No
contexto
da
Educação
Física,
por
um
longo
tempo
sua
prática
e
sua
reflexão
teórica
restringiram-se aos
aspectos
fisiológicos e
técnicos.
Entretanto,
atualmente
vem-se buscando
superar
essas
concepções
limitadas do
trabalho
com
o
aluno
através
de uma
análise
mais
crítica
que
considere
também
as
dimensões
culturais,
sociais,
políticas
e afetivas,
presentes
no
corpo
vivo
das
pessoas
enquanto
sujeitos
que
interagem e se movimentam, sendo
esses
seres
socialmente
construídos (BRASIL, 2000).
Para
Gaier (2001),
dentre
as
dificuldades
da
Educação
Física
no
que
se refere a
sua
valorização e
relevância,
destaca-se a
visão
reduzida
que
o
aluno
e a
sociedade
em
geral
possuem
em
relação
aos
objetivos
das
aulas.
Muitas
vezes,
o
aluno
não
sabe
por
que
está realizando
determinada
atividade
ou
movimento,
nem
os
valores
sócio-culturais e o
significado
da
prática
pedagógica
da
Educação
Física.
Outra
situação
presente
nas
aulas
é a
falta
de
espaço
de
tempo
oportunizado
para
os
educandos
manifestarem
sua
opinião,
tirarem
suas
dúvidas,
enfim,
contribuir
com
a (re)construção
das
aulas
de
Educação
Física
a
partir
de
suas
necessidades
e
vivências,
já
que
o
professor
vem
com
a
aula
pronta,
e, às
vezes,
não
permite
que
o
aluno
interfira no
processo
de
ensino.
Nesse
sentido,
evidencia-se a
importância
do
professor
ter
clareza
da
concepção
de
ensino
que
sustenta
a
sua
prática
pedagógica,
tendo a
sua
fundamentação
coerente
com
os
objetivos
e
demais
aspectos
que
envolvem o
desenvolvimento
das
aulas
de
Educação
Física.
É importante destacar que, em um todo processo educativo de
transformação social claramente orientado e intencionado, a
matéria-prima e os verdadeiros protagonistas do processo são
indiscutivelmente todos os membros do grupo, situados em determinado
contexto. Isto parece ser defendido e aceito por grande parte da
sociedade, no entanto, mantêm-se nas instituições de ensino práticas
contraditórias com este posicionamento, pois a pedagogia gira em
torno do educador (HURTADO, 1993).
Dentre as perspectivas emancipatórias, o ensino
crítico-reflexivo representa uma proposta que visa desconstruir com
as concepções educativas e metodologias de ensino tradicionais e
limitantes no trabalho com o humano. Pimenta (2002) compreende a
atuação docente como uma prática social e as escolas como
comunidades de aprendizagem. Destaca a importância de se considerar
o contexto, de ir além da reflexão, utilizando a teoria e
articulá-las, assim como promover a emancipação dos sujeitos, o
caráter coletivo e crítico com tomada de decisões e a diminuição das
desigualdades sociais. Em vez de reflexão - reflexão crítica, de
professor reflexivo – intelectual crítico.
A partir disso percebe-se que são inúmeras as estratégias que o
professor pode utilizar ao se apoiar no ensino crítico-reflexivo, a
dificuldade com certeza não está em desenvolver o trabalho, mas sim
em rever e transformar as atuais concepções de ensino presentes na
prática pedagógica da maioria dos professores. Assim, este estudo
teve como objetivo descobrir se os professores de Educação Física
Escolar entendem e/ou desenvolvem um ensino crítico-reflexivo em
suas aulas.
A abordagem utilizada foi a qualitativa com as informações
coletadas através de entrevistas semi-estruturadas e interpretadas
pela análise de conteúdo. Os participantes foram três professores de
Educação Física das Séries Finais do Ensino Fundamental do município
de Caçapava do Sul/RS, sendo um professor de cada rede de ensino
(municipal, estadual e particular).
Acerca do ensino crítico-reflexivo, os
professores de Educação Física demonstraram não possuir um
conhecimento preciso sobre o seu significado. Este fato justifica-se
de certa forma pela sua formação profissional. Darido (apud
GAIER, 2001, p.2) reforça essa idéia ao dizer que “esta falta de
reflexão na Educação Física é resultado da formação acrítica do
professor. Desta forma, é necessário desenvolver a reflexão durante
a formação inicial (...)”. Tendo em vista que, se o educador tivesse
vivenciado ou mesmo estudado essa concepção de ensino ainda na
graduação, aumentaria a possibilidade de ocorrência desta proposta
na instituição escolar.
Ainda que, quando questionados sobre a existência de
discussões em aula; bem como a relação dos conteúdos da Educação
Física com o contexto mais amplo; a participação do aluno na escolha
das atividades, professores e alunos, esclarecem que essas atitudes
não estão presentes nas aulas. Com exceção do Professor E que
realiza trabalhos e discussões relacionando a Educação Física com o
sedentarismo, prevenção de doenças, dentre outras. Porém com foco
somente na promoção da saúde, afirmando que a comunicação mais
aberta depende muito da realidade de cada turma. Todavia, este
último professor, limita o amplo trabalho que pode ser feito na
articulação do conhecimento da Educação Física com a realidade
social dos alunos, da sociedade, as influências da mídia no contexto
sócio-econômico, entre outras.
Com todas essas informações que revelam a quase inexistência do
ensino reflexivo na prática educativa desses professores, o
Professor P diz que consegue desenvolver um ensino
crítico-reflexivo, fundamentado no entendimento de que a intimidade
dele com os alunos possibilitam à liberdade de expressão, sendo esta
uma característica embasada na sua representação de tal concepção de
ensino. Não descartando a relevância dessa atitude de aproximação
entre aluno-professor para um ensino crítico-reflexivo, é necessário
ir além disso, como destaca Ross (apud MARCELO GARCÍA, 1992).
O autor identificou três atitudes essenciais para desenvolver o
ensino reflexivo: a) mentalidade aberta: definida pela
ausência de pré-conceitos ou de qualquer hábito que limite o
pensamento de aceitar novos problemas e assumirem idéias
diferenciadas; b) responsabilidade: principalmente a
intelectual, tendo coerência no que se defende e procurar
fundamentar-se em propósitos educativos e éticos da conduta docente;
c) entusiasmo: ter capacidade de renovação e luta contra a
rotina.
De acordo com Marcelo García (1992), existe também um conjunto de
habilidades importantes para a concretização de um ensino
crítico-reflexivo: a) empíricas: ter capacidade de fazer um
diagnóstico da turma e da escola; b) analíticas: analisar os
dados e construir uma teoria; c) avaliativas: emissão de
juízos sobre as conseqüências educativas; d) estratégias:
planejamento de ação, antecipação e implementação; e) práticas:
relacionar a análise com a prática; f) comunicativas:
comunicar e partilhar idéias com colegas. Porém o autor relata que
apenas essas habilidades não garantem um ensino reflexivo, sempre é
necessário buscar algo mais.
Através dessas análises foi possível responder o problema
de pesquisa, ou seja, esses professores não desenvolvem um ensino
crítico-reflexivo, nem ao menos sabem ao certo o seu significado e
as formas de agir em convergência com essa proposta. Diante disso,
pode-se relacionar este fato com o seu histórico profissional,
tendo em vista que eles se formaram na década de 1990 e após isto
foram poucos os momentos em que buscaram estudar a produção de
conhecimento na área e rever sua prática docente. Apesar de dois
professores (Professor M; Professor E) terem feito um
curso de especialização, não foi o bastante para instigar uma
constante reflexão sobre sua atuação. Nesse sentido, muitos autores
relatam que o fundamental para o desenvolvimento profissional dos
professores é estar constantemente revendo sua forma de ensinar de
modo a estar colaborando efetivamente para o processo de
aprendizagem do aluno, bem como contribuir para a comunidade escolar
assumir uma postura mais crítica frente aos valores supérfluos que a
sociedade impõe constantemente através de atitudes alienantes. Este
fato, com certeza não é peculiar a essa realidade, tendo em vista
que me formei em 2007 e durante a graduação tive muito pouco
incentivo relativo a essa concepção de ensino. Ainda que, inserida
numa universidade bem conceituada no país.
Diante disso, o binômio ação/reflexão deve fazer parte do
trabalho desenvolvido pelo professor. O “ser-professor” significa
compreender o processo educativo como um processo de construção
através da ação reflexiva de um sujeito consciente do seu papel
social, respeitador das diferenças, e que trás consigo a atitude de
mudança e do agir.
Então, o que se vem percebendo em torno dessa problemática é que por
mais que a formação de alunos/professores se assente numa prática
tradicional de Educação ainda em muitos contextos, um incontável
número de profissionais insatisfeitos com essa atuação vem agindo de
forma a desestabilizá-la ao realizar movimentos de desconstrução e
reconstrução através de reflexões compartilhadas imbricadas nos
processos de ensino. Deste modo, como os reflexos dos trabalhos
realizados no campo social e educacional, em geral, demoram a
emergir, parece-nos difícil visualizar o empenho desses
profissionais. Entretanto, cada um de nós pode assumir a
responsabilidade de melhorar o espaço em que atua, aproveitando as
oportunidades para agir a favor de uma formação mais crítica e
reflexiva dos alunos e de si próprio.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: Educação Física/
Secretaria de Educação Fundamental. 2. ed. Rio de Janeiro: DP&A,
2000.
GAIER, Adriana Matos. Educação Física Escolar: buscando
alunos reflexivos. 2001. 62f. Monografia (Especialização em
Ciência do Movimento Humano) – Universidade Federal de Santa Maria,
Santa Maria, 2001.
HURTADO, Carlos Nuñez. Educar para transformar, transformar para
educar: comunicação e educação popular. Petrópolis: Vozes,
1993.
MARCELO GARCÍA, Carlos. A formação de professores: novas
perspectivas baseadas na investigação sobre o pensamento do
professor. In: NÓVOA, António. (Coord.). Os professores e a sua
formação. Lisboa: Publicações Dom Quixote, p.51-76, 1992.
PIMENTA, Selma Garrido. Professor reflexivo: construindo uma
crítica.
In: PIMENTA, Selma Garrido; GHEDIN, Evandro. (Orgs.).
Professor reflexivo no Brasil:
gênese e crítica de um conceito. São Paulo: Cortez, p.17-52, 2002.
Doutor em Educação e Ciência do Movimento
Humano; Professor Adjunto da UFSM; Coordenador do GEPEF/UFSM
(Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Física).
hnkrug@bol.com.br