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LORO,
Alexandre Paulo.
A prática
pedagógica das aulas de Educação Física é geralmente
orientada de maneira mecânica, na tentativa de tornar o
movimento mais econômico e eficiente, atrelando-se
exclusivamente a resultados técnicos. Esta atitude, de certa
forma, contribui na perpetuação das condições estruturais de
uma sociedade que apresenta um modelo hegemônico que provoca
diferenças sociais, econômicas e culturais entre as classes
sociais. Desta maneira, exclui-se a possibilidade de
desenvolver no aluno/sujeito a compreensão de sua realidade,
sua capacidade crítica reflexiva e de atuação no sentido de
modificá-la e apropriar-se dela, segundo os seus interesses
e de seu grupo.
Quanto
educadores, buscamos novas estratégias de atuação. No
entanto, possuímos vários questionamentos, principalmente
quando almejamos trabalhar com uma proposta diferenciada nas
aulas de Educação Física para a Educação Infantil.
Entendemos
a criança como um ser sócio-histórico, que se relaciona com
o mundo através de suas interações e experiências. Esta
comunicação se dá através do corpo, compreendido enquanto
totalidade localizada culturalmente. Portanto, é importante
a construção do movimento da criança. Por isso, partimos de
uma ação pedagógica objetiva sobre os caminhos que se quer
ampliar.
Ao adotar
estratégias metodológicas que partiam de temas geradores,
desenvolvemos práticas educativas da Educação Física na
Educação Infantil baseadas na concepção do “Se-movimentar”.
No decorrer de um semestre letivo implementamos
procedimentos didático-metodológicos, a partir das
Concepções Abertas às experiências de movimentos das
crianças. O brincar foi a forma didática de implementar as
ações nas aulas. O local foi uma escola particular no
município de São Miguel do Oeste - SC.
Os relatos das crianças e os aspectos relevantes no decorrer
do processo foram anotados em diário de campo. Nossas
observações buscavam aspectos relacionados à experiência
corporal nas aulas desenvolvidas. As análises foram
realizadas tendo como base esta categoria, onde foi possível
observar o desenvolvimento de experiências do corpo;
experiência com o corpo; experiência do corpo no espelho do
outro; apresentação do corpo e a interpretação da linguagem
corporal do outro.
Alguns trabalhos vieram a contribuir com este direcionamento
teórico-metodológico por definir alguns princípios
norteadores de uma proposta necessária para o processo de
transformação pela qual passa a Educação Física Escolar:
Kunz (1991, 2001 e 2003), Baecker (2003),
Hildebrandt-Stramann (2001), Gonçalves (1994) e
Funke-Wieneke.
A partir desta concepção e dimensão para o conceito de
movimento humano, que visou promover o desenvolvimento de
uma prática educativa emancipatória, delineamos uma ação
pedagógica de co-decisão no planejamento, objetivos,
conteúdos (conhecendo as diversas possibilidades de
movimento, contextualizando o sentido dos mesmos) e formas
de construção e comunicação no ensino.
INICIANDO AS ATIVIDADES
Inicialmente, acompanhamos algumas aulas da
professora de Educação Infantil e conhecemos a turma a qual
iríamos desenvolver as atividades, composta de vinte e
quatro alunos, com idades entre cinco e seis anos, de ambos
os sexos. Dialogamos com a direção escolar, educadores,
Serviço de Orientação Educacional (SOE); lemos
atenciosamente o Projeto Político Pedagógico (PPP) - sua
proposta educativa, orientações pedagógicas, currículo,
planejamento, metodologia e avaliação. Percebemos então, que
havia a necessidade de implementar uma proposta
didático-pedagógica nas aulas de Educação Física para a
Educação Infantil, até então inexistente. Partindo do
conhecimento da realidade, apresentamos nosso projeto à
escola. Este por sua vez, incluindo os planos de aula para
os primeiros dias, o plano de unidade e o plano de trabalho.
A
Educação Física encontrava-se numa situação privilegiada
quanto à infra-estrutura, com excelente espaço físico
interno e externo, com quadras cobertas, diversidade de
materiais e em quantidade suficiente. Quanto a Educação
Infantil, a proposta pedagógica da escola seguia
conhecimentos historicamente acumulados sobre os processos
de desenvolvimento e aprendizagem na primeira etapa da vida.
Para a escola, esta etapa tem um significado particularmente
importante, fundamentada numa concepção de criança como
cidadã, como pessoa em processo de desenvolvimento, como
sujeito ativo na construção de seu conhecimento.
A EXPERIÊNCIA CORPORAL
Desde o nascimento, o ser humano entra em contato com o
mundo através do movimento e, portanto de seu corpo. Na sua
origem, este movimento expressa necessidades fisiológicas: o
instinto de sobrevivência (respiração, fluxo sangüíneo,
batimentos cardíacos, sucção na amamentação), contrariedades
e desconforto (choro), alegria (risos), entre tantas outras
manifestações que ocorrem através de movimentos. Estas ações
são muito ligadas a questões sensório-motoras. O que
desenvolvemos na concepção de experiência corporal é a
relação do movimento com o mundo tornando-o um movimento
consciente e localizado sócio-culturalmente. Assim, o
diálogo corporal direto, livra-se da limitação de uma
interpretação sensório-motora, avançando para a
conscientização através da experimentação, tornando uma ação
de movimento que envolve sensações, sentimentos, pensamentos
e reflexões, motivos para a promoção da emancipação dos
sujeitos envolvidos.
A experiência corporal está no cerne da transformação do
próprio corpo do decorrer da vida e na realização de cada
movimento. E toda transformação traz em si uma modificação
na forma de perceber a si próprio e aos objetos. Então,
estruturamos pedagogicamente a experiência corporal em aulas
de Educação Física buscando em Funke-Wieneke (1983 apud
GONÇALVES, 1994: 148), que estrutura o trabalho a partir das
seguintes categorias:
1.
Experiência do Corpo:
voltada ao interior do sujeito que, através do movimento,
conhece, sente, relaciona as suas condições que antes eram
naturais (respirar, contrair, relaxar, andar, saltar, etc.)
tornando-as conscientes.
2.
Experiência com o Corpo:
aqui o sujeito passa a se relacionar com o mundo através de
seu corpo, reelaborando conceitos que este formulará a
partir de sua experiência individual e particular.
3.
Experiência do Corpo no espelho do outro:
ocorre quando se entra em diálogo com o outro, também corpo,
nas interações sociais, momento em que são provocadas as
comparações, as avaliações, as interpretações e as reflexões
sobre o seu próprio corpo e o corpo dos outros.
4.
Apresentação do corpo e a Interpretação da linguagem
corporal do outro:
significa a comunicação entre os corpos que se relacionam e
o mundo. Este momento propicia o diálogo em que
interpretações e respostas são expressas através do
“se-movimentar” destes corpos, constituindo novos
significados.
Através destas experiências, proporcionadas à Educação
Infantil em aulas de Educação Física, abriu-se a
possibilidade de fomentar o auto-conhecimento, a
auto-afirmação, a curiosidade, a busca do novo (novos
conceitos). Estas relacionadas com questões sócio-culturais
que vivenciamos no nosso dia-a-dia (estereótipos,
rendimento, etc.).
VIVENCIANDO A EXPERIÊNCIA DO CORPO
Podemos trazer para esta análise, uma situação em que os
educandos realizaram diversas atividades que exigia
deslocamento. No decorrer da aula, apesar de estarem
envolvidos com a brincadeira, (imitavam o dirigir de um
carro) alguns alunos comentaram: “Estamos cansados, podemos
tomar água?” Ainda: “Eu vou parar... cansei, depois eu
volto”. Sendo que em seguida retornaram e participaram.
Estas falas representam o que estavam sentindo - além do
prazer em realizar a atividade, suas características
subjetivas, o que limitou de certa forma que continuassem a
participar. Isso pode estar relacionado às valências
físicas, tais como força e resistência, influenciando sobre
a coordenação e ritmo dos movimentos, fundamentais para
atingir os objetivos da atividade, alterar a velocidade à
medida que mudava a sinalização efetuada pelo educador, sem
se chocar uns com os outros.
Em várias aulas desenvolvemos brincadeiras de pegador,
sendo que esta atividade consiste em um ou mais
educandos correr atrás de outro até tocá-lo. Constantemente,
de maneira bastante espontânea, algumas crianças
aproximavam-se dizendo estarem cansadas. Também com
freqüência, iniciávamos nossa aula com uma música, onde
realizávamos gestos conforme a letra. Certa aula a música
nos orientava para a lateralidade (direita/esquerda,
acima/abaixo) e à medida que alongávamos entre eles
comentavam: “eu consigo tocar no chão, ela não” e, ao
questionar por que não conseguiam “descer mais”, ou seja,
tocar o chão com a ponta dos dedos ou com a palma da mão sem
flexionar a articulação dos joelhos afirmaram: “se descer
mais dói”.Primeiramente a atividade era divertida e
prazerosa. Mas quando foi exigido um pouco mais de esforço,
exigindo maior conhecimento e controle corporal para
realizar o movimento intencionalizado, começaram a ocorrer
manifestações de insatisfação, pois a atividade proposta, de
caráter lúdico, fizera com que as crianças sentissem o seu
corpo, tornando conscientes suas ações de movimento e as
mudanças ocorridas em decorrência do movimento
proporcionado. Essa nova experiência permitiu qualificar uma
ação diferentemente das vivências do movimento ao qual não
estavam acostumados.
Cito mais um exemplo dessa relação do corpo com o
movimento. Uma criança ao participar da atividade proposta
“O Gato e o Rato” (pegador), disse estar com falta de ar,
por estar cansada e respirar ofegantemente. A prática desta
atividade tornou consciente uma ação que estava implícita na
sua realização, tornando-se um estímulo para a percepção da
inspiração e expiração. Visto que alterou o número de vezes
a respiração, e fez com voltar sua atenção para sentir essa
alteração, para prestar atenção no que estava acontecendo no
seu interior, o que de certa forma foi determinante das
possibilidades e limites para ela continuar a atividade.
Assim, percebemos que a experiência corporal inclui
percepção e conhecimento das possibilidades e limitações do
próprio corpo. Para Baecker (2003) este conhecimento está
relacionado às experiências anteriores e que são trazidas
para a situação presente, permitindo qualificar as ações de
movimento como boas ou ruins, julgar as sensações, de dor ou
prazer que anteriormente eram inconscientes.
Gonçalves (1994) ao se referir ao aspecto de movimento
afirma que, nossas aulas devem visar explorar as
possibilidades naturais do corpo físico, respeitando seus
limites naturais, auxiliando na criação do gesto harmônico,
no qual o “próprio corpo” “habita um corpo”, no qual o
movimento pode fluir com um mínimo de resistência.
Funke (1983) ressalta que é importante o sujeito tornar-se
consciente do seu corpo realizando o movimento, e através
desta relação, perceba outras alterações de acordo com suas
experiências particulares: respiração, batimentos cardíacos,
contração e relaxamento muscular, postura corporal, sua
maneira de andar, correr, saltar, etc., que estão
acontecendo simultaneamente ao ato biomecânico do movimento
executado em determinada atividade.
As manifestações de desconforto durante a realização dos
movimentos devem-se ao fato de que a maioria das crianças
pratica poucas atividades de movimento, pois não faz parte
de suas rotinas. A partir disso, percebemos que, aquilo que
antes era visto naturalmente, como integrante de uma
situação contextualizada de movimento, passa a ser percebido
isoladamente, tornando uma experiência consciente.
VIVENCIANDO A EXPERIÊNCIA COM O CORPO
Observamos este aspecto quando realizada a atividade
“Cabra-cega”. Ao propormos aos alunos que se
deslocassem e tentassem encontrar, tocar e identificar os
colegas com olhos vendados, muitos encontraram dificuldades,
principalmente com relação à orientação corporal e espacial,
expressa em suas falas: “pra onde tô indo?!”.
Ao explorar o ambiente natural foram evidenciadas situações
em que ocorreu a relação do corpo com o ambiente, como por
exemplo, quando algumas crianças falaram sobre suas
dificuldades em relação à atividade que consistia em imitar
o tatu, ao dar um rolinho frontal nos colchonetes: “É
difícil!”. Semelhante ao ocorrido em outra aula, quando num
primeiro momento pedi para andarem sobre uma corda, que
estava traçando uma reta no chão. Acharam muito fácil. Em
seguida, na atividade “Balança, mas não Cai”, duas
cordas foram amarradas paralelamente em duas árvores. As
crianças andaram de uma extremidade à outra, com os pés
apoiados em uma corda e segurando-se e apoiando-se em outra
que se encontrava na altura de seus braços, diziam: “Se eu
cair, tu me segura”? E ainda: “não consigo me segurar
direito”.
Em outra atividade desenvolvida (“A Cobra”), todos estavam
de mãos dadas. Uma extremidade era a cabeça e a outra o
rabo. A cabeça deveria pegar o rabo sem “abrir o seu corpo”,
ou seja, sem soltar as mãos. Todos poderiam ocupar esta
função, revezando-se: o primeiro (cabeça) ia para o fim
(rabo), assim sucessivamente. No momento em que foram
questionados sobre as dificuldades encontradas durante a
brincadeira, foi comentado sobre a dificuldade de
permanecerem com as mãos dadas, porque quem estava
desempenhando o papel de “cabeça” corria muito e os demais
não conseguiam acompanhar, sendo arrastados pelos demais.
Percebemos que houve dificuldades em relação ao ambiente e a
forma que deveriam adaptar seu corpo e seus movimentos para
conseguir deslocar-se.
Na brincadeira “Caçador de Tartarugas” (outra variação da
brincadeira de pegador), os “pegadores” saíram correndo para
“pegar as tartarugas”, agindo espontaneamente. Caminhavam
quando possível, corriam, agachavam, paravam, deitavam, etc.
Num segundo momento, as crianças puderam criar estratégias
para aprender o tipo de movimento (envolvendo direção,
distância, velocidade, rapidez, etc.) de acordo com as suas
características individuais. Em seguida, alguns movimentos
foram criados espontaneamente. A partir de suas próprias
relações com o mundo, puderam refletir-se no momento em que
se esquivavam ou fintavam. Principalmente quando perceberam
que nem sempre havia tempo para se deitar e, os próprios
“pegadores” não os tocavam quando simplesmente sentavam.
Geralmente
todos participavam das atividades propostas. Mas nas aulas
realizadas no campo de futebol ou quadras abertas, às vezes
alguns alunos se recusam a participar por sentirem intenso
calor. Em dias quentes pediam para beber água a todo o
momento. Também pelo fato da grama estar molhada e temerem
cair e se machucar. Através da experiência com o corpo é
onde o sujeito se relaciona com o mundo, tornando consciente
o modo que isso acontece, reelaborando seus conceitos de
acordo com suas experiências individuais, segundo Funke
(1983 apud GONÇALVES, 1994: 149).
Notamos que as crianças são limitadas a certas
formas de movimento quando exigidas. Muitos além de não
saber, tinham medo de tentar, mesmo com ajuda do educador ou
colegas, deixando de explorar as outras possibilidades que o
ambiente oferecia. Sendo que, surgem as dificuldades quando
propostas atividades diferenciadas, relacionadas geralmente
a aspectos motores.
Mesmo com
dificuldades, percebemos que as crianças trazem consigo a
idéia de superar desafios, de tentar criar o novo, de
descobrir possibilidades a partir de sua relação com os
objetos para criar outros métodos de realizar a atividade.
Podemos observar as atividades proporcionaram valiosas
experiências de movimento. Foi possível estabelecer uma
relação de diferentes espaços e contextos. Em alguns casos,
apesar de terem auxílio, ainda encontraram dificuldades em
relação ao local, pois esse tipo de vivências ainda é
novidade.
VIVENCIANDO A EXPERIÊNCIA DO CORPO NO ESPELHO DO OUTRO
Neste aspecto, ao desenvolvermos a brincadeira “Briga de
Galos”, uma atividade onde as crianças posicionavam-se em
pares, de cócoras, frente a frente com os braços estendidos,
devendo empurrar-se pelas mãos, tentando desequilibrar-se,
identificamos algumas expressões e comparações feitas entre
os alunos, tais como: “Ele (a) é mais forte que eu”, “ganhei
porque sou mais grande” e “ela sempre me derruba, quero
trocar de dupla”.Em outra aula, uma das atividades era
imitar o Saci-Pererê nas mais variadas formas. Pedi que
fizessem duplas, ficassem abraçados e fossem pulando a uma
determinada distância e posteriormente retornar. Havia na
turma algumas crianças que não conseguiam equilibrar-se.
Logo começaram a dizer: “vem você comigo”, “com ela não vou
mais”, e “não quero mais brincar”.
Esta terceira forma de análise da experiência
corporal, Funke (1983 apud GONÇALVES, 1994: 148),
caracteriza um momento de trocas de informações com os
outros, de como o sujeito percebe-se executando os
movimentos e de como percebe os outros, provocando
comparações, avaliações e a interpretação do seu próprio
corpo e o corpo dos outros, momento em que acontecem,
também, as interações sociais.
Outro aspecto pôde ser verificado na aula. Trazemos para
análise uma situação onde foi proposto como atividade a
“Corrente”, que consistia em uma criança ser designada como
pegador. Ao tocar em algum de seus colegas, este passaria a
ser o seu ajudante, enquanto os demais fugiam. Ia aumentando
o número de ajudantes e diminuindo o espaço, uma vez que os
pegadores estavam de mãos dadas, formando uma grande
corrente, sendo que esta não poderia soltar as mãos. Num
primeiro momento, mostraram-se entusiasmados, enquanto o
grupo era pequeno, mostraram-se bastante interessados.
Porém, quando o grupo começou a ficar grande e a “corrente”
ficar demasiadamente grande, os que se encontravam mais ao
centro começaram a soltar as mãos, não permanecendo unida.
Relatam que: “Eu soltei porque tavam puxando o meu braço dos
dois lados”, e “um vai pra um lado e outro pro outro”. Ao
pedir porque ficou em determinado grupo (lado) disseram que
foi o lado que estava a puxar maior intensidade, ou seja, o
grupo geralmente maior ou mais forte.
As crianças demonstraram ter consciência do seu
próprio corpo, da capacidade de força, e das condições que
tinham de guiar o colega e serem guiados. Analisando essas
expressões, verificamos que havia interação entre eles no
desenvolvimento da atividade, enquanto o grupo ainda era
pequeno. No sentido de ultrapassar a dificuldade existente,
houve uma tentativa de solucionar o problema, a partir do
momento que para realização da atividade todos combinavam ir
ao encontro do mesmo colega. Pela vivência de movimento e
consciência corporal, perceberam que para a realização da
atividade era necessário todos irem à mesma direção, para
frente e não para os lados. Percebemos nessa situação, que
houve uma reflexão após mediação. Verificamos que a
dificuldade nessa atividade era por falta de diálogo e
organização. Esta falta de diálogo e organização deve-se ao
modelo impregnado e estabelecido do esporte, onde as
crianças são precocemente motivadas pelo anseio em ganhar a
disputa/atividade, o que reforça o sistema esportivo
universal, não considerando o aspecto pedagógico e
educacional nas aulas de Educação Física.
Para Baecker (2003), através da educação do corpo
também são mediadas normas e valores da sociedade: a
postura, a expressão, aparência, o comportamento bom e o
ruim, o reconhecimento da autoridade, comportamentos de
concorrência e esforços de rendimento. E através dessas
normas, expressada através de valores estabelecidos, é que
se dá a interação dos sujeitos em determinado grupo social.
Através das experiências, as crianças puderam
manifestar comparações feitas entre eles. Isso exige ter
consciência do seu próprio corpo, porque as comparações
deles acontecem a partir de si, para os outros. E ainda, há
certa preocupação em relação ao tamanho e à força,
manifestando espontaneamente o desejo por uma padronização
em relação ao tamanho dos demais colegas, e essa
padronização é diretamente influenciada pelo modelo
sócio-cultural em que eles estão inseridos.
VIVENCIANDO A APRESENTAÇÃO DO CORPO E INTERPRETAÇÃO DA
LINGUAGEM CORPORAL DO OUTRO
Este aspecto foi verificado durante o
desenvolvimento de atividades relacionados à educação para o
trânsito. De acordo com nossas orientações, todos deveriam
“dirigir”, ou seja, imitar ser um motorista na direção de um
veículo, nas mais variadas formas. Nessas situações,
percebemos que as crianças possuíam dificuldades em
permanecer com os colegas do sexo oposto, formando grupos do
mesmo sexo. No final da atividade, problematizamos uma
discussão, onde obtivemos as seguintes expressões: “a
gente sempre faz assim...”, “Porque é piá com piá e menina
com menina”.
Analisando o andamento das aulas e as falas,
verificamos que muitas crianças têm receio em interagir nas
atividades com colegas do sexo oposto. Ao iniciarmos a aula,
geralmente encontramos grupos de meninos brincando na terra
ou subindo em árvores, separados das meninas, sendo que
estas brincam de boneca ou casinha. Isso se tornou explicito
no “se-movimentar” dos alunos que através da atividade de
movimento, manifestaram seus sentidos/significados em
relação à atividade.
Em uma determinada aula, antes de iniciarmos as
atividades, uma aluna pediu que fosse jogada para cima e a
pegasse. Aparentemente não víamos propósito algum neste
gesto. Porém quando as demais crianças viram, queriam o
mesmo. Só assim pudemos dar continuidade à aula. Diante
desse fato, podemos perceber que esta ação para as crianças
teve um sentido/significado para cada sujeito, onde todos se
expressaram de forma favorável. Mas por outro lado, havia
atividades planejadas a serem desenvolvidas. Contudo, vemos
que em cada expressão, as crianças manifestam-se de acordo
com a vivência subjetiva de movimento, e essa vivência teve
um sentido/significado diferente para cada aluno,
relacionado à sua cultura de movimento.
Os aspectos culturais e sociais dos alunos
interferem claramente nas atividades de movimento das aulas
de Educação Física. Como menciona Kunz (2001), é através da
intencionalidade que se constitui o sentido/significado do "se-movimentar",
intencionalidade esta que se orienta pelos fatores externos.
O sentido/significado estabelecido em aula é o mesmo que
aparece fora do âmbito escolar, e não como uma manifestação
da cultura de movimento, de expressão e vivência dos
sujeitos. Faz-se necessário oportunizar às crianças a chance
de vivenciar experiências bem sucedidas, que escapam do
sentido cotidiano das atividades obrigatórias, contribuindo
com a possibilidade de indivíduos críticos e emancipados.
Portanto, fica evidente a importância da exploração dos
espaços diferenciados para a prática de movimento, a qual o
sujeito pode estabelecer diferentes sentidos/significados
para suas ações.
Ao ampliarmos as experiências de movimento
poderemos oportunizar de movimentos diferenciados, onde o
corpo seja vivido em todas as suas possibilidades. E, para
isso, é fundamental que no processo de aprendizagem seja
considerada a experiência de vida individual de cada
sujeito, pois “sempre vemos homens movimentando-se, nunca
forma de movimento” (HILDEBRANDT-STRAMANN, 2001: 110).
PARA NÃO
FINALIZAR
Quanto professor de Educação Física, posso dizer
que em nossa formação acadêmica, assuntos relacionados à
Educação Infantil se faz pouco presente. Ao iniciar as
atividades na comunidade escolar, pude perceber ao dialogar
com as crianças, educadores e pais sobre as maiores
dificuldades, limitações e a importância da proposta
implementada. Todos reconheceram a importância do trabalho
desenvolvido como fator de aprendizagem, pois foi visível a
relevância para as crianças não somente a nível social, mas
também, a nível motor, cognitivo e emocional. Ludicidade,
imaginação e fantasia fizeram-se presentes, estimulando a
criatividade, oportunizando expressar o ser e as emoções.
As crianças
necessitam de liberdade de movimento e tiveram esta
oportunidade, com diversas possibilidades para a ampliação
da cultura de movimento, contribuindo na construção do
sentido/significado.
Podemos
dizer que a proposta metodológica fez-se como um meio
viabilizante na Educação Infantil, onde o educando foi
estimulado à auto-reflexão à emancipação, contribuindo na
construção de seu mundo, possibilitando aprender, criar e
inventar. Nesta perspectiva, a proposta estimulou a reflexão
sobre as possibilidades de fomento da emancipação do sujeito
nas aulas de Educação Física, de uma forma que não
desvincule da realidade a sua volta, desenvolvendo um
trabalho integrado.
Ao trabalhar com a experiência corporal, as
crianças se expressavam timidamente, dispersavam facilmente,
havendo dificuldades de concentração e manter a atenção. À
medida que desenvolvíamos nossas aulas, percebemos que as
crianças comportaram-se de forma a refletir sobre regras,
sobre necessidades e interesses do grupo, sobre possíveis
modificações, para que as expectativas individuais e do
grupo fossem atingidas. As experiências estabeleceram
relações do sujeito com o ambiente, com o seu corpo e
autonomia para criar novas situações de movimento. Dessa
forma, através da experiência corporal, abriu-se
possibilidade para as crianças fomentar o auto-conhecimento,
a auto-afirmação, a curiosidade. Ao sentir o movimento,
passou a modificá-lo e ressignificá-lo dentro de sua
condição social e cultural, expressando-se, dialogando com o
mundo. Foram possibilitadas diversas experiências de
movimento, contribuindo, problematizando e estimulando o
pensamento reflexivo.
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DIMENSÕES DE UMA EDUCAÇÃO TRANSFORMADA PELA MODERNIDADE,
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Maranhão: Autores Associados, 2003.
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In: SEMINÁRIO BRASILEIRO EM “PEDAGOGIA DO ESPORTE”.
FUNÇÕES, TENDÊNCIAS E PROPOSTAS PARA A EDUCAÇÃO FÍSICA
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_______________ Didática da Educação Física. 2ª Ed.
Ijuí: Unijuí, 2001.
_______________Transformação
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5ª Ed.
Ijuí: Unijuí, 2003.
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