.ISSN 1678-8419  

Revista Partes - Editado pela última vez em 11-04-2008 

 
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O Estágio Participativo na formação de professores de Geografia do ensino fundamental e médio
Por
Clézio Santos

 Resumo

O estágio no curso de licenciatura em geografia é um momento fundamental na formação do futuro professor de geografia, dessa maneira deve seguir uma orientação especial e uma contextualização cotidiana, sobre o que é ensinar geografia no ensino fundamental e no ensino médio. A concepção adotada prende-se no entendimento do estágio como momento importante na formação do professor e na construção de um mesmo ideal educacional onde o professor é sujeito reflexivo e participante do mundo da Educação, comprometido com suas mudanças, portanto, um pesquisador ativo dessa realidade.

Palavras chave: Estágio na licenciatura, formação de professores de geografia, ensino de geografia. 

Abstract

The period of training in the course of formation of geography professors

is a basic moment in the formation of the future professor of geography, in this way must follow a special orientation and a daily context, on what it is to teach geography in basic education and average education. The adopted conception is arrested in the agreement of the period of training as important moment in the formation of the professor and the construction of one same educational ideal where the professor is subject participant reflexive and of the world of the Education, compromised to its changes, therefore, an active researcher of this reality.

key-words: Period of training in the course of formation professors, formation of geography professors, education of geography.

 

Introdução

O artigo apresenta em linhas gerais a concepção de estágio que é trabalhada na disciplina Prática de Ensino de Geografia do Ensino Fundamental e Médio do Colegiado e Geografia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FAFIL) do Centro Universitário Fundação Santo André (CUFSA), apresentado a proposta de estágio a ser seguida pelos alunos da terceira de série deste curso anual. Porém, apesar de seguir a legislação recente de formação de professores, não a discute e não apresenta as atividades previstas relacionadas à carga horária prevista na legislação.

A concepção de estágio que podemos denominar de “estágio participativo” vem sendo efetivada desde 2004 no curso de licenciatura e de bacharelado em Geografia. A estruturação utilizada é espelhada com as devidas modificações na visão de estágio utilizada pelas disciplinas do terceiro ano do curso de Pedagogia da mesma instituição. O uso da mesma concepção prende-se no entendimento do estágio como momento importante na formação do professor e na construção de um mesmo ideal educacional onde o professor é sujeito reflexivo e participante do mundo da Educação, comprometido com suas mudanças, portanto, um pesquisador ativo dessa realidade.

A preocupação básica e central da presente concepção de estágio é a de que este contribua para a formação de um professor de Geografia comprometido com a escola pública, com a sua democratização e com a busca da melhoria de sua qualidade. Esta preocupação poderá ser concretizada, dentre outras ações, através da possibilidade do aluno manter uma interlocução com a realidade concreta e de nela interferir no sentido de transformá-la.

A concepção de estágio se norteia por três características:

a) A realidade a ser trabalhada é a da sala de aula, na disciplina escolar de Geografia do Ensino Fundamental ou Médio, no interior da escola;

b) Os alunos deverão ser capazes de investigação-ação, pois desta forma poderão combinar duas atividades distintas, mas complementares, a da pesquisa e a da ação pedagógica, por meio:

· Da aproximação aos sujeitos que se encontram/desencontram no interior da sala de aula. Desta forma, espera-se que os alunos de Geografia da FSA ampliem a compreensão da importância de não partirem de modelos de ação pedagógica previamente definidos, de “fora para dentro” e de “cima para baixo”, uma vez que os sujeitos a serem pesquisados não se constituem meros objetos de sua ação, mas sim pessoas que pensam e que agem, que têm necessidades e desejos, que são marcadas pelas suas histórias, pelas possibilidades com as quais se deparam no presente e as de construção do futuro;

· Da aproximação aos conhecimentos da disciplina escolar Geografia com a Geografia da academia. Esta aproximação ocorrerá, de um lado, através das aulas que os alunos do 3o ano de Geografia terão no interior do próprio curso e, de outro, através da pesquisa junto a professores que ministram no ensino fundamental II e ensino médio a disciplina Geografia. Os conhecimentos específicos serão trabalhados de maneira contextualizada, baseados nos conhecimentos acumulados pela humanidade ao longo da história, em processo de produção permanente e não como algo pronto e acabado. Desta forma, os sujeitos que se encontram no interior da sala de aula poderão ser incorporados ao processo ensino/aprendizagem como seres ativos, capazes de pensar, criticar e apreender o conhecimento como algo que passa pelas suas próprias estruturas;

· Da proposição de práticas pedagógicas baseadas na pesquisa dos sujeitos que se encontra na própria realidade da sala de aula e da articulação de seus resultados com os conhecimentos específicos.

c)      Os alunos do 3o. Ano de Geografia deverão apresentar como produto final do estágio um documento que deverá conter a proposta de prática pedagógica em uma das áreas específicas de conhecimento geográfico definidas neste projeto, que traduza a investigação-ação realizada, perpassada pela teoria, e não como um simples rol organizado de unidades e de atividades. Enfim, este documento deverá ser revelador da capacidade do aluno do terceiro ano de geografia explicitar seu perfil de professor-pesquisador, capaz de produção de conhecimento.

Em torno destas preocupações é que será construída a integração dos conhecimentos envolvidos neste projeto, ou seja, o estágio será transformado em espaço de investigação-ação com o objetivo de que os alunos transformem a investigação num elemento necessário para a produção, acompanhamento e avaliação de propostas de prática educativa em torno da geografia trabalhada no Ensino Fundamental II e Ensino Médio.

Por meio desta concepção segue-se na busca, que tem feito o Colegiado de Geografia nos últimos anos (como outros Colegiados da FSA, destacando o Colegiado de Pedagogia), de abandonar uma concepção predominante de estágio como mero cumprimento de uma exigência legal de um número determinado de horas, para dar lugar a um espaço com outras práticas e reflexões que revelem a preocupação de que;

“a formação do professor, principalmente licenciado, seja reexaminada para adequar-se a uma concepção de trabalho docente consentânea com as responsabilidades sociais do trabalho no âmbito de uma legislação que dá realce à autonomia da escola e à elaboração de sua própria proposta pedagógica” (AZANHA, 1997 apud ANCASSUERD, et. al. 2003:3)

Além do envolvimento com as responsabilidades sociais rumo a uma ação autônoma de uma proposta pedagógica, ressaltamos a relevância da formação do professor-pesquisador para este fim.

Esta visão sobre o papel do estágio para a formação do professor acompanha a discussão realizada junto ao Colegiado de Pedagogia e compartilha suas linhas mestras na realização dos estágios. 

O Eixo do Trabalho 

Esta proposta de trabalho em torno do estágio é fruto das discussões, decisões e deliberações do conjunto de professores do Colegiado de Geografia tiradas no decorrer do processo de planejamento.

O planejamento reforçou a necessidade de investir nas duas linhas de pesquisa do Colegiado de Geografia: 1) Ensino de Geografia; e 2) Planejamento do ABC Paulista  e Baixada Santista.  Dessa forma, o estágio da disciplina Prática de Geografia do Ensino Fundamental e Médio, foi pensado seguindo novos parâmetros, colaborando com a linha de pesquisa Ensino de Geografia.  

O Colegiado de Geografia definiu que a sala de aula deve ser um dos espaços privilegiado de investigação-ação dos alunos deste curso, porque estão sendo formados professores de geografia. Por isso, os alunos de geografia devem ser colocados em contato com a sala de aula do ensino fundamental e médio e os sujeitos que aí se encontram/desencontram para pensar e propor práticas pedagógicas voltadas ao ensino de geografia. Assim, o eixo do estágio é “O Ensino de Geografia e o processo de investigação-ação”.

 

O Processo de Investigação-Ação da Sala de Aula: Um Desafio

 

Para que os alunos do 3o ano de geografia possam elaborar uma proposta de prática pedagógica em torno de um conteúdo da Ciência Geográfica, para uma série dentre o ensino fundamental II e médio, e possam produzir um documento final deverão realizar:

1)                             Atividades de pesquisa - todas no campo da pesquisa qualitativa, a saber: (a) história de vida de professor que atua numa série do ensino fundamental, buscando conhecer as visões, os sentimentos e os sentidos atribuídos por este profissional área de conhecimento que ministra suas aulas; (b) coleta de documentos fornecidos pelo professor  e (c) observação dos sujeitos em sala de aula, antes e durante a realização de proposta de prática pedagógica;

2)                             Atividades de produção, de implantação e avaliação de prática pedagógica: (a) realização de estudos sobre determinado conteúdo geográfico a ser objeto da prática; (b) elaboração de proposta de trabalho baseada nos estudos feitos, nos resultados de atividades de pesquisa e na interlocução com o professor pesquisado; (c) implantação da proposta, a ser feita pelos alunos que fazem o estágio ou proposta pelo professor que esta sendo observado; (d) avaliação da prática desenvolvida;

3)                             Atividade de produção de documento - (a) estruturação do documento; (b) pesquisa bibliográfica; (c) redação do documento no formato de um artigo científico.

 

Atividades Integradoras do Estágio

 

O Estágio em Prática de Ensino de Geografia não será atividade meramente burocrática. Dele fará parte um conjunto de atividades acadêmicas obrigatórias para os alunos. A essas atividades serão atribuídas horas de estágio e a algumas serão atribuídas notas, que constituirão a média semestral do aluno.

 

Atividade1

Apresentação do projeto de estágio, um exemplo de produção de conhecimento sobre um determinado conteúdo geográfico.

Pretende-se através desta atividade dar conhecimento e discutir com os alunos a proposta de estágio de Prática de Ensino de Geografia na sua totalidade, desde a sua concepção mais geral até o cronograma de atividades a serem realizadas. Através desta atividade, espera-se que os alunos compreendam as razões que envolvem as diferentes etapas de trabalho, bem como possam se situar diante de seus colegas e no tempo, para organizarem a vida acadêmica. Ao apresentar o projeto na sua totalidade, espera-se que os alunos tenham uma visão do processo bem como do produto final que deverão produzir.

 

Atividade 2

Observação e registro das aulas do professor de geografia que atua no ensino fundamental II e/ou médio, de acordo com a vivência do estagiário na escola.

Esta atividade ocorrerá nos locais e horários que o aluno estagiário acertar com o professor – sujeito de pesquisa – e ela é fundamental para o desenvolvimento das demais etapas de trabalho. Por isso essa atividade deve ser bem feita, com todo o rigor e dela se responsabilizará cada aluno para garantir a coleta de dados da maneira mais rigorosa possível. Essa atividade requer tempo e paciência. As observações deverão ser registradas para posterior sistematização dos dados (os registros devem ser feitos no diário).  

 

Atividade3

Discussão das observações de sala de aula, análise e achados.

Esta atividade é ainda de estudos e cumpre o papel de preparar os alunos para a elaboração do relatório parcial e de todo trabalho nele envolvido. Pode ser realizado em grupos de sistematização.

Dados não falam por si, precisam ser organizados e analisados. Desse trabalho os alunos deverão chegar aos achados. Trata-se de:

Um esforço de abstração ultrapassando os dados, tentando estabelecer conexões e relações que possibilitem a proposição de novas explicações e interpretações. É preciso dar o ‘salto’ como se diz vulgarmente, acrescentar algo ao já conhecido. Esse acréscimo pode significar desde um conjunto de proposições bem concatenadas e relacionadas que configurem uma nova perspectiva teórica até o simples levantamento de novas questões e questionamentos que precisarão ser mais sistematicamente explorados em estudos futuros”. (LÜDKE e ANDRÉ, 1986: 49)

Ao chegarem aos achados, os alunos deverão indicar o tema que norteará a elaboração da proposta de prática pedagógica em geografia.

 

Atividade 4

Elaboração de proposta de prática pedagógica e estudo teórico. Execução da proposta de prática pedagógica e observação

Tendo chegado aos “achados” e à definição do tema da proposta de prática pedagógica, é hora de realizar um levantamento bibliográfico que permita elaborar a proposta e elaborar atividades para a ação em sala de aula.

Esta atividade deverá ser feita em sintonia com o professor de Geografia do ensino fundamental e/ou médio que participa deste projeto.

A execução da proposta será feita pelos alunos do curso de Geografia ou pelo próprio professor da sala. A decisão de quem executará a proposta dependerá de um acerto envolvendo, necessariamente, o professor da sala.

 

Atividade 5

Redação de um texto final

Com a atividade 5 pretende-se preparar os alunos para a produção de um texto final (que terá o formato de um artigo científico para divulgar melhor esse processo vivido).

 

Considerações finais

O estágio de prática de ensino de geografia do ensino fundamental e médio possibilita aos futuros professores de geografia, o envolvimento com as responsabilidades sociais rumo a uma ação autônoma de propostas pedagógicas que colaboram e contextualizam o ensino da geografia no nível fundamental e no médio, ressaltando a visão de professores-pesquisadores.

O contato com a sala de aula do ensino fundamental e médio e os sujeitos que aí se encontram/desencontram para pensar e propor práticas pedagógicas voltadas ao ensino de geografia, resultaram em práticas diferenciadas, mesmo ao lidar com temas tradicionais da geografia como geomorfologia, climatologia,  geografia urbana, geografia econômica, cartografia, entre outros, norteados pelo eixo do estágio “O Ensino de Geografia e o processo de investigação-ação”.

O resultado dos trabalhos pode ser consultado nos três volumes publicados pelo Colegiado de Geografia: “O Ensino de Geografia e o processo de investigação-ação – volumes 1, 2 e 3”, contendo a coletânea dos trabalhos no laboratório de geografia do Centro Universitário Fundação Santo André e em breve poderão ser acessados no novo site do Colegiado de geografia, junto a página principal da Fundação Santo André (http/www.fsa.br)

A concepção principal dessa proposta de “estágio participativo” repousa na construção sólida da formação de um professor de geografia comprometido com as mudanças no mundo da Educação e com a busca da melhoria de sua qualidade.

 

Referências Bibliográficas 

ANCASSUERD, Marli; NAKANO, Marilena; VILLAR & VILLAR, Maria Elena; CAVALEIRO, Maria Cristina; SANTOS, Clézio. Manual de estágio para os 3os.Anos de Pedagogia. Santo André, FAFIL/CUFSA, 2003.

CARLOS, Ana Fani A. (Org.) A geografia na sala de aula. São Paulo, Contexto, 1999.

CASTROGIOVANNI, Antonio C; CALLAI, Helena, C; SCHÄFFER, Neiva O; KAERCHER, Nestor A. Geografia em sala de aula: práticas e reflexões. Porto Alegre, AGB-PA, 1998.

LÜDKE, Menga & ANDRÉ, Marli. Metodologia da Pesquisa em Educação. São Paulo: Cortez, 1986.

PONTUSCHKA, Nídia N. e OLIVEIRA, Ariovaldo U. (Orgs.) Geografia em perspectiva: ensino e pesquisa. São Paulo, Contexto, 2002.

SANTOS, Clézio. A concepção de estágio na formação de professores de geografia do ensino fundamental e médio. Expressão Geográfica, n.7, Santo André, FAFIL/CUFSA, 2006 (12 a 16 p.)

SANTOS, Clézio. Manual da disciplina de Prática de Ensino de Geografia. Santo André, FAFIL/CUFSA, 2004.

 

 

 

Clézio Santos é professor orientador de portfólio e TCC dos Cursos Especiais de Formação de Professores do FAFIL/CUFSA. Bacharel e Licenciado em Geografia USP, membro do Colegiado de Geografia da FAFIL/CUFSA, mestre em Geografia Humana FFLCH/USP, mestre e doutorando em Geociências e Ensino IG/UNICAMP; e autor de inúmeros trabalhos na área de Geografia, Educação e Turismo. clezio@fsa.br

 


O portfólio na formação de professores pesquisadores: a experiência dos cursos de formação especial de professores no ABC paulista
Por Clézio Santos
publicado em 09/10/2006

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