I. A revolução conceitual
Quando pensamos em alfabetização e pretendemos traçar um
panorama das idéias que afetam a educação brasileira não
podemos deixar de lado os pressupostos apresentados por
Emília Ferreiro e seus colaboradores na década de 80. Foi
ela quem produziu uma verdadeira revolução conceitual na
alfabetização, desmontando explicações que havíamos
construído ao longo de décadas para justificar o fracasso
escolar de crianças brasileiras na fase inicial da
alfabetização.
Seu trabalho acadêmico divulgou-se tão rápido entre os
educadores brasileiros e com tão grande ênfase, que o foco
de atenção, antes, centrado no professor que ensina, passou
a ser no aluno que aprende. Do ponto de vista teórico, suas
idéias mudaram radicalmente as perguntas que orientavam os
estudos sobre a aquisição da leitura e da escrita na
alfabetização. Resgatando a compreensão do sujeito cognitivo
de Piaget, os estudos de Emília Ferreiro, colocam a criança
como ser capaz, mesmo muito pequena, de criar hipóteses, de
testá-las e de criar sistemas interpretativos na busca de
compreender o universo que a cerca.
Se antes as estatísticas educacionais apontavam que metade
das crianças matriculadas nas escolas brasileiras reprovavam
na passagem da 1ª série para a 2ª série porque apresentavam
problemas de aprendizagem que se justificavam ora em função
de carência nutricional, ora de falta de estímulo
intelectual, de carência cultural, de problemas
psiconeurológicos ou então deficiência lingüística. Emília
Ferreiro aparece e afirma por meio de sua pesquisa
(Psicogênese da língua escrita, em 1986 - uma descrição do
processo através do qual a escrita se constitui objeto de
conhecimento para a criança) que os problemas não são todos
dos alunos e que é preciso repensar o papel da escola e do
ensino oferecido às crianças, pois existem deficiências que
se escondem atrás dos escabrosos números de nossas
estatísticas que estão diretamente relacionadas com o papel
da escola e do ensino na vida dos educandos.
Partindo da hipótese de que a aprendizagem da leitura e da
escrita não se limita à sala de aula e de que a criança
inicia o seu processo de alfabetização muito antes de entrar
para a escola, Emília Ferreiro e seus colaboradores inovam
ao assumir a alfabetização em uma abordagem mais ampla:
deixando de ser uma questão exclusivamente pedagógica, que
requer a utilização de um método preconcebido e atividades
mecanicistas de treinos e memorização, a alfabetização se
explica também pelas variáveis sociais, culturais, políticas
e psicolingüísticas.
E é considerando essas variáveis que se trava o processo de
construção da língua escrita. Um processo marcado
externamente pelas interações sociais e pelas experiências
do sujeito aprendiz com as práticas do ler e escrever,
internamente, pelos conceitos construídos, subsidiados pela
sucessão de contradições e conflitos cognitivos.
Assim, se durante muitos anos, a língua escrita foi
compreendida como um código cujo funcionamento se explicava
pela associação de fonemas e grafemas na formação de
sílabas, palavras e frases, o que tornava possível a
transposição da fala para o papel. E que bastava dominar a
grafia das letras (pelo amadurecimento da coordenação motora
fina), de associá-las aos seus respectivos sons (pela
capacidade de atenção, concentração, memorização), e, ainda
de ajustar a combinação de letras e palavras às regras da
ortografia e de gramática (pelo exercício repetitivo das
normas lingüísticas), para a escrita está definitivamente
conquistada. Superando a esfera do código, Emília ferreiro,
apoiada nos estudos lingüísticos, chama a atenção para a
complexidade da escrita entendida como sistema de
representação.
Sistema esse que nos obriga a admitir que não é o simples
domínio do sistema que irá tornar o sujeito um escritor
competente, porque, além disso é preciso que ele amplie a
sua experiência e seus conhecimentos a ponto de reconhecer a
escrita na sua especificidade . Ao lado dos princípios
normativos que organizam o seu funcionamento (como a
alfabeticidade e a ortografia), há uma vasta possibilidade
de configurações e funções inerentes ao uso da língua que
merece ser considerada nas mais diversas situações sociais
de uso da escrita. Assim, longe de simplesmente colocar em
prática os princípios de um código, o aprendiz acaba se
envolvendo em processos de reflexão e recriação lingüística
transformadores da própria linguagem: o que escrever, para
que escrever, o gênero e a estrutura da escrita, seus
destinatários e sua função social.
no caso da codificação, tanto os
elementos como as relações já estão
predeterminados (...) No caso da
criação de uma representação, nem os
elementos nem as relações estão
predeterminados (...) a invenção da
escrita foi um processo histórico de
construção de um sistema de
representação, não um processo de
codificação. Uma vez construído,
pode-se-ia pensar que o sistema de
representação é aprendido pelos
novos usuários como sistema de
codificação. Entretanto não é assim
(...) as dificuldades que as
crianças enfrentam são dificuldades
conceituais semelhantes às da
construção do sistema e por isso
pode-se dizer que, em ambos os casos
(sistema numérico e sistema
lingüístico) que a criança reinventa
esses sistemas (Ferreiro em
Reflexões sobre alfabetização-1997).
A confiança no sujeito aprendiz, que se lança ativamente na
construção do saber, o entendimento da escrita como sistema
de representação e da alfabetização como um amplo processo
reflexivo que se configura pela re-construção da língua
escrita redimensionam a compreensão que se tinha sobre a
pedagogia da alfabetização até o início dos anos 80. Pela
primeira vez na escola, os métodos de ensino e as práticas
tradicionais preconizadas pelas cartilhas deixam de ser o
foco das perspectivas de inovação ou das promessas de
superação do fracasso escolar.
O que há de fundamental na contribuição teórica trazida por
Emília Ferreiro e colaboradores é a transferência do foco
educativo: do professor que ensina para o aluno que aprende;
do método preconcebido para a construção do saber; do
projeto de ensino controlado em etapas para a prática
pedagógica construída no dia-a-dia com os conflitos
cognitivos emergentes em sala de aula; da progressão
previsível e justificada para a flexibilidade capaz de
respeitar o tempo do aluno, valorizando o seu ritmo de
aprendizagem e o contexto no qual está inserido.
II. Conhecendo a pesquisadora revolucionária...
Ao contrário de grandes pensadores influentes na educação
como Piaget, Vygotsky, Montessori e Paulo Freire, todos
mortos, Emilia Ferreiro está viva e continua trabalhando
regularmente. Nasceu na Argentina em 1937 e tem atualmente
68 anos, vive no México onde trabalha no Departamento de
Investigações educativas (DIE) do Centro de Investigações e
Estudos avançados (Cinvestav) do Instituto Politécnico
Nacional do México.
Fez seu doutorado sob a orientação de Piaget – na
Universidade de Genebra, no final dos anos 60, dentro da
linha de pesquisa inaugurada por Hermine Sinclair, que
Piaget chamou de psicolingüística genética. Voltou em 1971,
à Universidade de Buenos Aires, onde constituiu um grupo de
pesquisa sobre alfabetização do qual faziam parte Ana
Teberosky, Alicia Lenzi, Suzana Fernandez, Ana Maria Kaufman
e Lílian Tolchinsk.
No ano de 1974, Ferreiro acabou afastada de suas funções
docentes na universidade (a situação política na Argentina
ia se deteriorando progressivamente) , mas mesmo sob tão
difíceis condições o grupo se manteve e as pesquisas
continuaram durante os anos de 1975 e 1976.
Em 1977, após o golpe de estado na Argentina foi abrigada a
se exilar, e leva na bagagem os dados das entrevistas que
ela e sua equipe haviam realizado cuja análise está na
origem da psicogênese da língua escrita. Passa a viver na
Suíça em condição de exilada e a lecionar na universidade de
Genebra, onde inicia uma pesquisa com a ajuda de Margarida
Gómez Palacio sobre as dificuldades de aprendizagem das
crianças de Monterrey (México).
Em 1979, muda-se para o México com o marido – o físico e
epistemólogo Rolando García, com quem teve dois filhos.
Publica o livro Los sistemas de escritura em el
desarrollo del ninõ em co-autoria com Ana Teberosky quem
ajudou na análise exaustiva dos dados obtidos em Buenos
Aires numa ponte entre Genebra onde se encontrava Ferreirro
e Barcelona onde se encontrava Teberosky, pois o duro exílio
se estendeu por alguns anos, até mesmo para a maioria das
pesquisadoras desse grupo que foram obrigadas a espalhar-se
pelo mundo.
Em 1982 publica com Margarida Gómez Palácio o livro
Nuevas perspectivas sobre los proceesos de lectura y
escritura, fruto de pesquisa com mais de mil crianças em
que distingue oito níveis de conceitualização da escrita.
Nos anos de 1985, 1986 e 1989 publica obras que reúnem
idéias e experiências inovadoras na área de alfabetização
realizadas na Argentina, no Brasil, no México e na
Venezuela: la alfabetización em proceso;
Psicogênese da língua escrita, Los hijos del
analfabetismo (propuestas para la alfabetizacíon escolar em
América Latina.
Em 1992 recebe o título de doutor Honoris causa da
Universidade de Buenos Aires,em 1999, pela Universidade
Nacional de Córdoba (Argentina), em 2000 pela Universidade
nacional de Rosário (Argentina) em 2003 é novamente
homenageada com o título pela universidade de Comahue
(Argentina) e Atenas (Grécia).
No Brasil, em 1994, recebe da Assembléia Legislativa da
Bahia a medalha "libertador da Humanidade" que anteriormente
fora atribuída ao líder sul-africano Nelson Mandela e ao
educador brasileiro Paulo Freire. Em 1995 foi novamente
homenageada com o título de doutor Honoris causa
atribuído pela Universidade estadual do Rio de Janeiro
(Uerj). E em 2001 recebe do governo brasileiro a Ordem
Nacional do Mérito educativo.
Hoje, desenvolve projetos de pesquisa, orienta teses e
participa de reuniões acadêmicas no mundo todo. Estamos
falando de uma personalidade que dentro do contexto
significativo da educação, aparece não só como uma
pesquisadora revolucionária, que apresenta novas convicções
para recriar a realidade a partir de uma revisão crítica do
conhecimento, mas que pelo mérito de sua iniciativa e
magnitude de sua obra merece ser considerada como verdadeira
educadora da humanidade.
Preocupada com as minorias, com a diversidade cultural, com
o direito à palavra, com o impacto de suas descobertas,
capaz de não só ousar no plano teórico, mas de assumir com
humildade o diálogo com os educadores.
III. A construção da escrita e o papel da escola
A crença de que a alfabetização começava e acabava entre as
quatro paredes da sala de aula e que a aplicação correta de
um método garantiria ao professor o controle do processo de
alfabetização dos alunos, baseava-se tradicionalmente no
enfoque de como se deve ensinar a ler e a escrever.
Emília Ferreiro desviou o enfoque do "como se ensina" para o
"como se aprende", colocando assim a escrita no seu devido
lugar – como objeto sócio-cultural de conhecimento. Tirando
da escola o monopólio da alfabetização e colocando no centro
dessa questão o sujeito ativo e inteligente que Piaget
descreveu. A idéia de que o aprendiz precisa pensar sobre a
escrita para se alfabetizar era revolucionária.
Até então, acreditava-se no papel da escola que determinava
os pré-requisitos necessários para a alfabetização, como um
conjunto de habilidades de prontidão que as crianças
deveriam ter para serem alfabetizadas e para verificar se
essas habilidades estavam desenvolvidas a escola aplicava
uma série de testes ou exercícios a fim de perceber a
maturidade da criança.
Cabia ao professor ensinar essa tarefa estritamente escolar
e as crianças só aprendiam aquilo o que o professor lhes
ensinasse. Assim, primeiro o professor ensinava as letras
e/ou sílabas escritas e seus respectivos sons e quando essas
correspondências estivessem memorizadas as crianças seriam
capazes de ler e escrever. Quando a criança não aprendia,
ela é que tinha problemas de aprendizagem e precisava de
tratamento clínico, psicológico ou psicopedagógico.
Mas como foi que essa crença, aparentemente tão estabelecida
começou a ruir?
Com as investigações de Emília Ferreiro e colaboradores que
demonstraram que ao contrário do que se pensava a questão
crucial da alfabetização não era de natureza perceptual, mas
conceitual. Ou seja, por trás da mão que segura o lápis e
escreve e de um olho que lê, está um sujeito que pensa sobre
a escrita. E que essa existe em seu meio social, não apenas
entre as quatro paredes da sala de aula e com a qual ele
toma contato por atos que envolvem sua participação em
práticas sociais de leitura e escrita.
Pode-se falar de uma evolução da
escrita na criança, evolução
influenciada, mas não totalmente
determinada pela ação das
instituições educativas, mais ainda,
pode-se descrever uma psicogênese
nesse domínio (isto é, pode-se não
somente distinguir etapas
sucessivas, mas também interligá-las
em termos de mecanismos
constitutivos que justificam a
seqüência dos níveis sucessivos). (A
escrita... antes das letras 1990)
Desmoronou porque a mudança no foco das pesquisas mostrou um
elemento novo: as crianças tinham idéia sobre a escrita
muito antes de serem autorizadas pela escola a aprender.
Essas idéias assumiam formas inesperadas e ao invés das
crianças irem acumulando as informações oferecidas pela
escola, elas pareciam inventar formas surpreendentes de
escrever que apareciam dentro de uma ordem precisa.
Não pretendemos neste artigo fazer uma descrição exaustiva
da evolução das hipóteses infantis sobre a escrita. Mas nos
deter no impacto que essas idéias tiveram na educação o que
definiu uma espécie de marco divisor: um antes e um
depois na história da alfabetização brasileira.
Com o objetivo de ampliar a compreensão dos educadores sobre
os dilemas cognitivos enfrentados pela criança na construção
da escrita, a publicação de Psicogênese da língua
escrita, no início dos anos 80, teve o mérito de trazer
a temática para uma abordagem mais ampla: dos aspectos
formais (como o reconhecimento das letras e o
estabelecimento das relações entre elas e outras marcas de
representação como a pontuação, os números e os desenhos)
aos modos de produção e interpretação a partir de fatores
como a escolaridade, o dialeto e a ideologia. Nos anos
seguintes, outros estudos foram realizados sempre com a
preocupação de compreender as regularidades observadas na
construção da escrita e os processos psicológicos inerentes
á aprendizagem.
Entretanto, a psicogênese em sala de aula, acabou
configurando-se sob a forma de práticas reducionistas e
equivocadas. Os professores ansiosos por encontrar
alternativas para os dramáticos índices de reprovação e
fracasso escolar, acabaram fazendo uma transposição das
situações de pesquisa para a escola como mais uma
metodologia de trabalho do que propriamente como um estímulo
à reflexão, ao estudo e ao planejamento de práticas
compromissadas com os educandos. Muitos educadores
lançaram-se á psicogenética como se ela fosse a solução para
todos os problemas enfrentados em sala de aula.
E assim, uma série de modismos pedagógicos foram surgindo,
criados pela má interpretação dos princípios psicogenéticos.
O mais grave deles evidenciava uma posição espontaneísta em
relação ao ensino das crianças, como podemos notar entre as
práticas equivocadas que invadiram as salas de aula:
Ausência de intervenções pedagógicas para não "atrapalhar" o
processo de aprendizagem, sem a preocupação de propor
experiências favoráveis à construção do conhecimento;
Desconsideração do planejamento;
Aceitação de qualquer tipo de erro sem esforço
interpretativo para entender a sua lógica ou para
transformá-lo em recurso para a superação das dificuldades;
Pretensão de hierarquizar a aprendizagem em etapas induzindo
a progressão do conhecimento a partir de sucessões dos
níveis descritos;
Deixar a criança escrever livremente, sem interferências e
sem propósitos ou destinatários; trabalhar só com textos em
detrimento de uma reflexão mais sistemática sobre o
funcionamento do sistema;
Evitar a correção ou qualquer forma de revisão textual.
Composição de livros didáticos que, pretendendo substituir
as cartilhas, agrupam diferentes tipos textuais, mas não
asseguram as especificidades do portador nem as reais
situações de uso.
Entre tantas outras práticas reducionistas que seja pela
resistência das práticas tradicionais, seja pelos equívocos
da transposição das idéias de Ferreiro para sala de aula, os
anos 80 e 90 foram marcados por expectativas frustradas no
que se refere à alfabetização. O que prevaleceu foi um
enorme contingente de alunos que passam anos sem escrever
alfabeticamente ou daqueles que mesmo tendo atingido esse
estágio não se constituem em efetivos usuários da escrita.
Junte-se a esse quadro professores desassistidos pelas
iniciativas de capacitação com uma rotina profissional de
incertezas, frustrados e incapazes para mudar práticas
quando ainda não foram mudados os paradigmas que as
subsidiam.
Considerar a alfabetização como construção de conhecimento
em lugar de simples acúmulo de informações não significa
assumir uma posição espontaneísta no que se refere ao
ensino. Muito pelo contrário, uma abordagem psicogenética da
alfabetização aumenta a responsabilidade da escola, em vez
de diminuí-la. Nem significa que as crianças não precisem
aprender o valor das letras. O que a psicogênese da língua
escrita permitiu compreender é que esse saber não é
suficiente para aprender a ler e a escrever. Mas
insuficiente não significa desnecessário.
A complexidade da construção da escrita apresentada por
Ferreiro e colaboradores, sugere a necessidade de
iniciativas que, tanto do ponto de vista político quanto no
plano pedagógico, possam estimular a continuidade de
pesquisas básicas e aplicadas, ampliar o debate e a troca de
experiências dos educadores, aproximar a universidade da
escola básica, valorizar a educação, incidir sobre a
formação inicial e continuada dos professores, favorecer a
desburocratização escolar, a autonomia das instituições de
ensino e o aprimoramento das condições de trabalho.
IV. A guerra dos métodos
Não há dúvidas de que as concepções de Emília Ferreiro
deixaram marcas no discurso escolar brasileiro. São
evidentes essas marcas nos documentos oficiais do país, nos
cursos acadêmicos, nos livros didáticos, nos programas de
escolas públicas e particulares. Já na década de 80, fase em
que tais concepções começavam a circular no país, vimos que
a proposta revolucionária de ensino da escrita acaba
figurando dentro da famosa "guerra dos métodos" (sintético
versus analítico).
Hoje, as avaliações nacionais de educação vêm sendo usadas
como argumentos para as investidas de defensores do método
sintético contra a influência do construtivismo de Ferreiro.
As concepções de Ferreiro encontram como opositores mais
frontais o chamado método fônico, que sempre foi e ainda é
reforçado pela inércia escolar (método tradicional de
ensino) ou por "provas científicas" que afirmam que a
consciência fonológica é o preditor número um na
aprendizagem da leitura.
Nesse contexto de embates discursivos, vale a pena rever
alguns pontos importantes no confronto epistêmico sobre as
produções teóricas de Ferreiro.
Se na década de 80 os dados ruins oriundos das avaliações
nacionais eram usados para desqualificar os métodos
tradicionais e propagar o construtivismo a um topo
discursivo, hoje, o que temos é o contrário disso. Os dados
obtidos nas avaliações brasileiras vêm sendo usados como
fortes argumentos contra o construtivismo, como revela as
avaliação do Sistema Nacional de Avaliação da Educação
Básica (Saeb/2003) em que 55,4% das crianças brasileiras ,
depois de quatro anos sucessivos de escolarização, são
consideradas em situação crítica quando se analisam suas
habilidades de leitura e escrita (dessas 18,7% foram
classificadas no nível " muito crítico"; os 36,7% restantes
compõem-se de alunos que ainda não possuem as habilidades
exigíveis ao término da 4ª série do ensino fundamental.
O porquê dessa mudança? Sabemos que o confronto teórico e
científico faz parte da dialética do conhecimento e põe em
relevo a importância da contraposição de idéias e de
hipóteses explicativas. Entretanto, o que nos preocupa é a
entrada de idéias abruptas, que quase sempre são vista,
sobre tudo por políticos e intelectuais do mundo acadêmico,
como soluções revolucionárias para antigos problemas do
sistema educacional.
A idéia agora, é que a entrada do método certo e a remoção
do errado (no caso, o velho agora é o construtivismo e as
idéias de Ferreiro), resolveria o problema do fracasso
escolar. Como afirma Belintane sobre os especialistas
internacionais e convidados estrangeiros que fazem parte de
um grupo de trabalho criado no Brasil, em 2003, pela
Comissão de Educação da Câmara Federal dos Deputados para
apresentar ao Brasil uma visão atualizada sobre as teorias e
práticas de alfabetização com base em uma análise da
situação brasileira:
Os eminentes especialistas não
vieram aqui sob os auspícios da
neutralidade científica para
evidenciar criteriosamente as causas
do mau desempenho do ensino
brasileiro e oferecer sugestões
neutras e eficientes ao Estado
brasileiro. Vieram, sim, como
defensores do "método fônico", com
claro objetivo de dasalojar a
influência construtivista dos
documentos oficiais e de alguma
possível estratégia na realidade
brasileira. (VIVER MENTE E CÉREBRO.São
Paulo, edição especial nº 5, 2005.
p.64)
O mesmo autor ainda afirma em artigo publicado para a
revista viver mente e cérebro que:
O mesmo fenômeno vem acontecendo nos
EUA, na França e na Inglaterra –
aliás, por estranha coincidência, os
especialistas são organizadores do
movimento fônico nesses países, onde
erigiam e aparelharam organizações
específicas com o objetivo de
influenciar politicamente e intervir
nos ministérios da educação de seus
países. (op.cit, p.64).
Dessa forma, nesse relatório encomendado pela Câmara
Federal, a concepção de Emília Ferreiro, juntamente com as
de Goodman e Smith (o chamado método global), é questionada
em seus pressupostos teóricos e rotulada como responsável
pelo fracasso escolar no Brasil.
O que nos chama a atenção nessa contenda é a visão simplista
de que a remoção do método errado pelo certo prevaleça ainda
à revelia da história e dos contextos, o que nos confirma o
desejo de muitos de que a complexidade no campo educacional
ceda aos apelos desta ou daquela panacéia.
Não é difícil perceber que hoje o método fônico seduz
justamente pelos desvãos e limites encontrados pelos
professores no trabalho com o construtivismo de Ferreiro e
deve-se a isso o fato de em sala de aula a pesquisa de
Emília Ferreiro ser transportada de maneira equivocada como
mais um método a ser utilizado pelos educadores no processo
de ensino. Gostaríamos de enfatizar que esse não é o e nunca
foi o principal objetivo da pesquisadora revolucionária: O
de criar mais um método.
E sim apresentar elementos importantes para a educação
brasileira, entre os quais podemos enumerar: a ênfase nos
processos de aprendizagem, que de alguma forma pôs em relevo
a cognição e a cultura da infância; uma aproximação maior
entre a educação e a pesquisa; que pôs em questão a
supremacia dos manuais didáticos que se punham acima dos
contextos e das diferenças; busca de estratégias
interdisciplinares que tentam dar mais sentido ao
conhecimento escolar.
Acreditamos que tais descobertas científicas, não podem ser
transpostas e assumidas como uma pequena parte que vale pelo
todo. O todo do ensino é bem mais complexo e exige estudos
(pesquisas em educação no Brasil mais contextualizadas);
valorização profissional e capacitação docente;
reorganização do espaço escolar; planejamento curricular e
de políticas educacionais que não queiram jogar um "método
novo" nas mãos dos professores e depois dar às costas às
outras dimensões do ensino.
V. Considerações Finais
Assim, não dá para aceitar que a culpa pelos desarranjos
estruturais da educação brasileira, seja atribuída a uma
pesquisadora séria como Emília Ferreiro. Se o sistema
escolar estivesse bem estruturado e organizado, as idéias
novas não seriam vistas como "a salvação" o que envolveu as
pesquisas de Ferreiro. Se há um contingente de crianças que
ainda não sabem ler, mesmo após quatro anos de
escolarização, com certeza isso não se deve às influências
do construtivismo ou das idéias de Ferreiro, mas muito
provavelmente à políticas educacionais e administrativas que
com medidas econômicas reforçam os vícios e a burocratização
do ensino público: corporativismo, formação de professores
insuficiente e inadequada; centralização administrativa;
medidas educacionais tomadas com o objetivo de maquiar
estáticas e agilizar o fluxo escolar; entre tantas outras
mazelas que fazem o ensino emperrar com quaisquer métodos.
Portanto,
resta-nos afirmamos em sã consciência que as concepções de
Emília Ferreiro e colaboradores figuram entre as grandes e
boas pesquisas que contribuíram e ainda contribuem para o
como de educação; mas que para que não seja interpretada de
maneira equivocada na guerra dos métodos é preciso
considerar os seus limites e as dificuldades que a política
brasileira impõe ao ensino.