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ISSN 1678-8419         última atualização em: sábado, 03 de julho de 2010 23:46:09                                               

 
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EDUCAÇÃO
Desafios e possibilidades do trabalho com a diversidade linguística na escola

Fernanda Duarte Araújo Silva*; Bruna Paulina de Carvalho Silva**

publicado em 03/07/2010

 

Resumo

O presente artigo tem como objetivo discutir alguns conceitos de linguagem e a partir deles tecer algumas considerações sobre o trabalho pedagógico que deve ser desenvolvido nas instituições escolares. Autores como Possenti (1996); Antunes (2007) destacam que a concepção de linguagem deixou de ser entendida na atualidade apenas como a expressão do pensamento para ser vista também como um instrumento de comunicação e interação no ato social. Percebemos em linhas gerais, que ainda perpetuamos no contexto social uma grande desvalorização das diversas linguagens, com um ensino de mera reprodução e imposição do que achamos correto ensinar.    

Palavras-chave: Linguagem, Educação, Diversidade Cultural.

Abstract

This article aims to discuss some concepts of language and from them make a few remarks on the pedagogical work that must be developed in schools. Authors like Possenti (1996); Antunes (2007) emphasize that the conception of language no longer understood today only as the expression of thought to also be seen as a tool for communication and interaction in the social act. We realize in general, still perpetuate social context a major devaluation of the various languages, with a mere reproduction of education and enforcement of what we teach correct.  

Keywords: Language, Education, Cultural Diversity.

 

O presente trabalho pretende discutir alguns conceitos de linguagem e a partir deles tecer algumas considerações sobre o trabalho pedagógico que deve ser desenvolvido nas instituições escolares. Não temos a pretensão de esgotar um tema tão vasto como este, mas sim, abordar aspectos essenciais no que diz respeito à valorização de diferentes formas de linguagem.

Autores como Possenti (1996); Antunes (2007) destacam que a concepção de linguagem deixou de ser entendida na atualidade apenas como a expressão do pensamento para ser vista também como um instrumento de comunicação e interação no ato social.

         Sabemos que nossa realidade contempla uma diversidade cultural. Cada comunidade possui formas lingüísticas variadas, assim, não existe perante nosso país uma única forma de linguagem e a variação lingüística constitui-se em um fator cultural. Nesse sentido, ao analisarmos as dificuldades dos alunos no que diz respeito à linguagem escrita, muitas vezes percebemos que esses sujeitos possuem sua própria linguagem e a escola por sua vez tenta impor a linguagem dita formal, desvalorizando suas culturas. Possenti (1996) ressalta:

 

[...] A tese de natureza politico-cultural dia basicamente que é uma violência, ou uma injustiça, impor a um grupo social os valores de outro grupo. A chamada língua padrão é de fato do dialeto dos grupos mais favorecidos, como se fosse o único dialeto válido, seria uma violência cultural, também seriam impostos os valores culturais ligados ás formas ditas cultas de falar e escrever, o que implicaria em destruir ou diminuir valores populares (p. 18).           

Devemos ter claro que ao valorizarmos o conhecimento das diferentes culturas propiciamos que o aluno sinta-se realmente inserido no contexto social e tenha oportunidades de aprimorar sua língua e respectivamente buscar a garantia de seus direitos no contexto em que vive.  O professor tem uma função primordial nessa perspectiva que é garantir conhecimento da língua denominada padrão, assim não existe “certo” e “errado” no que diz respeito à linguagem. Cabe ao educador trabalhar as diversas formas de linguagem, valorizando à maneira de falar pertencente aos sujeitos, suas famílias e seus grupos sociais.

Observar e refletir sobre a questão cultural de seus educandos significa reconhecer a diversidade lingüística e trabalhá-las em todos os seus aspectos, permitindo que tanto sua expressão quanto à do seu aluno sejam compreendidas e valorizadas.

Concordamos então com Paulo Freire (1996), quando menciona a principal atividade exercida pelo educador no cotidiano escolar:

Uma das tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar as condições em que os educandos em suas relações uns com os outros e todos com o professor ou com a professora ensaiam a experiência profunda de assumir-se. Assumir-se como ser social e histórico, como ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de sonhos, capaz de ter raiva porque capaz de amar. Assumir-se como sujeito porque capaz de reconhecer-se como objeto  (p.46).

 

Percebemos que apenas possuir uma concepção clara sobre os processos de ensino e aprendizagem não é o suficiente, é necessário que o trabalho docente seja voltado ao todo, dando liberdade ao aluno de expor sua imaginação. Instigá-los a fazer leituras de acordo com suas realidades e a partir delas estimulá-los a praticar a escrita de acordo com seus conhecimentos literários, que é diferente de restringir seu trabalho à mera imposição do que julgamos relevante. Nesse sentido teremos a oportunidade de construir conhecimentos significativos com os educandos, garantindo também a aprendizagem da língua padrão, tão valorizada na nossa realidade.

A criança enquanto sujeito ativo no processo de aprendizagem, busca compreender a natureza da linguagem que se fala à sua volta. E assim, segundo Bontempo (2003), a partir da interação com a escrita, constrói regularidade, constrói sistemas de interpretação, pensa, raciocina, inventa, coloca à prova suas antecipações, enfim, reinventa a escrita, objeto social particularmente complexo.

Segundo Possenti (1996) não aprendemos a língua padrão por exercícios, mas por práticas significativas e contextualizadas.  Assim, o trabalho com frases tão presentes nas cartilhas de alfabetização como “O boi baba” e “Eva viu a uva” não tem valor ao contexto dos alunos, assim essas práticas devem ser repensadas. 

Entre as alternativas para concretizarmos uma proposta de trabalho pedagógico que reconhece e valoriza a diversidade de linguagens dos educandos, podemos citar:

- Organizar momentos de rodas de conversa com a turma, nas quais assuntos como o planejamento de um passeio, a proposta para elaboração de um livro ou a organização de um evento, serão discutidos por todos;

- Trabalhar com a contação e leitura de histórias, utilizando para esses momentos diferentes recursos.  A criança que cresce ouvindo histórias infantis desenvolve seu imaginário, além de estimular a formação de leitores; 

- Recriar histórias imaginando e tornando-a inserida no nosso contexto social;

- Levar os alunos a biblioteca da escola e da cidade para conhecerem a diversidade de obras e as distintas formas de linguagens utilizadas pelos autores. A biblioteca pode também despertar nas crianças o encanto da leitura; 

- Criar oportunidade para a realização de trabalhos em grupo, para as crianças debaterem diferentes temas propostos e assim compartilharem experiências;

- Instigar os alunos no processo da escrita; fazendo que os mesmos com que os mesmos estabeleçam uma boa relação com a linguagem escrita;

- Dividir a turma em grupos de 4 crianças; distribuir, entre as equipes, uma  folha de papel;  apresentar às equipes uma música; pedir que o aluno 1 de cada uma das equipes registre, na folha, ao sinal dado pelo  professor, suas idéias, sentimentos, emoções apreendidas ao ouvir a música;   solicitar-lhe que, no final do seu tempo, passe a folha ao aluno 2, que deverá continuar a tarefa. E assim sucessivamente, até retornar ao aluno 1, que deverá ler o produto final de todo o trabalho para toda a classe. A folha de papel deverá circular no sentido horário;

- Pesquisar com as crianças diferentes brincadeiras que ocorrem em diversas regiões brasileiras como o esconde-esconde, o passa-anel, os jogos de sorte, o pega-pega, conversando também sobre os diferentes nomes que a mesma brincadeira pode ter, de acordo com o local; 

- Solicitar que as crianças registrem as regras das brincadeiras preferidas e pedir que troquem os textos entre os grupos, reelaborando-os caso seja necessário;

- Pedir que as crianças construam textos coletivos sobre brinquedos que trouxeram de casa; esse texto contemplará quais brinquedos utilizaram com quem brincaram como, e o que acharam desse brincar;

- Incentivar as crianças a escreverem cartinhas para os amigos e familiares e anotar atividades importantes que não podem ser esquecidas.  Isso fará com que eles pratiquem a escrita diariamente;

- Construir um mural intitulado “Correio da sala”, em que cada criança terá um envelope com seu nome  e os demais colegas deixam bilhetes para os amigos;

-Oferecer e explorar de diferentes maneiras textos comunicativos, letras de música, panfletos, poemas, entre outros. 

Vale destacar que o professor deve construir registros sobre o desenvolvimento de cada criança no processo educacional; registrando dados que possibilitam um olhar amplo no desenvolvimento do conhecimento dos sujeitos diante dessas atividades. A avaliação do processo de aprendizagem possibilita investigar e refletir sobre a ação do educando e do educador instigando a transformação por meio da reorganização do trabalho pedagógico que está sendo desenvolvido na escola.

Algumas Considerações

           Ressaltamos que pensar um trabalho que valoriza a diversidade cultural de nossos alunos nos fez refletir sobre diversas ações educativas que desenvolvemos na escola.  Muitas de nossas práticas pedagógicas não coadunam com os objetivos de uma educação libertadora e emancipatória que acreditamos. 

           A legitimidade desse trabalho está na validade de uma proposta que deve propiciar às nossas crianças um processo educativo pautado no diálogo, na reconstrução e na superação de situações de dificuldades encontradas pelos alunos. Os educadores têm uma função primordial nesse processo como mediadores, acompanhantes e agentes de transformação da realidade educacional, tendo como base os fins estabelecidos para a educação.

           Com certeza, inúmeras dificuldades surgirão no decorrer do trabalho, mas, estas podem ser superadas por meio de discussões, discordâncias, questionamentos, mas acima de tudo a partir do envolvimento dos profissionais no transcorrer da construção e desenvolvimento da proposta.

Percebemos que ainda perpetuamos no contexto social uma grande desvalorização das diversas linguagens, com um ensino de mera reprodução e imposição do que achamos correto ensinar.  Muitas vezes os professores não estão estimulados a desenvolver um trabalho que contemple as diferenças ou simplesmente não têm consciência das discussões realizadas sobre o tema.

O conhecer o outro e valorizá-lo sem impor seus pré-julgamentos e também fazer com que o educando seja o centro de todo desenvolvimento escolar, permitem a construção de bons resultados no desenvolvimento dos alunos, onde a valorização da diversidade de linguagens, culturas não sejam uma barreira para a formação de sujeitos críticos e ativos perante o meio em que vivem.

O professor deve estimular seus alunos, propiciar situações em que esses sujeitos tenham o desejo e a vontade de construir novos conhecimentos a partir de suas idéias, experiências e vivências. O processo de aprendizagem se constituirá dessa forma com a participação de todos os envolvidos a partir de projetos e atividades que busquem a construção de aprendizagens significativas.

 Referências Bibliográficas

 

ANTUNES, Irandé. Muito além da gramática: por um ensino de línguas sem pedras no caminho. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.

 

BONTEMPO, Luzia. Alfabetização com sucesso. Contagem, MG: Oficina Editorial, 2003.

 

BRASIL. MEC/SEF Parâmetros curriculares nacionais: Língua Portuguesa. Brasília: MEC/SEF, 1997.

 

FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo:

Paz e Terra, 1996.

 

POSSENTI, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas, SP: Mercado Livre, 1996.  

 

*É mestre em Educação (2007) pelo Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), especialista em Docência no Ensino Superior (UFU-2004) e graduada em Pedagogia (UFU-2003). Possui experiência na Educação Infantil e Ensino Fundamental como Docente e Coordenadora Pedagógica. Professora da Universidade Federal de Uberlândia, Campus do Pontal. fernanda.faced@gmail.com. (34)32318942/ 99117102

**Graduanda em Pedagogia pela Universidade Federal de Uberlândia, Campus do Pontal.

bruna-paulyna@hotmail.com

 

                                      

Como citar este artigo:

SILVA, Fernanda Duarte Araújo.Alfabetização e Letramento: discutindo o ensino da língua escrita.P@rtes (São Paulo). V.00 p.eletrônica - Julho de 2010. Disponível em <www.partes.com.br/educacao/alfabetizaçãoeletramento.asp>. Acesso em _/_/_.

 

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