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INTRODUÇÃO
A morte é
mais do que um fim inevitável, porque integra uma parte da existência do
homem. Pode apresentar-se em todas as discussões no âmbito filosófico,
religioso, antropológico, sociológico, médico e educacional, obtendo
interpretações distintas. Porém, de modo geral, a morte, admitida como
única certeza que temos na vida, é sentida como um acontecimento triste,
que representa a finalização de um ciclo, e continua sendo tabu em nossa
sociedade. Certas normas sociais exigem que ela seja assunto ausente das
conversas educadas (MELO, 2000). Isto é o que parece estar
acontecendo no cotidiano escolar. Não só nas escolas de Educação
Infantil e Básica, mas também naquelas de Educação Superior. Falar a
palavra morte, causa certo pavor, até mesmo em indivíduos com formação
em nível de pós-graduação, inclusive professores atuantes em cursos de
graduação, mestrado e doutorado, que afirmam não se encontrar preparados
para discutirem tal temática. Então, se o professor de uma instituição
educacional, formadora de profissionais para atuarem nas mais diversas
áreas do conhecimento, não se acha preparado para tal discussão,
questionamos: como seria a formação de pessoas para lidar com a morte ao
longo da sua vida pessoal, acadêmica e profissional?
A presença dessa
lacuna parece revelar o pouco interesse em se estudar o tema nas
variadas áreas do conhecimento, ou em abordá-lo no meio escolar, em
comparação ao interesse demonstrado por outros fenômenos sociais e
culturais. Em conseqüência disso, estudos sobre morte como objeto de
conhecimento escolar se mostram recentes nas sociedades ocidentais.
Kovács (2003b, p.44), uma importante referência para esses estudos,
assume:
Em pesquisa bibliográfica praticamente não encontrei
referências sobre a questão da morte associada ao contexto educacional e
à formação de educadores; por outro lado, em minha experiência
profissional, encontro sempre à denúncia dessa lacuna por parte de
professores – ausências mais intrigantes por sabermos todos o quanto a
morte está presente no universo escolar, pelas perdas que acontecem na
vida de crianças e adolescentes e pela via da morte escancarada, com
violência, repentina, brusca e para qual é muito difícil se encontrar
proteção.
Um fato concernente
que ilustra o pensamento da autora acima é o artigo “Como lidar com a
morte”, publicado, na coluna SOS sala de aula, da Revista Nova Escola,
número 163, no bimestre junho/julho de 2003. Nesse texto, uma professora
solicitava ajuda, pois, diante da realidade da morte, não sabia como se
portar em sua classe, tanto com um aluno que acabava de perder o pai
como com o restante da turma (SILVA, 2003). É certo que tal atitude da
professora pode refletir a falta ou parcimônia de orientação presente na
escola, confirmando “a denúncia da lacuna” sinalizada por Kovács
(2003b). Porém, se há um documento oficial – os Parâmetros Curriculares
Nacionais concernentes a níveis diferenciados de ensino – que dá suporte
e norteia as instituições educacionais brasileiras nas variadas
instâncias da atividade pedagógica, por que ainda existe esse problema?
Nesse sentido, foram
propostas como questões para a minha investigação: os Parâmetros
Curriculares Nacionais abordam essa temática? Como? Que subsídios
teórico-metodológicos os docentes podem encontrar nesse documento
oficial cujo objetivo é auxiliar as práticas curriculares e
didático-pedagógicas exercidas nos estabelecimentos educacionais do
país? Como professoras licenciadas em Pedagogia e habilitadas para
atuarem na Educação Infantil e nas séries iniciais da Educação Básica,
trabalham com o conceito de morte na sala de aula? Como se comportam
quando a morte, direta ou indiretamente, se faz presente no seu
cotidiano profissional? Como enfrentam a perda por morte de um aluno
durante o ano letivo? E, se nunca vivenciaram essa experiência, como
pensam que agiriam frente ao falecimento de um aluno? Como lidam com o
educando que, há pouco, sofreu a perda de um ente querido? Por
conseguinte, registro o meu interesse em entender como a morte está/é
inserida nas práticas curriculares e didático-pedagógicas; apontar a
abordagem dos Parâmetros Curriculares Nacionais em torno do tema da
morte; compreender as percepções de professoras licenciadas em
Pedagogia, a respeito dessa temática.
Esses
questionamentos me conduzem a buscar respostas na análise dos dados
coletados através da aplicação de questionário com quatro professoras
que atuam nas séries iniciais do Ensino Fundamental, no turno matutino,
numa escola pública da rede estadual de ensino, situada num bairro da
Zona Sul do município de Natal, no Estado do Rio Grande do Norte. Esse
instrumento, de coleta de dados tenta perceber, principalmente, como
quatro professoras – cada uma delas leciona em uma das séries iniciais
da Educação Básica -concebem o fenômeno da morte e como o tratam junto
aos alunos. Além do questionário como instrumental aplicado, uma análise
foi realizada no texto dos Parâmetros Curriculares Nacionais, na
tentativa de encontrar trechos que abordassem o tema da morte, bem como
possíveis orientações didático-pedagógicas aos docentes brasileiros,
sobre o assunto em âmbito escolar, em especial na sala de aula.
Portanto,
este estudo foi desenvolvido com o intuito de realizar um trabalho
monográfico, visando atender os requisitos legais da Academia para
obtenção do grau de licenciado (a) em Pedagogia e teve como relevância
abordar a morte enquanto objeto de conhecimento escolar.
Apontamentos teóricos.
Este trabalho buscou
fundamentação teórica nos trabalho de alguns estudiosos e em suas
contribuições a respeito da temática da morte. Ariès (1977; 1981),
referência obrigatória para quem se debruça sobre a morte propriamente
dita e aspectos que a rodeiam; esse pesquisador enfatiza a compreensão
da morte e dos rituais fúnebres realizados em sociedades cristãs
ocidentais, desde a Idade Média até o século XX, e, assim, historiciza o
ato de morrer, suscitando as diferentes percepções desse fato no
decorrer de diferentes épocas. Depois, cito pesquisadores que buscaram
fundamentação em Ariès, mas que orientam o seu trabalho para determinado
campo. Kübler-Ross (2000; 2003b), propõe uma rehumanização da morte.
Torres (1999), investiga o conceito de morte junto a crianças,
efetivando um levantamento bibliográfico a esse respeito. Kovács (2003a;
2003b), investe numa teorização que aspira a uma educação para a morte,
através da formação profissional, em especial, de trabalhadores da saúde
e da educação. Bromberg (1996), estuda o luto por pequenas e grandes
perdas, incluindo as fúnebres. Numa perspectiva antropológica, Melo
(2000), uma das primeiras estudiosas a expressar o seu interesse pelo
tema em questão no Rio Grande do Norte, inicialmente investigando ritos
e rituais fúnebres na cidade de Natal (RN).
Os Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCN), são documentos elaborados ao longo de
vários anos de estudos e debates sobre as necessidades de uma escola que
possibilite ao educando uma formação que enquadre as principais áreas de
conhecimento e sua relação com o mundo natural. Os PCN não vieram para
servir como modelo, como uma cartilha pronta e acabada, mas como
referenciais nacionais, por mais que se estejam presentes às
diversidades regionais e culturais. Devem servir como instrumento de
apoio ao professor, auxiliando na execução do trabalho escolar.
Os dez volumes dos PCN
estão organizados da seguinte forma: Introdução e as áreas do
conhecimento, como: Língua Portuguesa; Matemática; Ciências Naturais;
História e Geografia; Arte; Educação Física; Temas Transversais e Ética;
Meio Ambiente e Saúde; Pluralidade Cultural e Orientação Sexual. Nesta
parte, é apresentada uma análise do texto dos PCN, a fim de perceber e
registrar como a temática da morte – em especial, a do ser humano – está
inserida nesse documento do Ministério da Educação (MEC), embora não
serão apresentados todos os dez, apenas quatro – aqueles em que
consideramos que a temática da morte esteja mais explicitada, a saber, o
de Ciências Naturais, História e Geografia, Apresentação dos Temas
Transversais e Ética, Meio Ambiente e Saúde.
Resultados
.O resultado
obtido com as respostas dos sujeitos da pesquisa aponta para uma negação
do tema da morte na sala de aula. A professora MPPS, ao afirmar veemente
que não trabalha com esse tema e que não houve necessidade,
mascara o seu possível despreparo e insegurança frente ao assunto,
elegendo a pouca idade dos seus alunos como fator primordial de
impedimento. A professora NBSS, desconhece os recursos
didático-pedagógicos que dão suporte ao professor das séries iniciais do
Ensino Fundamental na abordagem do tema da morte. GIQS aponta que o
professor não encontra recursos com facilidade para trabalhar com essa
temática, pois ela considera um assunto que o professor não encontra
[recursos didáticos] com facilidade para trabalhar. Parece
demonstrar que a dificuldade não está em encontrá-los, mas em saber
quais são eles e como utilizá-los.
Assim,
diante da análise das respostas das professoras entrevistadas, observo
que essas educadoras reconhecem que existe uma lacuna em sua formação
profissional de como lidar com a morte na sala de aula. Manifestam
dificuldades em discutir e abordar essa temática com os seus alunos em
sua prática docente (cf. OYAMA, 1999). Em oposição à declaração delas
quanto à escassez de material didático-pedagógico, Kovács (2003b, p.57),
afirma que ”há uma vasta literatura infantil que aborda o tema,
inclusive no Brasil, que traz, na forma de histórias, os principais
medos das crianças, como se pode observar em várias obras de Rubem
Alves”. Além disso, ela
realça o “Falando de Morte”, um projeto direcionado a diversos segmentos
sociais e faixas etárias, que tem como objetivo principal sensibilizar a
comunicação sobre o tema da morte e que foi criado pelo Laboratório de
Estudos sobre a Morte (LEM), instituição que fornece assessorias,
gravações e publicações nessa área.
Considerações finais
É possível
uma educação para a morte? Essa pergunta consiste num desafio para
aqueles que a têm como objeto de investigação teórica e empírica e que
investem numa sensibilização sobre o tema da morte. Sabe-se da
necessidade de desenvolver conhecimentos, questionamentos e reflexões
que preparem o homem para enfrentar a sua finitude e a do outro,
enquanto ser vivo e mortal. Quando ele se interroga acerca da morte, faz
um fascinante exercício de compreensão da própria natureza humana.
Comenius (1971), em sua obra intitulada “Didática Magna”, publicada em
1649, já apontava a necessidade de uma educação para a morte. Ao olha-la,
o homem vê a si mesmo em sua essência, e totalidade, deparando-se com os
limites de sua espécie, com o desconhecimento da única certeza da
condição de estar vivo. A cada dia, essa lacuna se torna um desafio mais
urgente na formação pessoal e profissional do ser, no lidar com a morte,
principalmente quando pesquisas como esta apontam necessidades,
desinteresses, dificuldades, desconhecimentos por partes de professoras
de séries iniciais do Ensino Fundamental, em relação à morte enquanto
objeto de conhecimento escolar.
Kovács
(2003a; 2003b), defende a possibilidade de uma educação para a morte,
mesmo afirmando que seja uma tarefa bastante desafiadora, mas necessária
aos profissionais da saúde e da educação, ao lidar com seus pacientes e
alunos, respectivamente. No entanto, essa autora salienta que essa
educação não traria fórmulas prontas ou de doutrinação para lidar com a
morte. Seria uma educação voltada para o desenvolvimento pessoal, para o
aperfeiçoamento e o cultivo do ser, de forma mais integral no meio
social no qual ele se encontre inserido. Para Kovács (2003a; 2003b), o
espaço ideal onde o homem receberia essa educação seria a escola formal,
pois é nela que ele passa em “média 20 anos”, recebendo os ensinamentos
de como conviver em sociedade e, concomitantemente, apreendendo
informações que o educassem para o fim de sua existência material.
A percepção
que o profissional da educação tem da morte vai fundamentá-lo na
compreensão dos ritos, rituais e enfrentamento perante esta realidade em
sua prática cotidiana. Cada cultura tem sua forma própria de lidar com
este tema. A cultura ocidental que se volta mais para a morte do que
para a vida vive buscando uma forma de negar a existência da finitude
biológica do homem, desenvolvendo tecnologia, cada dia mais avançada,
com o intuito de precisar diagnóstico, combater doenças e,
principalmente, prolongar o tempo de vida do ser humano.
Todos esses
artifícios para manter vivo alguém fazem com que o homem ocidental
esqueça de educar-se e de educar o outro sobre a morte, com o propósito
de as pessoas sensibilizarem-se para lidar com as suas limitações
humanas. Enquanto instituição formadora, a escola deixa de auxiliar o
aluno para que ele compreenda a sua condição humana, a sua finitude como
ser biológico, na tentativa de uma conscientização da sua permanência
temporária entre os vivos. A morte, cedo ou tarde, chega para qualquer
vivente e, devido a isso, a necessidade de educar para lidar tanto com
esta certeza quanto com a certeza da morte do outro, quando
inevitavelmente a hora chegar.
Desde os
primórdios, a humanidade vem se preocupando com a morte, fazendo o homem
refletir sobre quem é, de onde veio e para onde irá. Essas incertezas
servem de inquietações que afligem o ser humano, único animal que tem a
consciência de que vai morrer um dia. Essa angústia que atravessa
séculos o faz chegar ao século XXI, sem conseguir desvendar a incógnita
da morte. Durante a toda existência da humanidade, essa incógnita se
perpetua como de difícil solução, cada dia mais cheia de incertezas e
carregada de significados. Portanto, esta pesquisa se configura na
continuidade de uma trajetória pessoal de estudos sobre a morte buscando
refletir ou levar o outro – o profissional da educação – a refletir
sobre a morte, contribuindo para transformá-la de tabu a objeto de
conhecimento escolar.
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