adormecido em nosso cérebro para entendermos o mundo
atual, não só pelo conhecimento fonético-silábico das nossas
línguas, mas pelas imagens-sons também". Nesse sentido o som das
telenovelas, por exemplo, é apropriado e reapropriado pelos
telespectadores e usado como forma de leitura, conhecimento e
vivência no mundo.
Um autor que defende veementemente a presença da música emitida
pela mídia na escola é (BRESSAN 1989 p.37). Ele questiona a
crítica feita à essa música como de "mau gosto" representativa de
"analfabetismo artístico" e afirma: "Acontece, porém que é isso
que o povo canta e curte; e não serão nossas esporádicas aulas de
canto ou de iniciação musical, nas escolas, que, em contrapartida,
imprimirão aquele pretensioso cunho artístico, previsto pelos
currículos, na alma do povo, como uma alternativa positiva contra
a nefasta influência dos meios de comunicação.
O mesmo autor ainda nos diz em relação às críticas feitas à música
de consumo e comercial que “é também essa música que leva as
crianças a cantar, cantarolar tal qual acontece com as suas
garatujas, no desenho e na pintura”. Faz referência à riqueza
representada pela mídia em geral, pela possibilidade de acesso e
enfatiza que é necessário capacitar o professor “para aperfeiçoar
todo esse repertório que crianças e adultos cantam” (BRESSAN 1989,
p.39).
Nessa mesma linha de raciocínio, MARINHO (1993) desafia os
educadores a observar o óbvio: nossos alunos ouvem e cantam os
produtos da mídia e a escola na maioria das vezes ignora essa
realidade. Nesse sentido, Marinho afirma que,
Talvez já
seja hora de acabar com um certo ranço pedagógico e uma certa
pseudo-intelectualidade de achar que tudo o que tem gosto de
chicletes, cheiro de Esso e barulho de Pan-Am faz mal para a
cabeça e para o coração. O que se quer aqui é apenas fazer uma
alerta no sentido de eleger a Escola como espaço privilegiado para
o diálogo e veículo dinâmico de informações.
Rock
é cultura
pop
e
popular. Existe há mais de 30 anos e vive como corpo clandestino
nos bancos escolares, (MARINHO, 1993 p.30).
O trabalho mais recente sobre o tema é o de NOGUEIRA (1998, p.51 e
53) que faz um estudo sobre a questão do "gosto" musical como
produto da "engenharia de marketing da indústria fonográfica". Diz
que "é preciso admitir o papel preponderante que as mídias
desempenham na escolha musical da população”.
Ela reforça o fato de que esse assunto parece ter pouca relevância
para as instituições educacionais e culturais, um exemplo é a
atenção que dão as "belas artes" e "quase nunca dizem ou fazem
nada em relação às culturas modernas: o rock, os quadrinhos, as
fotonovelas, os vídeos, enfim, os meios em que se movem o
pensamento e a sensibilidade das massas, bases estéticas da
cidadania", (p.53-54). O referido autor considera
que os professores são consumidores do mesmo tipo de música e
assim, atuam como reforço aos padrões musicais dos seus alunos.
Chama atenção para a formação destes professores, e para a
necessidade de, nos cursos formadores se incrementarem estudos
sobre formação estética, mídia e consumo, (p.57).
6 - Considerações Finais
O tema “cultura musical midiática” pode ser encarado como uma das
condições para a construção da cidadania. Essa educação deve
buscar integrar as mídias ao processo escolar pelo fato de que
elas permitem não só a melhoria da qualidade do ensino, quando bem
trabalhadas, mas também a sua expansão. Também é preciso
considerar que o seu uso possibilita uma maior adequação às
expectativas das novas gerações que possuem uma outra
sensibilidade, mais audiovisual, resultante da imersão nas imagens
e sons do cotidiano midiático. No entanto, não adianta falar em
educar para os meios e referir-se somente às crianças, os
professores precisam também ser educados para e com a mídia
e isso foi enfocado por diversos autores.
A partir disso, entende-se a necessidade de pensar no conhecimento
erudito, historicamente acumulado, como um direito de acesso às
camadas populares, que têm na escola a única possibilidade de
elevação do patamar cultural. No entanto, ignorar e até mesmo
desconsiderar a cultura que nos circunda, via emissão midiática,
em especial à música, é manter uma postura elitista, fechada, que
considera tudo o que for popular inculto, vulgar, de mau gosto,
contribuindo para um círculo vicioso no qual se ouve o que gosta e
gosta do que ouve de modo passivo e acrítico.
Penamos que deve-se escolarizar a música veiculada pela mídia
através de um trabalho consciente, fundamentado, que enfoque o
conhecimento musical em suas diferentes dimensões. Esta é a função
da escola, estabelecer pontes, preencher lacunas, construir
significados entre os objetos culturais midiáticos e o saber
elaborado. Para finalizar, não podemos deixar de enfatizar um
aspecto fundamental, que já foi enfocado anteriormente, o da
formação dos educadores em geral para esse processo. Eles deverão
ser formados como ouvintes críticos, produtores, reprodutores e
criadores de músicas, sons e ritmos nos espaços adequados de
formação, ou seja, nas Licenciaturas, através de um trabalho sério
e consistente sobre cultura midiática, arte em geral e música em
particular.
Referências
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Institucional: Aluno da Pós-graduação do Curso de
Especialização em Tecnologias da Informação Aplicadas a
Educação/EAD/UFSM. Formação: Graduação Licenciatura Plena em
Pedagogia, UFSM/2008 – Pós-graduação Especialista em Gestão
Educacional, UFSM/2010 - E-mail:
professor_valmir_rs@yahoo.com.br