Resumo:
O desafio para os educadores da EJA está em perceber a maneira com
que os alunos conseguem compreender os saberes escolares, a
dificuldade em relacionar suas vivências com esses saberes, as
representações que trazem sobre determinados conhecimentos, em
razão da maneira com que relacionam a palavra e o pensamento. São
desafios a serem debatidos e refletidos pelos educadores não só
para o processo de alfabetização como para os demais saberes da
escola.
Palavras – chaves:
EJA, saberes, alunos, educadores.
Abstract:
The challenge for educators of adult education is to realize the
way that students can understand the school knowledge, the
difficulty in relating their experiences with this knowledge, the
representations that bring about certain knowledge, because of the
way we relate to words and thought. Are challenges to be debated
by educators and reflected not only the literacy process as for
other knowledge of the school.
Key - words:
adult education, knowledge, students, educators.
A escola é uma das instituições na qual se percebe claramente as
diferenças existentes entre os indivíduos (biológicas, culturais,
sociais, econômicas). Na Educação de Jovens e Adultos, às vezes de
maneira diferente do ensino obrigatório, outras situações diversas
são encontradas: alunos que trabalham e de variadas faixas etárias
em uma mesma etapa de ensino, tempos diversificados de interrupção
da escolarização ou de iniciação tardia nos estudos.
Os motivos de interrupção dos estudos por parte dos alunos da
modalidade EJA dizem respeito, geralmente, a fatores emocionais,
culturais, cognitivos e econômicos. Os sujeitos do presente
trabalho, pertencentes a uma escola municipal da região central do
Rio Grande do Sul, apresentam o fator econômico como sendo o de
maior relevância, o qual gera uma situação peculiar: os alunos
param de estudar em razão da necessidade de trabalhar e voltam
mais tarde a estudar para melhorar suas condições de trabalho ou
conseguir um emprego que exige melhor qualificação.
Sendo essa a situação desses alunos, questionamos o porquê dessa
vivência não ser explorada nos processo de aprendizagem da escola:
por que a realidade cotidiana dos/as alunos/as jovens e adultos/as
não serem utilizadas em sala de aula? Por que não trazer para sala
de aula os conhecimentos adquiridos no trabalho? Talvez esse seja
o “grande diálogo” que falta entre o mundo da escola e o mundo do
qual os alunos fazem parte.
Segundo Antônia Aranha (2003), reconhecer a necessidade de
estabelecer um diálogo entre esses conhecimentos é assumir uma
postura epistemológica e ontológica que foge dos padrões
tradicionais:
Epistemologicamente seria reconhecer e valorizar outro tipo de
conhecimento para além do conhecimento sistematizado, socialmente
valorizado. [...] denominado como conhecimento tácito. [...] o
trabalhador, ainda que de forma assistemática, produz
conhecimento, elabora um saber sobre o trabalho, que não é apenas
constituído de noções de sobrevivência e relacionamento na selva
competitiva do mercado de trabalho, mas que é também técnico
(ARANHA, 2003, p. 105).
Se por um lado grande parte dos educandos apresenta uma
dificuldade na aprendizagem formal, por outro lado podem ser
bastante eficientes as informações, que atualmente são
transmitidas de várias maneiras (TV, jornais, internet), ou até
mesmo nas experiências que trazem de suas vivências como o
pensamento lógico- matemático que possuem para viver, pois
aprenderam a pagar contas, dar e receber troco.
Esse saber relacionado ao fazer do seu cotidiano que o educando
traz para a sala precisa ser valorizado na escolarização e
estimulado para que assim o mesmo pensamento lógico que possuem
nessa área do conhecimento ocorra também nas outras áreas de
conhecimento a serem estudadas.
Nas trocas de informações entre os alunos e dos alunos com o
professor, pode-se descobrir com os alunos a melhor forma de
ensinar os conteúdos curriculares, e também o professor incorporar
os saberes que o aluno traz de sua vivência em seu fazer
pedagógico. Dessa maneira o processo de ensino- aprendizagem se
torna mais atraente, estimulante e, assim, gera um ambiente
agradável de aprendizagem.
Em Pensamento e Linguagem Vygotsky explica que o
conhecimento é construído na interação com os outros. Como sabemos
que as trocas entre as pessoas que participam de certa interação
são desiguais, porque dependendo do assunto uns sabem mais do que
os outros, o educador precisa ter sensibilidade para compreender o
tempo de aprendizagem de cada um. Por isso “o desenvolvimento do
sujeito humano e de sua singularidade se dá a partir das
constantes interações com o meio social em que vive, já que as
formas psicológicas mais sofisticadas emergem da vida social.” (Vygotsky
apud Rego, 1998, p. 62).
Nesta perspectiva, observamos que as diferenças existentes no meio
escolar deveriam ser aspectos complementares, a escola deveria
incentivar os seus alunos a aproveitarem o conhecimento, as
vivências de cada colega. Haveria assim uma cumplicidade, uma
co-responsabilidade com o aprendizado do outro, que enriqueceria
todo o grupo, inclusive o educador. Isto porque na modalidade EJA
conhecemos educadores que se dizem “despreparados” para este
público ao qual atendem e sobre esse sentimento de angústia dos
educadores, Karina Klinke e Helenise Antunes (2008) afirmam:
São muitos os desafios e compromissos didático-pedagógicos que
envolvem o tempo do professor. Esse, além de corrigir as
avaliações dos alunos, deveria preparar aulas bem fundamentadas e
diversificadas, desprendendo de um tempo fora da escola, tempo
esse que muitas vezes seria dedicado à família ou a si próprio e
ineficiente para a reflexão sobre uma prática que proporcione as
aprendizagens significativas dos alunos (KLINKE;ANTUNES, 2008, p.
446).
Essa falta de tempo que atinge a todos os professores, inclusive
os profissionais da EJA, faz com que muitas vezes não haja tempo
suficiente para o professor preparar uma aula para o seus alunos e
nem tenha tempo para se preparar profissionalmente, o que acaba
lhe frustrando profissional e pessoalmente.
Atualmente, além de sua formação profissional inicial, o professor
sente necessidade em participar de uma formação continuada, sobre
isso Behrens (1996) diz:
A essência na formação continuada é a construção coletiva do saber
e a discussão crítica reflexiva do saber fazer. As pesquisas na
área da formação de professores enfatizam que os docentes precisam
estar com vontade de mudar, sensibilizados pela necessidade de
transformar a ação docente, em busca de um ensino de melhor
qualidade ousa-se dizer que o docente precisa ser seduzido e
seduzir-se para buscar a renovação de sua prática pedagógica (BEHRENS
apud KLINKE;ANTUNES, 2008, p. 450).
É necessário que a escola propicie espaços de reflexões para o
professor rever sua prática pedagógica, dividir dúvidas e
dificuldades com seus colegas e outros profissionais da área de
educação. A formação continuada não é a solução para os problemas
da qualidade do ensino, porém é uma alternativa relevante para se
encontrar estratégias para melhorar a qualidade do ensino.
Referência bibliográfica:
ARANHA,
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Vygotsky.
Lev. Semenovitch. Pensamento e Linguagem. 2ª Ed. São Paulo:
Martins Fontes, 1998.
1*
Graduada em Pedagogia Licenciatura Plena pela Universidade Federal
de Santa Maria (UFSM), Graduanda em Educação Especial Licenciatura
Plena (UFSM), Especializanda em Gestão Educacional (UFSM); Tutora
do Curso de Pedagogia Licenciatura Plena à Distância pela UFSM e
Pesquisadora do Grupo Kairós (UFSM).