Resumo
O presente artigo
pretende analisar o que se entende sobre “escolas de valor”, se
podem ser consideradas como bons exemplos para educação pública
brasileira. Estas escolas fazem parte de um projeto de relatos
reconhecidos pelo trabalho de transformação dos alunos, da
comunidade, conseguindo vencer os obstáculos muitas vezes
considerados intransponíveis, como: evasão escolar, instalações
precárias, violência, criminalidade. O texto pretende analisar
aspectos comuns e particulares de cada escola, buscando entender
se estes bons exemplos são viáveis de serem seguidos por outras
escolas públicas. É preciso entender qual é o valor da educação, o
papel da escola frente aos processos econômicos e políticos que
vivemos atualmente, para podermos concluir, de fato, o que pode
ser considerado como escolas de valor.
Palavras-chave: Papel da escola. Valores.
Educação pública. IDEB.
Abstract
The present article intends to analyze what you understand about
schools value, if it can be considered good examples to public
school education. These kinds of schools are part of a project
about how you can transform students, the community, being able to
overcome obstacles sometimes considered insurmountable, like
school dropout, poor facilities, violence, and criminality.
The text intends to
analyze common and private aspects of every school, trying to
understand if those good examples are viable to be followed by
other public schools. You need to figure out if this kind of
education worth, how the school takes part in the politic and
economic matters actually, so we can really conclude, in fact,
what can be considered schools value.
Keywords: Role of the school. Values. Public education.
IDEB.
Introdução
Pode a escola pública oferecer
uma educação de valor apesar das dificuldades? Esta é uma questão
muito atual nas discussões acadêmicas e escolares. A falta de
credibilidade das escolas tem impulsionado famílias a adotarem nos
Estados Unidos o homeschooling, o ensino em casa, que vem causando
polêmica. A legislação brasileira não aprova, mas ao mesmo tempo
abre brechas, e as famílias lutam pelo seu direito da autonomia no
ensino dos filhos.
Mas o que leva os pais a optarem
pelo ensino dentro de casa? Em muitos casos a resposta é a falta
de qualidade das escolas, tanto públicas quanto particulares.
Diante de tantas dificuldades, o
valor da escola é questionado. Qual seu papel na sociedade atual?
Para que serve? O objetivo deste artigo é buscar e analisar estas
questões, e ainda, apresentar experiências de seis “escolas de
valor”, buscando compreender se podem mesmo ser consideradas bons
exemplos para educação pública.
Para que serve a
escola?
Buscar uma única
resposta não é possível, então pretendo ancorar alguns pensamentos
que vão ao encontro desta questão. Para Foucault (1977), as
escolas são como instituições que servem para vigiar e controlar,
como eram também os hospitais, prisões e asilos, que disciplinavam
alunos e normatizavam o conhecimento em forma de disciplinas
escolares.
As primeiras escolas
foram construídas com o modelo arquitetônico das prisões para ser
possível vigiar e controlar. Hoje, mesmo com a arquitetura
moderna, as escolas continuam com ambiente favorável às práticas
de vigilância. Suas arquiteturas facilitam essas práticas porque
são planejadas com aberturas, transparências, vazios, passagens.
Um exemplo de vigilância
está no uso de câmeras, que remete à visão que tudo se vê sem ser
visto. Na escola, o estudante, o professor, o secretário não sabem
que estão sendo vigiados, porém há sempre uma forma de justificar
o uso deste tipo de equipamento, principalmente quando se trata de
segurança.
Foucault também fala que
em todas as vigilâncias, há ainda uma série de controles. Na
escola, a cada fim de semestre, é feito o conselho de classe,
instrumento que analisa a produtividade do alunado e controla a
aprendizagem. Quando ocorre algum problema com aluno, a família é
chamada para ouvir sugestões de soluções. O papel do professor
neste momento é classificar o aluno individualmente de acordo com
seu rendimento. O conselho de classe, portanto, é um instrumento
administrativo e político que individualiza os corpos, os
diagnósticos, os tratamentos. Portanto, para Foucault a escola
serve para vigiar e controlar os indivíduos.
Entre os mais críticos, a
respeito do papel da escola, está Ivan Illich quando afirma que só
seria possível haver o verdadeiro aprendizado, se as escolas
fossem todas abolidas.
Não é possível uma educação universal através da escola. Seria
mais factível se fosse tentada por outras instituições, seguindo o
estilo das escolas atuais. Nem as novas atitudes dos professores
em relação aos alunos, nem a proliferação de práticas educacionais
rígidas ou permissivas (na escola ou no quarto de dormir) , nem a
tentativa de prolongar a responsabilidade do pedagogo até absorver
a própria existência de seus alunos vai conseguir a educação
universal. A atual procura de novas saídas educacionais deve virar
procura de seu inverso institucional: a teia educacional que
aumenta a oportunidade de cada um de transformar todo instante de
sua vida num instante de aprendizado, de participação, de cuidado.
(Illich, 1971, p.14)
Segundo Illich, a maior
parte dos conhecimentos úteis se aprendia fora da escola, em
contato com as realidades familiares, sociopolíticas e culturais.
O autor afirma que uma boa planificação da instrução deveria ter
três objetivos: o primeiro seria que todos os interessados em
aprender deveriam ter acesso a todos os meios de aprendizagem
disponíveis. O segundo está ligado à troca de saber, quem quisesse
transmitir o seu saber deveria poder encontrar-se com outros que
quisessem aprender alguma coisa. O terceiro está ligado a
demonstrar publicamente o resultado de seu estudo e deveria ter
ocasião e oportunidade de fazer.
Buscando o equilíbrio
entre os teóricos acima, Michael Young apresenta sua análise
sobre o papel da escola como legitimadora de um “conhecimento
poderoso” e explica:
“alguns tipos de conhecimento são
mais valiosos que outros, e as diferenças formam a base para a
diferenciação entre conhecimento curricular ou escolar e
conhecimento não-escolar e que podem capacitar jovens a adquirir o
conhecimento que, para a maioria deles, não pode ser adquirido em
casa ou em sua comunidade. O conhecimento pode fornecer
explicações confiáveis ou novas formas de se pensar a respeito do
mundo. É isso que os pais esperam, mesmo que às vezes
inconscientemente, ao fazerem sacrifícios para manter seus filhos
na escola. Esperam que eles adquiram o conhecimento poderoso, que
não é disponível em casa” (YOUNG, 2007, p.53)
Como é possível confiar
nossos filhos às escolas públicas se estas não são capazes de
gestar qualidade ou conhecimento poderoso? Por isso, alguns pais
acreditam que fornecendo ensino em casa estarão cumprindo com este
dever. Diante de dicotomias a respeito do papel da escola, não é
difícil entender o porquê desta instituição estar perdendo o seu
valor.
Para o autor de “O fim
da educação: redefinindo o valor da escola”, Neil Postman, a
função da escola é criar um público que servirá a determinados
propósitos: alimentar o ciclo econômico e político por meio do
trabalho, perpetuar os valores culturais por meio da linguagem e
dos costumes sociais. O autor defende a ideia que poderia haver
uma melhora na qualidade do ensino através de uma nova postura por
parte dos professores.
"Poderíamos melhorar a qualidade do ensino da noite para o dia,
por assim dizer, se os professores de matemática fossem incumbidos
de ensinar arte, os professores de arte de ensinar ciência, os
professores de ciência inglês. Meu raciocínio é este. A maioria
dos professores (...) ensina matérias em que eram bons na escola.
Achavam a matéria fácil e prazerosa. Consequentemente, é provável
que não entendam como a matéria aparece para aqueles que não são
bons nela, ou não se interessam por ela, ou as duas coisas. Se,
digamos, durante um semestre, cada professor se encarregasse de
uma matéria que odiasse, ou com que sempre tivesse tido
dificuldade, seria forçado a ver a situação como a maioria dos
estudantes.Ao ver, perceberia as coisas mais como um novo aluno do
que como um velho professor.” (POSTMAN, 2002, p.114)
Vera Werneck, em seu
livro “Educação e Sensibilidade” aponta como principal “causa” da
crise da educação no Brasil outra crise: a dos valores, da ética e
da moral. Segundo esse ponto de vista, as instituições sociais,
como a escola, e a própria sociedade, são alvo de uma crise dos
valores na sociedade brasileira.
A escolha das
“escolas de valor”.
Para compreender o valor
da escola é preciso enteder o que é valor. Admitindo-se como
“valor” aquilo, que, de algum modo, vale para o homem, aquilo do
que é carente, aquilo que satisfaz a sua necessidade, que preenche
sua falta (Werneck 2003).
O termo valor foi
empregado para classificar o que valia do ponto de vista
econômico. Mais tarde, passou a ser utilizado para o que vale para
homem, como exemplo: o bem moral, o belo, o verdadeiro, o
sagrado,a saúde entre outos.
As seis
experiências de escolas públicas brasileiras, apresentadas neste
artigo, fazem parte um livro denominado “Escolas de Valor” que tem
como objetivo divulgar os modelos de gestão escolar bem-sucedidos
em que seu maior capital é o ser humano. O responsável pela
criação do livro é a Fundação Santillana. A obra deu origem a
exposições e oficinas em vários estados brasileiros.
Além do livro surgiu
também o projeto do website “Escolas de Valor”. Com os relatos dos
casos de escolas cujo
Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB)
é igual ou acima da atual média nacional (4,2) e que apresentem
evolução no índice, serão reunidos mais exemplos de gestões que
transformaram alunos, professores e a comunidade, formando um
banco para serem partilhadas com instituições de ensino de todo o
Brasil.
Este
projeto conta iniciativa e o apoio da Fundação Santillana,
Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), União
Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação (Undime), movimento
Todos Pela Educação e Editora Moderna, e está alinhada com os
princípios do
Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE),
do Ministério da Educação.
Entendendo como valor
aquilo que satifaz às necessidades é preciso verificar se, de
fato, estas seis experiências podem ser considerados bons
exemplos. Além disso, pensar de que forma ocorreu o processo da
escolha destes valores? Será que partiu das próprias escolas ou
foi atribuida pelos autores do livro?
A escolha dos valores
das escolas
“Solidariedade” da
Escola Estadual Pedro Santos - Amazonas
Segundo o livro, a
escola Estadual Pedro dos Santos tem como lema a Solidariedade. A
grande mudança ocorreu com a chegada de um gestor que reuniu toda
a comunidade escolar para saber qual era a escola que queriam ter.
Suas ações partiram do que foi decidido em reunião: reforço da
merenda escolar, arrumar transporte e criar parcerias com os pais
dentro da escola.
O desempenho dos alunos
e a participação dos pais nas atividades escolares foram
estratégias encontradas para combater o trabalho infantil e a
evasão escolar.
As decisões são tomadas
em equipe que inclui o administrativo, serviços gerais,
merendeiras, professores, mães, pais e alunos. Outra
característica que merece destaque é a busca por parcerias para
conseguir alimentos, materias didáticos.
O valor da
solidariedade está na conquista da empatia com
o estado afetivo do outro, mas essa só é conquista de um estado de
equilíbrio em si, porque tal disposição para uma ação virtuosa
acontece quando não se deseja nada em troca. É a superação de si,
é estar bem consigo para estar e buscar o bem para os outros.
O
gestor desta escola acredita na máxima de que é “dando que se
recebe”. “Quando você só dá. Está dado, a pessoa ganha e vai
embora. Repartindo, ela volta, porque se sente responsável,
desenvolve o senso comunitário”.
“Auto-estima” do Colégio Estadual
Érico Veríssimo - Rio Grande do Sul
O Colégio Estadual Érico
Veríssimo localizado no município de Alvorada na região
metropolitana de Porto Alegre, possui índices sociais
preocupantes, com 17% de seus 200 mil habitantes abaixo da linha
da pobreza, até pouco tempo era conhecido apenas pela mais elevada
taxa de homicídios no Rio Grande do Sul.
Esta escola pública tem feito a
diferença em Alvorada, despertou a auto-estima de seus alunos,
pais e de sua comunidade e conseguiu reduzir a violência em seu
entorno. Com a comunidade participando da gestão compartilhada,
deu inicio a uma série de mudanças estruturais e comportamentais –
o espaço de recreação – é um exemplo desta conquista, aliado a
reformas no prédio e na quadra da escola. As reformas construíram
a auto-estima de alunos, professores e pais. Há três anos não é
preciso pintar as paredes ou trocar as vidraças: todos entenderam
que a escola lhes pertence e ela permanece impecável.
A melhor definição de
auto-estima é ter consciência de seu valor pessoal, acreditar,
respeitar e confiar em si.
A auto-estima influencia
tudo que fazemos, pois é o resultado de tudo que acreditamos ser,
por isso o autoconhecimento é de fundamental importância para
aumentar a auto-estima. Confiar em si mesmo, respeitar seus
limites, reconhecer seus valores, expressar seus sentimentos sem
medo, sentir-se competente, capaz e se tornar independente da
aprovação dos outros, tudo isso faz com que a auto-estima se
eleve. Mas é um processo gradativo que exige trabalho e
conscientização, sendo assim, a escola Estadual Érico Veríssimo
necessita de exercício permanente na conquista da auto-estima de
seus alunos.
“Harmonia” da escola Professora
Jandira de Andrade Lima - Pernambuco
A escola Professora Jandira de
Andrade Lima, localizada no município Limoeiro, é um antigo centro
de educação rural do agreste. Ancorou o valor harmonia para
demonstrar que é possível equilibrar o contraste da vida rural com
as atividades que a escola oferece: um centro de informática de
referência, auditório, laboratório de ciências, aulas de alemão –
que começou através de projeto “Correio Brasil-Alemanha” troca de
e-mail, cartas, cartões nas aulas de informática que resultou em
um intercâmbio de alunos entre Brasil – Alemanha.
Neste caso,a harmonia de
Pernambuco está ligada em misturar os opostos: local e global,
rural e urbano, tradicional e tecnológico oportunizando uma rica
experiência educacional para os alunos.
“Resistência” do Colégio Estadual
Maria Anita - Bahia
O Colégio Estadual Maria Anita,
localizado em Salvador é um exemplo de resistência quando
encontrou uma forma de eliminar a criminalidade dentro e fora da
escola, conseguindo evitar a evasão escolar e diminuir a
repetência.
O sucesso destas conquistas
deve-se às aulas de capoeira, atividades esportivas e presença da
comunidade na escola. O empenho em oferecer várias possibilidades
de aprendizagem está presente na arte de resistir a “mesmíce”,
encontrando soluções possíveis para ofertar aos seus alunos uma
educação de qualidade – um exemplo disso é a biblioteca que vai
até aos alunos, sem espaço para sala de leitura, a escola
estabeleceu parcerias e criou a Biblioteca Viva, com 500 volumes e
circula sobre rodinhas colocadas em um armário imenso que após
suas portas serem abertas totalmente temos estantes para os
livros.
O valor da resistência
se faz presente na busca de soluções criativas, superando as
adversidades de espaços e conquistando a confiança da comunidade
em torno da escola.
“Perseverança” da escola Ordem e
Progresso - Rio de Janeiro
A escola Municipal Ordem e
Progresso, localizada no municipio do Rio de Janeiro, perservera
em levar a escola pública como referência em educação de
qualidade. Não há evasão escolar, o índice de aproveitamento é de
quase 100%, a escola tem lista de espera para o ensino fundamental
e precisou aumentar as turmas nos cursos de Educação Infantil.
O sucesso da escola está nos
alunos, mas a escola faz a sua parte contribuindo para que os
alunos sintam prazer em ficar na escola. Televisão e vídeo em
todas as salas de aula, computadores, DVD, copiadoras,
impressoras, máquina fotográfica digital fazem parte do acervo
dessa instituição que persevera, inserida em uma das metrópoles
mais violentas do mundo.
A perseverança é um
esforço contínuo. É alcançar o que se propõe e buscar soluções
para as dificuldades que podem surgir. É um valor fundamental na
vida para obter um resultado concreto. Com perseverança se obtém a
fortaleza e isso nos permite não nos deixarmos levar pelo fácil e
o cômodo.
“Identidade” da escola Indigena
Kumana - Tocantins
A Escola Indígena Kumana,
localizada no município de Formoso do Araguaia, conquistou o
respeito à identidade de seus alunos. Através de histórias,
contadas sob a forma de tradição oral, formou um significativo
acervo de importantes fontes de conhecimentos, que somados aos
conteúdos curriculares, elevaram o sentimento indianista local,
formando alunos conhecedores orgulhosos de uma rica tradição
milenar.
As novas gerações de
jovens indígenas parecem carentes de uma identidade. Em um mundo
cada vez mais global, a recuperação do valor e do significado da
identidade indígena, se afirma, como disse um índio bororo certa
vez: “É desejo de todo índio entrar e fazer parte da modernidade e
seu passaporte primordial é sua tradição”, parece ser esta a razão
principal da revalorização da identidade.
As
seis “escolas de valor” descritas aqui, podem ser consideradas
como bom exemplo para outras escolas, como afirma Salvador
(2000, p. 323) os valores orientam o trabalho educativo e marcam a
direção em que é preciso progredir, e por essa razão, aparecem nos
objetivos de qualquer etapa da educação escolar. Ele exemplifica,
citando valores que considera positivos e que podem ser inseridos
nos objetivos da educação fundamental como: autonomia, iniciativa,
higiêne, solidariedade, cooperação, responsabilidade,
sensibilidade, tolerância, convivência, respeito e identidade
pessoal e nacional. Alguns destes valores encontramos presentes na
apresentação das escolas.
Novo critério na
escolha das “Escolas de Valor”
A segunda edição do
livro “Escolas de Valor” será publicado em 2010 e conta com outras
experiências relatadas no site com o mesmo nome do livro, porém
desta vez, o critério de seleção é o Índice de Desenvolvimento da
Educação Básica (IDEB) igual ou maior que a média nacional, de
4,2. Nesta segunda edição os valores humanísticos ficaram de fora,
mas por quê?
O que é IDEB?
Em 2007, foi criado o
Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). O indicador,
que mede a qualidade da educação. A partir deste instrumento, o
Ministério da Educação traçou metas de desempenho bianuais para
cada escola e cada rede até 2022. O novo indicador utilizou na
primeira medição dados que foram levantados em 2005.
Ele é calculado com base
na taxa de rendimento escolar (aprovação e evasão) e no desempenho
dos alunos no SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação
Básica) e na
Prova Brasil.
Ou seja, quanto maior for a nota da instituição no teste e quanto
menos repetências e desistências ela registrar, melhor será a sua
classificação, numa escala de zero a dez.
Os resultados mais
recentes apontam, a média de 4,2 para as séries iniciais do Ensino
Fundamental, 3,8 para as últimas séries do Ensino Fundamental e
3,5 para o Ensino Médio
Após saber da mudança
nos critérios da seleção das “Escolas de Valor”, foi realizada uma
pesquisa no site do Ideb, com a intenção de investigar o IDEB das
seis escolas. Curiosamente, alguns índices abrem espaços para
questionar se de fato estas escolas podem ser considerados bons
exemplos.
O IDEB (2009) da Escola
Estadual Pedro dos Santos (Solidariedade) é de 4,4 nas séries
iniciais e 3,8 nas séries finais. O Colégio Estadual Érico
Veríssimo (Auto-estima), possui 4,6 nas séries iniciais e finais
3,4. A Escola Prof. Jandira de Andrade Lima (Harmonia), possui
realidade parecida nos anos iniciais 4,6 e nos anos finais 3,9. O
Colégio Estadual Professora Maria Anita (Resistência) possui nos
anos iniciais 4,2 e nos anos finais 3,0. A Escola Ordem e
Progresso (Perseverança) é a que apresenta o maior valor 5,8 nos
anos iniciais. A Escola Indígena Kumana (Identidade) não possui
Ideb.
Analisando o novo
critério adotado para a próxima edição do livro e os resultados
obtidos em relação ao IDEB das seis “escolas de valor”, é possível
questionar se estas escolas poderiam fazer parte da segunda edição
do livro.
O valor qualidade
reaparece no meio educacional com força total. Mas o que se
entende por qualidade escolar?
O que é qualidade?
Os dicionários definem
qualidade como o conjunto de propriedades, atributos e condições
inerentes a um objeto e que são capazes de distingui-lo de outros
similares, classificando-o como igual, melhor ou pior; ou, então,
como o atributo que permite aprovar, aceitar ou refutar o objeto
com base em um padrão de referência.
O Ideb define como qualidade a
aprovação e média de desempenho dos estudantes em língua
portuguesa e matemática. O indicador é calculado a partir dos
dados sobre aprovação escolar, obtidos no Censo Escolar, e médias
de desempenho nas avaliações do Inep, o Saeb e a Prova Brasil.
Carvalho (2001) realizou
pesquisa em algumas escolas de São Paulo e concluiu que é
necessário questionar o atual mito dos resultados estatísticos,
pois a ênfase na competição e no "ranqueamento" das escolas não
tem possibilitado a qualidade na educação. Surge, assim, uma série
de questões: será que o sucesso da escola pode ser dissociado dos
deveres que o poder público deve ter para com ela? A qualidade na
escola pública é responsabilidade exclusiva do gestor responsável
e de seus professores? Os testes padronizados nas áreas de língua
portuguesa e de matemática darão conta de propiciar a escola de
qualidade? De acordo com Carvalho (2001) é necessário
ir além dos números amplamente divulgados e dos discursos a
respeito de seus significados e buscar como eles vêm sendo
produzidos e utilizados no cotidiano das escolas, suas interações
com a cultura escolar e seus efeitos sobre a aprendizagem das
crianças (p.232)
Para Pedro Demo, a
educação é o termo-resumo da qualidade nas áreas social e humana,
pois ele entende que não há como chegar à qualidade sem educação.
Ressalta, no entanto, que educação é um conceito mais amplo que
conhecimento, porque o conhecimento tende a ficar restrito ao
aspecto formal da qualidade, enquanto que a educação abrange
também a qualidade política. A educação, que supõe qualidade
formal e política, exige construção e participação, pois "[...]
precisa de anos de estudo, de currículo, de prédios e de
equipamentos, mas, sobretudo de bons professores, de gestão
criativa e de ambiente construtivo/participativo, sobre tudo de
alunos construtivos/participativos", para se concretizar (DEMO,
2001, p. 21).
Na escala de valores,
embora percebesse atualmente, uma super valorização das escolas
que apresentam bons resultados no IDEB, não se poder deixar de
pensar se somente ele é capaz de responder a qualidade
educacional. O valor da educação, segundo (Werneck 2003) é levar o
educando a distinguir entre o valor, não-valor e o contra valor e
a buscar e apreender o que realmente vale, por corresponder à sua
necessidade. Partindo desta lógica, as escolas apresentadas acima
podem ser consideradas bons exemplos para educação pública, pois
conseguiram preencher necessidades e carências. O grande desafio
se encontra em como podemos associar, nas escolas públicas, os
valores humanísticos, representados aqui neste artigo pelo relato
das seis experiências e o que se espera em termos de desempenho do
IDEB.
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*graduada
em Geografia e Mestranda em Educação pela Universidade Católica de
Petrópolis, professora de geografia da rede pública de ensino de
Petrópolis – Rio de Janeiro. Email:
prof.juliana2009@gmail.com