|
Uma das tarefas primordiais
dos professores de Língua Materna – Língua Portuguesa – e, em especial,
dos alfabetizadores é a formação do leitor e escritor competentes.
Enfatizo a importância dos alfabetizadores, pois são eles os primeiros
responsáveis pelo contato sistemático das crianças com a língua escrita.
Neste artigo, faço algumas
reflexões sobre leitura, escrita e ortografia, na tentativa de sugerir
estratégias que norteiem o professor para orientar o aluno na
construção de uma escrita coerente e ortograficamente correta, como
também na formação de uma leitura significativa, aquela que envolve a
compreensão do sentido global do texto e ultrapassa a decodificação
mecânica de palavra por palavra, letra por letra, que ao invés de
ajudar, faz é atrapalhar.
Com esse objetivo, proponho
alternativas de trabalhos com textos e didáticas para implantação tanto
no ensino fundamental como para o ensino médio, baseadas nas idéias de
Frank Smith ( “Compreendendo a Leitura”, fornecido pela biblioteca
Vicente Martins), João Vadeley Geraldi (“Prática da Leitura na Escola”),
Nadja da Costa R. Moreira ( “Orientações para o Ensino da Leitura”) e
outros mais citados na bibliografia, em que enfatizam o desenvolvimento
das habilidades de raciocínio de leitura e escrita.
Metodologia
A leitura e a escrita são
processos comuns aos seres humanos desde muito tempo, apesar de terem
sido durante alguns séculos proibidos para uns (caso das mulheres) e
liberados para outros ( como é o caso da nobreza) . Depois da invenção
das escolas, passou-se a ter a preocupação em ensinar com eficiência a
ler e a escrever, tarefa não tão simples, pois até hoje, estudiosos e
professores procuram esta tão sonhada fórmula para orientar bem o
ensino de uma leitura crítica e uma escrita significativa. E, antes de
qualquer sugestão metodológica, é preciso conceituar, em cada momento da
reflexão, leitura, escrita e ortografia sem trair a concepção dos
autores estudados.
Começarei com a leitura, um dos problemas
mais preocupantes para os professores de Língua Portuguesa, já que os
alunos, a cada dia, criam uma certa aversão à leitura. Dentre os autores
analisados apego-me a Geraldi (1999, p. 91) que afirma:“...
a leitura é um processo de interlocução entre leitor / autor mediado
pelo texto. Encontro com o autor, ausente, que se dá pela sua palavra
escrita.”, ou seja, ler é interpretar e compreender o que o autor quer
transmitir tanto nas linhas como nas entrelinhas.
“O
entendimento ou compreensão é a base da leitura e do aprendizado desta.
(...) Aprendemos a ler, e aprendemos através da leitura, acrescentado
coisas àquilo que já sabemos.” (Smith, 2003, p. 21)
Baseada nas idéias de Smith,
creio não trair o autor citado se disser que a leitura é uma atividade
muito mais complexa do que a simples interpretação dos símbolos gráficos
, de códigos, requer que o indivíduo seja capaz de interpretar o
material lido, comparando-o à sua bagagem pessoal, ou seja, requer que
o indivíduo matenha um comportamento ativo diante da leitura. Para que
isso aconteça, é necessário que haja maturidade para a compreensão do
material lido, senão tudo cairá no esquecimento ou ficará armazenado na
memória sem uso, até que se tenha condições cognitivas (conhecimento)
para utilizar.
Esta compreensão do texto,
citado no parágrafo anterior, é um processo que se caracteriza pela
utilização do conhecimento prévio: o leitor utiliza na leitura o que ele
já sabe, o conhecimento adquirido ao logo de sua vida. É mediante a
interação de diversos níveis de conhecimento, como o conhecimento
lingüístico, o textual, o conhecimento de mundo que o leitor consegue
construir o sentido do texto.
Os conhecimentos relacionados
acima são importantes para uma leitura de qualidade, pois cada um tem
uma função diante da leitura. O conhecimento lingüístico abrange desde o
conhecimento sobre pronunciar o português, passando pelo conhecimento
de vocabulário e regras da língua, chegando até o conhecimento sobre o
uso da língua. Já o conhecimento do texto refere-se as noções e
conceitos sobre o texto (Quanto mais conhecimento textual o leitor
tiver, quanto maior a sua exposição a todo tipo de texto, mais fácil
será a sua compreensão). O outro conhecimento, o conhecimento de mundo,
é adquirido informalmente, através das experiências, do convívio numa
sociedade, cuja ativação, no momento oportuno, é também essencial à
compreensão de um texto.
Se estes conhecimentos não
forem respeitados, o objetivo e aprendizagem da leitura não serão
alcançados. Isso acontece muito nas escolas, principalmente nas
tradicionalistas. A maioria dos educadores de Língua Portuguesa,
preocupados em seguir um plano didático, oferecem aos estudantes
leituras de níveis bem superiores aos deles, proporcionando perplexidade
dos mesmos diante do texto lido devido a incompreensão gerada por
deficiência em algum conhecimento ou em todos citados acima.
Cito, como exemplo do que foi
exposto no parágrafo anterior, um trecho do ensaio: “Os brasileiros –
uma nova interpretação”, de Roberto Pompeu de Toledo (Revista Veja, 03
de maio, 2006):
“O presidente do INSS, Valdir
Moysés Simão, disse ao Jornal Nacional, da Rede Globo, que foi ao ar na
segunda-feira, que as filas nas unidades de atendimanto do órgão se
devem a uma “questão cultural” . Seria um traço do povo brasileiro já
tão arraigado na consciência coletiva que contra ele se esboroam as
boas intenções das autoridades. A frase completa foi: ‘Por uma questão
cultural, o segurado tem receio e acaba chegando muito cedo...’”
A compreensão do trecho acima
pode ficar comprometida se o leitor não tiver um dos conhecimentos como
o lingüístico, o textual ou o conhecimento de mundo, ou seja, se não
entender o vocabulário ( como o significado das palavras arraigado ou
esboroam) , nem o tipo de texto (como no caso se é ensaio ou artigo) e
nem tão pouco se não souber o que é o INSS, ou seja conhecimento de
mundo..
Para amenizar as dificuldades
de interpretação e compreensão de um texto, Smith (2003, p. 84)
aconselha que a leitura seja rápida, seletiva e compatível ao que o
leitor já sabe. Smith quis dizer que a leitura seja rápida e não
descuidada, o leitor deve utilizar as informações não visuais
(conhecimento prévio) para evitar ser confundido com uma leitura lenta,
ou seja, uma leitura que busca muitas informações ao mesmo tempo, como
vocabular, textual ou as informações implícitas.
Para se conseguir esta leitura
rápida, seletiva e ao nível dos alunos, é preciso planejar antes,
observar se os textos escolhidos realmente estão no nível dos
educandos e a partir desse entendimento trabalhar com projetos.
Sabidos de que não é tão fácil
de resolver este problema de dificuldades na leitura, proponho algumas
condições que o professor de língua materna deve aceitar. Um dos
primeiros passos para um bom desenvolvimento da leitura é acabar com o
pensamento de muitos educadores de que leitura é uma forma de castigo,
tirando a idéia lúdica do ato de ler, como mostra Geraldi (1999, p. 97)
“A
fruição, o prazer, estão excluídos (...) A escola, reproduzindo o
sistema e preparando para ele, exclui qualquer atividade não rendosa:
lê-se um romance para preencher uma famigerada ficha de leitura, para se
fazer uma prova ou até mesmo para se ver livre da recuperação.”
Deve-se entender que a leitura
não deve ser uma apologia da dureza, da insensibilidade, da frieza,
repressão e do medo. Esses atos podem transformar-se em efeitos
colaterais catastróficos.
Pode até parecer absurdo, mas
muitas escolas, principalmente as privadas, usam e abusam deste método
tão condenável para quem realmente sabe o significado do que é ler,
gosta e quer aprender ou ensinar a ler. Além desta situação citada
acima, ainda existe os vestibulares que apóiam, de forma indireta, e
obrigam aos candidatos a lerem os livros selecionados pela comissão
executiva do vestibular no intuito de saberem responder as perguntas da
prova de seleção, que muitas vezes são mal elaboradas e que de certa
forma duvidam da inteligência dos candidatos, além de mostrar que não é
preciso ler a obra na íntegra para saber responder algumas perguntas,
fazendo assim apologia à leitura de resumos comentados. Como é o caso da
prova de Língua Portuguesa, do vestibular da UVA (Universidade
Estadual Vale do Acaraú) de 2005.2, em que na questão de número 06
(seis) pergunta-se qual o personagem principal da obra em questão). Esta
questão é totalmente contrária ao pensamento da leitura crítica. Será
que com tantas possibilidades de acesso as informações de livros, o
aluno precisará ler a obra para ter esta informação?
Os professores de Língua
Portuguesa trabalham leitura dentro e fora da sala de aula, na intenção
de amenizar as dificuldades de ler. E é com a interação de diversos
métodos de trabalho como a roda de leitura, os encontros literários
(obras literárias apresentadas em forma de paródias, poesias, literatura
de cordel, apresentações teatrais), paráfrases, jogos de adivinhações
literárias, além das reflexões, interpretações e compreensões de textos
através de perguntas coerentes que levem o aluno a pensar e participar
das aulas de uma forma lúdica que os docentes apostam na melhoria desse
antigo problema.
São vários os métodos para se
trabalhar leitura. Começarei esta apresentação com a roda de leitura,
oficina muito interessante que dá oportunidade do aluno escolher uma
obra dentre muitas selecionada pelo professor referente à escola
literária estudada no momento (cerca de uns 30 livros). Para trabalhar
com a roda de leitura não é necessário usar somente obras literárias
pode ser feita com textos mais curtos, como ensaios, contos, crônicas,
entrevistas, textos jornalísticos etc.. Nesta oficina, o educando tem a
oportunidade de se expressar, de apresentar o livro lido de uma maneira
mais informal, com expressões próprias e com a ajuda de outros colegas
que também tenham lido o mesmo texto. A exposição dos discentes são
seguidas de momentos de reflexões coordenadas pelo professor ou pelos
outros alunos da sala. Este método além de proporcionar aprendizagem,
também incentiva outros alunos a ler as obras apresentadas.
Condemarín e Medina (2005, p. 45) afirmam
que: “... Os círculos literários são discussões sobre literatura
coordenadas pelo professor incluindo toda a classe, ou realizadas em
pequenos grupos formadas por duplas. (...) Os alunos participam do
diálogo para interpretar ou explicar o conteúdo. Na medida em que dão
atenção ao argumento, motivos e características dos personagens, aos
conflitos que ocorrem dentro da história e suas soluções, eles
constroem um amplo leque de significados que relacionam e ampliam suas
próprias experiências.”
Os encontros literários também
fazem parte do processo do ensino de leitura e oportuniza ao professor a
descobrir novos talentos. As obras literárias são lidas em grupos e
apresentadas em sala de aula através de paródias, literatura de cordel,
poesias, seminários e peças teatrais. Este trabalho pode ser
implantado tanto com os alunos do Ensino Fundamental, como do Ensino
Médio. Os discentes lêem as obras selecionadas de acordo com o momento
estudado na literatura e apresentam de forma lúdica aos outros colegas
de sala ou até mesmo para alguns convidados.
Tem-se como exemplo um projeto
elaborado pela professora de Língua Portuguesa, da Escola Wilebaldo
Aguiar, de Massapê, aplicado nas segundas e terceiras séries do Ensino
Médio, com o objetivo de os alunos aprenderem de forma mais prazerosa,
os livros selecionado pelo professor. Este projeto também foi aplicado
com os livros do vestibular da Universidade Estadual Vale do Acaraú
(UVA).
Vejamos um exemplo de uma das
apresentações, em forma de paródia, com o resumo de “Senhora”, de José
de Alencar, aplicado na segunda série do Ensino Médio. A paródia é uma
adaptação da música “Só hoje”, de Jota Quest.
Esta história aconteceu no Rio de Janeiro
Aurélia Camargo estava apaixonada
Era uma coisa normal
Seu grande amor era Fernando Seixas e por
ele estava louca
Um amor que ninguém nunca viu
Que ninguém nunca viu
Decidiram então se casar
Depois de um tempo a abandonou
Atraído pelo dote de Adelaide Amaral
Aurélia decidiu logo se vingar de Seixas
Com uma herança inesperada
Do avô que ela recebera
Era preciso
A moça lhe ofereceu cem contos de réis
Se ele quisesse se casar
Viu a noiva só no dia do seu casamento
Aurélia mostrou o recibo da compra
Seixas pagou a dívida, limpando sua honra,
com uma despedida
Mas se abraçaram loucamente e viveram
felizes para sempre.
A paródia foi apresentada com
a melodia de um violão e a ajuda dos alunos que acompanharam lendo a
cópia da paródia distribuída pelo grupo. Depois da apresentação, os
alunos da equipe fizeram um estudo crítico e responderam as perguntas
dos colegas de classe, do professor e dos convidados, transformando a
sala de aula em um lugar de debates e discussões acerca do livro e do
momento em que ele está inserido, fazendo muitas vezes uma comparação
dos acontecimentos e temáticas da obras com os dias atuais.
Embora a paráfrase de obras
literárias, principalmente os indicados pelos vestibulares e textos em
geral, seja muito comum em livros didáticos e na Internet, este método
continua sendo eficiente para ser trabalhado em sala de aula para que o
professor possa observar se o aluno compreendeu o texto ou a obra lida.
De acordo com Condemarín e Medina (2005, p. 45): “Essa ação obriga os
alunos a reorganizarem os elementos do texto de maneira pessoal, o que
revela sua compreensão. A paráfrase proporciona mais informação sobre o
que os alunos realmente pensam sobre a história do que quando se pede
uma opinião geral a respeito desta.”
O jogo de adivinhação é outra
forma para ensinar leitura. Através de perguntas e passagens
importantes das obras lidas os alunos devem adivinhar a que obra
pertence.
Todas as estratégias de ensino
da leitura são válidos, só basta que os professores saibam e transmitam
aos alunos o real conceito, função e importância do saber ler para
construir leitores críticos e participativos. Um dos processos para este
acontecimento é o docente avaliar de forma coerente a leitura dos
alunos para obter resultado e saber ensiná-los com eficiência.
Além da leitura, tem-se a
escrita que é uma das formas superiores de linguagem, requer que a
pessoa seja capaz de conservar a idéia que tem em mente, ordenando-a
numa determinada seqüência e relação, ou seja, planejar e esquematizar
a colocação correta de palavras ou idéias no papel. Este processo é um
tanto complicado até mesmo para grandes escritores , quem dirá para nós,
simples mortais. Vejamos os versos do grande poeta do Modernismo
brasileiro Carlos Drummond de Andrade.
“Gastei uma hora pensando um
verso
Que a pena não quer escrever
No entanto ele está cá dentro
Inquieto, vivo
Ele está cá dentro
E não quer sair.”
No entanto escrever não é
apenas uma questão de gramática, de morfologia ou de sintaxe, não é uma
questão de executar, certo ou errado, determinados padrões lingüísticos.
Não é tão pouco formar frases, nem sequer juntá-las, por mais bem
formadas que elas estejam.
Condemarín e Medina (2005, p.
63) firmam que: “Escrever ou produzir um texto é um ato fundamentalmente
comunicativo, assim, para aprender a escrever é necessário enfrentar a
necessidade de comunicar algo em uma situação real, a um destinatário
real, com propósitos reais.”
Em outras palavras é ativar
sentidos e representações já sedimentados que sejam relevantes num
determinado modelo de realidade e para um fim específico; é antes de
tudo, agir, atuar socialmente; é, nas mais diferentes oportunidades
realizar atos convencionalmente definidos, tipificados pelos grupos
sociais, atos normalizados, estabilizados em gêneros, com feição própria
e definida. É uma forma a mais de, tipicamente, externar intenções, de
praticar ações, de intervir socialmente, de “fazer”, afinal.
Para que ocorra o aprendizado
da escrita é necessário que se compreenda a real função dela. Função
esta que é muitas vezes ignorada pelas escolas por elas terem o único
objetivo de os alunos aprenderem redação. Assim afirma Kaufman (1995, p.
51):
“ O
absurdo da escola tradicional é que se escreve nada para ninguém. Todo o
esforço que a escola tradicional pede à criança é o de aprender a
escrever para demonstrar que sabe escrever.”
O problema acima citado é
comum nas escolas, mas é de fácil resolução. Uma das formas de buscar
uma eficiente aprendizagem na escrita, é antes de o professor iniciar
o ensino, planejar-se. O planejamento é algo importante não só na escola
como também na vida pessoal. O objetivo do planejamento é de o educador
levar em consideração o que os discentes sabem e o que eles ignoram,
podendo assim formular projetos de escrita que incentivem os alunos a
quererem produzir algo.
“Um
projeto de escrita pode ser concebido como um todo: por exemplo, um
livro de poemas, um jornal da classe, um guia turístico; ou como parte
de um projeto mais amplo. Por exemplo, uma carta ao gerente de uma
indústria que se deseja visitar, um cartaz para anunciar uma competição
esportiva, etc.” (Condemarín e Medina, 2005, p. 65)
Com o trecho acima enfatizo
os benefícios dos projetos que contam com algum receptor dos materiais
escritos, conhecidos e desconhecidos, mas leitor em potencial dos textos
que serão produzidos, já que ninguém, fora dos muros escolares, escreve
para ninguém. Sempre há um destinatário.
Estes projetos têm como
objetivo incentivar os alunos a melhorarem a escrita, pois conscientes
de que dentro da escola os únicos destinatários são seus professores e
seus pais, eles não têm uma real vontade para melhorar suas produções.
Muitos argumentam que o professor ou os pais entendem as letras deles,
mesmo que o traçado não seja legível, que sabem que são fracos na
ortografia e que quando não são claros no que escrevem os professores
ou os pais perguntam.
Com a aplicação desses
projetos, os textos escritos pelos alunos passam a ter um outro sentido
e a partir disto eles começam a se preocupar tanto com o conteúdo como
com a escrita e, conseqüentemente, melhoram a aprendizagem neste
quesito.
Um outro ponto importante que
o professor de Língua Portuguesa precisa saber é que ele é um educador
do pensamento e da interioridade dos alunos, pois a função do professor
de redação é de orientar o aluno através da leitura de textos ou
contação de histórias que se relacionem aos temas dados em sala de aula
para que eles desabrochem na escrita. Por exemplo, o educador pode
solicitar que o aluno disserte um texto sobre a desigualdade social,
e antes da produção ele pode ler a poesia “O bicho”, de Manuel Bandeira
que relata a triste situação de alguns seres humanos.
O ato de escrever é uma
atividade individual e solitária. É o momento em que se fecham as portas
do exterior e se abrem as portas do mundo interior para nele o indivíduo
mergulhar. Então, mesmo que o objetivo da escrita seja um
acontecimento, algo relacionado a uma realidade basicamente física, é
difícil para o discente escrever. Isso por que a realidade interior
somente adquire significado e organização a partir de uma realidade
exterior sob o prisma da realidade interior.
Resumindo, se o aluno não
tiver a ajuda do professor com leituras, debates ou discussões
específicas a cada trabalho, ele, se não for acostumado a viver sós com
os pensamentos e sensações, se não tiver um interior com idéias
organizadas e concretas, possivelmente, ao se deparar com um tema e uma
folha em branco, se perderá no emaranhado de suas idéias, pensamentos e
sentimentos. O mundo interior estará confuso e desorganizado e,
consequentemente, não saberá qual caminho seguir e tão pouco como
começar.
Como mais um exemplo deste
trabalho de ajuda, destaco o projeto da professora Maria Margarida
Simões Catali, ganhadora do Prêmio Victor Civita na categoria de Língua
Portuguesa. Em 1999, ela explorou fábulas com seus alunos de 5ª série.
Eles aprendiam detalhes dessa proposta narrativa enquanto refletiam
sobre a própria conduta, a dos colegas e a da sociedade. Lendo e
interpretando “A Cigarra e a Formiga”, de La Fontaine, todos discutiam
diversas morais possíveis para a história. Depois, cada um produziu um
texto defendendo seu ponto de vista.
A produção textual em grupo e
o uso do borrão são maneiras eficientes de melhorar a escrita. O
primeiro, através de debates com os colegas, ativa a idéia de quem tem
dificuldade em produzir texto. Além de ser uma forma de um avaliar o
texto do outro, indicando os erros ou melhorando passagens do que está
escrito ou expressões. Este trabalho estimula a leitura crítica e
estabelece relações de ajuda recíproca entre eles, transformando-os em
verdadeiros avaliadores. O professor de Português pode criar uma ficha
de avaliação para ajudar e orientar os alunos na prática da avaliação.
Os itens usados como elementos de uma ficha de auto-avaliação ou de
avaliação em grupo pode ser modificada, de acordo com a vontade do
professor ou o nível e vontade dos alunos.Observemos abaixo um modelo de
ficha de avaliação.
Escola:
Aluno= Autor: Nº Série=
Classe:
O = Ótimo B =
Bom R = Regular
|
Ficha de Avaliação |
|
Aspectos Estéticos |
Aspectos Estilísticos |
|
a.
Legibilidade da letra |
|
a.
Repetição de palavras |
|
b.
Paragrafação |
|
b. Frases
longas |
|
c. Margens
irregulares |
|
c. Emprego
de palavras desnecessárias |
|
d.
Travessão |
|
d.
Escrever como se estivesse falando |
|
e. Ausência
de rasuras |
|
Aspectos Estruturais |
|
Aspectos Gramaticais |
Este
aspecto é diferenciado para cada redação, principalmente se os
gêneros forem diferentes. Esse é o aspecto principal da
avaliação. |
|
a.
Ortografia |
|
|
b.
Acentuação |
|
|
c.
Concordância |
|
|
d.
Pontuação |
|
Obs: Apontar os erros na redação do
colega a lápis.
Antes de aplicar a ficha de
avaliação, o professor deve exigir a elaboração do rascunho. O aluno
precisa saber o motivo da exigência e a utilidade do rascunho, pois tal
fase é feita naturalmente pelo escritor, pelo jornalista, pelo pinto,
pelo desenhista, pelo advogado e outros profissionais que dele
necessitam para um bom resultado do trabalho. Só os broncos e arrogantes
dispensam o rascunho.
Precisa ficar bem claro para o
aluno (são muitos os que não gostam de utilizar o borrão em suas tarefas
de produção textual) que o rascunho não é apenas uma exigência chata do
professor, assim como ele precisa saber usá-lo. Se o discente
mecanicamente passa do borrão para o texto definitivo, sem uma leitura
crítica (sua ou de seu colega) ele de fato vai se tornar uma atividade
enfadonha e não haverá possibilidade da observação dos erros ou da
organização das idéias.
Como forma de educar o aluno
para a feitura do rascunho, já que este procedimento é importante para o
ensino-aprendizagem da escrita, é bom pedir para cada um entregá-lo a
um colega para que os olhos estranhos procedam à revisão. Quando o texto
for feito em casa, pede-se para o aluno “deixar o texto dormir” , ou
seja, só passar a limpo horas depois ou no dia seguinte. Assim, ele
ganhará distanciamento crítico e descobrirá os erros que seriam
despercebidos caso passasse a produção textual a limpo imediatamente.
Tanto a aprendizagem da
leitura como da escrita só terá um bom desenvolvimento, se o professor
tiver o hábito de ler e de escrever, pois só assim ele será mais
tolerante tanto na hora de avaliar as produções textuais dos alunos como
também na hora de selecionar os textos para serem lidos. Não dá para
ensinar futebol sem nunca ter praticado o esporte. Então? Como ensinar
a ler e escrever sem nunca ter lido ou redigido um texto na vida?
Uma outra dificuldade que
envolve um bom desenvolvimento tanto da leitura como da escrita é a
tão cobrada ortografia, ou seja, a escrita bonita. E é por valorizar
esta escrita bonita que muitos professores pecam ao avaliar os textos
dos alunos, causando assim um grande desestímulo por parte dos mesmos e
retardando o aprendizado não só da ortografia como também da escrita e
da leitura.
“Quando se considera em primeiro lugar os
erros ortográficos ao avaliar o texto, sem antes dar atenção suficiente
ao seu conjunto, provoca-se uma deterioração na relação do aluno com o
ato de escrever revelando uma concepção limitada da escrita. Nesse
sentido, as excessivas correções ortográficas acabam levando o aluno a
empobrecer seus escritos para evitar correr o risco de cometer muitos
erros que serão sancionados pelo professor”. ( Condemarín e Medina,
2005, p. 67)
A ortografia é importante dentro de um
texto, mas não se deve fazer drama em cima dos erros ortográficos e sim
a partir deles tentar ajudar os alunos. São muitos os procedimentos para
orientar os discentes para não escreverem errado.
Na hora do planejamento não colocar no plano mensal a
ortografia exigida pelo plano anual para aquele dado mês, mas observar ,
através das produções textuais dos alunos os erros ortográficos mais
repetidos. Assim, trabalhar-se-á as deficiências ortográficas mais
necessárias a cada turma.
Além de se trabalhar a ortografia correta sem seguir um
plano, apenas por exigência para aquela série, sem saber qual a real
necessidade do aluno, pode-se chamar, dependendo do erro cada discente
para uma conversa amigável, sem fazer escândalo com os erros, ou então
comentá-los na lousa, sem dizer de quem são os erros, pois o objetivo
deste método é evitar que outros cometam os mesmos erros e não
constranger o aluno. Esses comentários devem ser feitos de forma bem
natural para que os alunos aprendam ao invés de ficarem tensos ou de
zombarem dos que erraram.
A leitura e a escrita são
muito importantes na aprendizagem da ortografia, pois quanto mais o
aluno ler e produz texto, mais ele entra em contato com as palavras e
consequentemente aprende, sem a imposição ou os recadinhos, muitas vezes
negativos, de certos professores tradicionalistas que acabam
desmotivando o aluno não só a deixar de produzir os textos por acharem
que não sabem escrever, como também de perderem a oportunidade de
aprender a escrever corretamente.
Como forma de ensinar ortografia aos alunos é transformar
estas aulas em algo prazeroso. Uma dica é fazer dinâmica em sala de aula
ou fora dela.
Vejamos um exemplo de uma ótima aula de ortografia em que os
alunos aprendem sem muita cobrança. Este método pode ser aplicado tanto
para os alunos do Ensino Fundamental como para o Ensino Médio.
Primeiro passo: Dividir os alunos em grupos. Segundo passo:
Colocar várias palavras de um mesmo trabalho ortográfico ( como por
exemplo: s, ss, sc, xc. ç ) e dividir em colunas na quantidade de
grupos. Terceiro passo: Pedir para um aluno de cada grupo
escolhido, depois de uma observação em grupo, ir até o quadro e
preencher os espaços em branco referente ao seu grupo. Quarto passo:
Após o término da atividade, os próprios alunos observarão se as
palavras estão escritas corretamente ou erradas. Caso estejam erradas
justificar o erro e consertar.
Esta atividade proporciona um debate em sala de aula e o
aluno aprende de forma mais agradável e menos enfadonha, diminuindo as
dificuldades na aprendizagem ortográfica.
Conclusão
Para
Condemarín e Medina (2005, p. 67) “A ortografia não constitui um aspecto
separado do conjunto do texto; ao contrário, para que os alunos avancem
em suas competências ortográficas, é necessário que considerem o
conjunto do que escreverem, dado que muitas vezes os erros ortográficos
decorrem de uma má percepção dos aspectos pragmáticos, semânticos e
morfossintáticos do texto...”
Resumindo, sem contrariar as idéias do escritor escolhido, a
ortografia, a leitura e a escrita estão interligados, ou seja, para
aprender a ler, precisa-se da ortografia, para aprender a escrever,
precisa-se da leitura e da ortografia e assim sucessivamente.
As dificuldades na leitura, na escrita ou na ortografia só
irão melhorar quando boa parte dos professores de Língua Portuguesa,
preocuparem-se com o verdadeiro aprendizado do aluno e deixarem um pouco
de lado os planos que não são compatíveis aos níveis dos discentes.
Referências Bibliográficas
CONDEMARÍN, Mabel; MEDINA, Alejandra.
Avaliação Autêntica: um meio para melhorar as competências em linguagem
e comunicação. Tradução de Fátima Murad. Porto Alegre: Artmed, 2005
GERALDI, João Vanderley (org). O texto
na sala de aula. 3ª ed. São Paulo. Ática, 1999.
KAUFMAN, Ana Maria Rodriguez. Escola,
Leitura e Produção de Textos. Tradução Inajara Rodrigues. Porto
Alegre: Artes Médicas, 1995
MOREIRA,
Nadja da Costa Ribeiro. Orientações para o ensino da leitura.
Revista de letras, nº 07 (1/2) UFC
SMITH,
Frank. Compreendendo a leitura: uma análise psicolingüística da
leitura e do aprender a ler. 4ª ed. Tradução de Daise Batista.
Alegre: Artmed, 2003
Luciana
Cláudia de Castro Olímpio é graduada em Letras. O presente artigo foi
orientado pelo professor Vicente Martins, da Universidade Estadual Vale
do Acaraú(UVA), em Sobral, Estado do Ceará. |