“Eu
vejo tudo em quadrado...”
Esquadros - Adriana Calcanhoto

Quantas vezes
em nossas vidas nos damos conta que estamos vendo aquilo que os
outros querem? Como na música, já olhamos com olhares direcionados
para algum lugar e não olhamos tal como da primeira vez, como talvez
só façam as crianças. Além de várias outras significações infantis
que vamos perdendo com a vida adulta e tudo que esse conceito possa
significar, ao longo de nossa história nos vamos formatando, através
da escola, dos aparelhos repressores estatais e da televisão, entre
outros.
O desafio do
filme, Um ensaio sobre a cegueira, é exatamente esse. Tal
como no brilhante livro, gradativamente as pessoas vão perdendo a
visão. Sentido este que, enquanto o temos, não valorizamos. Quem de
nós valoriza a visão, o sol, a luz as cores, sorrisos infantis,
chuvinha?
Não há
explicações, ninguém sabe racionalmente o que aconteceu.
Acredita-se, em uma epidemia, os primeiros doentes ficam isolados. E
tal como qualquer forma de organização humana, acontece de tudo:
machismo, estupidez, arrogância, como também, afeto, solidariedade,
carinho. O ser humano, tal como no conceito dos filósofos
contratualistas, em seu estado natural.
Poucos sabem,
mas uma única mulher continua enxergando o tempo todo? Por quê? Qual
a explicação racional para isso? Por que logo ela? O que
justificaria? Só o médico, seu marido, o primeiro a atender um caso
de cegueira repentina e o primeiro grupo que foi com ele para o
isolamento sabiam que ela enxergava. Com o tempo a cegueira se
espalhou até que todas as pessoas estavam cegas. O mundo estava
transformado em um caos. As pessoas morrendo, os cachorros comendo
as pessoas nas ruas, comidas espalhadas pelo chão, sujeira para
todos os lados.
Quem
detinha, portanto, o poder, uma vez que todos estavam na mesma
situação? Quem eram os donos do conhecimento? Quais as regras do
jogo moral? Foucault, em uma de suas discussões teóricas, mostra que
o poder está em todos os lugares,, o conhecimento é uma forma de
disciplinar a sociedade, controlar as pessoas, produzir e ordenar
uma “verdade” que serve aos interesses dos dominadores.
Fica
muito claro no filme quando, mesmo isolados e com poucos
mantimentos, os cegos se dividem
em grupos. Um
dos grupos toma o poder e passa a estabelecer as regras e dar
ordens. A comida, ainda que racionada passa a estar sob o comando
deles, que as distribuem segundo seus próprios critérios: dinheiro,
jóias, mulheres.
Ainda
citando Foucault, faz-se necessário lembrar que, para o teórico, o
discurso do poder é o discurso da alienação, voltada para os
interesses de uma elite dominante e exclusão dos indivíduos do
processo político, enfim, de suas próprias vidas. Ao contrário da
máxima “Em terra de cego quem tem um olho é rei”, dessa vez a única
pessoa que enxergava estava muito mais preocupada em cuidar, ajudar
do que em tomar o poder. Era quase uma missionária, pois passava o
dia cuidando daqueles que não enxergavam absolutamente nada.
Interpretação essa singularmente realizada por Julianne Moore.
Além
de defender mais uma vez aqui a idéia de que uma boa adaptação de
livro serve, a nós professores, como uma forma de estimular a
leitura de nossos alunos, o filme é realmente um convite a várias
interrogações. É sim inquietante, o que ficou evidente na cena em
que o Canal Brasil está mostrando na qual, o próprio José Saramago,
ao assistir pela primeira vez o filme, chora. E diz que está
sentindo algo bom, tal como quando o terminou de escrever.
Vale
também destacar o fato de o filme ser dirigido pelo sensível
Fernando Meirelles, o que também deveria servir de estímulo pela
filmografia do diretor e não é possível também deixar de mencionar o
marcante papel do jovem Gael García Bernal, o qual jamais passa
despercebido, é sim uma interpretação carregada sempre de emoção. E
emociona a cada um de nós porque nos faz imaginar o que estaríamos
fazendo no lugar daquelas pessoas, de que maneira agiríamos?
Estaríamos de qual lado, a qual grupo pertenceríamos?
Embora não tão bem saudado pela crítica, o que para nós, amantes da
sétima arte, sabemos que não significa absolutamente nada, o filme
merece sim um ou mais olhares de ternura. Primeiro por ser uma
adaptação de uma obra escrita em língua portuguesa por ninguém menos
que José Saramago e isso, para nós que já tivemos oportunidade de
lê-lo, significa um monte de coisas. Dentre elas popularizar uma
obra que na maioria das vezes apenas uma elite tem acesso.
E
também por nos inquietar, emocionar, repensar nos papéis que nos
instituímos e nas suas reais possibilidades. Será que somos tão
educados como parecemos quando nos deparamos com uma situação
semelhante? Nessas horas deixamos de utilizar nossas máscaras de bem
educados, bons homens e boas mulheres, eruditos e voltamos ao nosso
estado de natureza? Como lutaríamos para garantir aos nossos filhos
mantimentos e casas seguras, se todos estão brigando entre si?
Foucault também defende a tese de que o discurso do poder está
inserido nos valores culturais que perpetuam uma estrutura alienante
de exclusão social. Em alguma medida, a utopia serve enquanto fonte
de inspiração, de uma prática libertária idealista de justiça
social, contra o poder do hegemônico.
Em
uma primeira vista, os primeiros cegos que ficavam isolados, são
muito semelhantes às imagens que temos dos leprosos. O medo da
contaminação, o descaso, os pacientes abandonados à própria sorte
sem receber nenhum tipo de cuidado ou atendimento. Incomunicáveis,
tratados como seres não humanos. Remete também ao que muitas pessoas
ainda fazem com os portadores de HIV, por mais incrível que nos
possa parecer, várias pessoas não apertam suas mãos ou os abraçam,
com medo da contaminação.
Ficamos pensando que, se no mínimo mexer com as pessoas em relação
aos seus próprios preconceitos, o filme já valeu a pena. E vale sim
a ida ao cinema, a loucura, a metáfora com o Mito da Caverna, quem
enxerga? Um outro grande momento é a volta, tal como os prisioneiros
da caverna quando retornam, um processo semelhante acontece nas
pessoas quando voltam a enxergar. E as perguntas se acumulam. Por
quê? Qual a necessidade de ficar aquele período sem ver?
Talvez
a cegueira que Saramago nos proponha seja a de cada um de nós, que
já não olhamos para os lados, que já nos esquecemos da Chacina da
Candelária, do incêndio do Carandiru, que não nos importamos com os
mendigos dos parques. Que achamos normal uns comerem todos os dias e
outros comerem, às vezes, os restos. Somos cegos quando já não
enxergamos além do que nos deram para ver, ou como diria o poeta sem
ver com “olhos livres.”
A
cegueira é aquela cotidiana, ratificada pelo nosso trabalho que não
proporciona as devidas horas de reflexão. Somos tão cobrados ao
ponto de produzir a alienação que Foucault nos fala? E, se somos,
quais os nossos gritos? Qual a nossa saída para a cegueira imposta
pela sociedade do espetáculo? Esperamos, nesse lindo dia de Natal
que lembremos de todos aqueles que nunca saberão o que é o gosto de
ter comida na mesa todos os dias. Para nós, enxergar é isso e
romper, como diria o Chico Buarque com “Todo esse amor reprimido,
esse grito contido, esse samba no escuro...”
Referências
FOUCAULT,
Michel. Microfísica do
poder.
Rio
de
Janeiro:
Graal, 1979.