Palavras iniciais
Discutir a temática da formação de professores
requer buscar subsídios na
sua
história nos aspectos macro e micro que englobam o contexto
educacional, político, social e econômico. Diante desse
desafio, Pereira (2000) realiza esse movimento através da
construção do livro: Formação de professores: pesquisas,
representações e poder. Assim, seu trabalho possui
reflexões sobre o passado, o presente e o futuro, no
entanto, muitas vezes, o autor depara-se com problemáticas
que não estão se resolvendo ao longo dos anos. Por isso,
serão destacados alguns pontos que poderão motivar projetos
de transformação na formação inicial de professores.
Num primeiro momento, Pereira (2000) traz à tona o
debate sobre as pesquisas desenvolvidas no Brasil com o tema
formação. Na década de 70 eram privilegiados estudos que
envolvessem a dimensão técnica do processo formativo. Em
resposta a esta realidade, foram surgindo ao final desta
década, movimentos de crítica, em busca de uma prática
educativa transformadora. Nas palavras do autor: “A própria
escola passa a ser vista como um espaço, em que novas idéias
e mudanças podem ser iniciadas” (PEREIRA, 2000, p.17).
A partir dos anos 80, difundiu-se a formação do
educador e a importância deste assumir um compromisso
político em favor das classes populares. Nesse momento
também ocorreram denúncias da crise da educação em defesa de
melhores condições de trabalho e de salários dignos. Nesse
sentido, Arroyo (1985 apud PEREIRA, 2000) levanta o
questionamento sobre quem deforma o profissional do ensino?
E diz que nos formamos professores na universidade, porém ao
ingressarmos no mundo do trabalho sofremos uma deformação,
já que todo o contexto não contribui nem dá condições de
desenvolvimento profissional. Nessa direção, ainda são
inquietantes várias dúvidas sobre a escolha da profissão
professor. Essa decisão se dá por acreditar na vocação, se
constitui em “bico”?
Em conseqüência disso, a função da escola, da
educação escolar, são trazidas a debate a fim de se
constituir uma identidade em torno dessa questão. Da mesma
maneira em que se pensa na formação de professores ou de
educadores. Assim, destaca o autor “a importância do
professor em seu processo de formação é conscientizar-se da
função da escola na transformação da realidade social dos
seus alunos e ter clareza da necessidade da prática
educativa estar associada a uma prática social mais global”
(PEREIRA, 2000, p.27).
Esse quadro do papel do professor e sua função na
escola foram sendo pensados em dois âmbitos: que o professor
tivesse o conhecimento científico de sua área e o
conhecimento pedagógico para promover a aprendizagem dos
alunos, ainda que sem dissociar-se do compromisso político.
Porém, este último foi reduzido ao ato de falar sobre, sem a
perspectiva de transformação social.
Teoria e prática e sua disjunção também são
questões destacadas no livro, sendo um tema bastante
discutido em toda a área educacional. Ao mesmo tempo em que
o professor pesquisador e sua prática reflexiva são
reforçados como meio de qualificar a educação, e a formação
do professor. Para Schön (apud PEREIRA, 2000, p.35)
“quando o profissional reflete na ação, ele se torna um
pesquisador no contexto prático”. Reforça ainda, que “a
reflexão-na-ação pode ser uma prática rigorosa e tornar-se
um instrumento importante na atividade profissional”.
A Universidade como espaço de formação
É inegável a importância das universidades na evolução do
processo educativo, principalmente em se tratando de cursos
de licenciatura. Porém, é necessário haver uma reconstrução
nos projetos de tais cursos, de forma que estes se efetivem
na prática cotidiana. Outra transformação que se busca é a
desconstrução das relações de poder freqüentes nas
universidades. O professor pesquisador é reconhecido como
produtor de conhecimentos, enquanto o professor que atua em
sala de aula e investe no ensino é o “mero transmissor do
saber”. Do mesmo modo que, o ensino na pós-graduação é
superior ao ensino da graduação e este último superior ao
ensino em cursos de licenciaturas. Além de os professores
solicitarem e buscarem muito mais trabalhar com disciplinas
específicas, que “transmite” o conhecimento científico da
área, do que a prática educativa em disciplinas pedagógicas.
Lüdke (1994 apud PEREIRA, 2000, p.38) enfatiza a
ordem hierárquica instalada na academia universitária no
momento que “o poder vai claramente decrescendo à medida que
se troca a atividade de pesquisa pelo ensino ou qualquer
coisa relacionada com a educação”.
Assim, nos anos 90 começa-se a pensar no professor
que ensina e ao mesmo tempo faz pesquisa, como forma deste
profissional formar-se enquanto investigador da sua própria
prática e reconstruir constantemente sua atividade e seus
saberes docentes. Sendo que, “a formação do professor começa
antes mesmo de sua formação acadêmica e prossegue durante
toda a vida profissional” (SANTOS apud PEREIRA, 2000,
p.49).
A realidade dos cursos de licenciatura
A história da profissão nos mostra como o espaço escolar vem
sendo muito lentamente transformado em momentos de
aprendizagem e desenvolvimento. Da mesma forma que, a figura
do professor foi modificando seus princípios, sua função,
sua prática e a promoção do saber que possui e/ou que
constrói.
No que se refere aos dilemas da licenciatura,
Pereira (2000) pontua os seguintes: a separação entre as
disciplinas específicas e pedagógicas; as peculiaridades dos
cursos com bacharelado e licenciatura; a desarticulação
teoria-prática; os cursos noturnos; as disciplinas
integradoras.
O estudo que o autor desenvolveu na UFMG sobre os cursos de
licenciatura, pode ser também o reflexo da nossa realidade,
já que a categoria formada – o professor - vem enfrentando
dificuldades equivalentes em todos os contextos.
Como forma de analisar o aluno que ingressa na
universidade a pesquisa do autor busca construir o perfil do
vestibulando aprovado nos cursos de licenciatura, e a partir
disso percebeu-se que: os cursos de licenciatura estão entre
os menos concorridos e com menos prestígio social; os alunos
apresentam idade mais avançada em relação aos demais e são
em sua maioria egressos da rede pública; são nas
licenciaturas que se enquadram o maior número de egressos do
ensino noturno; a renda familiar é inferior dos demais
cursos; a maioria dos acadêmicos desenvolve algum tipo de
atividade remunerada; a escolaridade dos pais também é
inferior dos demais cursos; a ocupação de maior prestígio
dos pais não é freqüente nas licenciaturas.
Em relação à representação dos acadêmicos sobre a função do
professor evidenciaram-se algumas concepções de ensino.
Apesar de a abordagem tradicional estar presente nessa
análise, outras concepções mais adequadas ao nosso tempo e
às nossas necessidades vem sendo reconhecidas e enfatizadas
nos discursos de muitos profissionais.
Palavras finais
Tendo em vista a situação que se encontra a educação
brasileira, os cursos de licenciatura vêm acompanhando esse
processo lento de mudança. Porém, nós temos a incumbência e
a responsabilidade de assumir a luta pela qualificação
desses cursos formativos, já que, de alguma forma fomos
beneficiados com eles e hoje desfrutamos de uma
pós-graduação gratuita e de qualidade.
É importante destacar que, se parece inviável
conquistarmos grandes resultados no âmbito educacional,
existe sim, a possibilidade de interferimos e
desequilibrarmos o tradicional, o instituído, o hegemônico,
através da atuação docente e da gestão escolar, pois, dessa
forma estaremos contribuindo com as armas que ainda nos
permitem utilizar.
Resenha da obra: PEREIRA, José Emílio Diniz. Formação de
professores: pesquisas, representações e poder. Belo
Horizonte: Autêntica, 2000.
Doutor em Educação e Ciência do
Movimento Humano; Professor Adjunto da UFSM;
Coordenador do GEPEF/UFSM (Grupo de Estudos e
Pesquisas em Educação Física).
hnkrug@bol.com.br