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     terça-feira, 10 de abril de 2007

O Trabalho de Campo de Ciências da Terra no Ensino Fundamental: aportes para o Ensino de Geografia e de Ciências

Por Clézio Santos
 

O artigo centra-se na preocupação em como trabalhar a geomorfologia, uma ciência dentro do que podemos classificar como ciências da terra ou geociências, no ensino fundamental por meio da atividade trabalho campo procurando trabalhar com as questões relacionadas a geomorfologia e ao meio ambiente.

 

Palavras-chave: trabalho de campo, ciências da terra, geografia, geomorfologia, meio ambiente.

 

Abstract

The article is centered in the concern in as to work the geomorphology, a science inside of that we can classify as sciences of the land or geosciences, in basic education by means of the activity work field looking for to work with the related questions the geomorphologic and to the environment.

Key words: work of field, sciences of the land, geography, geomorphology, environmen.

 

Introdução

 

No Brasil como nos demais países do mundo temos dois profissionais que se destacam em trabalhar com a geomorfologia. São os geógrafos e os geólogos. Podemos citar mais espaçadamente os engenheiros, biólogos, agrônomos, arquitetos, entre outros profissionais. Porém dentre esta gama de profissionais que trabalham com a ciência geomorfológica pouquíssimos estudos são feitos em relação ao ensino fundamental.

O conteúdo de geomorfologia é incorporado no ensino fundamental de forma desconexa, sendo explorado nos livros didáticos de geografia e de ciências. As denominações mais comuns são: o relevo brasileiro, a classificação do relevo brasileiro, a superfície terrestre, a crosta terrestre, entre outras denominações. O conteúdo é apresentado sem relações diretas com as propostas curriculares de geografia e de ciências. Não acreditamos que tudo deva estar rigorosamente preso ao currículo, porém deve apresentar conexões e relações úteis para o ensino fundamental e a conseqüente formação do aluno.

Os conteúdos de geomorfologia são apresentados como informações secundárias nos livros didáticos de geografia e de ciências. Aparecem nos capítulos que tratam de rochas, da Terra, da Geologia ou nos capítulos que falam sobre o relevo, intitulados: o relevo brasileiro, a classificação do relevo, mapa do relevo, orografia, topografia, entre outras denominações.

A geomorfologia no ensino superior também é pouco explorada e conhecida, poucos cursos trabalham com seus conhecimentos. Destacam-se a Geografia e a Geologia. Embora tenha sido Hutton, um Geólogo, considerado o pai da Geomorfologia moderna, segundo CRHISTOFOLETTI (1972) e PENTEADO (1974). Os Geógrafos tem na atualidade se destacado nas pesquisas em Geomorfologia. A Geografia tendo em seu corpo estrutural o conhecimento geomorfológico, proporcionou maior abertura a essa ciência, do que a Geologia. Todavia ainda temos muito a avançar nas aplicações da Geomorfologia, principalmente no que diz respeito ao ensino fundamental. Necessitamos um maior conhecimento desta ciência para que sua aplicação proporcione um melhor entendimento do meio ambiente em que vivemos.

 

Objetivos

 

Não pretendemos discutir a questão epistemológica da geomorfologia e a sua dissociação em relação à geografia ou à geologia. Pretendemos sim, trabalhar alguns conteúdos inerentes a geomorfologia e sua relação com o meio ambiente por meio do trabalho de campo no ensino fundamental.

Apresentamos algumas possíveis colaborações da ciência geomorfológica e como ela pode auxiliar o ensino fundamental, com conhecimentos específicos e com relações com outros conhecimentos. O trabalho de campo é visto como atividade integradora entre os aspectos geomorfológicos e os demais aspectos do meio ambiente para sua maior compreensão.

O trabalho procura apresentar uma nova forma de lidar com o trabalho de campo, enfatizando a percepção do ambiente e principalmente a cognição do ambiente.

 

1. Discutindo sobre trabalho de campo no ensino fundamental

 

PASCHOALE (1984) discuti o papel epistemológico do ensino de Campo, relacionando diretamente o "aprender" uma Ciência e fazer a própria Ciência. PASCHOALE critica a procura dos exemplos de um enunciado ou o conteúdo ideal. Sua linha de trabalho entra na da Semiótica ou da Semiologia, nomenclatura que depende da corrente teórica seguida: americana ou européia. Fica claro e evidente, na obra de PASCHOALE (1990) sua fundamentação nas teorias do filósofo e lógico norte-americano Charles Sanders Peirce.

Segundo PASCHOALE (1984:246), "A prática, ou fazer Geologia, é um processo de construção de interpretantes, de produção de signos". Podemos aplicar essa idéia a todas as Ciências da Terra, inclusive à Geomorfologia. A medida que são atribuídos significantes ao conteúdo estudado, estamos aumentando nosso conhecimento sobre o objeto, seja a Terra pela Geologia, o Espaço pela Geografia ou o Relevo pela Geomorfologia, dentre muitos outros objetos das Geociências.

Para as Geociências a geração de conhecimento, nasce da observação da natureza. O que poderíamos chamar de percepção do ambiente, porém optaremos por chamar de cognição da natureza, ou mesmo cognição do ambiente.

Concordamos com a visão do Campo apresentada por COMPIANI (1991, p.12), “não podemos perder de vista o papel de campo como fonte de conhecimento...enquanto prática, o campo representa tanto o local onde se extraem es informações para as elaborações teóricas, como o local onde tais teorias são testadas".

Vários autores destacam o Trabalho de Campo, sendo ao mesmo tempo, fonte de informação e crítica da produção científica. Ver PASCHOALE (1984), COMPIANI & GONÇALVES (1984), COMPIANI (1991),  entre outros.

O Trabalho de Campo deve ser entendido de forma abrangente. O Campo não é local apenas de "visitas", ele significa o contato direto com os objetos, as "concritudes", e o meio ambiente.

De posse dessa definição de Campo, podemos discutir a relevância pedagógica das atividades de Campo no ensino das Geociências. Para COMPIANI (1991:14), "o campo pode ser um fio condutor de conhecimentos, processos e conceitos. Pode ser gerador de problemas e também pode ser agente integrador das Geociências, construindo uma visão abrangente da natureza e do meio ambiente".

O Campo é um excelente ambiente de ensino, que rompe com o "autoritarismo" da sala de aula, onde o professor estrategicamente domina sua sala de aula. O Campo é impossível de ser dominado e fechado, ele é imprevisível, não aceita discursos prontos e é desafiador tanto para o aluno como para o professor. Porém, o Campo é o fio condutor e integrador do desafio do conhecimento das Geociências e sua relação com a natureza. A Geomorfologia como Ciências da Terra pode oferecer um caminho para melhor entender o meio ambiente, proporcionando o que considera COMPIANI (1991): O campo como o lugar onde o conflito entre o real (o mundo, o exterior) e o interior (as idéias, as representações) ocorre com toda intensidade.

COMPIANI & CARNEIRO (1993), classificam as excursões geológicas de acordo com seus papéis didáticos. Tendo como base e parâmetros para análise os objetivos do trabalho de Campo, modelo de ensino, empenho e questionamento de modelos científicos atuais, métodos de ensino, a relação professor-aluno, e finalmente a lógica predominante no processo aprendizagem.

As excursões geológicas, que assumiremos como Trabalhos de Campo em Geociências, são classificadas em: ilustrativa, indutiva, motivadora, formativa e investigativa. Relembrando a conceituação que COMPIANI & CARNEIRO (1993, p.94) faz sobre o termo classificação e qual utilizaremos é: "um exercício teórico e uma generalização, do que um exercício teórico e uma generalização, do que uma esquema ideal. É instrumento de indagação ou categorização formal, abstrata, que auxilia e orienta nossa observação, como também reúne propriedades comuns aos constituintes do objeto de investigação".

Outra classificação mais genérica é apresentada por SUERTEGARAY (1996), onde reconhece: as excursões (reconhecimento pontual de elementos ou fenômenos no campo), levantamentos de campo (o reconhecimento de lugar a partir da seleção a priori de procedimentos que impliquem levantamento de informações por parte do grupo envolvido) e por meio das fotografias e/ou imagens (o reconhecimento no campo de padrões observados em imagens de lugares).

Devemos Ter claro que tanto as classificações propostas pelos Geólogos COMPIANI & CARNEIRO (1993), como a proposta pela Geógrafa SUERTEGARAY (1996), não são excludentes, necessitam sim, serem articuladas em projetos maiores de investigação  orientados sobre diferentes disciplinas que compõem as Ciências da Terra. O Trabalho de Campo é fundamental na orientação para a prática social dos cientistas da terra, bem como todos os cidadãos.

 

2. O Trabalho de Campo em Geologia

 

COMPIANI (1991, p.4), situa as atividades de Campo como produtores de conhecimento no ensino de Geologia em relação aos aspectos epistemológicos determinados pelas características da Geologia como Ciência.

A Geologia na concepção de COMPIANI (1991) que concorda com POTAPOVA (1968), é o Campo do conhecimento onde um todo e de suas várias camadas pode ser realizada. Falamos do processo Histótico-Geológico, visão do pensamento geológico a qual concordamos.

A preocupação com a Terra pela Geologia em seu todo e com seu processo geral de desenvolvimento natural, integrado e em evolução. É um das características para encarar o trabalho de campo em Geologia como algo mais abrangente. Não procuraremos no Campo evidências do que vimos nos livros, o que PASCHOALE (1984, p.247) evidência com a passagem do granito e seu enunciado; onde o granito encontrado no Campo não tem nada a ver com o exemplo bonito do livro ou do quadro negro. A contradição do modelo ideal e o real ficam exemplificados no Campo.

Segundo FERNANDO, et. al.(1981,p.216), o Campo é o principal lugar dos Geólogos testarem as suas hipóteses. Reformulam e incrementam seus trabalhos e suas teorias. Razão pela qual não pode ser encarado apenas como descrição, ilustração ou exemplificação de teorias expostas na sala de aula.

Porém, não quer dizer que o Campo é o único local de construção do conhecimento geológico. Segundo COMPIANI (1991,p.13), "significa, porém, que somente através das atividades de Campo nos aproximamos da prática científica do geólogo, de uma atitude investigativa e atualista, não mascarando a complexidade deste conhecimento. Ou seja, é impossível simular em atividades de campo de um ou dois dias uma prática científica tão complexa. Por outro lado, o campo é essencial no entendimento dos princípios e métodos desta prática científica, que por sinal, estes, são fundamentais para compreendermos as possibilidades didáticas das atividades de campo."

A importância do Trabalho de Campo no ensino de Geologia é citada por vários autores dentre eles: ANGUITA & ANCHOVA (1981), PASCHOALE (1984), COMPIANI & GONÇALVES (1984), COMPIANI (1988, 1991), BRUSI (1992), COORAY (1992), COMPIANI & CARNEIRO (1993), dentre outros.

 

3. O Trabalho de Campo em Geografia

 

Quando analisamos a construção do conhecimento geográfico podemos observar que o Trabalho de Campo está inserido, ainda que de forma diferenciada neste processo (SUERTEGARAY,1996).

Na história clássica da Geografia, a compreensão da organização dos lugares sempre foi fundamental para os Geógrafos, sendo necessário os Trabalhos de Campo, chamados de viagens exploratórias, expedições ou excursões científicas. Segundo CORRÊA(1996) em realidade o Trabalho de Campo constituí-se uma tradição cuja importância é reconhecida por todos e, muito especialmente, por aqueles que tem na paisagem natural ou cultural a objetivação da Geografia.

LACOSTE (1985,p.15), também frisa o Trabalho de Campo como sendo fundamental para os Geógrafos. Em seu texto LACOSTE retoma a crítica ao Geógrafo Pierre Gourou, questionando sua suposta imparcialidade quando não relata em um dos seus trabalhos sobre o Delta do Rio Vermelho (parte asiática que sofria com constantes invasões e guerras com o governo francês). A crítica não é dirigida à ridicularizarão deste Geógrafo, e sim a Geografia "oficiosa" que o Trabalho de Campo acabava sendo cúmplice. LACOSTE (1985) e KAISER (1985), situam a importância do Trabalho de Campo com instrumental político e não ferramenta para a ação dos Geógrafos. Ambos , frisam a atuação política que o Trabalho de Campo proporciona, trazendo uma característica até então, negligência total ou parcialmente pelos Geógrafos e demais profissionais que o praticavam no final do séc. XVIII e início do séc. XIX, acreditando na neutralidade do cientista e conseqüentemente da Ciência.

CORRÊA (1996), nos Chamam a atenção da incapacidade em distinguir a essência da aparência constituindo-se em equívoco que o Trabalho de Campo pode permitir. Contudo, ele é essencial para o Geógrafo, ainda que não seja suficiente para se desenvolver uma clara e lúcida visão crítica da realidade.

A questão da escala que KAISER (1985) e SUERTEGARAY (1996) discutem, apresentam o perigo da não conexão entre a escala local, base espacial e escala global; pode induzir em grandes erros de interpretação da realidade. Constituindo-se num problema para o Trabalho de Campo e também um desafio.

Dentre os Geógrafos que discutem o Trabalho de Campo em Geografia, destacamos: JONES & SAUER (1915), SAUER (1919), CHOLLEY (1942), LACOSTE (1985), KAISER (1985), OLIVEIRA (1985), SUTEGARAY (1996), CORRÊA (1996), ALVES (1997), entre outros.

Concordamos com a afirmação de CORRÊA (1996), “o Trabalho de Campo não deve se tornar uma armadilha para o Geógrafo a partir de paisagens relações espaciais cada vez mais complexas e escamoteadoras. Deve ser, agora de forma mais crítica e teoricamente fundamentada, como foi no passado, um dos principais meios através do qual o geógrafo aprende a ver, analisar e refletir sobre o infindável movimento de transformação do homen em sua dimensão espacial”.

 

4. O Trabalho de Campo em Geomorfologia

 

Apresentamos anteriormente as idéias que compõem o conhecimento e relação ao Trabalho de Campo como um todo, e entre o Trabalho de Campo em Geologia e o Trabalho de Campo em Geografia. Primeiro pela falta de uma bibliografia específica sobre o tema, poucos trabalhos enfatizando o Trabalho de Campo em Geomorfologia e em segundo lugar, quem tem trabalhado com essa Ciência são os Geógrafos e Geólogos. A Geomorfologia é vista como pano e fundo ou como complemento  das preocupações da Ciência geológica, como também da Ciência geográfica. Pretendemos estar atenta a especificidade do conhecimento geomorfológico e ao seu objeto de estudo.

Destaca SUERTEGARAY (1996): “é comum, em particular na Geografia Física (Geomorfologia) a observação/exposição sobre cortes encontrados em estradas, afloramentos objetivando sua identificação e caracterização. Trata-se de um estudo de detalhe que deverá ser  inserido em escalas menores de observação”.

Este procedimento no Trabalho de Campo em Geomorfologia, que SUERTEGARAY (1996) apresenta, trata-se de uma atividade de observação e ilustração. Não negamos esta forma de Trabalho de Campo, porém acreditamos em um potencial maior dessa atividade, onde a Geomorfologia possa colaborar mais no entendimento do meio ambiente.

Segundo ORELLANA (1976,p.4), “no setor de ensino e pesquisa, são as Ciências da Terra as que maior contribuições podem oferecer ao planejamento do meio ambiente pelo seu campo de ação e objeto próprio. Dentre as disciplinas especialmente atuantes, a Geomorfologia tem importante papel pelo seu objeto de específico – o estudo das formas do relevo e dos processos de sua elaboração. Conhecendo as causas de deteriorização do meio, ela pode oferecer meios para corrigir falhas evitando hecatombes”.

Apesar da quase inexistência de bibliografia que relacione trabalho de Campo e Geomorfologia, pode-se citar alguns trabalhos que começam a despontar como experiências que apresentam uma reflexão sobre a Geomorfologia e o Trabalho de Campo, fugindo aos conhecidos relatórios descritivos e cansativos que dominam o conhecimento geomorfológico. Apresentamos as experiências de alguns professores e alunos do curso de Geografia e da disciplina Geomorfologia, são: OLIVEIRA, et. al. (1997) e GALVÃO & OLIVEIRA (1997).

Os trabalhos estão preocupados não apenas aplicar conhecimentos geomorfológicos e sim desenvolver esses conhecimentos, colocando o Trabalho de Campo como instrumento de principal,. Segundo OLIVEIRA, et.al. (1997,p.207), “tendo em vista a grande importância da prática de trabalho de campo, julgamo-nos com responsabilidade e obrigação de socializar os conhecimentos adquiridos através da produção de material didático, que venha a contribuir satisfatoriamente para a formação de alunos do 1º, 2º e 3º graus”.

Estas são algumas das experiências que vão se juntando, com o propósito de discutir a relação Trabalho de Campo em Geomorfologia e meio ambiente.

 

5. Desenho e Trabalho de Campo: da percepção visual ao desenvolvimento da cognição.

 

Segundo Jacqueline GOODNOW (1983, p.40), os desenhos infantis são formados por unidades combinadas de diversas forma. As variações podem ser quanto: Ao tipo (linhas retas, curvas,...), número (um ou mais ovóides, uma ou duas linhas retas,...) ou podem combinar, quanto ao modo que estão unidas entre si (por meio de contorno comum que rodea).

GOODNOW (1983), evidencia dois grandes grupos de pesquisa: um se interessa pela produção infantil, sobre tudo, pelo processo de um estado de desenvolvimento ao seguinte. O outro, focaliza a natureza geral da arte, acomposição e o modo como certos conjuntos se estruturam.
A articulação e a preocupação de verificar as unidades que formam os desenhos infantis e os dois grandes grupos de pesquisa sobre o desenho, se justificam como complementares no trabalho que propomos (Trabalho de Campo em geomorfologia e meio ambienta). Mas, acima de tudo, servem como referências básicas para lidarmos com qualquer tipo de Trabalho de Campo que envolva desenho. Não detalharemos como podemos utilizar o desenho no Trabalho de Campo em Geomorfologia, porque o faremos mais adiante. Pretendemos  agora evidenciar o papel do desenho, como forma única de expressão  e comunicação no Campo.
Para ARNHEIM (1980), a busca da estrutura e os limites do vocabulário gráfico podem fundamentar um aspecto assinalado nos desenhos infantis  (exemplo, é a repetição da mesma unidade gráfica). Temos uma relação entre os conjuntos de conceitos que dispõe o vocábulo visual, como se uma pessoa repetisse a mesma palavra para várias coisas.
O destaque da unidade gráfica que ARNHEIM (1980), nos chama a atenção, é muito comum nos Trabalhos de Campos dos alunos da universidade. O vocabulário visual  é restrito e a mesma forma, ou linha, é repetida várias vezes para representar várias coisas. Já com alunos do ensino fundamental, podemos perceber uma liberdade maior, ou mesmo, um vocabulário mais desenvolvido (poderíamos chamar de menos inibidos). A ênfase na linguagem escrita que nosso sistema educacional prioriza, impede e dificulta o desenvolvimento da linguagem gráfica. Continuaremos  em nosso texto, evidenciando alguns conceitos relevantes para tratarmos o desenho como instrumental importante na apreensão e representação do meio ambiente. GOODNOW (1983), cita a pesquisadora Rhoda Kellogg que trabalha com a idéia de uma ordem visual primária. Segundo a pesquisadora, teríamos um ordenamento visual primário em nossas mentes. Os fatos seriam estruturados primeiramente por ordem e equilíbrio e depois por uma base de ordenações, onde as formas podem ser adaptadas. Em qualquer estágio de desenvolvimento, as unidades e as ordenações, refletem o ocorrido em estágios anteriores.

Já para ARNHEIM (1980), as unidades e ordenações se fazem principalmente determinadas pela necessidade da estrutura, na busca de ordem e a presença de conceitos visuais. ARNHEIM estabelece um pouco de ordem em um mundo de complexidade.

O refletir unidades e ordenações, ou, perceber um ordenamento na complexidade que GOODNOW (1983, p.46) e ARNHEIM (1980) exploram, transporta-nos para um “etapismo de desenhos”. Teríamos os diagramas simples (os básicos círculos, retângulos,...), a união de pares de diagramas em combinações e os agregados que combinam duas ou mais combinações (representam objetos e pessoas), o ordenamento tendo como base a proposta de Kellog, citado por GOOODNOW (1983).

Na visão do que chamamos de etapismo de desenhos, as formas são recordadas e repetidas no processo de construção do desenho. O etapismo pode ser confundido com o processo de ensino-aprendizagem da teoria Piagetiana, todavia, não é nossa proposta tal ligação e nem mesmo dos autores trabalhados até o momento neste tópico. Procuramos mostrar um ordenamento e um modo de pensar. Reforçamos com a obra de GOOODNW (1983, P.50), o sentido de unidades componentes do desenho e raciocínio, como também, a importância de interrogarmos como as crianças chegam a selecionar determinadas unidades e ordenações de unidades (grifo nosso).

O desenho no Trabalho de Campo corre o risco de ser utilizado com o raciocínio da teoria intelectualista, que apresenta ARNHEIM (1980, p.155): “afirma que os desenhos de crianças, bem como outra arte em estágios iniciais, derivam-se de uma fonte não visual, isto é, de conceitos ‘abstratos’. O termo abstrato tem como objetivo definir o conhecimento não perceptivo”.(grifo e destaque do autor).

O abstrato corre o risco de fixar na forma de modelos na mente dos alunos. Devemos insistir na percepção do meio ambiente e posteriormente na representação deste, por meio de desenhos. Procuramos evitar a abstração do meio ambiente. Principalmente quando estamos num Trabalho de Campo. Acreditamos que desta forma o desenho no Trabalho de Campo tem um papel fundamental de apreender problemas, levando diretamente para a cognição destes.

MAGALEF (1987, p.64), retoma as teorias ecológicas de Gibson, que explica o ato perceptivo como simples extração de informação disposta no ambiente, seja o ambiente natural ou ambiente antropizado. A percepção é vista como resposta imediata do mundo físico. A teoria de Gibson nos fala do que se passa na mente do perceptor, uma relação psicofísica entre receptor e  mundo. MARGALEF (1987), trabalha com a complexidade da atividade perceptiva, reconsiderando alguns termos que Gibson utiliza: percepção e sensação e principalmente o que vamos considerar também em nosso trabalho: percepção e cognição.

          A importância de rever estes termos prende-se ao fato de termos vários tipos de percepção, desde a global até a seletiva, além das relações perceptivas intermodais (tátil, motora, sinestésica, auditiva), como destaca MARGALEF (1987).

           As preocupações de OLIVEIRA (1978), ARNHEIM (1980), GOODNOW (1983), MARGALEF (1987), DEL RIO & OLIVEIRA (1996), entre outros, são importantes para que possamos trabalhar melhor os desenhos nos Trabalhos de Campo como também dentro das salas de aula. O desenho ganha nova conotação dentro do processo de ensino, quando ele é entendido.

 

6. Trabalho de Campo e a cognição do meio ambiente

 

O estudo dos processos mentais relativos à percepção ambiental é fundamental para compreendermos melhores as inter-relações entre homem e meio ambientes, seja ele natural ou construído, geram conseqüências que afetarão a qualidade de vida de várias gerações.

Segundo DEL RIO & OLIVEIRA (1996), notamos que as manifestações mais constantes de insatisfação da população se revelam, por meio de condutas agressivas em relação a elementos físicos e/ou arquitetônicos, principalmente os reconhecidos como públicos ou localizados junto a lugares públicos. Outra conduta é o desconforto psicológico de cada indivíduo .

Essas condutas, são resultados expressos das percepções, dos processos cognitivos, julgamentos e expectativas de cada indivíduo.

Devemos lidar com o conceito de percepção  no sentido mais amplo possível, a exemplo do vem sendo adotado pela maioria dos pesquisadores ambientais. A psicologia situaria nossas preocupações dentro do escopo da cognição. Mas o que vem a ser a cognição? Usaremos uma definição que concordamos e também defendemos em nosso trabalho. Segundo DEL RIO & OLIVEIRA (1996): cognição é o processo mental mediante

o qual, a partir do interesse e da necessidade, estruturamos e organizamos nossa interface com a realidade e o mundo, selecionando as informações percebidas, armazenado-as e conferindo-lhes significado.

Seguindo este enfoque é que pretendemos trabalhar com a cognição nos Trabalhos de Campo, onde a meta não é apenas a percepção do meio ambiente, e sim a cognição do meio ambiente. 

 

Apontamentos finais

 

Devemos ter cuidado quando falamos de coisas muito amplas, para não sermos apenas panorâmicos no assunto. Se falássemos apenas de Geomorfologia, já seria um grande perigo, agora imagine relacionar a Ciência Geomorfologia com o meio ambiente? Porém é um risco que devemos correr. Espero que o panorâmico seja no mínimo informativo.

Por definição de CHRISTOFOLETTI (1972), PENTEADO (1974), CASSETI (1994): A Geomorfologia é a ciência que estuda as formas do relevo do modelado terrestre e na visão de GEORGE(1984, p.9), a definição de meio ambiente como sendo uma realidade científica, um tema de agitação, objeto de um grande receio, uma diversão, uma especulação. Tudo ao mesmo tempo. Ele é ao mesmo tempo um meio e um sistema de relações. É com essas definições e entendimentos que pretendemos tratar a Geomorfologia e o meio ambiente em nosso Trabalho de Campo no Pico do Jaraguá (SP).

GEORGE (1984), trabalha com a idéia de que o homem destrói inconscientemente, mas com um poderio temível, o seu próprio clima, e se arrisca a colocar-se numa situação irreversível de autodestruição. Mas, o que caracteriza a espécie humana é ser capaz de compreender os mecanismos que põem em risco a sua conservação, temos a consciência.

 

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Clézio Santos

Professor Mestre do Colegiado de Geografia do Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA), do curso de Geografia do Centro Universitário Assunção (UNIFAI) e doutorando no Programa de Ensino e História de Ciências da Terra da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). clézio@fsa.br


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