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ISSN 1678-8419         última atualização em: quinta-feira, 06 de setembro de 2012 20:45:43                                               

 
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EDUCAÇÃO

A função inconsciente nas relações sociais da escola

José Edimar de Souza*

publicado em 03/05/2010


 

Para início de conversa

As referências neste trabalho permitem uma leitura do panorama social de confortar o descaso com a sociedade e permite refletir nossa sociedade “ansiada”, que deseja e não pode. Ao mesmo tempo é um olhar para si, ou seja, enxergar-me nesta sociedade. Uma sociedade que de acordo com a modernidade (pensamento iluminista) deveria promover a liberdade acaba causando mal estar no indivíduo; mal estar resultado da invenção do capital que nos faz sentir-se preso a ele e dele subordinado.

KUPFER (2007) classifica nosso tempo como um tempo em que se enaltece o registro do imaginário e ausência de um “Outro” maior. Dessa forma, a falta de uma rede de sustentação com as tradições e significações capazes de orientar as ressignificações do futuro, estamos jogados em um mundo fragmentado a mercê do capitalismo. Neste mundo as imagens fragmentadas também são desarticuladas e carregadas de sentidos paradoxais, não se articulam com outras na fragmentação de sentidos que lhes são superiores.

GURGEL (2003) amplia o campo da analise da consciência e afirma que a consciência não se dá meramente pela herança psíquica, mas acontece na evolução do processo histórico, ou seja, na mediação da vida material e das transformações ideológicas nela imbricadas.

A partir deste contexto é pertinente observar o comportamento de diferentes sujeitos e seus desdobramentos dos diferentes tempos e espaços que ocupa. A psicanálise e a educação apresentam uma possibilidade de leitura do cotidiano escolar que não se distancia da esfera cosmológica do sujeito que interage com diferentes lugares do aprender. Desse modo, é possível significar a subjetivação dos sujeitos aproximando o conceito de imaginário, inconsciente apresentado por Freud no início do século XX.

 

Em busca dos fantasmas

As situações cotidianas são o principal instrumento para elaboração de um diagnostico e espaço privilegiado para os sintomas do inconsciente se revelarem. A tensão entre ensinante e aprendente, a difícil aceitação da ordem e da Lei, os fantasmas manifestados através das brincadeiras infantis e mesmo das neuroses que habitam o limite entre a consciência e o inconsciente dos sujeitos são exemplos que permitem além de uma leitura Psicanalítica um percurso para o recalque, ou melhor, o reenquadramento.

O sujeito neste artigo refere ao Ser Humano, submetido às leis da linguagem que o constituem, e que se manifesta de forma privilegiada nas formações do inconsciente. Este sujeito é também um sujeito desejante que Freud descobriu no inconsciente. O sujeito do desejo é uma imersão do filho do homem na linguagem.

Freud desejava criar sua própria independência, mas percebeu que algo lhe impedia, algo de natureza inconsciente; para remover esse impedimento era preciso uma análise. Uma figura de autoridade ausente, mas investida de autoridade e confiança estava aí instituído o inconsciente; que quando encontra o conflito interno consegue ser solucionado produz a capacidade de autoria, ou permite a manifestação dos recalques através do próprio inconsciente com o sintoma do ato falho.

Freud acreditava numa divisão da consciência, dizia que a idéia traumática é expulsa da consciência, mas se mantém registrada de algum modo no psiquismo, no espaço do não consciente e por isso pode ser resgatado através de tratamento. E assegurava que em todos nós deveria acontecer o recalque e que este garantiria uma construção sadia que equilibraria as tensões e pulsões entre Ego e Superego.

O inconsciente é como um instrumento composto de sistemas, ou instâncias interdependentes. O sistema encarregado da crítica, tela entre a instância criticada e a consciência, está situada na extremidade motora e se chama pré-consciente, seguido do inconsciente e que para acender a consciência, necessariamente precisaria passar pela clivagem do pré-consciente, podendo ficar no inconsciente, caso seja censurada.

A pulsão apresenta-se ao indivíduo através de uma representação de múltiplas pulsões que são imagens que chegam até o sujeito para informá-lo de que se passa em seu corpo. Portanto, o educador deve promover a sublimação, mas sublimação não se promove por ser inconsciente. Deve-se ilustrar, esclarecer as crianças a respeito dos seus fantasmas, aproveitando-se da manifestação do inconsciente. Assim, só podem ser chamadas de inconsciente as representações.

Uma pulsão, que nunca é objeto de consciência, só poderá ser representada, nos sistema inconsciente e pré-consciente, por uma representação. O núcleo do inconsciente é constituído por representantes da pulsão que querem descarregar seu investimento, por moções de desejo; desejos inconscientes.

As idéias de que existem idéias inconscientes não é uma invenção freudiana. Mas a formulação de um sistema chamado inconsciente é freudiana. Para ele a divisão da consciência era fruto do conflito de forças psíquicas encontradas no interior do psiquismo. O resultado de uma luta entre o eu e impulsos de natureza inconsciente. O modo como se resolvia o conflito, uma espécie de assinatura de um tratado de paz, era entre outras manifestações, o sintoma neurótico. Aceito que você se manifeste poderia o eu dizer a alguma pulsão, contanto que você se disfarce.

Logo, quando um aluno manifesta o medo de brincar durante o recreio, porque um colega (Outro) manifestou que lhe machucaria, pode ser um disfarce para algo mais complexo, como o medo que o mesmo possuí da vida, do lugar em que vive, da família...

Para Freud os fantasmas representam um argumento para o imaginário, ou melhor, o inconsciente, implicado de vários personagens, que a partir de um desejo, de forma disfarçada se manifestem. O fantasma é o efeito do desejo arcaico inconsciente e também matriz dos desejos atuais, conscientes ou não.

Foi através do estudo dos sintomas que Freud pode entender melhor o que era esse inconsciente, manifestado através de sintomas. Os sintomas, por serem uma formação do inconsciente utilizam os atos falhos e os sonhos. Os atos falhos são pequenas manifestações que emergem em nossa fala, as quais não se costumam dar muita importância. Através deles um homem pode revelar seus mais íntimos segredos. Se eles aparecem com facilidade e freqüência é porque os indivíduos conseguiram realizar com êxito a repressão de suas tendências inconsciente com que surgem. O eu os deixa passar, pois sabe que a essa ocorrência não é dada muita importância.

Os lapsos, os sonhos e os sintomas são momentos privilegiados de emergência do inconsciente e através deles que Freud deduziu sua existência. A exemplo interpretar, um lapso, é perceber que o inconsciente está não apenas no lapso, mas também entremeando nossa linguagem. “Todo indivíduo que abre a boca está, por assim dizer, comprometido com o que diz, num limite que ultrapassa a sua consciência” (KUPFER,2001: 52) dessa forma, a consciência não é o primordial do psiquismo, não reina unicamente sobre nossa vontade.

A Psicanálise não trata das emoções isoladamente, ela analisa o quanto este emocional e afetivo estão interferindo no cognitivo, portanto como afirma Freud as emoções não sofrem ação do recalque e não se tornam inconscientes. Os registros do inconsciente são experiências, imagens, representações, que uma vez tornadas inconscientes, podem insistir em retornar, e o fazem sob a forma de sonhos, de atos falhos ou de outras formações inconscientes.

A realidade do inconsciente ensina, que a palavra escapa ao falante, ao falar um educador estará também fadado a se perder, a revelar-se a ir à direção contrária aquela que seu eu havia determinado. A palavra com a qual esperava submeter acaba, na verdade por submetê-lo a realidade de seu próprio desejo inconsciente. A palavra é ao mesmo tempo lugar de poder e submissão para a psicanálise, força e fraqueza, paradoxal.

A criança freudiana é um sujeito que está sujeito a um inconsciente, não pode ser pensada como alguém cuja construção se inicia com o nascimento, sua história começa com seus avós e na subjetivação que estes darão no processo de sujeição de sua constituição. Como sua família vai criando e constituindo seus hábitos é como vai estruturando sua relação com o corpo e desejo. O que ocorre com um sujeito tomado por fantasmas, ele é significado pelo corpo em vários níveis, mostrando que o inconsciente não apenas fala ao corpo, paralisa-o, anestesia-o, joga com as representações mediante as quais o corpo pode inscrever-se e deixar se sugestionar por ele.

Melanie Klein dedicou-se ao estudo das fantasias infantis e descobriu a importância de dar tempo para que as elaborações necessárias a um enquadramento resultariam na constituição de crianças mais felizes. Além disso, ela apontou a necessidade de se encarar as manifestações de fantasia como algo inerente à constituição dessas crianças, e até mesmo indispensável a elas.

“Conhecer a impossibilidade de controlar o inconsciente pode levar a uma posição ética de grande valor, pois nos coloca diante de nossos verdadeiros limites, e nos reduz à nossa impotência. Por outro lado, também pode ser um saber paralisante”. (KUPFER,2001: 75).

Freud percebeu que poderia através do inconsciente de seus pacientes remodelar experiências e lembranças e amenizar o sofrimento que comprometia o paciente. Através das relações que unem fantasma e desejo, existe fantasia consciente, pré-consciente e inconsciente. Mas, alguns fantasmas preferem habitar o inconsciente e apenas se tornam acessíveis aos sujeitos com tratamento. Outros permanecem para sempre sob o domínio do recalcamento original e não podem ser reconstruídos. Reconhecer o inconsciente é afirmar o poder da consciência e da razão. Freud afirma que se o fantasma representa o desejo inconsciente do sujeito, o próprio sujeito pode ser representado no fantasma.



 

O inconsciente e a psicopedagogia

Na realização do diagnóstico “(...) relações que se estabelecem entre uma estrutura de caráter claramente genético que vai se autoconstruindo, e uma arquitetura desejante, que ainda que não seja genética, vai entrelaçando um ser humano que tem uma história” (FERNANDEZ, 1991:67) .

A psicopedagogia utiliza a psicanálise como uma área de conhecimento transdisciplinar, concorda que a primeira pessoa que exerce a ensinagem, que transmite um conhecimento para alguém, é aquela que cuida do bebê e que com ele primeiro se relaciona. Esta pessoa pode ser a própria mãe ou alguém que exerça a função materna. Este primeiro vínculo responsável pela construção do espaço transicional possibilitará a ação de aprender, esta relação é intersubjetiva e quando bem elaborada possibilita o sujeito ingressar o contato com a cultura de maneira prazerosa.

Tanto o consciente como o insciente tem lugar na linguagem e essa por sua vez determina as operações cognitivas. Ambos influenciam a construção que o sujeito vai conseguir fazer, os limites e obstáculos que vai criar e conseguir ultrapassar. Desenvolvendo igualmente um comportamento autônomo e responsável frente sua aprendizagem.

Para Cornelius Castoriadis apud FERNANDEZ (2001) a autonomia no plano individual consiste no estabelecimento de uma nova relação entre si mesmo e o próprio inconsciente, estabelecendo com este uma relação harmoniosa e transparente. “(...) fenômenos tais como (...) neurose de angústia (...), entendemos como (...): formas de não pensamento que emergem em um sujeito que não tem ainda os elementos necessários para realizá-lo...” (FERNANDEZ , 2001: 118).

O corpo biológico, herdeiro da herança genética, não é puro real. É da mediação com o Outro que esse corpo vai sendo libidinizado, deixando de ser um corpo da necessidade para ser um corpo pulsional. A criança, então, vai constituindo seu corpo numa rede tramada com o imaginário e o simbólico, principalmente a partir do olhar materno. Dessa forma o organismo influi na construção do aparelho psíquico e na constituição do sujeito.

Para Freud a pulsão é um dos conceitos mais importantes da psicanálise e que se caracteriza como representante psíquico dos estímulos que se originam dentro do organismo e alcançam a mente, estando situado numa fronteira entre o mental e o somático. Funcionam como uma medida de exigência feita à mente no sentido de trabalhar em conseqüência de sua ligação com o corpo, agindo como uma força constante.

O pré-consciente tem uma função construtiva e é um tipo de processamento requerido para que um conceito adquirido recentemente possa continuar trabalhando. Freud considera que entre a exigência instintiva e o ato destinado a satisfazê-lo interpõe-se uma atividade intelectiva baseada no presente e utilizando vivencias anteriores, busca prever as conseqüências dos atos. O pré-consciente tem a chave o que poderá se transformar ou não em pensamento.

FERNANDEZ (2001), apresenta o sintoma da inibição cognitiva que se manifesta a partir do mecanismo de evitação, quando o sujeito evita contato com o conhecimento. Neste sentido, a repressão é exitosa.

A psicopedagogia acredita que para aprender a pensar necessita-se de um outro que é, ao mesmo tempo, semelhante e diferente, e que irá dar a possibilidade ao indivíduo de tornar-se sujeito, é indispensável a presença do outro, mesmo que de forma inconsciente para que alcance tal condição. Da mesma forma, é preciso que o outro reconheça o processo de pensar desse sujeito, que lhe autorize a pensar diferente dos outros. Quando houve equilíbrio entre a sua posição frente o Outro e o Outro poderá constituir uma modalidade sadia de aprendizagem. Como a aprendizagem passe pelo corpo seu comportamento social frente à agressividade, violência, fantasmas e de todas as outras vivências de sua vida, estará sendo reordenado e possibilitará construir uma forma particular de aprender. 

A presença do Outro é indispensável na constituição do sujeito e também porque se vincula com o desejo. A dimensão do desejo contribuirá para que a criança, cativa de um organismo, submetido à ordem da necessidade, do desejo consiga construir a inscrição de uma relação com o Outro através do simbolismo.

A criança vai inscrevendo seu saber até a adolescência, mas é como se certas inscrições estivessem escritas em um tipo de escritura que ela ainda não conhece, o inconsciente. Por isso que a percepção do adulto que é responsável pelas inscrições que serão construídas precisa ter sensibilidade para interpretar os sintomas que se manifestam e não comprometer essa construção. Se por exemplo, o adulto manifestar apavoramento, ou insegurança frente a um questionamento, este pode acabar alimentando os fantasmas que poderão ou não vir a manifestar-se noutra oportunidade, causando uma inibição, e principalmente comprometendo sua curiosidade futura!

Acredito que é o momento de descobrirmos o encantamento da Escola. Será que paramos para pensar a nossa Escola? E que Escola queremos para nossos alunos? Questiono-me se ainda não estamos presos no passado, utilizando altas tecnologias que o futuro criou adaptadas em espaços tradicionais de aprendizagem. Que escola imagina nosso aluno? Será que estamos projetando nossos imaginários nesta escola?



 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BLEICHMAR, Hugo. Angústia e fantasma: matrizes inconsciente no além do princípio do prazer. Porto Alegre: Artes Médicas, 1988;

CHEMAMA, Roland. Dicionário de psicanálise. Porto Alegre: Artes médicas Sul, 1995;

FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996;

FERNANDEZ, ALÍCIA. A Inteligência Aprisionada: abordagem psicopedagógica clínica da criança e sua família. Porto Alegre, RS: Arte média, 1991;

____________________. Os idiomas do Aprendente: análise de modalidades ensinantes em famílias, escolas e meios de comunicação. Porto Alegre, RS: Arte média, 2001;

GURGEL, Cláudio. A Gerência do Pensamento: Gestão Contemporânea e Consciência Neoliberal. São Paulo: Cortez, 2003;

KUPFER, Maria Cristina Machado. Freud e a educação: o mestre do impossível. São Paulo: Scipione, 2001;

_________________________. Educação para o futuro: psicanálise e educação.São Paulo: Escuta, 2007, 3ª ed.

WOLFFENBÜTTEL , Patrícia Pinto (org.). Psicopedagogia teoria e prática em discussão. Novo Hamburgo: Feevale, 2005.

________________

  * Professor da Rede Municipal de Novo Hamburgo – EMEF Francisco X. Kunst. Graduado em História, Especialista em Gestão da Educação, Pós-Graduado em Psicopedagogia: Clínica e Institucional, acadêmico de Geografia REGESD/UCS. (e-mail: profedimar@gmail.com). Autor do livro: “O Pastor Klingelhoeffer e a Revolução Farroupilha”. Editora Oikos, São Leopoldo-RS, 2009.


 

Como citar este artigo:

SOUZA, José Edimar de. A função inconsciente nas relações sociais da escola P@rtes (São Paulo). V.00 p.eletrônica. Maio de 2010. Disponível em <www.partes.com.br/educacao/funcaoinconsciente.asp>. Acesso em _/_/_.

 

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