Resumo
Este trabalho apresenta os resultados de dois estudos de validação
perante um dos instrumentos mais utilizados no mundo para mensurar
estilos de aprendizagem. É discutido também os cuidados que devem
ser tomados ao adotar estes diagnósticos para promover
intervenções na sala de aula.
Palavras-chave:
ensino superior, estilos de aprendizagem, metodologias de ensino,
estatística multivariada.
Abstract
This work presents the results of two validation studies for one
of the most widely used instruments to measure learning styles.
Also is discussed the care that must be taken in using these
diagnoses to promote interventions in the classroom.
Key-words:
higher education, learning styles, teaching methodologies,
multivariate statistics.
Introdução
São muitas as teorias propostas acerca de um tema extremamente
complexo: os processos de ensino-aprendizagem. Um ponto consensual
a estas teorias é que cada indivíduo possui um ritmo e forma
característica de aprender, considerando ainda que diversos
fatores como os ambientais, físicos, emocionais, cognitivos e
sociais influenciam esta relação (SENRA, LIMA e DASILVA FWO,
2008).
Existem diversas definições para estilos de aprendizagem na
literatura. Para Sadler-Smith (2001), estilo de aprendizagem é o
modo distintivo e habitual pelo qual o aprendiz adquire
conhecimento. Desta forma os estilos se expressam consistentemente
em diferentes domínios de conteúdo e podem ser observados em
termos de comportamentos típicos e tendências, demonstrando o modo
pelo qual uma pessoa apresenta maior facilidade para aprender. Os
estilos de aprendizagem podem apontar, por exemplo, que alguns
estudantes apresentam facilidade de compreensão a partir de
demonstrações matemáticas, enquanto outros necessitam de
visualizações gráficas para apreender informações tácitas.
Richard Felder, então, incomodado com o alto índice de
repetência e evasão nos cursos superiores iniciou suas
investigações com o objetivo de contribuir para que os educadores
compreendessem melhor as formas de aprendizagem de seus alunos.
Para ele estratégias e metodologias mais adequadas poderiam ser
definidas com o propósito de aumentar a eficácia das aulas e
reduzir a insatisfação dos estudantes. Assim, juntamente com a
psicóloga Linda Silverman, propôs o seu modelo de estilo de
aprendizagem.
O modelo de Felder e Silverman
Felder e Silverman (1988) conceberam suas idéias fundando-se nos
estágios de percepção e processamento da informação, já
apresentados por outros teóricos, de onde propuseram quatro
dimensões:
§
Percepção (descoberta): os estudantes podem ser sensoriais ou
intuitivos;
§
Entrada (aquisição): os estudantes podem ser visuais ou verbais;
§
Processamento (análise): os estudantes podem ser ativos ou
reflexivos;
§
Entendimento (aprendizagem): os estudantes podem ser sequenciais
ou globais.
Algumas características destas dimensões podem ser vistas na
Tabela 1.
Tabela 1 – As características de aprendizagem.
Para mensurar, portanto, a presença destes atributos
Felder e Soloman (1991) desenvolveram um questionário chamado
Índice de Estilos de Aprendizagem (ILS) que visa medir as
características dos alunos conforme três níveis de preferência:
leve, moderado ou forte. Este questionário que recebe, segundo
Felder, aproximadamente um milhão de acessos por ano pode ser
respondido gratuitamente em sua homepage
http://www.engr.ncsu.edu/learningstyles/ilsweb.html ou na sua
versão em português disponibilizada no seguinte endereço
http://www.prod.eesc.usp.br/aprende/empresarial2.
Entretanto, diversos autores (LIVERSAY, DEE, NAUMAN e
HITES, 2003; SEERY, GAUGHRAN, WALDMANN, 2003; ZYWNO, 2003;
ZWANENBERG, WILKINSON e ANDERSON, 2000) demonstraram que o ILS
apresentava problemas quanto a sua validade e confiabilidade. Para
demonstrar a validade de um construto duas técnicas são
utilizadas: a análise de consistência interna, para calcular a
correlação entre cada item e os demais itens do instrumento;
e análise fatorial, para identificar as variáveis responsáveis
pelas intercorrelações (covariâncias) em um mesmo grupo de itens.
Todavia Felder e Spurlin (2005) realizaram novas
considerações, que podem ser vistas
em Vieira Junior
et al. (2010), e concluíram que o questionário, na sua
versão original para nativos da língua inglesa, poderia ser
considerado válido e confiável. O problema, então, está na versão
em português do instrumento.
Estudos de validação no Brasil
No Brasil apenas dois estudos de validação foram encontrados:
Machado et al. (2001) e Lopes (2002). Em ambos a eficácia
do questionário foi dada como comprometida.
Através de recursos estatísticos de análise descritiva, análise
inferencial e análise fatorial, Lopes (2002) assume que a versão
em português do instrumento não cumpre satisfatoriamente o
objetivo para o qual se propõe. Machado et al. (2001)
utilizando também técnicas estatísticas de análise exploratória,
via SPSS,
concluíram que o instrumento não pode ser considerado validado e
que a estrutura fatorial encontrada não corresponde à estrutura
fatorial proposta pelos criadores do mesmo.
Em outros termos a análise fatorial identifica a quantidade de
fatores (dimensões) existentes. A carga fatorial (saturação) de um
item, que também é um índice de correlação, mostra quanto por
cento de parentesco (covariância) existe entre o item e o fator.
Adota-se o valor de |0,3| como a carga fatorial mínima para que um
item represente um fator (LOPES, 2002). Idealmente, os resultados
deveriam confirmar a distribuição de itens realizada no
questionário original, que pode ser vista na Tabela 2.
Tabela 2
– Distribuição de questões por dimensão segundo o instrumento
original.
|
Ati/Ref |
Sen/Int |
Vis/Verb |
Seq/Glob |
|
1 |
2 |
3 |
4 |
|
5 |
6 |
7 |
8 |
|
9 |
10 |
11 |
12 |
|
13 |
14 |
15 |
16 |
|
17 |
18 |
19 |
20 |
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21 |
22 |
23 |
24 |
|
25 |
26 |
27 |
28 |
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29 |
30 |
31 |
32 |
|
33 |
34 |
35 |
36 |
|
37 |
38 |
39 |
40 |
|
41 |
42 |
43 |
44 |
Entretanto, os resultados obtidos por Lopes (2002) e Machado et
al. (2001), ou seja, quantos itens com nível de saturação
acima de 0,3 foram identificados para cada dimensão, são vistos
nas Tabelas 3 e 4.
Tabela 3 – Distribuição de questões por segundo Lopes (2002).
|
Ati/Ref |
Sen/Int |
Vis/Verb |
Seq/Glob |
|
2* |
1 |
7* |
12* |
|
9* |
6* |
11* |
20* |
|
13* |
14* |
15* |
22 |
|
33* |
17* |
19* |
25 |
|
37* |
18* |
23* |
32* |
|
|
25 |
29 |
36* |
|
|
35 |
31* |
42 |
|
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38* |
|
|
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|
39 |
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|
|
*
Presentes na distribuição original |
Tabela 4
– Distribuição de questões por dimensão segundo Machado et al.
(2001).
|
Ati/Ref |
Sen/Int |
Vis/Verb |
Seq/Glob |
|
5* |
1 |
2 |
32* |
|
9* |
6* |
7* |
|
|
13* |
10* |
11* |
|
|
37* |
14* |
15* |
|
|
|
18* |
20 |
|
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29 |
22 |
|
|
|
30* |
23* |
|
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|
35 |
24 |
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|
38* |
25 |
|
|
|
39 |
27* |
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|
|
31* |
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|
|
|
36 |
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40 |
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|
*
Presentes na distribuição original |
Análise dos resultados
Mesmo que o ILS seja válido em um determinado grupo de sujeitos
para o contexto em que foi criado, ao se mudar as características
culturais sua validade pode ser comprometida (ANASTASI e URBINA,
2000; LOPES, 2002). Os próprios Felder e Spurlin (2005) lembram
que embora o instrumento no seu idioma original possa ser
considerado confiável, válido e adequado,
em geral as traduções não passam por processos extensos de
validação e os resultados até agora apresentados para não nativos
(do idioma inglês) não podem sozinhos afirmar ou negar a validade
do ILS.
A amostra utilizada por Machado et al. (2001) foi composta
por 224 funcionários de uma instituição financeira. Lopes (2002)
coletou amostras de alunos universitários de diferentes áreas,
sendo 235 das ciências humanas e 214 das ciências exatas,
totalizando 449. Segundo Lopes (2002), “ao se utilizar um
instrumento de investigação de características individuais em um
contexto diferente do que foi elaborado, ele precisa ser adaptado
e validado a esta nova realidade”. Os diferentes contextos para os
quais os testes se realizaram justificam os diferentes itens
eliminados em cada estudo. Todavia algumas conclusões podem ser
realizadas com base nestes dados.
Conclusões
Embora os estudos tenham sido realizados em diferentes
contextos (trabalhadores e estudantes) chama a atenção o fato de
que em nenhum dos grupos houve indícios positivos em relação a
utilização deste instrumento. Entretanto, ele continua sendo
largamente utilizado por pesquisadores nacionais (COCCO, 2004;
OTTO, 2007; FIGUEIREDO, NORONHA e OLIVEIRA NETO, 2008; CATHOLICO e
OLIVEIRA NETO, 2008; VIEIRA JUNIOR, SILVA e VIEIRA, 2009; e muitos
outros).
Ressalta-se, portanto, que sua utilização no provimento de
diagnósticos pode acarretar em intervenções educacionais
inadequadas.
Admite-se a eficácia da teoria de Felder e Silverman (1988), assim
como da versão original (para nativos) do ILS desenvolvida por
Felder e Soloman (1991). Afirma-se também que conhecer os estilos
de aprendizagem dos estudantes é de extrema importância para a
definição de estratégias e metodológicas de ensino, todavia,
sugere-se que os pesquisadores nacionais tenham consciência das
limitações destes instrumentos, os quais ainda estão em processo
de melhoria e validação perante o contexto nacional. Assim, os
estilos de aprendizagem podem e devem ser considerados na sala de
aula o difícil, por enquanto, é mensurá-los com precisão.
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