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ISSN 1678-8419         última atualização em: segunda-feira, 12 de julho de 2010 17:23:35                                               

 
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EDUCAÇÃO

Experimentações e reflexões sobre a educação a distância: a temível realidade virtual - Primeira Parte

 

Décio Luciano Squarcieri de Oliveira* Thaís Silva e Rosa** 

publicado em 12/07/2010

 

Resumo:

O artigo que apresentamos é decorrente de vivências ocorridas na Educação a Distância – EAD, da Universidade Federal de Santa Maria, no curso de Educação Especial a Distância, no primeiro semestre de 2007, na extinta plataforma virtual de aprendizagem do e-proinfo. Constituindo-se em uma primeira parte destas experimentações, problematiza a modalidade de educação à distância juntamente com os relatos de experiências docentes, destacando elementos contraditórios entre a legislação do período e as práticas vivenciadas. 

Palavras-Chaves: Educação a Distância – Educação – História - Tecnologia

Resumen:

El artículo presenta los resultados de las experiencias que han ocurrido en la Educación a Distancia - Educación a Distancia, Universidad Federal de Santa María, en el curso de Aprendizaje Especial de Educación a Distancia, en el primer semestre de 2007, la plataforma virtual ahora difunto para e-ProInfo. Convirtiéndose así en el primero de estos ensayos, se analiza la modalidad de educación a distancia, junto con las cuentas de las experiencias de la enseñanza, destacando los elementos contradictorios de la época entre la legislación y las experiencias prácticas.

 

            Esqueça todas as formas e procedimentos que marcaram sua vida educacional. Suas primeiras descobertas quando criança. Seu primeiro dia na escola. Uma multidão de pessoas novas, desconhecidas, estranhas ao seu convívio. Centenas de crianças misturadas em uma diversidade de cores, formas, gestos, sentidos a serem vivenciados. Um mundo imensamente novo e totalmente hostil as minhas expectativas. Esqueça o espaço da escola, ela não existe mais.

O que há no lugar dela? Em que devo pensar quando me recordo de uma infância escolar? Onde está à casinha que ficava nos fundos da Escola Santíssimo Nome de Jesus, em Caçapava do Sul? Cadê as pequenas cadeiras de madeiras que serviram como meus alicerces educacionais? Não consigo avistar a Professora Raquel, com toda sua cordialidade e delicadeza enxugando minhas lágrimas enquanto me desesperava com a possibilidade de ter de ficar ali.

Bem, se foi tão conturbada minha adaptação à escola, a este espaço escolar, há quem pudesse acreditar que para meu desenvolvimento pleno e saudável talvez fosse melhor não freqüentá-la. Eu poderia ter continuado vivenciando minhas primeiras descobertas em casa, sem precisar me deslocar para novos ambientes sociais. Se isto tivesse acontecido, eu não precisaria hoje me recordar das lágrimas derramadas e nem mesmo da doce professora Raquel. Claro, que neste caso, também não lembraria dos divertidos e empolgantes piqueniques de fim de ano. E muito menos do meu primeiro amor. E das saborosas merendas que minha mãe preparava. E das estrelinhas que enfeitavam meus cadernos. Simplesmente porque não haveria necessidade de ter um caderno ou cartilha. Meio difícil de acreditar considerando a época, meados da década de 1980, que ao invés de hoje, no qual tenho duas caixas enormes de papelão recheadas de trabalhos; provas; desenhos; livros; pinturas; folhas mimeografadas; cartões para a mãe e o pai; eu teria apenas um – pen-drive –, enfeitando minha parede ao lado do meu diploma de alfabetização!

É assim que me senti quando experimentei a EAD – Educação a Distância. Toda minha vivência escolar poderia não ter passado de meros circuitos eletrônicos perdidos no cyber – espaço. E seria desesperador ter de me recordar do meu primeiro computador e de como chorei quando ele acusou um erro. Ah! Que gentil e meiga era àquela tutora, que não me recordo de seu rosto por causa da péssima resolução da foto. Eu teria aprendido tanto! Como teria aprendido a reconhecer as feições humanas! Assim a tutora estava brava, deste jeito feliz e desse modo, bem, desse modo ainda não aprendi a operar este novo programa.

Recordações a parte, estamos falando de uma realidade virtual, logo, não concreta. Se já acreditava ser difícil interpretar os signos da escrita, os números, de construir minhas noções espaciais e temporais, o que dizer de pensar algo que é virtual, que não é palpável? Foge dos meus sentidos a possibilidade de trocar informações com uma máquina, acreditando que tudo o que vejo, escuto, leio e até converso com este objeto, não ultrapassa a barreira de minha imaginação. Como acreditar que a linguagem, símbolo máximo da “superioridade” humana frente os demais animais, é reduzida a um conjunto infinito de combinações binárias tentando me convencer que são reais?

É esta a definição que dou a EAD – Ilusão Virtual –, o esforço máximo de compreender que ao invés de haver educador – educandos e educandos – educador uns com os outros, presentes, conversando, trocando idéias, reconhecendo em suas faces seus desejos, sentimentos, compreensões de um mundo individual abrindo-se a novas formas coletivas de vida, frente a frente; temos em contrapartida, uma máquina fria, incapaz de transmitir sentimentos, muda, neutra, me fazendo crer que isso é a educação de qualidade que a legislação vigente garante a qual eu dependo desde o primeiro dia em que pisei na escola.

A Educação a Distância é uma das modalidades especiais de educação brasileira. Esta vem reforçar as finalidades da educação, no que confere ao pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para a cidadania e sua qualificação para o trabalho, aliado ao princípio do ensino sobre a igualdade de acesso e permanência na escola. Aqui, a Educação a Distância – EAD – nos remete a idéia de um esforço em oferecer uma educação de qualidade, visto sua obrigatoriedade legal por parte da União. Dessa forma, salvo nos locais que não apresentam infra-estrutura adequada, acesso a transportes ou que carecem de muitas horas para seu percurso, a EAD é dirigida como uma ferramenta de trabalho na difusão da liberdade de aprender e ensinar (LDB, 1996, ART.3).  

De acordo com a lei nº. 9394/96 – LDB, em seu artigo nº. 80: “O poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada.”:

§ 1°. A educação à distância, organizada com abertura e regimes especiais, será oferecida por instituições especificamente credenciadas pela União. § 2°. A União regulamentará os requisitos para a realização de exames e registro de diploma relativos a cursos de educação a distância. § 3°. As normas para produção, controle e avaliação de programas de educação à distância e a autorização para sua implementação caberão os respectivos sistemas de ensino, podendo haver cooperação e integração entre os diferentes sistemas. § 4°. A educação a distância gozará de tratamento diferenciado, que incluirá: 1 – Custos de transmissão reduzidos em canais comerciais de radiodifusão sonora e de sons e imagens; 2 – Concessão de canais com finalidades exclusivamente educativas; 3 – Reserva de tempo mínimo, sem ônus para o Poder Público, pelos concessionários de canais comerciais.

 

Este aspecto legal reafirma a possibilidade do oferecimento desta modalidade especial de educação, mas seu enfoque não concentra sua atuação em apenas uma plataforma virtual de estudos, ao contrário, estabelece um arcabouço de possibilidades para ‘complementar’ a educação formal – presencial. Certas isenções aos cofres públicos, aparecem como incentivos para torná-la possível, não de maneira tão clara em letras legais, mas subentendidamente corroborando com um dos princípios do ensino: ser oferecida tanto a instituições privadas como públicas, sendo desta última, a prerrogativa de ser gratuita.   

Dentre os vários materiais produzidos pelo MEC e pela SEaD[1], destaco uma série de estudos sobre a EAD. Dos vários artigos publicados, faço menção a apenas dois, para ilustrar o panorama dos discursos desta modalidade a nível global.

Estas publicações, em sua maioria, analisam de forma positiva a EAD, destacando, entretanto, pontos a serem observados quanto a sua execução e qualidade. De acordo com Benno Sander:

Não se trata evidentemente de substituir o complexo sistema de comunicação social que constitui o ensino tal como o conhecemos. Esse sistema desempenha funções múltiplas e, por isso, tem demonstrado uma notável capacidade se sobrevivência ao longo dos séculos. Trata-se, contudo, de combinar diversas tecnologias disponíveis, com o propósito de melhorar o ensino convencional, ou de supri-lo em regiões de população rarefeita ou de difícil acesso, nas quais a presença do professor, apesar de necessária, nem sempre é factível. Trata-se ainda de oferecer programas para os quais há clientelas específicas em todos os níveis de ensino, especialmente no da educação superior, capazes de dispensar o modelo presencial – ou dispostas a isso – para atingir determinados objetivos acadêmicos ou profissionais. (SANDER, In: SEED, 1998, p.16).

 

Acompanhando seu raciocínio, a EAD teria sua oferta como um incremento na melhoria da educação brasileira, auxiliando a educação convencional, salvo em locais e condições insuficientes de operacionalizar a educação presencial. Quando se refere ao ensino superior, não delimita se sua extensão é pública ou privada.     

Seguindo seu discurso, Sander esforça-se em convencer os expectadores de sua fala, que a EAD substitui com maestria a educação presencial:

 

Se a escola tradicional é importante para a socialização e para o estabelecimento de vínculos afetivos que redundam em maiores oportunidades de inserção na vida social, a escola virtual também ostenta vantagens. A possibilidade de ter acesso a professores e cursos altamente especializados, de acordo com a programação pessoal do interessado, pode traduzir-se em benefícios reais para o estudante. A feliz combinação dos recursos da computação com as telecomunicações pode permitir que se tire o melhor partido da escola tradicional e, simultaneamente, da escola virtual, com suas imensas possibilidades de aceso ao conhecimento geral e especializado. (SANDER, In: SEED, 1998, p.18).

 

Esse fragmento proferido é contraditório, a fim de pintar um ambiente altamente benéfico da EAD. Inicia-se com a expressão “escola tradicional”, na tentativa de referir-se às práticas presenciais como àquela concepção de educação duramente criticada e que marcou um longo período na educação brasileira, estendendo-se ainda hoje. Mas tenhamos atenção que neste caso, o termo ‘tradicional’ significa práticas educativas comprovadas e exercidas por sábios docentes, que mesmo sem terem ao seu alcance o tão profanado “computador”, jamais esgotaram a característica que nos é nato – criatividade –, saber lidar com as diferenças pessoais e com as mais variadas adversidades que se impõe a esta categoria profissional.

Em segundo lugar, crer que o aluno terá ao seu alcance a escolha dos programas e conteúdos antes destes lhes serem impostos, é mero devaneio deste intelectual, que não se recordou que esta normativa esta presente em todos os manuais e legislações educacionais brasileiras, e nem mesmo nas instituições presenciais foi possível na integra a sua realização. O que dizer do espaço onde se corta por completo a relação dialógica entre educador – educandos e educandos – educador, tendo apenas como opção, clicar sobre o que acredita ser de seu interesse e não do que pode tornar-se seu interesse.

Diferentemente das abordagens e pesquisas realizadas a nível educacional no Brasil, sobre as práticas educativas presenciais, os manuais do MEC qualificam apenas como favoráveis e arriscam previsões, ou talvez, não sejam previsões, que a EAD soluciona muitos problemas enfrentados pela educação formal. Aspectos negativos ou tópicos há serem modificados ou melhorados não aparecem em seus discursos. Com certa estranheza, um artigo escrito por um estudioso da Costa Rica alerta para uma questão social não característica apenas de nosso país, mas que convive conosco em todos os setores e estruturas da sociedade, sejam elas sociais; políticas; culturais ou econômicas.

 

Recién hace dos semanas se realizó em Costa Rica el VII Congreso Internacional sobre Tecnologia y Educación a Distancia, cuyo tema guía fue La Educación a Distancia como una solución de calidad para el siglo 21 y escuchamos todo tipo de perspectivas en la educación a distancia con posiciones tan radicales, como la que la universidad ya no debe ser um centro para el aprendizaje y la creacíon del conocimiento, sino una empresa más que vende productos que lê interesan a los empleadores, hasta lãs que consideran que la tecnología está dejando de lado la intererrelación entre lãs personas, el aprender a trabajar em equipo, la democratizacíon de la enseñanza al demandar del estudiante recursos para el aprendizaje cada vez más restringidos y es entonces cuando meditamos si em nuestra realidad latinoamericana, de la cual Brasil no se sustrae, podemos seguir promoviendo la adopción y apropiacíon de nuevas tecnologías cuando se roba a los niños la oportunidad de aprender por provenir de hogares donde la realidad económica impone la prioridad de alimentarse antes que la de educarse o donde la falta de recursos de aprendizaje em las aulas o los bajos salários y la falta de capaciación de los docentes contribuyen a una educación deficitária, sin oportunidades para promover um recurso humano capaz de desempeñarse em un mundo con una economía globalizada.(SOLOIS, In: SEED, 1998, p.85).

 

 

De acordo com suas ponderações, seu agravamento se dá pela existência de uma das piores distribuições de renda do planeta, acarretando mais uma vez a necessidade de se pensar: será que estamos preparados para a adesão maciça e a substituição total (ou parcial, considerando os custos e a necessidade de uma economia forte em todos os setores sociais) da educação formal por práticas exclusivas de educação a distância? Estes estudos, analisados de maneira verticalmente, integram de maneira colossal todas as frentes de trabalho desenvolvidas pelos mais variados profissionais da educação brasileira?              

Com base nestas reflexões e, fazendo referência ao título, desta primeira parte, segue ainda, de forma breve, algumas experimentações em EAD. Frente às limitações de um artigo, não seria capaz de abarcar na integra todas as variadas práticas vivenciadas. Entretanto, gostaria de pronunciar algumas palavras sobre a relação docente – discentes e nossas formas de comunicação – ‘Diálogo’.

Destacando que tal modalidade se efetuou no nível de ensino superior, público e gratuito, utilizando como plataforma de estudos ambientes informatizados, capacitados e organizados pelo Ministério da Educação, denominado E-PROINFO. Essas experiências são decorrentes do primeiro semestre de 2007, quando ainda se utilizava a plataforma e-proinfo, hoje, substituída pelo AVEA[2] do moodle.

O ‘contato’ entre discentes e docentes se fez por meio de um terminal de micro-computador interligado a outros, tendo como via de acesso a internet. Contou-se com um calendário, programado pela Universidade e pelos docentes que ministravam as disciplinas do semestre, destinados aos acadêmicos da EAD. Assim, se dispunham de uma agenda geral e uma específica de cada cadeira, para poderem se programar quanto aos horários que teriam suas aulas virtuais e os seus demais acessos permanentes de estudos.

Quanto a esta organização, destaco um alto grau de descontentamento dos discentes em relação às atividades distribuídas. Em sua maioria, as críticas concentravam-se na quantidade de trabalhos exigidos e na falta de opção de escolha por parte dos acadêmicos. Também, pela insuficiência de horários pessoais para suas realizações, ocasionando atraso na entrega das atividades e desvalorização da ‘nota’ = conceito da atividade.

Considerando os argumentos defendidos pelo MEC, que certos programas e conteúdos seriam ‘escolhidos’ de acordo com os interesses dos envolvidos no processo de ensino-aprendizagem, isso na prática não se concretizou. Fato comprovado pela incompreensão frente às atividades e suas realizações, e por comentários como: “para que esta disciplina vai me ser útil, se não irei me graduar em ...?!” Ademais, a preocupação com a ‘nota’ era tamanho, que por alguns cuidados observados pelos acadêmicos ao longo do semestre, ao alcançarem nas avaliações peso equivalente ou próximo a sete (7,0), automaticamente alguns discentes afastavam-se dos diálogos com determinadas disciplinas. Estando em nível de ensino superior e sabendo que este lhe possibilitaria uma formação abrangente na área escolhida, muito além da ‘nota’, pensar nestes termos, é, na acepção mais simples, desperdício do dinheiro público. Uma vergonha que se repete a nível presencial, e que não conseguiu ser superado na educação a distância.

Contava-se ainda com e-mails e outros espaços de interação, como bibliotecas, para alocar as referências bibliográficas e materiais produzidos ou selecionados, tanto pelos docentes como pelos discentes; diários de bordo, sendo esta uma ferramenta útil na troca de informações e tira-dúvidas das disciplinas. Vale destacar ainda, que de acordo com a organização da agenda específica de cada disciplina, o docente tinha a oportunidade de trocar informações em tempo real com os acadêmicos, por meio de salas de bate-papo virtuais – ‘chats’. Cada discente dispunha de um terminal de micro-computador, seja este disponível no Pólo de estudo ou mesmo onde tinha acesso a internet. Todo trabalho do docente era ‘auxiliado’, se não o contrário, pelos tutores, que acompanharam de perto a prática do professor e os estudos dos acadêmicos.

Nota-se neste aspecto, que estando o tutor auxiliando o professor em um “diálogo” entre os acadêmicos por meio da sala virtual, este mesmo tutor teria de ter – pelo menos se esperava por isso – domínios do conteúdo, pois, apresentava autonomia para responder e mesmo coordenar as atividades ou discussões propostas. No caso do curso de graduação em Educação Especial a distância, ofertado pela Universidade Federal de Santa Maria, cada professor (a) era responsável por três (3) Pólos de estudo (Bagé, Santanna do Livramento e Uruguaiana), sendo que para cada um destes, era mediada sua prática com o trabalho dos tutores.

No caso da EAD, para este curso de Graduação, tutores eram graduandos (a) desta Universidade, que por meio de processo seletivo, ingressavam nestas atividades. No caso de disciplinas de metodologias específicas, como com a História, as experiências nesta área do conhecimento eram frutos dos estudos desenvolvidos nesta cadeira, ofertada em sua graduação; portanto, não eram acadêmicos específicos deste campo de ensino.

Sendo assim, exigia-se do professor titular da disciplina, constantes coordenações, seja para conduzir os estudos da graduação a distância como para aperfeiçoar os domínios dos tutores. Estes, por sua vez, tinham duas escolhas: ou apresentavam conhecimentos além dos disponibilizados nesta disciplina em sua graduação e coordenavam as atividades em conjunto com o professor, ou, desenvolviam sua tutoria como ‘técnicos administrativos’, ou seja, respondiam e enviavam e-mails, anotavam dúvidas e responsabilizavam-se em solucioná-las, estruturando as salas de bate-papo virtuais, enfim, oferecendo suporte técnico ao docente.

O DIÁLOGO COMEÇA NA BUSCA DO CONTEÚDO PROGRAMÁTICO. Daí que, para esta concepção como prática da liberdade, a sua dialogicidade comece, não quando o educador – educando se encontra com os educandos – educadores em uma situação pedagógica, mas antes, quando aquele se pergunta em torno do que vai dialogar com estes. Esta inquietação em torno do conteúdo do diálogo é a inquietação em torno do conteúdo programático da educação. Para o “educador – bancário”, na sua antidialogicidade, a pergunta, obviamente, não é a propósito do conteúdo do diálogo, que para ele não existe, mas a respeito do programa sobre o qual ele dissertará a seus alunos. E a esta pergunta responderá ele mesmo, organizando o seu programa. [...] Para o educador – educando, dialógico, problematizador, o conteúdo programático da educação não é uma doação ou uma imposição – um conjunto de informes a ser depositado nos educandos –, mas a devolução organizada, sistematizada e acrescentada ao povo daqueles elementos que este lhe entregou de forma desestruturada. (FREIRE, 1987, p.83-84).

 

Para dar um pouco de esperança a EAD, contava-se ainda com a disponibilidade de uma aula presencial nos Pólos de estudo, onde os gastos da viagem e custos que o docente vinha a ter eram subsidiados pela Universidade. Programada na agenda da disciplina, a aula presencial era um dos pontos culminantes, pois podiam anteceder a semana das avaliações, sendo possível fazerem um resgate do conteúdo trabalhado e sanar de maneira coletiva e formal as dúvidas, além de esclarecer certos conceitos e entendimentos.

As aulas presenciais ocorriam nos mesmos dias que se realizavam as aulas nas salas de bate-papo virtuais, só que não apenas nas duas horas noturnas destinadas, e sim nos quatro períodos. Portanto, no momento que estavam sendo realizadas as aulas presenciais, os docentes que continuavam na cidade de Santa Maria, não tinham acesso às salas virtuais, visto que, outro docente estava presencialmente no Pólo.

Um professor tinha acesso via internet aos três pólos no mesmo dia. No caso da aula presencial, este encontrava-se em um único Pólo por vez. Assim elaborava-se a agenda de maneira que neste mesmo dia outro docente estivesse trabalhando presencialmente em outro Pólo, podendo em uma mesma semana, haverem três ou mais professores diretamente nos Pólos.

Essa forma de organização fez com que ocorre-se um período de comunicações apenas via e-mail, diário de bordo e biblioteca, já que as salas virtuais eram substituídas pelas aulas presenciais. Portanto, além de ficarem limitados sem a conversação em tempo real, não se podia pedir nenhuma atividade dos alunos, para que pudesse estes, terem maiores aproveitamentos de suas aulas presenciais.

Finalizada essa etapa, logo se encaminhava para o encerramento do semestre. A rotina seguia a mesma a cada período letivo, carregando consigo ainda, alunos (a) que não haviam alcançado a média e que se encontravam em situação incompleta.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

Analisando a questão, gostaria de frisar que a aula presencial era um momento aclamado pelos discentes e, no meu caso enquanto docente, ansiosamente aguardado e desesperadoramente limitado, frente à necessidade crucial de diálogo professor – alunos e alunos – professor.  

Os comentários pessoais denotavam a vontade de aulas deste tipo, desta presença, da necessidade de conversas, trocas e construção de saberes. Pelo pedido de retorno, dos recursos de vídeo – conferência e das gravações de áudio, ficava claro a necessidade de resgatar um pouco da característica inata do humano.

Não sejamos tolos! Não estavam pedindo formas diferenciadas de conduzir a EAD, estavam sim pedindo docentes, gritando por educação!

Milhares de anos para alcançarmos nossa posição bípede e nos diferenciarmos dos demais seres vivos, para voltarmos a nos curvarmos frente o peso do conhecimento.  

Das experiências obtidas através da disciplina de História, não nos basta apenas ler, e guardar para si sua bagagem intelectual. História é uma área do conhecimento desenvolvida por homens, é o reflexo e o resultado das ações humanas, vivendo o seu tempo e espaço, em contextos sociais, políticos, culturais, econômicos e de idéias antagônicas as nossas, que precisam ser discutidas, debatidas, compreendidas e desmistificadas de possuir a “Verdade Absoluta”.

Em qual contexto educacional estamos vivendo? Voltamos há pensar como no século XIX? Estamos idolatrando personagens e descrevendo datas perdidas na imensidão do processo histórico como se fosse possível estabelecer uma fita métrica em nossas vidas, linearmente solidificada, estável e repleta de prazeres?

Ao compactuarmos com esta modalidade de educação, entregamos de badeja nosso suor e sangue derramado pela conquista da educação brasileira. Nossa independência de idéias, nosso aprimoramento pessoal, profissional e coletivo. As idéias que perpassam esta especialidade vão além do discurso terno e inocente de acesso e permanência, de liberdade e igualdade.

Voltar os olhos para nossa realidade, a da escola, do aluno e da comunidade, gozar dos princípios de cooperação. Para tanto, dialogar; debater; sentir; olhar; tocar; viver o coletivo. Substituir as barreiras da tecnologia, pelo uso democrático e consciente dos recursos que podemos dispor e destes desenvolver os profissionais que almejamos e que figuram em nossas práticas discursivas. Não abandonarmos o que foi conquistado, ao mesmo tempo em que não precisamos se apegar ao ‘tradicional’, como via de regra, mas reconhecer nesta forma de educação, o próprio significado da expressão presencial, ou seja – Presença!

 

REFERENCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. Rio de Janeiro, JR: Editora Paz e Terra, 17ª Edição, 1987.

 

LEI n.º 9394 DE 20 DE DEZEMBRO DE 1996: Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB.

 

Perspectivas da Educação a Distância: América Latina, Seminário de Brasília, 1997/Secretaria de Educação a Distância. Brasília: Ministério da Educação e do Desporto, SEED, 1998. Série de Estudos. Educação a Distância.


 

* Graduado em História – Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria. Especialista em História do Brasil/UFSM, Mestrando em Educação/UFSM. Professor Pesquisador I da UAB/UFSM. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas em Imaginário Social – GEPEIS – UFSM. decioluciano@yahoo.com.br

 

** Graduanda do 6º semestre do Curso de Sistemas de Informação, Centro Universitário Franciscano – UNIFRA. thaisser@uol.com.br

[1] Secretaria de Educação a Distância.

[2] Ambientes Virtuais de Ensino Aprendizagem.

 

  

Como citar este artigo:

OLIVEIRA, Décio Luciano Squarcieri., ROSA, Thaís Silva e. Experimentações e reflexões sobre a educação a distância: a temível realidade virtual - Primeira Parte. P@rtes (São Paulo). V.00 p.eletrônica. julho de 2010. Disponível em <www.partes.com.br/educacaoead01.asp>. Acesso em _/_/_.

 

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