Resumo
O presente
artigo tem como objetivo discutir alguns conceitos de linguagem e a
partir deles tecer algumas considerações sobre o trabalho pedagógico
que deve ser desenvolvido nas instituições escolares. Autores como
Possenti (1996); Antunes (2007) destacam que a concepção de
linguagem deixou de ser entendida na atualidade apenas como a
expressão do pensamento para ser vista também como um instrumento de
comunicação e interação no ato social. Percebemos em linhas gerais,
que ainda perpetuamos no contexto social uma grande desvalorização
das diversas linguagens, com um ensino de mera reprodução e
imposição do que achamos correto ensinar.
Palavras-chave:
Linguagem, Educação, Diversidade Cultural.
Abstract
This article aims to discuss some concepts of language and from them
make a few remarks on the pedagogical work that must be developed in
schools. Authors like Possenti (1996); Antunes (2007) emphasize that
the conception of language no longer understood today only as the
expression of thought to also be seen as a tool for communication
and interaction in the social act. We realize in general, still
perpetuate social context a major devaluation of the various
languages, with a mere reproduction of education and enforcement of
what we teach correct.
Keywords:
Language, Education, Cultural Diversity.
O presente trabalho pretende discutir alguns conceitos de linguagem
e a partir deles tecer algumas considerações sobre o trabalho
pedagógico que deve ser desenvolvido nas instituições escolares. Não
temos a pretensão de esgotar um tema tão vasto como este, mas sim,
abordar aspectos essenciais no que diz respeito à valorização de
diferentes formas de linguagem.
Autores como Possenti (1996); Antunes (2007) destacam que a
concepção de linguagem deixou de ser entendida na atualidade apenas
como a expressão do pensamento para ser vista também como um
instrumento de comunicação e interação no ato social.
Sabemos que nossa realidade contempla uma diversidade
cultural. Cada comunidade possui formas lingüísticas variadas,
assim, não existe perante nosso país uma única forma de linguagem e
a variação lingüística constitui-se em um fator cultural. Nesse
sentido, ao analisarmos as dificuldades dos alunos no que diz
respeito à linguagem escrita, muitas vezes percebemos que esses
sujeitos possuem sua própria linguagem e a escola por sua vez tenta
impor a linguagem dita formal, desvalorizando suas culturas.
Possenti (1996) ressalta:
[...] A tese
de natureza politico-cultural dia basicamente que é uma violência,
ou uma injustiça, impor a um grupo social os valores de outro grupo.
A chamada língua padrão é de fato do dialeto dos grupos mais
favorecidos, como se fosse o único dialeto válido, seria uma
violência cultural, também seriam impostos os valores culturais
ligados ás formas ditas cultas de falar e escrever, o que implicaria
em destruir ou diminuir valores populares (p. 18).
Devemos ter claro que ao valorizarmos o conhecimento das diferentes
culturas propiciamos que o aluno sinta-se realmente inserido no
contexto social e tenha oportunidades de aprimorar sua língua e
respectivamente buscar a garantia de seus direitos no contexto em
que vive. O professor tem uma função primordial nessa perspectiva
que é garantir conhecimento da língua denominada padrão, assim não
existe “certo” e “errado” no que diz respeito à linguagem. Cabe ao
educador trabalhar as diversas formas de linguagem, valorizando à
maneira de falar pertencente aos sujeitos, suas famílias e seus
grupos sociais.
Observar e refletir sobre a questão cultural de seus educandos
significa reconhecer a diversidade lingüística e trabalhá-las em
todos os seus aspectos, permitindo que tanto sua expressão quanto à
do seu aluno sejam compreendidas e valorizadas.
Concordamos então com Paulo Freire (1996), quando menciona a
principal atividade exercida pelo educador no cotidiano escolar:
Uma das
tarefas mais importantes da prática educativo-crítica é propiciar as
condições em que os educandos em suas relações uns com os outros e
todos com o professor ou com a professora ensaiam a experiência
profunda de assumir-se. Assumir-se como ser social e histórico, como
ser pensante, comunicante, transformador, criador, realizador de
sonhos, capaz de ter raiva porque capaz de amar. Assumir-se como
sujeito porque capaz de reconhecer-se como objeto (p.46).
Percebemos que apenas possuir uma concepção clara sobre os processos
de ensino e aprendizagem não é o suficiente, é necessário que o
trabalho docente seja voltado ao todo, dando liberdade ao aluno de
expor sua imaginação. Instigá-los a fazer leituras de acordo com
suas realidades e a partir delas estimulá-los a praticar a escrita
de acordo com seus conhecimentos literários, que é diferente de
restringir seu trabalho à mera imposição do que julgamos relevante.
Nesse sentido teremos a oportunidade de construir conhecimentos
significativos com os educandos, garantindo também a aprendizagem da
língua padrão, tão valorizada na nossa realidade.
A criança enquanto sujeito ativo no processo de aprendizagem, busca
compreender a natureza da linguagem que se fala à sua volta. E
assim, segundo Bontempo (2003), a partir da interação com a escrita,
constrói regularidade, constrói sistemas de interpretação, pensa,
raciocina, inventa, coloca à prova suas antecipações, enfim,
reinventa a escrita, objeto social particularmente complexo.
Segundo Possenti (1996) não aprendemos a língua padrão por
exercícios, mas por práticas significativas e contextualizadas.
Assim, o trabalho com frases tão presentes nas cartilhas de
alfabetização como “O boi baba” e “Eva viu a uva” não tem valor ao
contexto dos alunos, assim essas práticas devem ser repensadas.
Entre as alternativas para concretizarmos uma proposta de trabalho
pedagógico que reconhece e valoriza a diversidade de linguagens dos
educandos, podemos citar:
- Organizar momentos de rodas de conversa com a turma, nas quais
assuntos como o planejamento de um passeio, a proposta para
elaboração de um livro ou a organização de um evento, serão
discutidos por todos;
- Trabalhar com a contação e leitura de histórias, utilizando para
esses momentos diferentes recursos.
A criança que cresce ouvindo histórias infantis desenvolve seu
imaginário, além de estimular a formação de leitores;
- Recriar histórias imaginando e tornando-a inserida no nosso
contexto social;
- Levar os alunos a biblioteca da escola e da cidade para conhecerem
a diversidade de obras e as distintas formas de linguagens
utilizadas pelos autores.
A biblioteca pode também despertar nas crianças o encanto da
leitura;
- Criar oportunidade para a realização de trabalhos em grupo, para
as crianças debaterem diferentes temas propostos e assim
compartilharem experiências;
- Instigar os alunos no processo da escrita; fazendo que os mesmos
com que os mesmos estabeleçam uma boa relação com a linguagem
escrita;
- Dividir a turma em grupos de 4
crianças; distribuir, entre as equipes, uma folha de papel;
apresentar às equipes uma música; pedir que o aluno 1 de cada uma
das equipes registre, na folha, ao sinal dado pelo professor, suas
idéias, sentimentos, emoções apreendidas ao ouvir a música;
solicitar-lhe
que, no final do seu tempo, passe a folha ao aluno 2, que deverá
continuar a tarefa. E assim sucessivamente, até retornar ao aluno 1,
que deverá ler o produto final de todo o trabalho para toda a
classe. A folha de papel deverá circular no sentido horário;
- Pesquisar com as crianças diferentes brincadeiras que ocorrem em
diversas regiões brasileiras como o esconde-esconde, o passa-anel,
os jogos de sorte, o pega-pega, conversando também sobre os
diferentes nomes que a mesma brincadeira pode ter, de acordo com o
local;
- Solicitar que as crianças registrem as regras das brincadeiras
preferidas e pedir que troquem os textos entre os grupos,
reelaborando-os caso seja necessário;
- Pedir que as crianças construam textos coletivos sobre brinquedos
que trouxeram de casa; esse texto contemplará quais brinquedos
utilizaram com quem brincaram como, e o que acharam desse brincar;
- Incentivar as crianças a escreverem
cartinhas para os amigos e familiares e anotar atividades
importantes que não podem ser esquecidas. Isso fará com que eles
pratiquem a escrita diariamente;
- Construir um mural intitulado “Correio da sala”, em que cada
criança terá um envelope com seu nome e os demais colegas deixam
bilhetes para os amigos;
-Oferecer e explorar de diferentes maneiras textos comunicativos,
letras de música, panfletos, poemas, entre outros.
Vale destacar que o professor deve construir registros sobre o
desenvolvimento de cada criança no processo educacional; registrando
dados que possibilitam um olhar amplo no desenvolvimento do
conhecimento dos sujeitos diante dessas atividades. A avaliação do
processo de aprendizagem possibilita investigar e refletir sobre a
ação do educando e do educador instigando a transformação por meio
da reorganização do trabalho pedagógico que está sendo desenvolvido
na escola.
Algumas Considerações
Ressaltamos que pensar um trabalho que valoriza a diversidade
cultural de nossos alunos nos fez refletir sobre diversas ações
educativas que desenvolvemos na escola. Muitas de nossas práticas
pedagógicas não coadunam com os objetivos de uma educação
libertadora e emancipatória que acreditamos.
A legitimidade desse trabalho está na validade de uma
proposta que deve propiciar às nossas crianças um processo educativo
pautado no diálogo, na reconstrução e na superação de situações de
dificuldades encontradas pelos alunos. Os educadores têm uma função
primordial nesse processo como mediadores, acompanhantes e agentes
de transformação da realidade educacional, tendo como base os fins
estabelecidos para a educação.
Com certeza, inúmeras dificuldades surgirão no decorrer
do trabalho, mas, estas podem ser superadas por meio de discussões,
discordâncias, questionamentos, mas acima de tudo a partir do
envolvimento dos profissionais no transcorrer da construção e
desenvolvimento da proposta.
Percebemos que ainda perpetuamos no contexto social uma grande
desvalorização das diversas linguagens, com um ensino de mera
reprodução e imposição do que achamos correto ensinar. Muitas vezes
os professores não estão estimulados a desenvolver um trabalho que
contemple as diferenças ou simplesmente não têm consciência das
discussões realizadas sobre o tema.
O conhecer o outro e valorizá-lo sem impor seus pré-julgamentos e
também fazer com que o educando seja o centro de todo
desenvolvimento escolar, permitem a construção de bons resultados no
desenvolvimento dos alunos, onde a valorização da diversidade de
linguagens, culturas não sejam uma barreira para a formação de
sujeitos críticos e ativos perante o meio em que vivem.
O professor deve estimular seus alunos, propiciar situações em que
esses sujeitos tenham o desejo e a vontade de construir novos
conhecimentos a partir de suas idéias, experiências e vivências. O
processo de aprendizagem se constituirá dessa forma com a
participação de todos os envolvidos a partir de projetos e
atividades que busquem a construção de aprendizagens significativas.
Referências
Bibliográficas
ANTUNES,
Irandé. Muito além da gramática: por um ensino de línguas sem
pedras no caminho. São Paulo: Parábola Editorial, 2007.
BONTEMPO,
Luzia. Alfabetização com sucesso. Contagem, MG: Oficina
Editorial, 2003.
BRASIL. MEC/SEF
Parâmetros curriculares nacionais: Língua Portuguesa.
Brasília: MEC/SEF, 1997.
FREIRE, P.
Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São
Paulo:
Paz e Terra,
1996.
POSSENTI,
Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. Campinas,
SP: Mercado Livre, 1996.
*É mestre em Educação (2007) pelo
Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal de Uberlândia (UFU),
especialista em Docência no Ensino Superior (UFU-2004) e graduada em
Pedagogia (UFU-2003). Possui experiência na Educação Infantil e
Ensino Fundamental como Docente e Coordenadora Pedagógica.
Professora da Universidade Federal de Uberlândia, Campus do Pontal.
fernanda.faced@gmail.com.
(34)32318942/ 99117102
**Graduanda em Pedagogia pela
Universidade Federal de Uberlândia, Campus do Pontal.
bruna-paulyna@hotmail.com