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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 04 de agosto de 2008 20:19:28                                               

 
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EDUCAÇÃO

Currículo de Ciências: algumas reflexões

   

Fernanda Duarte Araújo Silva

publicado em 01/08/07

 

Introdução

A discussão acerca do currículo escolar deve contemplar inicialmente o conceito de que é educação e qual a função da escola na atual sociedade. Forquin (1992) caracteriza a escola da seguinte forma:

A escola não é apenas com efeito, um local onde circulam fluxos humanos, onde se investem e se gerem riquezas materiais, onde se travam interações sociais e relações de poder; ela é também  um local- o local por excelência nas sociedades modernas de gestão e de transmissão de saberes e de símbolos ( p.28).

Ao concebermos a escola dessa forma não podemos desvincular o estudo sobre currículo com o da educação. Os conhecimentos de gerações passadas que são transmitidos na escola, sofrem modificações de acordo com o período histórico e social em que nos encontramos, e outros conhecimentos também considerados relevantes na atualidade são selecionados, como sendo essenciais de serem transmitidos aos alunos. Essa seleção de conteúdos de uma cultura são o que chamamos de currículo.

          Sabemos que a questão do ensino de Ciências é um desafio enfrentado pelos professores de Ciências (Ensino Fundamental) e pelos responsáveis pelas Práticas de Ensino na Universidade. Essa questão tem preocupado também as sociedades científicas, as Secretarias de Educação, os grupos de pesquisadores e os órgãos de apoio à pesquisa na busca de soluções que atendam ao desenvolvimento técnico - científico e à demanda educacional.

          Desta forma, sentimos que o conhecimento aprofundado da realidade implica uma participação nas atividades das escolas e responder as suas expectativas no sentido que a Universidade possa assessorá-las na compreensão do seu papel na sociedade. Essa expectativa também envolve o planejamento de seu projeto educacional, a busca de respostas às situações de ensino – aprendizagem, a avaliação do seu trabalho e a proposição de mudanças.

 

Do currículo de Ciências...

         Nas últimas décadas aconteceram inúmeras iniciativas institucionais para a melhoria do ensino de Ciências. Os esforços em recuperar o padrão de qualidade do ensino nas escolas, estabelecido nos anos anteriores, deram origem a diversas tentativas, incluindo a introdução de mais tecnologia na educação e elaboração de guias curriculares, cursos de treinamento, além da confecção de livros didáticos. Apesar de algumas dessas iniciativas se originarem em trabalhos importantes, sua política de aplicação no contexto escolar de modo geral não conseguiu deixar de ser apenas retórica.

Percebemos que apesar dos esforços conjugados realizados pelas diferentes iniciativas, nas últimas quatro décadas a maioria das tentativas resultou em insucessos ou em sucessos limitados, permanecendo o questionamento da melhoria.

         Sabemos que o nosso comprometimento é com uma determinada visão da sociedade, de educação, de criança, de aprendizagem e mesmo de Ciência. Devemos reconhecer que nenhuma opção educacional é neutra, mas sempre se assenta num conjunto de pressupostos que às vezes não vêm declarados.

         Para Fracalanza (1986), precisamos ressaltar a existência de vínculos entre a concepção exposta e a história do ensino de Ciências. Nessa perspectiva ela vai além de um simples ato de criação intelectual, dissociado da história do ensino de Ciências no país e do momento atual da educação brasileira. Ela foi efetivamente construída a partir da análise crítica das propostas de inovação do ensino de Ciências no Ensino Fundamental desenvolvidas nos últimos anos.

          Algumas tentativas de renovação do ensino de Ciências perpassam pelas mudanças no ambiente em que o homem contemporâneo vive pela busca de novos caminhos para a Educação e pelo obsoletismo do ensino tradicionalmente realizado pelas Ciências.

          Alguns estudos descrevem as mudanças ocorridas na concepção acerca do ensino de Ciências, explicitando também que as tentativas de introdução das inovações a ela associadas que garantissem a consecução dos objetivos propostos parecem pouco ter alcançado as salas de aula.

         O ensino de Ciências desenvolvido nas séries iniciais do antigo primeiro grau descritos em estudos como os de Inforsato (1986), vem fortalecer essa tendência observada também para essas séries uma vez que descrevem o ensino nelas desenvolvido como teórico, expositivo, pouco enfatizado em relação às outras áreas do conhecimento e, muitas vezes ministrado como um apêndice curricular obrigatório.

         Nessa linha Corrêa (1994), em seu estudo comparativo sobre as reformas de ensino propostas e implementadas no Estado de Minas Gerais explicitou encontros e desencontros no tocante a distribuição dos conteúdos ao longo das séries.

         Para a autora, a ordenação dos conteúdos do ensino de Ciências, tanto nas séries quanto entre as séries segue, nessa reformas escaladas “do menos para o mais”, “da parte para o todo”, “da célula para o tecido” e deste para o “órgão”, “aparelho”, “sistema” e enfim o corpo humano. Enfatiza comportamentos também ordenados como descobrimento, organização, funcionamento. Além disso, dissocia homem e meio, mente e corpo, química e física. Esquecem os elaboradores desses programas que o homem da sala de aula não é e muito menos está fragmentado ou se relaciona com a natureza e os outros homens por partes.

         Pretto (1985) representa muito bem essa fragmentação do corpo humano quando, ao estudar algumas coleções de livros didáticos para ensino de Ciências, conclui:

   A característica que nos parece mais importante nesta maneira de apresentar o corpo humano, suas partes, seus órgãos e suas funções é que o ser humano sempre aparece despersonalizado. Aparece a orelha, seu nariz, seu aparelho digestivo, cérebro, etc.; mas nunca o conjunto, o ser humano integral, com suas características e inserido no seu meio. Apresentado dessa forma, o ser humano será construído na imaginação de cada criança como sendo a superposição dos membros, dos órgãos, enfim, uma mera soma de todas as partes. E o que é pior, os livros ao colocarem o corpo humano como fábrica ou máquina, o cérebro como chefe e os órgãos como operários, passam aos estudantes uma concepção hierárquico – funcionalista do corpo humano, estando aberto o caminho para compreendermos dessa forma as relações sociais (p.65).

 

          Entendemos que as causas do fracasso escolar não se encontram apenas no interior das escolas, na pobreza destes, mas sim em condicionantes sócio – econômicos e políticos mais amplos. Dessa forma a reflexão sobre o ensino de Ciências nas escolas do Ensino Fundamental deve passar também pela reflexão sobre a educação como contexto social mais amplo que se insere.

         Para Cicillini e Cunha (1991), assistimos nas últimas décadas à democratização do ensino, como resultado das lutas dos trabalhadores, que, apesar de garantirem a entrada de seus filhos na escola, não conseguiram ainda garantir sua permanência. A diversidade intelectual e social dos novos alunos pegou as escolas e os professores de surpresa. Não estávamos preparados para receber o novo contingente de alunos. Um aumento proporcional de investimentos e uma nova prática educativa não aconteceram, condenando a democratização do ensino apenas ao aumento de matrículas. Precisamos assim reformular a finalidade da educação, a posicionando em relação às reais necessidades de nossa sociedade.

Além disso, para Cicillini e Cunha (1991), pensar um currículo que vise à transformação social significa pensá-lo numa dimensão mais ampla. De nada adianta alterar conteúdos, aumentar carga horária, equipar laboratório, fazer reciclagem ou utilizar novas metodologias sem uma reflexão mais ampla sobre o ensino. O “o que” e o “como” ensinar são questões diretamente vinculadas ao “para quem”, “para que” e “onde se ensina”.

         Nesse contexto, não podemos separar os conteúdos programáticos das características históricas e sociais em que se efetivará a proposta.

          Do confronto entre as mudanças ocorridas, pelo menos nos elementos constituintes da concepção teórica acerca do ensino de Ciências e, da realidade apresentada pelos estudos, emerge a situação problema resumida na questão: o que impede a adoção de algumas mudanças advindas dessas inovações no ensino de Ciências nas séries iniciais do Ensino Fundamental pelos docentes?

         Alguns estudos apontam a precariedade e fragmentação da formação dos docentes como entraves para as mudanças. Assim docentes precariamente formados, pouco podem fazer em relação às condições adversas, que por sua vez, parecem contribuir para a precariedade da formação oferecida aos alunos.

          Nessa perspectiva Fracalanza (1986), destaca que os professores do ensino de Ciências apontam inúmeros fatores que impedem um ensino de melhor qualidade. Dentre esses fatores, os mais citados são: as condições de trabalho, a falta de material didático, o pouco tempo disponível para ciências e o salário é muito baixo. Dificilmente se fala de insegurança, resultante da formação precária que os professores receberam nos cursos onde se diplomaram.

         Desta maneira, as dificuldades encontradas para ensinar no Ensino Fundamental são semelhantes às encontradas nos cursos de preparação dos professores. Essa situação faz com que os professores se escravizem das propostas de ensino de Ciências que nada têm com sua realidade e a de seus alunos e o que é mais grave, pouco tem a ver com Ciências.

         Ainda para Fracalanza (1986), na maioria das escolas, o ensino de Ciências não trabalha com a identificação, o reconhecimento e a compreensão do mundo físico e do mundo dos seres vivos, não faz relação entre o dia- a- dia da criança e a ciência que se estuda.

Assim, o desenvolvimento do raciocínio lógico e do espírito crítico, objetivos tradicionalmente especificados como de Ciências, não são privilégios somente dessa área do conhecimento, mas é necessário contribuir para seu desenvolvimento, praticando outro tipo de ensino de Ciências.

 

Referências

CICILLINI, Graça Aparecida; CUNHA, A. M. O. Considerações sobre o Ensino de Ciências para a Escola Fundamental. IN: ______. Escola Fundamental: Currículo e Ensino. Campinas – SP: Papirus, 1991. p.201-216.  

CORRÊA, Inês Luci Machado. O Professor “ideal”? de  Ciências: desafio a prática de Ensino de Ciências . Dissertação (Mestrado em Educação) – Centro de Educação e Ciências Humanas, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP, 1994.

 FORQUIN, Jean–Claude. Saberes escolares, imperativos didáticos e dinâmicas sociais. Teoria e Educação. Porto Alegre, n.5, 1992, p.28-49. 

 FRACALANZA, Hilário. O ensino de ciências no primeiro grau. São Paulo: Atual, 1986. 

INFORSATO, E.C. A criança da periferia de São Carlos e seu ambiente: prolegômenos para um projeto de educação científica. Dissertação (mestrado). São Carlos: UFSCar, 1986. 

PRETTO, Nelson De Luca. A ciência nos livros didáticos. Campinas: Editora da Unicamp, 1985.

 

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::sobre o autor::

Fernanda Duarte Araújo Silva é professora da Universidade Federal de Uberlândia. Coordenadora Pedagógica da EMEI Grande Otelo. Especialista em Docência no Ensino Superior. Mestre em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia.

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