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Para
início de conversa
As referências neste trabalho
permitem uma leitura do panorama social de confortar o descaso com a
sociedade e permite refletir nossa sociedade “ansiada”, que deseja e não
pode. Ao mesmo tempo é um olhar para si, ou seja, enxergar-me nesta
sociedade. Uma sociedade que de acordo com a modernidade (pensamento
iluminista) deveria promover a liberdade acaba causando mal estar no
indivíduo; mal estar resultado da invenção do capital que nos faz
sentir-se preso a ele e dele subordinado.
KUPFER (2007) classifica nosso
tempo como um tempo em que se enaltece o registro do imaginário e
ausência de um “Outro” maior. Dessa forma, a falta de uma rede de
sustentação com as tradições e significações capazes de orientar as
ressignificações do futuro, estamos jogados em um mundo fragmentado a
mercê do capitalismo. Neste mundo as imagens fragmentadas também são
desarticuladas e carregadas de sentidos paradoxais, não se articulam com
outras na fragmentação de sentidos que lhes são superiores.
GURGEL (2003) amplia o campo
da analise da consciência e afirma que a consciência não se dá meramente
pela herança psíquica, mas acontece na evolução do processo histórico,
ou seja, na mediação da vida material e das transformações ideológicas
nela imbricadas.
A partir deste contexto é
pertinente observar o comportamento de diferentes sujeitos e seus
desdobramentos dos diferentes tempos e espaços que ocupa. A psicanálise
e a educação apresentam uma possibilidade de leitura do cotidiano
escolar que não se distancia da esfera cosmológica do sujeito que
interage com diferentes lugares do aprender. Desse modo, é possível
significar a subjetivação dos sujeitos aproximando o conceito de
imaginário, inconsciente apresentado por Freud no início do século XX.
Em busca dos fantasmas
As situações cotidianas são o
principal instrumento para elaboração de um diagnostico e espaço
privilegiado para os sintomas do inconsciente se revelarem. A tensão
entre ensinante e aprendente, a difícil aceitação da ordem e da Lei, os
fantasmas manifestados através das brincadeiras infantis e mesmo das
neuroses que habitam o limite entre a consciência e o inconsciente dos
sujeitos são exemplos que permitem além de uma leitura Psicanalítica um
percurso para o recalque, ou melhor, o reenquadramento.
O sujeito neste artigo refere
ao Ser Humano, submetido às leis da linguagem que o constituem, e que se
manifesta de forma privilegiada nas formações do inconsciente. Este
sujeito é também um sujeito desejante que Freud descobriu no
inconsciente. O sujeito do desejo é uma imersão do filho do homem na
linguagem.
Freud desejava criar sua
própria independência, mas percebeu que algo lhe impedia, algo de
natureza inconsciente; para remover esse impedimento era preciso uma
análise. Uma figura de autoridade ausente, mas investida de autoridade e
confiança estava aí instituído o inconsciente; que quando encontra o
conflito interno consegue ser solucionado produz a capacidade de
autoria, ou permite a manifestação dos recalques através do próprio
inconsciente com o sintoma do ato falho.
Freud acreditava numa divisão
da consciência, dizia que a idéia traumática é expulsa da consciência,
mas se mantém registrada de algum modo no psiquismo, no espaço do não
consciente e por isso pode ser resgatado através de tratamento. E
assegurava que em todos nós deveria acontecer o recalque e que este
garantiria uma construção sadia que equilibraria as tensões e pulsões
entre Ego e Superego.
O inconsciente é como um
instrumento composto de sistemas, ou instâncias interdependentes. O
sistema encarregado da crítica, tela entre a instância criticada e a
consciência, está situada na extremidade motora e se chama
pré-consciente, seguido do inconsciente e que para acender a
consciência, necessariamente precisaria passar pela clivagem do
pré-consciente, podendo ficar no inconsciente, caso seja censurada.
A pulsão apresenta-se ao
indivíduo através de uma representação de múltiplas pulsões que são
imagens que chegam até o sujeito para informá-lo de que se passa em seu
corpo. Portanto, o educador deve promover a sublimação, mas sublimação
não se promove por ser inconsciente. Deve-se ilustrar, esclarecer as
crianças a respeito dos seus fantasmas, aproveitando-se da manifestação
do inconsciente. Assim, só podem ser chamadas de inconsciente as
representações.
Uma pulsão, que nunca é objeto
de consciência, só poderá ser representada, nos sistema inconsciente e
pré-consciente, por uma representação. O núcleo do inconsciente é
constituído por representantes da pulsão que querem descarregar seu
investimento, por moções de desejo; desejos inconscientes.
As idéias de que existem
idéias inconscientes não é uma invenção freudiana. Mas a formulação de
um sistema chamado inconsciente é freudiana. Para ele a divisão da
consciência era fruto do conflito de forças psíquicas encontradas no
interior do psiquismo. O resultado de uma luta entre o eu e
impulsos de natureza inconsciente. O modo como se resolvia o conflito,
uma espécie de assinatura de um tratado de paz, era entre outras
manifestações, o sintoma neurótico. Aceito que você se manifeste poderia
o eu dizer a alguma pulsão, contanto que você se disfarce.
Logo, quando um aluno
manifesta o medo de brincar durante o recreio, porque um colega (Outro)
manifestou que lhe machucaria, pode ser um disfarce para algo mais
complexo, como o medo que o mesmo possuí da vida, do lugar em que vive,
da família...
Para Freud os fantasmas
representam um argumento para o imaginário, ou melhor, o inconsciente,
implicado de vários personagens, que a partir de um desejo, de forma
disfarçada se manifestem. O fantasma é o efeito do desejo arcaico
inconsciente e também matriz dos desejos atuais, conscientes ou não.
Foi através do estudo dos
sintomas que Freud pode entender melhor o que era esse inconsciente,
manifestado através de sintomas. Os sintomas, por serem uma formação do
inconsciente utilizam os atos falhos e os sonhos. Os atos falhos são
pequenas manifestações que emergem em nossa fala, as quais não se
costumam dar muita importância. Através deles um homem pode revelar seus
mais íntimos segredos. Se eles aparecem com facilidade e freqüência é
porque os indivíduos conseguiram realizar com êxito a repressão de suas
tendências inconsciente com que surgem. O eu os deixa passar,
pois sabe que a essa ocorrência não é dada muita importância.
Os lapsos, os sonhos e os
sintomas são momentos privilegiados de emergência do inconsciente e
através deles que Freud deduziu sua existência. A exemplo interpretar,
um lapso, é perceber que o inconsciente está não apenas no lapso, mas
também entremeando nossa linguagem. “Todo indivíduo que abre a boca
está, por assim dizer, comprometido com o que diz, num limite que
ultrapassa a sua consciência” (KUPFER,2001: 52) dessa forma, a
consciência não é o primordial do psiquismo, não reina unicamente sobre
nossa vontade.
A Psicanálise não trata das
emoções isoladamente, ela analisa o quanto este emocional e afetivo
estão interferindo no cognitivo, portanto como afirma Freud as emoções
não sofrem ação do recalque e não se tornam inconscientes. Os registros
do inconsciente são experiências, imagens, representações, que uma vez
tornadas inconscientes, podem insistir em retornar, e o fazem sob a
forma de sonhos, de atos falhos ou de outras formações inconscientes.
A realidade do inconsciente
ensina, que a palavra escapa ao falante, ao falar um educador estará
também fadado a se perder, a revelar-se a ir à direção contrária aquela
que seu eu havia determinado. A palavra com a qual esperava submeter
acaba, na verdade por submetê-lo a realidade de seu próprio desejo
inconsciente. A palavra é ao mesmo tempo lugar de poder e submissão para
a psicanálise, força e fraqueza, paradoxal.
A criança freudiana é um
sujeito que está sujeito a um inconsciente, não pode ser pensada como
alguém cuja construção se inicia com o nascimento, sua história começa
com seus avós e na subjetivação que estes darão no processo de sujeição
de sua constituição. Como sua família vai criando e constituindo seus
hábitos é como vai estruturando sua relação com o corpo e desejo. O que
ocorre com um sujeito tomado por fantasmas, ele é significado pelo corpo
em vários níveis, mostrando que o inconsciente não apenas fala ao corpo,
paralisa-o, anestesia-o, joga com as representações mediante as quais o
corpo pode inscrever-se e deixar se sugestionar por ele.
Melanie Klein dedicou-se ao
estudo das fantasias infantis e descobriu a importância de dar tempo
para que as elaborações necessárias a um enquadramento resultariam na
constituição de crianças mais felizes. Além disso, ela apontou a
necessidade de se encarar as manifestações de fantasia como algo
inerente à constituição dessas crianças, e até mesmo indispensável a
elas.
“Conhecer a impossibilidade de
controlar o inconsciente pode levar a uma posição ética de grande valor,
pois nos coloca diante de nossos verdadeiros limites, e nos reduz à
nossa impotência. Por outro lado, também pode ser um saber paralisante”.
(KUPFER,2001: 75).
Freud percebeu que poderia
através do inconsciente de seus pacientes remodelar experiências e
lembranças e amenizar o sofrimento que comprometia o paciente. Através
das relações que unem fantasma e desejo, existe fantasia consciente,
pré-consciente e inconsciente. Mas, alguns fantasmas preferem habitar o
inconsciente e apenas se tornam acessíveis aos sujeitos com tratamento.
Outros permanecem para sempre sob o domínio do recalcamento original e
não podem ser reconstruídos. Reconhecer o inconsciente é afirmar o poder
da consciência e da razão. Freud afirma que se o fantasma representa o
desejo inconsciente do sujeito, o próprio sujeito pode ser representado
no fantasma.
O inconsciente e a
psicopedagogia
Na realização do diagnóstico
“(...) relações que se estabelecem entre uma estrutura de caráter
claramente genético que vai se autoconstruindo, e uma arquitetura
desejante, que ainda que não seja genética, vai entrelaçando um ser
humano que tem uma história” (FERNANDEZ, 1991:67) .
A psicopedagogia utiliza a
psicanálise como uma área de conhecimento transdisciplinar, concorda que
a primeira pessoa que exerce a ensinagem, que transmite um conhecimento
para alguém, é aquela que cuida do bebê e que com ele primeiro se
relaciona. Esta pessoa pode ser a própria mãe ou alguém que exerça a
função materna. Este primeiro vínculo responsável pela construção do
espaço transicional possibilitará a ação de aprender, esta relação é
intersubjetiva e quando bem elaborada possibilita o sujeito ingressar o
contato com a cultura de maneira prazerosa.
Tanto o consciente como o
insciente tem lugar na linguagem e essa por sua vez determina as
operações cognitivas. Ambos influenciam a construção que o sujeito vai
conseguir fazer, os limites e obstáculos que vai criar e conseguir
ultrapassar. Desenvolvendo igualmente um comportamento autônomo e
responsável frente sua aprendizagem.
Para Cornelius Castoriadis
apud FERNANDEZ (2001) a autonomia no plano individual consiste no
estabelecimento de uma nova relação entre si mesmo e o próprio
inconsciente, estabelecendo com este uma relação harmoniosa e
transparente. “(...) fenômenos tais como (...) neurose de angústia
(...), entendemos como (...): formas de não pensamento que emergem em um
sujeito que não tem ainda os elementos necessários para realizá-lo...”
(FERNANDEZ , 2001: 118).
O corpo biológico, herdeiro da
herança genética, não é puro real. É da mediação com o Outro que esse
corpo vai sendo libidinizado, deixando de ser um corpo da necessidade
para ser um corpo pulsional. A criança, então, vai constituindo seu
corpo numa rede tramada com o imaginário e o simbólico, principalmente a
partir do olhar materno. Dessa forma o organismo influi na construção do
aparelho psíquico e na constituição do sujeito.
Para Freud a pulsão é um dos
conceitos mais importantes da psicanálise e que se caracteriza como
representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo
e alcançam a mente, estando situado numa fronteira entre o mental e o
somático. Funcionam como uma medida de exigência feita à mente no
sentido de trabalhar em conseqüência de sua ligação com o corpo, agindo
como uma força constante.
O pré-consciente tem uma
função construtiva e é um tipo de processamento requerido para que um
conceito adquirido recentemente possa continuar trabalhando. Freud
considera que entre a exigência instintiva e o ato destinado a
satisfazê-lo interpõe-se uma atividade intelectiva baseada no presente e
utilizando vivencias anteriores, busca prever as conseqüências dos atos.
O pré-consciente tem a chave o que poderá se transformar ou não em
pensamento.
FERNANDEZ (2001), apresenta o
sintoma da inibição cognitiva que se manifesta a partir do mecanismo de
evitação, quando o sujeito evita contato com o conhecimento. Neste
sentido, a repressão é exitosa.
A psicopedagogia acredita que
para aprender a pensar necessita-se de um outro que é, ao mesmo tempo,
semelhante e diferente, e que irá dar a possibilidade ao indivíduo de
tornar-se sujeito, é indispensável a presença do outro, mesmo que de
forma inconsciente para que alcance tal condição. Da mesma forma, é
preciso que o outro reconheça o processo de pensar desse sujeito, que
lhe autorize a pensar diferente dos outros. Quando houve equilíbrio
entre a sua posição frente o Outro e o Outro poderá constituir uma
modalidade sadia de aprendizagem. Como a aprendizagem passe pelo corpo
seu comportamento social frente à agressividade, violência, fantasmas e
de todas as outras vivências de sua vida, estará sendo reordenado e
possibilitará construir uma forma particular de aprender.
A presença do Outro é
indispensável na constituição do sujeito e também porque se vincula com
o desejo. A dimensão do desejo contribuirá para que a criança, cativa de
um organismo, submetido à ordem da necessidade, do desejo consiga
construir a inscrição de uma relação com o Outro através do simbolismo.
A criança vai inscrevendo seu
saber até a adolescência, mas é como se certas inscrições estivessem
escritas em um tipo de escritura que ela ainda não conhece, o
inconsciente. Por isso que a percepção do adulto que é responsável pelas
inscrições que serão construídas precisa ter sensibilidade para
interpretar os sintomas que se manifestam e não comprometer essa
construção. Se por exemplo, o adulto manifestar apavoramento, ou
insegurança frente a um questionamento, este pode acabar alimentando os
fantasmas que poderão ou não vir a manifestar-se noutra oportunidade,
causando uma inibição, e principalmente comprometendo sua curiosidade
futura!
Acredito que é o momento de
descobrirmos o encantamento da Escola. Será que paramos para pensar a
nossa Escola? E que Escola queremos para nossos alunos? Questiono-me se
ainda não estamos presos no passado, utilizando altas tecnologias que o
futuro criou adaptadas em espaços tradicionais de aprendizagem. Que
escola imagina nosso aluno? Será que estamos projetando nossos
imaginários nesta escola?
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BLEICHMAR, Hugo. Angústia e
fantasma: matrizes inconsciente no além do princípio do prazer.
Porto Alegre: Artes Médicas, 1988;
CHEMAMA, Roland. Dicionário
de psicanálise. Porto Alegre: Artes médicas Sul, 1995;
FREIRE, Paulo. Pedagogia da
Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e
Terra, 1996;
FERNANDEZ, ALÍCIA. A
Inteligência Aprisionada: abordagem psicopedagógica clínica da
criança e sua família. Porto Alegre, RS: Arte média, 1991;
____________________. Os
idiomas do Aprendente: análise de modalidades ensinantes em
famílias, escolas e meios de comunicação. Porto Alegre, RS: Arte média,
2001;
GURGEL, Cláudio. A Gerência
do Pensamento: Gestão Contemporânea e Consciência Neoliberal.
São Paulo: Cortez, 2003;
KUPFER, Maria Cristina
Machado. Freud e a educação: o mestre do impossível. São Paulo:
Scipione, 2001;
_________________________.
Educação para o futuro: psicanálise e educação.São Paulo: Escuta,
2007, 3ª ed.
WOLFFENBÜTTEL , Patrícia Pinto
(org.). Psicopedagogia teoria e prática em discussão. Novo
Hamburgo: Feevale, 2005.
________________
* Professor da Rede
Municipal de Novo Hamburgo – EMEF Francisco X. Kunst. Graduado em
História, Especialista em Gestão da Educação, Pós-Graduado em
Psicopedagogia: Clínica e Institucional, acadêmico de Geografia REGESD/UCS.
(e-mail:
profedimar@gmail.com).
Autor do livro: “O Pastor Klingelhoeffer e a Revolução Farroupilha”.
Editora Oikos, São Leopoldo-RS, 2009.
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