Resumo:
Este trabalho tem como objetivo descrever os diferentes tipos de
distúrbios de leitura, no que se refere à neuropsicologia do
adulto e da criança, de acordo com os estudos apresentados por
diversos autores e à luz de diferentes hipóteses teóricas surgidas
a partir da fragmentação do conceito de dislexia. Dentro dessa
perspectiva, serão definidas as dislexias adquiridas e as
dislexias do desenvolvimento, bem como apresentados os principais
métodos de reeducação do disléxico.
Palavras-chave:
Dislexia, gênese da dislexia, distúrbio da leitura, reeducação do
disléxico.
Abstract:
This paper aims to describe the different types of reading
disorders, with regard to the neuropsychology of adult and child,
according to studies presented by several authors based on
different theoretical assumptions arising from the fragmentation
of concept of dyslexia. In this perspective, acquired dyslexia and
developmental dyslexia will be defined and main methods of
rehabilitation of dyslexic will be presented.
Keywords: Dyslexia, genesis of dyslexia, reading disorder,
rehabilitation of dyslexic.
Introdução
Os distúrbios de aprendizagem da leitura sempre foram problemas
preocupantes para a sociedade que, desde o final do século XIX, já
empreendia sérias discussões e pesquisas em torno desses
problemas, sua etiologia e possíveis soluções para os mesmos. O
processo de aquisição da leitura e escrita requer certas
habilidades cognitivas e perceptivo-linguístcas, como a integração
auditivo-visual e a ordenação. A ausência dessas habilidades
básicas, portanto é um indício de um desses distúrbios: a
dislexia.
A dislexia se constitui um dos distúrbios de organização que pode
afetar o indivíduo, impedindo-o de progredir no processo de
aquisição da leitura e escrita, por isso ela está sempre associada
a fracassos escolares. Sendo a dislexia causadora de tais
fracassos, nas últimas décadas, professores, pedagogos,
psicólogos, neuropsicólogos e outros especialistas têm se
empenhado no estudo da etiologia, dos aspectos e dos critérios
para o diagnóstico da dislexia, bem como na criação de métodos e
técnicas de reeducação, a fim de minimizar ou solucionar os
problemas de linguagem que a criança disléxica apresenta. As bases
teóricas apresentadas por esses estudiosos divergem
consideravelmente no que tange ao conceito e à gênese da dislexia,
por isso são várias as concepções a respeito desse distúrbio.
O que é dislexia?
Dislexia, por ser um termo abrangente, tem causado muitas
divergências entre os especialistas. Embora todos concordem que a
dislexia se trata de uma insuficiência do domínio da leitura,
podem ser consideradas duas acepções para esse termo: 1) a
dislexia corresponde às dificuldades no aprendizado da leitura e
escrita, originadas por fatores psicopedagógicos, deficiências
sensoriais ou mentais ou fatores socioculturais; 2) a dislexia se
refere às dificuldades de leitura e escrita observadas em
indivíduos perfeitamente normais, sem problemas quaisquer de
natureza pedagógica, neuropsicológica ou social.
De acordo com a World Federation of Neurology, a dislexia
corresponde a uma dificuldade na aprendizagem da leitura, embora o
aprendiz disponha de QI normal, certa instrução e condições
socioculturais. Tal definição exclui, portanto, os indivíduos que
apresentam problemas sensoriais ou psicológicos e que provêm de
classes sociais desfavorecidas.
Há autores que fazem menção à dislexia-agrafia, a qual corresponde
à capacidade que têm algumas crianças de operar e de memorizar,
com erros, a união fonema-grafema. Bouvard afirma que a dislexia
“é um atraso em leitura e/ou ortografia, de três anos ou mais,
após os dez anos de idade mental: dois ou mais abaixo da mesma
idade e os casos caracterizados por inversão de letras e sílabas”
(BOUVARD apud AJURIAGUERRA, 1990, p.100). Sob um mesmo
prisma, Vallet considera a dislexia uma falta de organização dos
símbolos preceptivo-lingüísticos, em decorrência de imaturidade ou
de disfunção neuropsicológica. Em seu trabalho, Vallet apresenta
seis manifestações de comportamento característico da dislexia,
resumidas por alguns pesquisadores: desorganização, inversões e
“torções” de símbolos; disfunção da memória auditivo/visual
sequencial; problemas na padronização rítmica de sons, rimas,
palavras e sentenças; dificuldade de atenção focalizada; desordens
de organização corporal, coordenação e integração sensorial;
distorções associadas na cópia, na escrita e no desenho (VALLET,
1986, p.63-64).
Como se observa, Bouvard e Vallet
apresentam definições mais amplas e pedagógicas para a dislexia.
Ambos concordam que a dislexia corresponde a uma defasagem de
leitura e escrita, apresentada por crianças em idade escolar,
caracterizada por uma deficiência sintomática de natureza
biológica.
Hipóteses explicativas
É evidente que não há um consenso no que se refere à definição da
dislexia. Os estudiosos são unânimes apenas no que tange à
sintomatologia desse distúrbio, porém, como existe uma diversidade
de quadros clínicos, surgiram várias hipóteses explicativas da
etiologia desse distúrbio, as quais são agrupadas em cinco
correntes distintas: a organicista, a instrumental, a pedagógica,
a afetiva, a sociocultural. Dessas cinco correntes, destacam-se as
três primeiras.
Formada por neurologistas e neuropsicólogos, a corrente
organicista tem como representantes Orton, Boder, Marshall e
Newcombe. A ela se deve a descoberta dos distúrbios de leitura, o
desenvolvimento de diversos modelos explicativos e de metodologias
de exames conforme esses modelos. Sobre a etiologia, essa corrente
promove três tipos de explicações teóricas: a das lesões
cerebrais, a da origem hereditária e a do atraso de maturação
cerebral.
De acordo com a primeira explicação teórica, o distúrbio resulta
de uma ou mais deficiências na atenção, na memória e nos processos
cognitivos, as quais teriam sua origem durante a vida uterina ou
durante o aprendizado da leitura. Assim, desenvolvem-se, para o
diagnóstico, baterias neuropediátricas, pesquisando a vida da
criança nos períodos pré-natal, neonatal e perinatal. A segunda
explicação distingue três tipos de dislexia, de acordo com a
relação entre a idade léxica e a idade real do disléxico: dislexia
maior, dislexia média e dislexia menor. Para o diagnóstico,
realizam-se exames nos disléxicos, seus ascendentes e colaterais,
a fim de distinguir os portadores dos distúrbios daqueles
não-portadores. A teoria do retardo de maturação cerebral se
baseia na coleta de dados comportamentais, através de testes
vísuo-espaciais. Os distúrbios se originam, de acordo com essa
teoria, de um atraso de lateralização cerebral, resultando num
atraso na função de reconhecimento visual e auditivo dos símbolos
lingüísticos.
Desestruturando a concepção unitária de dislexia, Marshall e
Newcombe distinguem dois tipos de dislexia, em relação à
neuropsicologia do adulto: a dislexia profunda e a dislexia
superficial. Em relação à neuropsicologia infantil, Boder
distingue subgrupos de dislexia: os disfonéticos, os diseidéticos
e os disléxicos do tipo misto (GRÉGOIRE; PÉRIART, 1997).
Refletindo a concepção dos psicólogos escolares e fonoaudiólogos,
a corrente instrumental tem como representantes Ajuriaguerra,
Borel-Maisonny, Galifret-Granjon, Stambak, Vellutino, Ellis e
Frith. Ela se caracteriza, principalmente, pela tentativa de
definir e evidenciar fatores causadores da dislexia. De acordo com
ela, as percepções visual e auditiva desempenham papel primordial
na gênese da dislexia. Assim, ela propõe três critérios para o
diagnóstico da dislexia: nível de leitura oral e ortografia da
criança; presença de erros característicos da
dislexia-disortografia e resultados dos testes instrumentais.
Fragmentando o conceito de dislexia, essa corrente propõe também
os modelos genéticos da leitura, apresentando alguns princípios e
suposições: 1) o desenvolvimento da leitura se produz obedecendo a
certa ordem; 2) as mudanças observadas no curso desse
desenvolvimento são mais quantitativas; 3) a leitura e a escrita
se apóiam mutuamente; 4) as dislexias do desenvolvimento não podem
ser comparadas às dislexias adquiridas do adulto num contexto de
acidente cerebral, visto que, naquelas, as perturbações seletivas
de certas modalidades de tratamento não são observáveis.
Dentre os modelos genéticos, estão os de Marsh e cols. e os de
Harris e Coltheard, compreendendo quatro estágios; os de Morton e
os de Frith, compreendendo três estágios. De acordo com Frith,
esses estágios são: o lalográfico, em que o indivíduo pode
realizar a leitura, baseando-se em indícios visuais marcantes,
comprimento e regularidade das palavras e seus contextos figurado
e sintático; o alfabético, em que os fatores fonéticos são
primordiais, pois é nele que indivíduo torna-se capaz de ler
palavras desconhecidas, descobrindo a possibilidade de segmentação
destas em unidades menores que a sílaba: os fonemas; o
ortográfico, no qual se dá aos morfemas um tratamento analítico e
sistemático, havendo uma interação entre as atividades de
leitura-escrita e as capacidades que o indivíduo tem de abstração,
construindo, assim, estratégias da leitura adulta.
Diversos modelos genéticos e comparativos surgiram
simultaneamente, a partir da fragmentação do conceito de dislexia.
De acordo com eles, existem três facetas consideradas, atualmente,
imprescindíveis para que o indivíduo aprenda a ler: “a consciência
fonética e a aptidão para segmentar o material verbal em unidades
menores que a sílaba; a rapidez de denominação e de acesso ao
léxico mental; a manutenção da informação fonética na memória de
trabalho” (GRÉGOIRE; PÉRIART, 1997, p.31). Dessa forma, esses três
fatores desempenham papel relevante nos distúrbios da leitura,
visto que há uma forte ligação causal entre as capacidades
fonológicas e o desempenho em leitura, ligação esta em que a
consciência fonológica é de extrema importância para a
aprendizagem da leitura em fase inicial.
Composta por professores e pedagogos, a corrente pedagógica se
empenha na avaliação da leitura e propõe testes de simulações
superficiais das operações de leitura. Seu principal representante
é Lobrot. Segundo ele, a dislexia está estritamente ligada à
relação do indivíduo com a cultura. Para demonstrar esse caráter
cultural desse distúrbio, ele aponta três categorias de fatos: a)
a dislexia se manifesta freqüentemente em meios culturais mais
baixos, onde as pessoas geralmente têm atitudes desfavoráveis em
relação à criança; b) geralmente a dislexia está relacionada às
línguas de combinação, as quais possuem um sistema audiovisual em
que os elementos gráficos representam, de maneira isolada, os
fonemas, bem como um sistema ideovisual em que os grafemas
significam as idéias e realidades; c) embora não seja a causa
direta da dislexia, um pedagogia inadequada pode levar um
indivíduo com QI inferior a adquirir esse distúrbio com mais
facilidade (AJURIAGUERRA, 1984).
A dislexia é um distúrbio que pode atingir qualquer indivíduo,
entretanto, segundo Jorm (1984), sua incidência tem sido maior em
certos tipos de comunidade, geralmente aquelas em que o indivíduo
apresenta problemas sociais e escolares, e cujas famílias são
numerosas e não possuem status social.
Classificação das dislexias
As dificuldades em leitura e ortografia podem afetar o indivíduo
de diferentes formas, visto que estes são processos muito
complexos. Por isso os especialistas distinguem categoricamente
dois tipos de dislexia: a dislexia adquirida e a dislexia do
desenvolvimento. A primeira, geralmente mais observada em adultos
do que em criança, é a perda da capacidade de ler e escrever
através de dano cerebral (JORM, 1984, p.12); a segunda, mais
observada em crianças, é a dificuldade na aquisição da leitura e
escrita durante o processo de alfabetização.
As dislexias adquiridas resultam de lesões cerebrais e
correspondem a diferentes prejuízos no processo de leitura e
ortografia. Ellis (1985), baseando-se em uma distinção proposta
por Shallice (1980), aponta dois tipos de dislexias adquiridas: as
dislexias periféricas e as dislexias centrais. De
acordo com ele, os prejuízos na percepção das letras nas palavras,
ocasionados por transtornos em que o sistema de análise visual
está afetado, são denominados dislexias periféricas. As dislexias
centrais, por outro lado, correspondem às dificuldades de
compreensão de material gráfico, oriundas de danos no processo e
no sistema de análise visual. Ellis (1985) propõe uma subdivisão
para as dislexias periféricas: dislexia por negligência,
dislexia por atenção e leitura letra por letra. A
dislexia por negligência é a incapacidade para identificar as
letras iniciais das palavras, embora o indivíduo afetado tenha
consciência da sua presença. Assim ele lê “lima” ao invés de
“clima”, “falar” como “calar”, etc. A dislexia da atenção é
característica do indivíduo que, ao encontrar várias letras em uma
seqüência ou diferentes palavras numa frase, comete erros, fazendo
com que as letras migrem de uma palavra para outra. Dessa forma,
ao ver as palavras “bandido” e “carteira”, o indivíduo lê
“bandeira”. Outra variedade da dislexia periférica é a leitura
letra por letra, em que o disléxico, para ler uma palavra,
necessita da identificação das letras isoladamente, convertendo-as
em seus nomes ao invés de convertê-los em seus sons. Uma palavra
como “você” será lida por ele da seguinte forma: “vê” “ô” “cê”
“ê”, ao invés de [vo’se]. Por isso sua leitura é lente, monótona e
sujeita a erros.
As variedades de dislexias centrais são agrupadas em quatro tipos:
leitura não-semântica, dislexia de superfície,
dislexia fonológica e dislexia profunda. A leitura
não-semântica corresponde a um prejuízo no sistema semântico,
apesar da preservação do sistema de análise visual e do nível do
fonema. O indivíduo com esse problema apresenta incapacidade de
compreensão do significado das palavras, embora apresente
capacidade para converter as letras em sons, demonstrando,
inclusive, a capacidade de fazer leitura de não-palavras. A
dislexia de superfície corresponde a um distúrbio em que o
indivíduo tende a tratar palavras conhecidas como se fossem novas,
devido a uma má aplicação das regras de correspondência entre
grafema-fonema (GRÉGOIRE; PIÉRART, 1997, p. 27-28), por isso
ele converte cada palavra em fonema e pronuncia a seqüência de
sons resultante. Para tanto, ele faz uso da via que liga o sistema
de análise visual ao nível do fonema. A dislexia fonológica
refere-se à incapacidade de ler palavras que não fazem parte do
vocabulário do indivíduo ou de não-palavras em voz alta.
Geralmente o disléxico fonológico apresenta danos no procedimento
de leitura sublexical e, portanto, tem dificuldade de fazer uso do
mesmo. A dislexia profunda é um tipo de distúrbio em que o
indivíduo comete erros visuais, semânticos e de derivação. O
indivíduo que apresenta tal distúrbio tem mais dificuldades para
ler palavras abstratas como “dor”, “vida” do que palavras
concretas como “bola” e “casa”. Além disso, ele também demonstra
incapacidade de ler palavras não-familiares e palavras inventadas.
As dislexias do desenvolvimento correspondem às falhas em adquirir
as habilidades de leitura e escrita durante o curso do
desenvolvimento normal (JORM, 1985, p.12). Segundo Ellis
(1985), elas se subdividem em duas categorias: a dislexia fonológica
e a dislexia de superfície. A dislexia fonológica
do desenvolvimento caracteriza-se por uma deficiência na
decodificação fônica. Apesar da capacidade que o disléxico
fonológico tem para reconhecer visualmente as palavras já
conhecidas, ele demonstra incapacidade para ler palavras novas.
Seus erros são, normalmente, de percepção visual, por isso ele lê
“chuva” como “chave”, “ovo” como “uva”, etc. Este tipo de
distúrbio corresponde ao que Boder (1971;1973) denominou dislexia
disfonética. A dislexia de superfície do desenvolvimento é
caracterizada por leitura lenta, através de um processo de análise
e síntese. Geralmente o indivíduo com este tipo de problema só é
capaz de ler palavras curtas e seu vocabulário visual é restrito.
Seus erros mais comuns são as regularizações de palavras
irregulares. Estes erros são também característicos do tipo de
distúrbio que Boder (1971; 1973) denominou dislexia diseidética.
Há autores que refutam ainda outro tipo de dislexia do
desenvolvimento: a dislexia profunda, caracterizada por
erros semânticos para palavras isoladas. Porém este tipo de
distúrbio é raro, pois a maior parte das crianças disléxicas não
apresenta manifestações de comportamento característico da
dislexia profunda do desenvolvimento.
Métodos de reeducação do disléxico
A reeducação tem por objetivo suprir a incapacidade neurológica
que o disléxico tem para reconhecer e distinguir as letras do
alfabeto, bem como os sons que estas representam. Consiste, pois,
em uma
atividade pedagógica planejada que se vale de técnicas e recursos
organizados com o fim de ajudar certo tipo de leitor inábil a
tornar-se hábil, quer reformando seus conhecimentos léxicos
defeituosos, quer dando-lhes os que não conseguiu adquirir em
razão das características que o definem como disléxico. (SANTOS:
1984, p.89).
Santos (1984) afirma, inclusive, que a criança disléxica deve ser
alfabetizada através de um método mais fonético ou
analítico-sintético, em que se priorize a correspondência
grafema-fonema. Sobre esse aspecto, Ellis (1985, p. 123) salienta
que “os métodos de ensino usados com os disléxicos tendem a
colocar grande ênfase sobre a fonética (HORNSBY, 1985; NAIDOO,
1981). Isto é, eles dirigem ao que é, para muitos disléxicos, a
maior área de dificuldades”. E mais adiante afirma
um leitor que adquire uma compreensão razoável da fonética está
em uma melhor posição para fazer progresso, porque terá uma chance
de identificar palavras encontradas por escrito pela primeira vez.
O leitor que não possui um entendimento fonético apenas pode
adivinhar ou indagar. (ELLIS: 1985, 123)
Entretanto, tendo como argumento o caso descrito por Campbell e
Butterworth sobre uma estudante disléxica que, embora submetida ao
método fonético não conseguiu progredir, Ellis conclui: “Pode ser
que existam alguns disléxicos cujos déficits fonológicos são tão
severos que nenhuma quantidade de instrução poderá permitir que
desenvolvam e usem as correspondências sublexicais de letras-sons”
(ELLIS: 1984, 123).
É evidente que cabe ao médico diagnosticar a dislexia na criança,
porém o seu tratamento deve ser desenvolvido por educadores, em
conjunto com psicólogos, médicos especialistas e pais. Para os
casos de dislexia adquirida, faz-se necessário um
tratamento específico, acompanhado por um especialista, de acordo
com a deficiência apresentada pelo disléxico. Para os casos de
dislexia do desenvolvimento, existem métodos específicos de
reeducação criados por psiquiatras, neurologistas, psicólogos e
professores, com a finalidade de conduzir o disléxico à
aprendizagem da leitura e da escrita. Conforme Santos (1984), os
métodos de reeducação mais conhecidos são: o método Gillingham,
o método dinamarquês, o método combinado, o
método de Kocher, o método de Bourcier e o método de
Chassagny.
Criado pela psicóloga Anna Gillingham, este método, também chamado
de método alfabético, baseia-se na associação da visão,
audição e do movimento. Partindo do nome da letra, a criança
deverá chegar ao som representado por esta. Inicialmente o
reeducador apresenta, à criança, a letra tipo script e diz
que o nome desta letra, o qual deverá ser repetido pela criança.
Em seguida, o reeducado pronuncia o fonema e a criança repete.
Após a aprendizagem do nome, do som e da grafia das letras, a
criança aprende a associar as letras em sílabas e palavras.
Posteriormente, a criança inicia a fase de soletração, em que
deverá analisar palavras, decompondo-as em fonemas.
Criado pela fonoaudióloga Edith Norrie, o método dinamarquês
ganhou caráter estritamente fonético com a finalidade de servir
para o treino da fala e para exercícios de leitura e de
ortografia. Ele parte da composição de palavras e sentenças
através de letras móveis, impressas em cores: as vogais, em
vermelho; as consoantes sonoras e surdas, respectivamente, em
cinza e preto. À medida que a criança pronuncia o som
correspondente a cada letra, ela pode observar, através de um
espelho, o movimento de seus lábios e da sua língua. De acordo com
esse método, o processo de reeducação envolve ditado, gramática e
leitura, priorizando sempre o aspecto que se constitui a maior
dificuldade do disléxico.
Criado por Borel-Maisonny, o método combinado apresenta como
característica peculiar a associação som-gesto simbólico.
Inicialmente são desenvolvidos exercícios de representação
especial e noções de número, além da correção de qualquer defeito
articulatório. Posteriormente o reeducador ensina o som das
letras, o qual deverá ser pronunciado mediante gesto que simbolize
a letra ou o som. Depois que a criança aprende a associar o som à
letra que o representa, a simbolização gestual é abandonada.
De acordo com o método Kocher, o ensino das letras deve ser
iniciado pelas vogais, as quais devem ser distinguidas das
consoantes por uma cor diferente. Propõe, então, que se ensine,
posteriormente, as consoantes fricativas e líquidas e, depois, as
oclusivas, evitando-se trabalhar as consoantes “b” e “d”
junto com as consoantes “q” e “p”, devido à
semelhança gráfica, a qual poderá gerar confusões. Inicialmente o
reeducador pronuncia o som da letra e depois apresenta a sua forma
gráfica. O aluno deve observar as características gerais da
pronúncia da letra, como pontos de articulação, presença ou
ausência de sonoridade, nível em que as vibrações são percebidas.
Posteriormente, para que a criança perceba a diferença entre as
consoantes sonoras e as surdas, o reeducador deverá um quadro com
a disposição das consoantes em duas fileiras horizontais, formando
pares opostos.
De acordo com Ariette Bourcier, criadora do método Bourcier, a
reeducação do disléxico deve partir da análise de estruturas mais
simples para a análise de estruturas mais complexas, ou seja, do
estudo de fonemas para o estudo de silabas, palavras, orações e
estórias. Para tanto, o reeducador deve utilizar fichas de leitura
para casa, com exercícios de permutação que servem para prevenir
as inversões de letras. A criança, inicialmente, deverá fazer o
reconhecimento das letras, uma a uma, ou a diferenciação entre
duas letras ou fonemas que lhe geravam confusão. Posteriormente a
criança deverá fazer o estudo de letras com diferentes modos de
pronúncia, bem como de sons e sílabas mais complexas.
O processo de reeducação, de acordo com o método de Chassagny,
desenvolve-se em duas etapas, a sessão com o reeducador e o
desenvolvimento de atividades em casa. No primeiro momento do
processo de reeducação, são desenvolvidos exercícios psicomotores
no quadro-negro, no caderno e no livro, tendo por finalidade
desenvolver a orientação espacial. No segundo momento, são
aplicados exercícios de permutação de consoantes e vogais, com
três e duas letras, a fim de desenvolver a habilidade de leitura e
escrita. As consoantes oclusivas são apresentadas
simultaneamente, através de sílabas como dra, bro,
qui, bri. As fricativas também são apresentadas
simultaneamente através de combinações como fa, vra,
etc. As palavras constituídas por tais sílabas são apresentadas em
seguida, para que o disléxico perceba as diferenças entre elas.
Depois que o aluno apresenta domínio de vocabulário, dá-se início
à conversação, em que se utilizam trechos de leitura e resumos
orais de estórias. Para os casos mais graves de dislexia, é
necessário recorrer a técnicas especiais, como os métodos
vísuo-audiocenestésicos, em que, além do emprego da visão e da
audição, empregam-se os movimentos; e os métodos
vísuo-audiocenestésicos-táteis, em que o contato do dedo com o
material a ser lido é fundamental.
A escolha deste ou daquele método depende da gravidade da dislexia
e das características peculiares do disléxico, podendo, inclusive,
haver variações de métodos. Dessa forma, cabe ao reeducador
analisar as possibilidades de combinações e variações de métodos,
de acordo com as deficiências do disléxico.
Conclusão
Tradicionalmente o termo dislexia era empregado apenas para
designar as dificuldades no processo de aquisição da leitura.
Porém, para se chegar à compreensão desse termo, atualmente,
faz-se necessário considerá-lo em sentido amplo e em sentido
estrito. Em sentido amplo, a dislexia designa qualquer dificuldade
para ler e compreender a escrita, independente de sua etiologia:
problemas psicopedagógicos, deficiências sensoriais ou mentais,
etc. Tomada em sentido estrito, a dislexia denomina um tipo de
distúrbio de leitura caracterizado por dificuldade específica na
aprendizagem da identificação de símbolos gráficos, embora a
criança apresente inteligência normal, integridade sensorial e
disponha de ensino adequado. Na concepção de dislexia em sentido
amplo, encontram-se as dislexias adquiridas, as quais resultam de
danos cerebrais. Distinguem-se, então, de acordo com a área
afetada no processo normal de leitura: dislexia por negligência,
dislexia da atenção, leitura letra-por-letra, leitura
não-semântica, dislexia de superfície, dislexia fonológica e
dislexia profunda. Subjacentes ao conceito de dislexia em sentido
estrito estão as dislexias do desenvolvimento. De acordo com a
deficiência cognitiva apresentada, podem-se dinstinguir: dislexia
fonológica do desenvolvimento e dislexia de superfície do
desenvolvimento.
Os problemas de leitura que o disléxico apresenta
correspondem ao resultado final de uma série de desorganizações
que já se apresentavam em todas as funções básicas necessárias
para o desenvolvimento da recepção, expressão e integração,
subjacentes à função simbólica. O disléxico apresenta problemas
que refletem no seu “mau desempenho” em leitura, a qual é lenta e
difícil de progredir, devido à incapacidade de traduzir sons em
símbolos gráficos. A leitura, assim, caracteriza-se por inversões
de letras e sílabas, falta de pronúncia e ensurdecimento de
consoantes, confusões entre letras cujas formas se assemelham e
erros de transcodificação grafema-fonema. Vários métodos e
técnicas foram propostos para a solução desses problemas, pois o
disléxico necessita de tratamento especializado tanto quanto
qualquer outro deficiente em linguagem. Para tanto, faz-se
necessário o apoio dos pais e professores, aos quais devem
encaminhá-lo ao tratamento, bem como colaborar nesse tratamento, a
partir da escolha e aplicação do método mais adequado às
deficiências do disléxico.
Referências
AJURIAGUERRA, L. de et al.
A dislexia em questão:
dificuldades e fracassos na aprendizagem da língua escrita. Trad.
de iria M. Renaut de C. Silva. Porto Alegre: Artes Médicas, 1984.
ELLIS, Andrew W. Leitura, escrita e dislexia: uma análise
cognitiva. 2. ed. Porto Alegre: Artes Médicas, 1985.
GREGOIRE, Jaques; PIÉRART, Bernadette. Avaliação de leitura:
os novos modelos teóricos e suas implicações diagnósticas. Trad.
de M. Regina Borges. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
JORM, A. F. Psicologia das dificuldades em leitura e ortografia.
Trad. de M. Cristina R. Goulart. Porto Alegre: Artes Médicas,
1985.
SANTOS, Cacilda Cuba dos. Dislexia específica de evolução.
São Paulo: Sarvier, 1984.
VALLET, Robert E. Dislexia: uma abordagem neuropsicológica
para a educação de crianças com graves desordens de leitura. São
Paulo: Manole Ltda. 1986.
[*]
Mestre em Letras e Linguística pela Universidade Federal da
Bahia. Professora de Linguística da Faculdade de Ciências
Educacionais.