Resumo
O referido
artigo busca discutir o trabalho na Educação Infantil com o ensino
de Ciências, área de conhecimento que deve possibilitar nas crianças
a oportunidade de se expressarem e de compreender o mundo em que
vivem. Devemos construir nas instituições escolares de Educação
Infantil, uma Ciência viva, prazerosa, instigante, rica e sensível e
não fria, distante, estanque e puramente quantitativa. Assim, a
Ciência deve ser compreendida como necessidade básica de compreender
o mundo, com vistas a sobreviver e viver melhor.
Abstract
Referred him article looks for to discuss the work in the Infantile
Education with the teaching of Sciences, knowledge area that should
make possible in the children the opportunity of if they express and
of understanding the world in that they live. We should build in the
school institutions of Infantile Education, a Science alive,
pleased, rich and sensitive and no cold, distant, tight and purely
quantitative. Like this, the Science should be understood as basic
need of understanding the world, with views to survive and to live
better.
Palavras-chave:
Ensino de ciências, Educação Infantil, investigação, ambiente.
A atualidade está marcada por um modelo de desenvolvimento
capitalista, voltado para interesses de mercado e consumo de bens,
enfim, para a geração de lucros. Entre as principais conseqüências
desse sistema, encontramos a desigualdade social e o desequilíbrio
ambiental.
Assim, discutir questões como a reciclagem de lixo, a preservação de
áreas ambientais, a proteção de espécies ameaçadas, aquecimento
global, além de um contato mais íntimo com a natureza, devem ser
atitudes cotidianas, estimuladas, inclusive, desde a Educação
Infantil, modalidade de ensino, que tem se expandido no mundo,
devido à intensificação da urbanização, a participação da mulher no
mercado de trabalho e as mudanças na organização e estruturação da
família.
Sabemos que as crianças se utilizam de inúmeras linguagens
para construírem seus conhecimentos, elaborando hipóteses a partir
de suas interações com outras pessoas e com o meio em que vivem.
Assim, cabe ao professor proporcionar situações nas quais as
crianças produzam novos conhecimentos a partir do que já sabem e em
interação com novos desafios.
Nessa perspectiva, o ensino de Ciências na Educação Infantil,
constitui-se como uma importante área de conhecimento, já que é
nesse momento que as crianças constroem suas primeiras sensações e
impressões do viver.
Segundo Tiriba (2007), ao observarmos o modo de funcionamento de
creches e pré-escolas, em centros urbanos e até mesmo em zonas
rurais, percebemos que a crianças estão emparedadas: são mantidas, a
maior parte do tempo, em espaços fechados: as rotinas não contemplam
suas necessidades/desejos de movimentarem-se livremente nos pátios,
sob o céu, em contrário com o sol, a terra, a água. Raramente de pés
descalços, nas áreas externas brincam sobre o chão predominantemente
coberto por cimento ou brita; e só se aproximam da água para beber e
lavar mãos e rostos: “Tomar banhos de mangueira, brincar de
comidinha, dar banho em boneca, fazer barquinho para colocar na
correnteza das valas quando chove... nada disso é corriqueiro, ao
contrário, é exceção!” (p.46).
Com intuito de buscarmos alternativas para essa realidade, buscamos
refletir sobre a possibilidade de construirmos um trabalho pautado
na abordagem investigativa de ensino, mas para tanto, discutiremos
um pouco sobre o status da Ciência na atualidade.
A Ciência Contemporânea...
Inicialmente,
sentimos
a necessidade
de diferenciar
o que
é Ciência
da disciplina
escolar Ciências.
Para tanto,
nos apoiaremos
em Bizzo (2002):
A
Ciência
realizada
no
laboratório
requer
um
conjunto
de
normas
e posturas.
Seu
objetivo
é encontrar
resultados
inéditos,
que
possam
explicar
o
desconhecido.
No entanto,
quando
é
ministrada
na
sala
de aula,
requer
outro
conjunto
de
procedimentos,
cujo
objetivo
é alcançar
resultados
esperados,
aliás,
planejados,
para
que
o estudante
possa
entender
o que
é conhecido.
(p.14).
A partir do século
XX, a Ciência passou por
transformações,
e aspectos subjetivos
começaram
a ser
valorizados
juntamente
com os
aspectos objetivos;
ou seja,
a Ciência
contempla
a singularidade
de cada
indivíduo
na construção
do conhecimento
científico.
Segundo Koche
(1982), a
principal
contribuição
para uma
nova
concepção
de Ciência
foi
dada por Einstein,
conforme
esta citação:
As suas
teorias
da
relatividade
restrita e
da
relatividade
geral
foram
importantes
não
apenas
pelo
conteúdo
que
apresentaram,
mas
pela
forma como
foram
alcançadas.
Bacon
afirmara
que as idéias
pré-
concebidas
deveriam
ser eliminadas
da
mente
do investigador.
Einstein
não
as eliminou.
Ao contrário,
semelhante
ao
artista,
deu
asas
à sensibilidade
e à imaginação.
(...)
uma
segunda
contribuição
de
Einstein:
a
demonstração
de
que,
por
maior
que
seja
o
número
de
provas
acumuladas
em
favor
de
uma
teoria,
ela jamais
poderia
ser
aceita como
definitivamente
confirmada
(p.29-30).
Na contemporaneidade,
a Ciência
e a
Filosofia
buscam caminhar
lado a
lado, para questionar
e discutir
o conhecimento,
a noção de verdade,
de Ciência e de
método.
A Ciência atual não permanece
estática como
na Renascença,
mas num
constante processo
de ir
e vir,
de construir
e
reconstruir.
Nessa busca
incessante,
a Ciência tem
como
objetivo
primordial
“tentar
tornar
inteligível
o
mundo
e atingir
um conhecimento
sistemático
do universo” (KOCHE,
1982, p.30).
Nesse contexto,
não podemos
conceber
que os
conhecimentos
adquiridos
sejam verdadeiros,
mas,
sim,
que estão
em
constante processo
de
construção,
pois a
Ciência não é estanque,
e sim, provisória:“a Ciência,
em sua
compreensão
atual, deixa
de lado a pretensão
de taxar seus resultados
de verdadeiros,
mas, consciente
de sua falibilidade,
busca saber
sempre
mais” (KOCHE,
1982, p.32).
Enfim, a Ciência, o conhecimento científico e as técnicas que
produzem esses conhecimentos são intrinsecamente históricos e a Ciência
procura, dessa forma, numa linha mais crítica, não mais um
conhecimento pronto e acabado, mas, sim, uma aproximação da verdade.
Devemos a partir desses estudos, construir nas instituições
escolares de Educação Infantil, uma Ciência viva, prazerosa,
instigante, rica e sensível e não fria, distante, estanque e
puramente quantitativa. A Ciência deve ser compreendida como
necessidade básica compreender o mundo, com vistas a sobreviver e
viver melhor.
A aprendizagem como investigação...
O que prevalece no
ensino de Ciências é a
concepção
epistemológica
denominada de
empirismo-indutivismo.
Segundo
Silveira (1992), as
teses mais importantes
desta epistemologia
são:
1
– A
observação
é a fonte
e a função
do conhecimento;
2
– O
conhecimento
científico
é
obtido
dos
fenômenos,
aplicando-se
as regras
do Método
Científico;
3 –
A especulação,
a
imaginação,
a intuição,
a criatividade
não
devem
desempenhar
qualquer
papel
na
obtenção
do conhecimento
científico;
4
– As
teorias
científicas
não
são criadas,
inventadas
ou
construídas,
mas
descobertas
em
conjunto
de
dados
empíricos.
A Ciência
é
neutra,
livre
de
pressupostos
ou
preconceitos
(p.36-37).
Outros estudos,
como
o de
Cachapuz (2005),
enfatizam
que os
professores
ainda possuem
uma
imagem
“ingênua”
da Ciência,
socialmente
difundida
e aceita
de Ciência
como
“verdade”, estanque
e imutável.
São visões
empobrecidas
e distorcidas
como essas
que
criam
o desinteresse,
quando
não a
rejeição
de
muitos
estudantes,
o que
se converte
em
um
obstáculo para
a aprendizagem.
Sobre essa
questão, Cachapuz (2005)
continua:
Somos
conscientes
da
dificuldade
que
implica
falar
de
uma
imagem
correta
da
atividade
científica,
que
parece
sugerir
a existência
de
um
suposto método
universal,
de
um
modelo
único
de
desenvolvimento
científico.
É
preciso
evitar
qualquer
interpretação
deste
tipo,
mas
não se consegue
renunciando
a falar das características
da atividade
científica, mas, sim,
com
um
esforço
consciente
para evitar
simplismos
e deformações
claramente
contrárias ao
que se
pode
compreender,
no sentido
amplo,
como
aproximação
científica
do
tratamento
de
problemas
(p.39).
O
modelo
de
ensino pautado
nessa epistemologia,
na concepção
de Gil
Perez (1986), evidencia
algumas
conseqüências
na
formação
dos alunos,
afinal,
desvaloriza
a criatividade
do trabalho
científico
e conduz os alunos a conceber o conhecimento
científico
como
um corpo de verdades inquestionáveis,
introduzindo
rigidez e intolerância
em relação a
opiniões diferentes.
O ensino
de
Ciências
possui,
entre
outros,
segundo
Harres (1999),
o objetivo
de propiciar
aos
estudantes
uma
visão adequada
para
a Ciência,
mas,
para que
isso ocorra, é
necessário
um
novo tipo
de professor,
que compreenda
a produção,
a natureza
e a evolução
da
Ciência, incluindo
suas implicações
com a
sociedade. Somente
a
partir
desse novo
olhar é
que o
professor
terá
a oportunidade
de oferecer
aos
seus
alunos
uma
melhor compreensão
dessas questões.
Nessa perspectiva
de
mudança,
encontramos
algumas
propostas de
trabalhar
com o
MC.
Entre elas,
está
a
atividade
investigativa.
Azevedo
(2004)
frisa
que a
ação do
aluno não
deve se
limitar
apenas
ao trabalho
de
manipulação
ou observação,
mas
é importante
que contemple
características
de um
trabalho científico,
ou
seja, o
aluno deve
ter
oportunidade
de refletir,
discutir,
explicar
e relatar
os conhecimentos
que
foram
construídos no
decorrer de
todo o
processo.
Sobre
a
metodologia
da investigação
na sala de aula, Cicillini
e Cunha (1991), assim
se
manifestam:
No
ensino
de
Ciências,
o
aluno
deve
encontrar
espaço
para
incorporar
tanto
os
conhecimentos
atualmente
disponíveis
quanto
os
mecanismos
de
produção
desses
conhecimentos.
Para
isso,
é
necessária
a
vivência
da
metodologia
da investigação,
que
implica
a capacidade
de
problematizar
a realidade,
formular
hipóteses
sobre
problemas,
planejar
e executar
investigações,
analisar
dados,
estabelecer
críticas
e conclusões
(p.205-206).
Bachelard
(2002)
considera
que o
aluno
deve
produzir
conhecimentos,
por isso, orienta
que sem a interrogação,
não pode haver conhecimento
científico;
nada é evidente,
nada
nos é
dado, tudo é
construído.
Para Popper
(1986), toda
a discussão
científica
deve
partir
de
um problema
(P1), ao qual
se
oferecesse
uma
espécie de
solução
provisória,
uma
teoria-tentativa
(TT),
passando-se,
depois, a
criticar
a solução,
com vistas
à eliminação
do erro
(EE);
e, tal
como
no caso
da dialética
(tese:
antítese:
síntese), esse
processo se renovaria
a si mesmo,
dando surgimento
a novos problemas.
Mas é
fundamental
que esse trabalho investigativo
desperte,
nos
alunos, a vontade
de
aprender;
dessa
forma,
o passo
inicial
desse
modo
de
trabalho
é que
haja
um problema,
e que
por
meio
da observação,
da elaboração
de
hipóteses,
da
análise,
o aluno
seja capaz
de conceber
o processo de
ensino-aprendizagem
como construção.
Segundo Cachapuz (2005),
numa atividade
investigativa,
é fundamental
a participação
dos alunos no
processo de aprendizagem.
Em
suas palavras:
Ora,
os
problemas
devem,
de
preferência,
ser colocados
pelos
alunos,
ou
por eles
assumidos,
ou
seja,
devem
senti-los
como
seus,
terem
significado
pessoal,
pois,
só assim,
teremos
a razoável
certeza
de
que correspondem
a
dúvidas,
a interrogações,
a inquietações
–
de
acordo
com o
seu nível
de desenvolvimento
e de
conhecimentos.
Encontra-se,
aqui,
uma
das
principais
fontes
de
motivação
intrínseca,
que
deve
ser estimulada
no sentido
de
criar,
nos
alunos,
um
clima
de
verdadeiro
desafio
intelectual,
um
ambiente
de
aprendizagem
de
que
nossas
aulas
de ciências
são
hoje
tão carentes
(p.76).
De acordo
com
Azevedo (2004),
além
de o
professor
ter conhecimento
sobre a
matéria que está ensinando,
deve fazer de sua atividade
didática uma
atividade investigativa,
ou seja,
deve
tornar-se
um professor
questionador,
que
argumente,
saiba conduzir
perguntas,
estimular,
propor desafios,
ou seja,
passar
de simples
expositor
a orientador
do
processo de
ensino. O
professor,
nessa perspectiva
investigativa,
deve criar,
na sala de aula,
oportunidades para
que os alunos
pensem e discutam
os conhecimentos trabalhados.
Algumas considerações
O ensino de Ciências na Educação Infantil definiu-se na perspectiva
abordada como uma área fundamental, que vai além de práticas
tradicionais de mera construção de cartazes sobre conceitos
científicos.
Temos a oportunidade de mudar, de oferecer mais aos nossos alunos,
de crescer, de reconstruirmos essa história autoritária que
predomina há tanto tempo. Para isso, é importante que a sala de aula
seja um espaço de diálogo, de debate, ou seja, de construção do
conhecimento científico.
O
espaço para discussões alunos-alunos e alunos-professor em sala de
aula tem, portanto, o importante papel de proporcionar tanto a
identificação das idéias dos alunos a respeito do fenômeno a ser
estudado, quanto uma oportunidade para que ensaiem o emprego da
linguagem científica escolar (CAPPECHI, 2004, p.60).
Precisamos então superar essa concepção de Ciência enquanto verdade
absoluta e inquestionável. Devemos despertar no aluno o prazer em
desvendar o mundo, o homem, o ambiente em que vive. E não trabalhar
apenas com conteúdos densos, monótonos, sem sentido, que nada
contribuem para seu desenvolvimento. A Ciência possui uma história
que deve ser considerada; já que não é construída linearmente, mas
sofrer rupturas no decorrer de todo o seu processo de construção.
Concordamos com Castro (2004), quando afirma que o saber científico
não é meramente transmitido, revelado ou adquirido. Ele é construído
a partir de várias referências num constante processo de ir e vir, e
num incansável exercício de aproximação e distanciamento que
engendra uma visão de mundo que se modifica permanentemente.
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fernandaduarte@pontal.ufu.br