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Em período
de transformação, alguns princípios ficam conflitantes e o
significado que se atribui aos atos se relativiza, causando
dúvidas sobre os valores que devem ser estabelecidos no
método educativo. Observa-se, pois, uma certa imprecisão
sobre o que é ou não consentido, sobre o que é ou não
aceito. Em parte isso incide porque não há um indicador
moral universal “um código” que constitua modelos éticos
normatizadores da ação humana.
A carência
de parâmetros, de códigos morais e éticos na educação
evidencia, portanto, a deficiência de diretrizes normativas
que aceitem a composição de uma educação moral concreta e
sólida o que, em conseqüência, bloqueia a ação dos
educadores, pais e docentes dentro do processo evolutivo do
saber.
A
investigação sobre a formação continuada dos docentes,
recebeu a partir do inicio dos anos 80 um ponta pé
extraordinário. Este é, ultimamente, um ponto bastante
discutido nos últimos tempos dentro dos trabalhos
dissertados nos muitos cursos de pós-graduação em todo país.
Entretanto, tal como relata Pacheco e Flores esta temática
não conhece, a nível da estrutura disciplinar das Ciências
da Educação, “uma autonomia e prática de formação de
professores” (Pacheco; Flores, 1999, p. 10). Neste ponto a
pesquisa tem abordado, seja a formação alicercial , seja o
desenvolvimento ininterrupto dos docentes.
Ultimamente, acentua-se a seriedade da reflexão na formação
de docentes. A ênfase da reflexão advém do ramo da educação
de adultos, da qual o desenvolvimento de docentes faz parte
integrante. Vejamos o que relata Garcia sobre isso:
“A
investigação do campo da formação de professores não deve,
nem pode dissociar-se do campo de investigação em educação
de adultos, assumindo-se como uma forma particular de
educação de adultos.” (Garcia, 1999, p. 52).
A
abordagem da temática da formação de docentes implica em um
conhecimento do campo em que se agrega. Este estudo pretende
apresentar alguns indicativos e idéias que possam orientar a
otimização dessa dificuldade por estudantes de educação de
nível superior de uma forma geral no campo da educação.
É
precisamente neste significado que se procurará ao longo
deste ensaio abordar os contributos da educação continuada,
para a reflexão sobre o desenvolvimento do professor/aluno,
ponderando que com um maior conhecimento na área da formação
de professores também colaborará para um conhecimento mais
aprofundado da educação continuada.
Um olhar
da atividade profissional continuada do professor
consistindo apenas "numa resolução instrumental de problemas
pela aplicação de teorias e de técnicas científicas" (Schön,
1983, p.23) é redutora, pois omite o acontecimento dos
sujeitos aumentarem saberes na prática. A este desígnio,
parafraseando com Perrenoud (1993) afirma que variadas vezes
a ação do docente não se reduz a uma aplicação de uma
determinada regra, de um esquema codificado a uma situação
concreta:
“Demorar-se um pouco mais com um aluno em dificuldade,
responder ou não as suas questões, encorajá-lo com uma
palavra, escolher entre ver e não ver, sancionar ou não uma
conduta desviante, seguir ou não uma pista sugerida pelo
aluno, dar seqüência a uma discussão ou terminá-la, dar a
palavra a este ou àquele, aceitar ou não uma proposta,
dramatizar ou banalizar um apelo à calma (...) tantas
decisões tomadas no momento, sem grande ou nenhuma
reflexão.” (Perrenoud, 1993, p. 37)
Tal tipo
de ação, baseado naquilo a que Perrenoud classifica de
sucessão de micro-decisões, é muito mais do que uma simples
aplicação de determinadas teorias à prática. O conhecimento
e a informação são fontes de saberes e é a partir delas que
se constrói o saber profissional do docente preocupado com o
seu e com o desenvolvimento de seus alunos.
De
qualquer maneira, o que está em questão para o docente, é a
idéia de que para se ensinar é preciso, antes de tudo,
disciplinar o aluno. E qual é essa matéria? Quando se fala
em matéria, em geral, se fala em ordenamento, o que, muitas
vezes, nos leva à idéia de repressão e coação entre as
pessoas. Por isso é que, entrar por esse caminho, pode ser
arriscado.
Todavia, é
preciso reconhecer que, embora existam muitas maneiras de se
ordenar às condutas, esse ordenamento não deve estar
associado a práticas de dominação e subordinação. Se a ordem
é realmente necessária não precisa ser estabelecida por
relações autoritárias. Para a construção da ordem, da
disciplina, são necessárias regras que estabeleçam o que é
ou não permitido, mas, veja bem, regras que ordenem e não
que dominem.
Como
relata Sarrazin (2002, p. 3),
“O
desenvolvimento do juízo moral na criança passa por uma
moral heterônoma – que é baseada em relações unilaterais –
mas, não se limita a ela. É necessário construir uma moral
autônoma, fundada em relações de reciprocidade e respeito
mútuo”.
Por que
educação continuada?
Uma
questão sempre esta presente em nossos dias por que
Educação Continuada e não outro termo? A palavra
‘educar’ tem sua origem nas expressões latinas
‘educare’ (cuidar, alimentar, nutrir, criar) e ‘educere’
(externar, conduzir, modificar, transformar). O sentido
etimológico parece-nos esclarecer que a Educação é um
processo de ir e vir. É um processo complexo de ensinar a
aprender, aprender a ensinar, ensinar a ensinar, aprender a
aprender, aprender a pensar, ensinar a aprender a pensar.
O termo ‘educação’
compreende vários nuances de significado e recebe às
diversas forças ideológicas. Aqui, portanto, focalizaremos a
compreensão de que o termo ‘educação’ aponta para a
criação, recriação e transformação da realidade social,
moral e cultural do indivíduo.
Parafraseando com as palavras de Libâneo (1998) a Educação,
em sua concepção histórico-social e em seu sentido amplo,
compreende os processos formativos que acontecem num dado
meio social, sejam eles informais ou não, institucionais ou
não, intencionais ou não.
Em relação
à educação contínua de professores, compreendemos que ações
intencionais intervêm nas relações individuais e coletivas,
com vistas à transformação. A educação, assim, está viva no
meio das relações sociais e pode ser impulsionada pelos
interesses e práticas de classe, o que a define como prática
transformadora ou não. Libâneo (1998) apresenta-nos uma
síntese sobre a importância da educação:
“A educação, enquanto
atividade intencionalizada, é uma prática social cunhada
como influência do meio social sobre o desenvolvimento dos
indivíduos na sua relação ativa com o meio natural e social,
tendo em vista, precisamente, potencializar essa atividade
humana para torná-la mais rica, mais produtiva, mais eficaz
diante das tarefas da práxis social postas num dado sistema
de relações sociais.” (Libâneo, 1998, p.74).
Além dessa
compreensão, procuramos em Brandão (1981) uma idéia
complementar que dá uma dimensão do político em Educação.
Ele entende que a educação enquanto processo de humanização
se dá ao longo da vida. Ela acontece na rua, no trabalho, na
família, na igreja, e na escola. Nesta, ela tem funcionado,
cada vez mais, para o controle, para a adaptação do ser
humano à sociedade. Assim, a escola ainda funciona como
aparelho de transmissão da ideologia dominante. Brandão
conclui que há dois tipos de educação bem materializados
que:
“(...)
pode tomar homens e mulheres, crianças e velhos, para
torná-los todos sujeitos livres que, por igual, repartem uma
mesma vida comunitária; e há outro tipo que pode tomar os
mesmos homens, das mesmas idades, para ensinar uns a serem
senhores e outros, escravos.” ( Brandão, 1981, p.34)
Por fim, invocamos aqui a concepção que consegue incorporar
as anteriores e que não deve ser desprezada quando falamos
de formação de professores. O mentor Paulo Freire deixou-nos
um grande e poderoso legado: a educação é ato político, é
ato de libertação (Freire, 1980). Freire procura deixar
claro que, diante das contradições e desigualdades que estão
instaladas nesta sociedade, a educação pode desempenhar um
papel político de construir uma nova sociedade: uma
sociedade mais fraterna, mais solidária, menos desigual,
mais justa. Freire entendia que, através da educação, seria
possível ampliar a participação da classe oprimida,
tornando-a capaz de transformação social. Essa concepção
preconiza uma articulação entre teoria e prática,
constituindo, assim, uma práxis desafiadora e
transformadora. Essa práxis caracteriza-se pela relação
dialógica, perspectivas de criticidade e vivência. Dessa
forma, caminha-se de uma consciência ingênua para uma
consciência crítica.
O termo
‘continuada’, outro item da expressão assumida aqui,
possui o sentido de processo ininterrupto, inacabado, algo
que permanece, sucessivo (Bueno, 1996). Assim, a denominação
Educação Continuada deve ser compreendida como
possibilidade de se alterarem situações atuais
epistemológicas e pedagógicas dos professores de modo
processual, seguindo sempre adiante, sem finalização.
Vejamos o
que discursa Araújo:
“A
Educação Continuada deve ser entendida como processo
constituído por práticas cotidianas de reflexão sobre o
trabalho que o professor desenvolve, além de compreender,
também, que essa denominação oferece-nos uma possibilidade
mais abrangente para obtermos visão mais integrada da
educação.” (ARAUJO, 2000, p. 34).
Considerações finais
Busquei ao
longo deste ensaio agregar a reflexão sobre a formação de
docentes com a sua educação continuada, constituindo esta
última um referencial importante para a análise do
desenvolvimento pessoal e profissional do docente, de uma
forma geral. Este desenvolvimento não pode ser idealizado de
forma alguma de uma forma individualista e isolada. Muito
pelo contrário é necessário fomentar a cooperação e o
diálogo crítico entre os docentes, colaborando para a
divisão de diferentes perspectivas sobre a prática docente.
Além de
todas essas informações anteriormente citadas, essa cultura
de colaboração é crucial para o aparecimento de projetos de
inovação nas escolas. Muitos desses projetos inovadores
“nasceram” a partir de uma ponderação conjunta sobre os
problemas concretos que existiam em uma comunidade escolar
determinada. O desenvolvimento pessoal e profissional
pressupõe o desenvolvimento de uma cultura colaborativa que
parte da própria escola.
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Acessado em 23 de Fevereiro de 2006. |