Educação Ambiental no Contexto Escolar:
refletindo sobre aspectos pedagógicos
Vanessa dos Santos
Nogueira[*]André Michel dos Santos[*][*]
publicado em 20/01/2010
Resumo
Esse trabalho pretende fazer uma breve reflexão sobre a
contribuição da conscientização ambiental na preservação
da fauna silvestre, a partir da prática pedagógica dos
professores. É importante ressaltar que a escola torna-se
um espaço valioso para a conscientização de crianças e
adolescentes em relação à fauna silvestre brasileira,
podendo estas tornarem-se multiplicadoras dos
conhecimentos adquiridos e engajar-se na conscientização
ambiental, com iniciativas na comunidade a qual residem.
Destaca-se ainda, que a educação voltada para ações e
atividades de conscientização ambiental realizadas no
contexto escolar é um recurso pouco utilizado, como
ferramenta na conscientização para a preservação da fauna
silvestre, ou meio ambiente de forma geral.
Para que se efetive um trabalho de conscientização
ambiental, que seja voltado para a preservação da fauna
silvestre no contexto escolar, precisamos ter clara a
finalidade da Educação no Brasil e a importância do
desenvolvimento de uma
consciência ambiental para a preservação do meio que
estamos inseridos.
Nesse sentido, aulas bem elaboradas, projetos e atividades
desenvolvidas no contexto escolar e que nunca saem do
papel ou que não refletem para ações concretas, feitas
somente para cumprir o “protocolo” não contribuem em nada,
para que o ser humano tenha um envolvimento com o espaço
em que vive e busque alternativas para os problemas
ambientais.
A Educação Ambiental pode ser considerada um processo
permanente no qual os indivíduos e a comunidade tomam
consciência do seu meio ambiente e adquirem conhecimentos,
habilidades, experiências, valores e a determinação que os
tornam capazes de agir, individual ou coletivamente,
buscando soluções para os problemas ambientais, presentes
e futuros (UNESCO, 1987).
Destacamos como referência a primeira Conferência
Intergovernamental sobre Educação Ambiental realizada em
Tbilisi (IBAMA, 1998), onde foram definidas as
finalidades, objetivos, princípios orientadores e
estratégias para o desenvolvimento da Educação Ambiental,
como propiciar uma percepção
integrada da natureza complexa do meio físico-natural e do
meio construído pelos seres humanos, resultante da
interação dos aspectos físicos, biológicos, sociais,
econômicos e culturais; favorecer a aquisição de
conhecimentos, valores, comportamentos e habilidades
prática; contribuir para a formação de uma consciência
sobre a importância da preservação da qualidade do meio
ambiente em sua relação com o desenvolvimento.
Os princípios e estratégias da Conferencia abordam também
a compreensão da educação ambiental como resultado de uma
reorientação e articulação das diversas disciplinas e
experiências educativas que facilitam a percepção
integrada do meio ambiente; o favorecerecimento de todos
os membros da sociedade, segundo suas modalidades e em
distintos graus de complexidade, com a aquisição de
conhecimentos científicos e tecnológicos, o sentido dos
valores, as atitudes e a participação efetiva na prevenção
e resolução de problemas ambientais. Especial ênfase
deverá ser dada à capacitação de tomadores de decisões
(IBAMA, 1998).
A partir do exposto, entendemos que a Educação Ambiental
deve ser desenvolvida no contexto educacional levando-se
em consideração os aspectos ambientais em que a escola
está inserida, buscando um processo de conscientização
ambiental que gere ações para manter um meio ambiente
ecologicamente equilibrado.
Este é o grande desafio da escola atual, e do fazer
pedagógico, fazer com que de fato a educação ambiental não
seja utópica ou ilusória quando trabalhada pelo professor,
mas sim que possa acarretar conscientização ao educando, o
qual levará esses ensinamentos para a sua vida quando
adulto.
A Educação Ambiental e a Preservação da Fauna Silvestre
"A questão não é eles pensam? Ou eles falam?
A questão é: eles sofrem." Jeremy Bentham
Abordamos aqui a preservação da fauna silvestre como parte
da Educação Ambiental a qual necessita ser trabalhada nas
escolas. Segundo o Ministério do Meio Ambiente no Art.1º
da Lei Federal nº 9.795, de 27/4/99, a educação ambiental
pode ser definida com um processo permanente, no qual os
indivíduos e a comunidade tomam consciência do seu meio
ambiente e passam a adquirir conhecimentos, valores,
habilidades, experiências e determinação que os tornam
aptos a agir individual e coletivamente resonvendo
problemas ambientais presentes e futuros.
Sendo assim de responsabilidade de todos, com a realização
de ações individuais e coletivas para resolver problemas
ambientais do seu meio, deve-se garantir a preservação da
fauna silvestre, conforme a Lei 9.605/98 no seu art. 29,
§3º: “são espécies da fauna silvestre todos aqueles
pertencentes às espécies nativas, migratórias e quaisquer
outras, aquáticas ou terrestres, que tenham todo ou parte
de seu ciclo de vida ocorrendo dentro dos limites do
território brasileiro, ou em águas jurisdicionais
brasileiras”.
São caracterizados animais da fauna silvestre aqueles que
não domesticados, normalmente capturados para venda
indevida que proíbe a utilização, perseguição, destruição,
caça ou apanha desses animais, assim como estende a
proteção aos seus ninhos, abrigos e criadouros naturais.
Ademais, constitui crime matar, perseguir, caçar, apanhar,
utilizar espécimes da fauna silvestre, nativas ou em rota
migratória, sem a devida licença ou autorização, nos
termos da Lei 9.605/98.
Considerado a terceira maior atividade ilegal do mundo, o
tráfico de animais silvestres, no qual se inclui a flora,
a fauna e seus produtos e subprodutos, fica atrás apenas
das armas e drogas. Estima-se que, no mundo, este tipo de
tráfico movimente anualmente entre US$ 10 e 20 bilhões. O
Brasil é responsável por aproximadamente de 5% a 15% deste
total. O Brasil deve movimentar em torno de R$ 2,0
bilhões, somente com o tráfico de animais silvestres
(IBAMA, 1997).
Segundo dados da Rede Nacional de Combate ao Tráfico de
Animais Silvestres (Renctas), organização
não-governamental que combate o tráfico de animais
silvestres, a cada dez espécimes capturados na natureza
apenas um chega ao seu destino final. O restante morre
vítima de maus tratos na captura, acondicionamento e
transporte. Calcula-se que, por ano, o tráfico de animais
silvestres seja responsável pela retirada de 38 milhões de
animais da natureza no Brasil (IBAMA, 1997).
O tráfico da fauna silvestre causa além de muito
sofrimento para os animais capturados uma alteração do
ecossistema, ainda segundo o IBAMA (1997) calcula-se que o
tráfico de animais silvestres retire, anualmente, cerca de
12 milhões de animais de nossas matas; outras estatísticas
estimam que o número real esteja em torno de 38 milhões.
Quando se retira um animal da natureza, é como se
quebrássemos ou, ao menos, enfraquecêssemos os elos de uma
corrente. Sabemos que somente um animal não faria falta
mas, não apenas um e sim, muitos animais são retirados por
ano de nossas matas. Um exemplo disso é um caminhão
rotineiramente utilizado no tráfico de animais que
transporta cerca de 1.000 espécimes. Basta, então, se
perguntar: quantos caminhões estão rodando pelo país e
quantos destes poderiam estar transportando animais
silvestres em meio a sua carga? (IBAMA, 1997)
Na medida em que o ser humano é responsável pelas ações
que interferem e destroem o meio ambiente, sentimos que só
através de um trabalho de conscientização ambiental no
contexto escolar podemos reverter esse quadro e trabalhar
para manter um meio ambiente ecologicamente equilibrado,
com a consciência que a interpretação ambiental é uma
tradução da linguagem da natureza para a linguagem comum
das pessoas, fazendo com que percebam um mundo que nunca
tinham visto antes (VASCONCELLOS, 1997).
O Contexto Escolar e a Preservação da Fauna Silvestre
A educação, dever da família e do estado, inspirada nos
princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade
humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do
educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua
qualificação para o trabalho, conforme o Art. 2ª da Lei
9.394 de 20/12/1996.
Nesse sentido devemos trabalhar para fazer da cidadania
como nos fala Marshall, “um sentido direto de inclusão
numa comunidade, baseado na lealdade a uma civilização que
é propriedade comum”, o mundo atual cresce imerso a uma
cultura consumista, promovendo cada vez o individualismo,
que promove que segundo SANTOS (1987), o exesso do consumo
é acompanhada da redução gradativa de outras
sensibilidades, como a noção de individualidade que,
aliás, constitui um dos alicerces da cidadania. Enquanto
constrói e alimenta um individualismo feroz e sem
fronteiras, o consumo contribui a degradação da
personalidade, sem a qual o homem não se re-conhece como
distinto.
Dessa forma, em lugar do cidadão tem-se um consumidor, que
aceita ser chamado de usuário, SANTOS (1987). Nesse
sentido a escola precisa estar preparada para promover
ações que promovam o desenvolvimento dos alunos para o
exercício da cidadania.
O trabalho a ser desenvolvido no contexto escolar deve
contemplar a Educação Ambiental como forma de
conscientização e de preparo dos alunos para interferir no
seu meio como cidadãos atuantes e críticos, através de
ações que promovam uma vida em um mundo ecologicamente
equilibrado, e deve fazer parte do Projeto Político
Pedagógico da instituição.
O Projeto Político Pedagógico da escola deve ser
construindo de forma participativa, tendo em vista a
realidade em que a escola está inserida, levando em
consideração suas necessidades e traçando metas e
estratégias para alcançar seus objetivos, a Educação
Ambiental não pode ser trabalhar de forma
descontextualiza.
A percepção ambiental então pode ser trabalhada por meio
da educação e se apresenta aos segmentos populares da
sociedade pela vivência imediata e intensa dessa população
sobre os diversos problemas ambientais que se vinculam
intimamente com a produção da miséria por esse modelo de
sociedade (GUIMARÃES, 2000).
Segundo a Conferência Intergovernamental sobre Educação
Ambiental realizada em Tbilisi, mencionada no início desse
artigo, é fundamental que o processo educativo proporcione
uma percepção integrada da natureza, além da construção de
valores sociais e a aquisição de conhecimentos, atitudes e
habilidades práticas destinados a participação
responsável na prevenção e solução dos problemas
ambientais (IBAMA, 1998).
Além da inserção da Educação Ambiental na proposta
pedagógica da escola é fundamental que os educadores
estejam preparados para incorporar o trabalho de Educação
Ambiental à sua práxis, tendo em vista que as questões
ambientais fazem parte da vida de todos e devem ser
articuladas as diversas áreas do conhecimento.
Conforme o Art. 2º da Lei 9.795 de 27/04/1999, a educação
ambiental é um componente essencial e permanente da
educação nacional, devendo estar presente, de forma
articulada, em todos os níveis e modalidades do processo
educativo, em caráter formal e não-formal. A Lei 9.795 de
27/04/199 ainda prevê que nas atividades vinculadas à
Política Nacional de Educação Ambiental deve existir a
preparação de profissionais orientados para as atividades
de gestão ambiental.
Após a aprovação da
Lei 9.795 de 27/04/199, foi
aprovado o Decreto nº 4.281, de 25/06/2002, estabelecendo
a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), que veio
reforçar a Educação Ambiental nos artigos 2º e 3º da Lei
9.795/99 como um componente essencial e permanente da
educação. (BRASIL, 1999).
Segundo o Plano Nacional de Educação no Art. 28 a Educação
Ambiental, tratada como tema transversal, será
desenvolvida como uma prática educativa integrada,
contínua e permanente em conformidade com a Lei nº
9.795/99. Para que aconteça essa prática integrada, à
formação continuada dos professores devem
buscar a universalidade da EA
nos sistemas de ensino como proposta político-pedagógica
efetiva e a constante atualização de conteúdos e de
práticas pedagógicas para que não haja estancamento e
desvirtuamento do processo de aprendizagem, buscando
autonomia desses sujeitos de forma coordenada com os
objetivos propostos
(MENDONÇA, 2004).
A Educação Ambiental conforme as diretrizes do MEC deve
ser trabalhada através de três modalidades básicas: 1)
projetos, 2) disciplinas especiais; e 3) inserção da
temática ambiental nas disciplinas. Dentro dessas
modalidades de trabalho o desafio é desenvolver um
trabalho de permanente conexão da conscientização
ambiental aos conteúdos do currículo, para isso o
professor deve ter o desejo de realizar essa transformação
social.
Percebemos que leis e orientações para trabalhar a
Educação Ambiental não faltam, mesmo assim essa
conscientização se apresenta muitas vezes de forma
superficial, acreditamos que as escolas devem divulgar as
iniciativas desenvolvidas nesse sentido, com intuito de
disseminar esse trabalho, tornando a Educação Ambiental
como parte do contexto social e não só escolar.
Considerações Finais
Percebemos que as possibilidades de desenvolver um
trabalho de Educação Ambiental integrado e coerente com o
meio no contexto escolar são inúmeras, mas esse processo
deve ser solidamente articulado com a proposta pedagógica
da escola e a um trabalho de formação continuada dos
educadores, não só da preservação da fauna silvestre, mas
do meio ambiente como um todo.
A busca por uma educação autentica, com professores e
alunos autônomos que tenham “capacidade de assumir uma
presença consciente no mundo” FREIRE (1996), é uma busca
constante que transcende ao desenvolvimento de uma
consciência ambiental, pois a Educação Ambiental
articulada às práticas de ensino no contexto escolar só
será possível com o desenvolvimento pleno do ser humano.
Desta maneira, acreditamos na possibilidade do
desenvolvimento de iniciativas em âmbito escolar, as quais
sejam balizadas nos princípios da educação ambiental e não
somente na fauna silvestre, mais o meio ambiente como um
todo seja trabalhado com os alunos, na tentativa de
provocar mudanças de comportamentos e atitudes e
consequentemente consciência ambiental para as gerações
futuras.
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VASCONCELLOS, J. 1997. Trilhas Interpretativas como
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Unidades de Conservação. Anais. Vol. I. Curitiba-PR. IAP;
Unilivre: Rede Nacional Pró Unidade de Conservação.
[*]
Pedagoga, Especialista em Gestão Educacional/UFSM,
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Educação/UFSM,
Especializanda em Tecnologias da Informação e
Comunicação Aplicadas a Educação/UFSM. Tutora do Curso
de Pedagogia a Distância da UFSM/UAB.
Contatos:
snvanessa@gmail.com ou
http://vanessanogueira.wordpress.com/
[*][*]
Assistente Social, Especialista em Gestão Educacional/UFSM.
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em Educação do
Centro Universitário La Salle – UNILASALLE/Canoas –
RS. Em fase de conclusão do Curso de Especialização em
Educação Ambiental/UFSM. Assistente Social da Rede
Cenecista de Educação do RS. Contatos:
andremicheldossantos@gmail.com ou http://servicosocialescolar.blogspot.com/
Como Citar este artigo
SANTOS, André Michel. Reflexões necessárias sobre a
educação do século XXI na perspectiva do Serviço Social:
reprodutora ou libertadora? P@rtes.V.00 p.eletrônica.
Janeiro de 2010. Disponível em <www.partes.com.br/educacao/educacaoambientalnocontexto.asp>. Acesso em _/_/_.