Introdução
A discussão sobre a metodologia de ensino, hoje, assume novas formas
em vista da compreensão que se tem da relação conteúdo-forma no
cotidiano da sala de aula e do entendimento do que instrumentaliza o
professor.
Nesse sentido é preciso advertir que as metodologias não são meras
formas neutras nas quais se depositam conteúdos. Os conteúdos em
suas especificidades pedem coerência nas suas formas de
produção/transmissão/produção. As metodologias são evidentemente
formuladas mediante concepção de homem, de mundo e de educação e,
portanto, veiculam teoria.
É, então, que podemos afirmar que a metodologia não deve ser vista
como mero instrumento que leva ao conhecimento, mas sim, como
conhecimento que é instrumento do professor no seu cotidiano.
Instrumento de quê?
No caso da Geografia é um instrumento na construção da compreensão
da produção/organização do espaço geográfico, junto aos alunos, com
vistas, a partir do entendimento das mediações espaciais, estudar a
sociedade. Para fazê-los se entenderem como determinados e
determinantes do/no espaço, os professores precisam também se
comprometer como determinados/determinantes no espaço social e,
particularmente, no espaço da escola.
O método é algo ligado, de modo inextricável, à epistemologia, sendo
impossível separar metodologia da teoria do conhecimento. Portanto
quando nos referimos à metodologia do ensino de geografia precisamos
posicionar de que Geografia estamos falando. Se estamos falando de
uma Geografia que têm seus estatutos epistemológicos ainda fundados
na concepção denominada hoje de tradicional nos círculos
geográficos, que ainda vemos ensinada em muitos lugares, por muitos
professores e presente num grande número de livros didáticos, não
causa nenhum espanto se a metodologia desenvolvida por estes
professores estiver calcada na pura e simples descrição dos
fenômenos físicos e humanos. Neste sentido, é fundamental para a
compreensão da questão do método/metodologia de Geografia o
entendimento/leitura/relação com a epistemologia da Geografia.
Os (des)caminhos da geografia : ensino e metodologia
A produção acadêmica em torno da concepção da Geografia é fruto de
todo o saber gerado nesta ciência/disciplina no decorrer do tempo,
recebendo contribuições e testemunhando mudanças de paradigmas e de
novos valores na história da sociedade humana. Para Ruy Moreira
(2002) “a história da geografia, como a história de pensamento em
geral, está contida na história de como os homens fazem sua história”.
Ao longo do tempo, houve diversos conceitos para a
Geografia, epistemologicamente sua denominação procede dos vocábulos
gregos: geo “Terra” e graphos “escrever” (MORAES,
1998). Assim, a geografia em seu conceito mais usual seria “o
estudo da superfície da Terra”. Outros autores irão definir a
Geografia como o estudo da paisagem; da individualidade dos lugares;
do estudo do espaço e, finalmente, alguns autores definem a
Geografia como o estudo das relações entre o homem a natureza
(CAVALCANTE, 2008, p. 12).
Mas se a Geografia Tradicional, saber fragmentado e de discurso
pedagógico enciclopédico (Lacoste, 1989), no rigor de sua
epistemologia e no desenvolvimento de suas metodologias tem se
mantido acrítica e a histórica, ainda é muito recorrente nas escolas
de ensino fundamental e médio, não se diferencia em quase nada de
sua origem no século XIX. Rocha (1996, p.178), afirma ser mais do
que urgente a compreensão e crítica desse processo a fim de
superá-lo.
É importante também pautar nessa discussão a Geografia que se ensina
e que, pelo menos em tese, rompeu com a Geografia Tradicional. A
Geografia gestada a partir do movimento epistemológico,
teórico-metodológico e político de ruptura realizado na Geografia
brasileira nos anos 70 e 80. O movimento de Renovação e que teve
como principais atores/interlocutores professores de 1º e 2º graus,
estudantes e professores universitários, e que teve na Associação
dos Geógrafos Brasileiros (AGB) um dos mais importantes veículos de
difusão potencializou a chamada Geografia Crítica. Será que o
rompimento que se deu com a Geografia Tradicional chegou de fato às
escolas de ensino fundamental e médio? Será que a Geografia Crítica
consolidou possibilidades metodológicas de ensino capazes de propor
a construção coletiva do conhecimento? Essas são perguntas de
respostas difíceis. Mas a constatação dos problemas já é um bom
começo.
“A Geografia é uma dessas coisas chatas que inventaram para ser a
palmatória intelectual das crianças”.
Este fragmento do texto “Das coisas sem serventia uma delas é a
geografia” de Sousa Neto (1996, p.5), talvez indique o caminho da
primeira constatação a ser efetuada. Que Geografia está sendo
ensinada? E de que forma está se dando? A primeira pergunta
remete-se à epistemologia da Geografia e a segunda à metodologia,
par inseparável.
A Geografia era uma espécie de remédio ruim, considerava as crianças
como folhas em branco, recipientes vazios, objetos nos quais se
devia gravar as coisas que eram verdades. Assim as crianças só
podiam memorizar o que viam, mas não aprendiam a pensar o espaço
geográfico imediatamente vivido e relacioná-los à outros espaços
geográficos. Essa prática educativa se apresentava dissociada da
realidade, negando o aluno, fazendo com que ele não se visse, não se
reconhecesse. A escola e a Geografia ensinam, assim, um espaço que
não é o do aluno. Prática essa presente e reforçada pelos livros
didáticos (com suas orientações cosmopolitas) e pelos Parâmetros
Curriculares Nacionais, que prenhes de fragilidades teóricas,
parecem caminhar ao encontro de um velho passado, que nas palavras
de Pereira (1999, p. 46) “objetivam fixar normas sobre o ensino de
Geografia”.
Desse modo os conceitos geográficos já vinham prontos, eram coisas
definidas, acabadas. Logo não havia diálogo porque se pagava um
certo imposto conceitual aos livros didáticos – as crianças não
sabiam, nem eram capazes de criar, nada – o que era certo estava nos
livros para ser memorizado.
Por muito tempo esse tipo de Geografia impediu ou deseducou as
pessoas para a prática da cidadania. O homem era visto/entendido
como mais um elemento da paisagem para ser descrito. A forma ganha
mais importância do que o homem, a forma mais importante que o
processo; a aparência constituída que se descreve sem importar sua
essência. Como afirma Moreira (1987,p.23) “a opacidade sensorial
implica, então, grave consequência gnoseológica: discurso do
imediato, a Geografia é uma ciência sem trânsito entre a paisagem
(aparência) e o seu próprio âmago (essência).
Então, se nossa intenção for, como professores de Geografia, a de
ajudar a formar cidadãos, é preciso que as crianças aprendam a
pensar seus espaços geográficos desde cedo. Para isso é fundamental
entrar em contato com as experiências sociais tecidas no seu fazer
cotidiano. Tentando considerar como é que meninos e meninas vêem as
coisas onde suas vidas são vividas, como se relacionam com os grupos
sociais nos locais por onde circulam, quais são as representações
sociais que tem desses lugares. Enfim, considerar a realidade em que
as crianças estão inseridas, levando em conta as informações que já
possuem e as experiências vivenciadas.
Contextualizar o ensino de Geografia é perceber o mundo, considerar
o saber que retrata a realidade e entender a educação como forma de
intervenção no mundo, comprometida com a condição de educador e com
a realidade social dos alunos.
E assim, muito mais do que respostas que não levam a lugar nenhum, é
aconselhável um diálogo acerca dos conceitos. Esta, nos parece, é a
melhor maneira: partir do universo conceitual das crianças, do senso
comum (que é o nível de compreensão inicial das crianças) para
construir, junto com elas, os conceitos científicos. O conhecimento
disciplinar deve ser dinâmico para poder gerar novos conhecimentos.
Para reforçar a importância da construção conceitual estabelecemos
um diálogo com Callai (1999) que nos ensina que:
“ao construir
conceitos, o aluno realmente aprende, por exemplo, a entender um
mapa, a compreender o relevo, o que é região, nação, município. Ao
conhecer, analisar e buscar explicações para compreender a realidade
que está sendo vivenciada no seu cotidiano, ao extrapolar para
outras informações e ao exercitar a crítica sobre essa realidade,
ele poderá abstrair essa realidade concreta, ir teorizando sobre ela
e ir construindo o seu conhecimento. Ao construir conceitos, o aluno
aprende e não fica apenas na memorização”.
A construção de conceitos é, assim, uma habilidade fundamental para
a vida cotidiana, uma vez que possibilita às pessoas organizar a
realidade, estabelecer classes de objeto, trocar experiências com o
outro, construir conhecimento.
Os instrumentos conceituais são importantes porque ajudam as pessoas
a caracterizar o real, a classificá-lo, a fazer generalizações. “Os
conceitos são importantes mediadores da relação das pessoas com a
realidade; ele nos liberta da escravidão do particular” (Coll, 1997
apud Callai, 1999).
A idéia é partir do concreto, daquilo que está à mão, diante dos
olhos – aquilo que pode ser sentido – para construir então
abstrações que nos façam entender melhor o mundo por nós percebido
na instância do concreto. Dessa forma, aprender a pensar o espaço,
construir e difundir uma outra representação do mundo e perceber e
compreender as estratégias de organização do espaço, estabelecendo
relações existentes entre os alunos, o espaço que ocupam, as
condições de vida, saúde, escolaridade e entendendo o homem como um
ser social que constrói seus conhecimentos através de suas
experiências de vida. No dizer de Cavalcanti (1998, p.88),
“seja como
ciência, seja como matéria de ensino, a Geografia desenvolveu uma
linguagem, um corpo conceitual que acabou por constituir-se numa
linguagem geográfica. Esta linguagem está permeada por conceitos que
são requisitos para a análise dos fenômenos do ponto de vista
geográfico”.
Callai (1999), destaca que as representações sociais dos alunos são
importante recurso na formação dos conceitos, porque expressam o
conhecimento cotidiano do aluno, ou seja, o que ele conhece e que já
é compartilhado socialmente, ajudam na superação do relativismo e do
subjetivismo no ensino.
Essa idéia implica em se preocupar menos com os conteúdos e suas
quantidades e mais com a qualidade da construção do pensamento
geográfico das crianças, imaginando que se as crianças são capazes
de aprender a se situar e se orientar onde quer que estejam, fazem
isso à medida que aprendem a observar, descrever, construir
explicações e relacionar lugares, pessoas e fenômenos.
Conteúdos, conceitos, objetivos remetem inevitavelmente à discussão
acerca do currículo, a construção de um currículo em uma abordagem
democrática onde a produção do conhecimento pode e deve fazer-se
rigorosa, porém solidária e fundamentalmente comprometida com os
valores legítimos da sociedade brasileira. Currículo consiste numa
realidade histórica específica que expressa um modo particular de
relação entre os homens. Currículo, não é, como muitas vezes fomos
levados à pensar, coisa estática e imutável, realizado apenas como
desdobramento de programas e normas pré-estabelecidas. Currículo é
também expressão de movimento, diferença, controvérsia, luta,
história, processo, relação. A construção do currículo deve
pautar-se pelo resgate da cultura de que o aluno é portador. Nesse
sentido, compreender que o saber geográfico da sala de aula é
diferente do saber geográfico científico. Na sala de aula gesta-se
um novo, um outro. Metodologicamente implica em ver os estudantes
como construtores do conhecimento, responsáveis pela elaboração de
um saber novo e, portanto, autores e não somente atores.
Entendemos ser o ponto de partida a prática social de alunos e
professores enquanto indivíduos histórica e socialmente situados,
onde, a partir de atividades desafiadoras de amplo questionamento
sobre o conteúdo em foco para compreensão do fenômeno, podemos
construir o conhecimento numa perspectiva coletiva, crítica e que
tenha incluído os agentes como autores de produção do saber. A
partir daí, obter informações e estabelecer relações necessárias ao
entendimento dessa realidade numa dimensão de totalidade (conceito
fundamental para apreensão do espaço geográfico), e elaboradar uma
nova forma de entendimento das práticas sociais, da reelaboração, da
recontextualização lógica que funda o conhecimento escolar.
Considerações Finais
Retornamos a discussão que inicia este texto, as metodologias não
são formas nas quais se depositam conteúdos, são conhecimentos que
instrumentalizam o professor, e é nesta perspectiva que visualizamos
a proposição.
Concluímos a argumentação acerca da metodologia do ensino de
Geografia afirmando uma das prerrogativas do ensino da ciência
geográfica a partir das palavras de Freire (1998, p.29) “o ato de
estudar implica sempre o de ler, mesmo que neste não se esgote. De
ler o mundo, de ler a palavra e assim ler a leitura do mundo
anteriormente feita”.
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[*]
Geógrafo
- Universidade Estadual da Paraíba - UEPB. Pós-graduado
em
Ciências Ambientais
- FIP/PB. Pesquisador do Terra - Grupo de Pesquisa Urbana,
Rural e Ambiental da UEPB/CNPq. e Coordenador de Projetos
Educacionais da Secretaria Municipal de Educação de Passa e
Fica - RN. E-mail:
cavalcantegeo@bol.com.br